Válvulas – Indústria à plena carga esconde fragilidade

Volume de pedidos e câmbio favorável injetam ânimo novo nos fabricantes, mas encobrem a falta de escala internacional para enfrentar a Alca

Química e Derivados: Válvulas: Borboleta de 72, para termoelétrica mineira.
Borboleta de 72, para termoelétrica mineira.

Os fabricantes nacionais de válvulas para uso industrial começaram o ano recheados de pedidos. Os investimentos pesados da Petrobrás e a forte demanda do setor sucroalcooleiro puxam a fila das encomendas. Até mesmo a pressão exercida pelos fornecedores internacionais arrefeceu por causa da desvalorização do real.

Há alguns anos, os produtores nacionais desses equipamentos se mostram dispostos a manter e ampliar a posição de mercado, tendo, para tanto, investido em centrais de usinagem e métodos de produção mais eficientes. Apesar disso, o perfil econômico dos fabricantes de bens de capital mecânicos elaborado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) para embasar discussões sobre a formação da Alca coloca o segmento entre os passíveis de profunda reestruturação. A fragilidade da produção nacional de válvulas, como o de outras linhas mecânicas, residiria na baixa escala produtiva e no custo da produção, muitas vezes inflado pela incidência de impostos em cascata e dificuldades logísticas típicas do País.

“É verdade, não temos escala de produção de nível internacional, porque exportamos pouco”, concordou o presidente da Câmara Setorial de Válvulas Industriais da Abimaq, Walter Lapietra, também presidente da indústria IVC. “Mas não exportamos porque existem muitos obstáculos colocados por parte dos países importadores, como selos especiais de qualidade e exigência de manter assistência técnica no local”, explicou. “O Brasil deveria adotar as mesmas providências desses países, em vez de importar qualquer coisa de qualquer lugar e, de quebra, aumentar o desemprego.”

Química e Derivados: Válvulas: Lapietra - Finame deu apoio à modernização.
Lapietra – Finame deu apoio à modernização.

A maior fragilidade do setor, segundo Lapietra, é atribuída ao comportamento dos clientes, mais interessados no preço das válvulas do que na sua qualidade. Um dos pontos mais evidentes é a espessura das paredes dos corpos das peças. Para economizar material, alguns fabricantes, geralmente no exterior, trabalham com paredes mais delgadas que o admitido nas normas construtivas. “E quem é que vai mandar um inspetor até a China para ver as peças antes da montagem final e da pintura?”, questiona. No entanto, ele salienta, os fabricantes nacionais estão sempre abertos para essas vistorias.

“Tem gente oferecendo válvulas com espessura de paredes na norma Ansi B-16.34, muito finas e defasadas, como se fossem da API 600, que é exigida pela Petrobrás”, afirmou Newton Silva Araújo, diretor-presidente da Ciwal e vice-presidente da Câmara Setorial. “A vida útil das peças de paredes finas é muito menor, não compensa a diferença de preço de aquisição.” Segundo afirmou, não é difícil perceber a diferença entre elas, bastando comparar os seus pesos.

Araújo também admite o problema da baixa escala produtiva do setor brasileiro de válvulas, embora a Ciwal seja uma das maiores produtoras nacionais. “Temos baixa escala porque ficamos mais de quatro anos sem encomendas significativas por parte da área de infra-estrutura, como petróleo e saneamento básico”, disse. Sem os grandes pedidos, a alternativa das empresas locais foi reduzir a produção e o contigente de pessoal. A retomada dos negócios, sobretudo por conta da Petrobrás, não foi imediata, dada a dificuldade de recontratar pessoal especializado.

Apesar dessa dificuldade, a Ciwal ampliou seu faturamento em 230% nos últimos dois anos. “Voltamos a trabalhar 24 horas por dia, investimos pesado em maquinário moderno, reorganizamos a produção e a administração para alcançar maior eficiência”, explicou. Testemunham a afirmação os sete novos tornos com controle numérico computadorizado (CNC) e três modernas centrais de usinagem.

Investimento na produção tornou-se freqüente no setor. “As condições do Finame estimulam a comprar máquinas mais modernas”, explicou Lapietra. “Mesmo antes de a Petrobrás anunciar o plano de investimentos, as empresas do setor já sabiam da necessidade de modernizar suas fábricas.”

Química e Derivados: Válvulas: Araújo - clusters ajudarão a exportar.
Araújo – clusters ajudarão a exportar.

A própria IVC, uma das mais antigas fabricantes de válvulas do País, também modernizou e ampliou o parque fabril, situação generalizada no setor, segundo o dirigente setorial. Os juros de 6% ao ano, acrescidos da taxa de juros de longo prazo (TJLP), são mais baixos que outras linhas de crédito nacional.

Segundo Lapietra, quando foram comprados os equipamentos para o gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), a taxa do Finame era de 12% ao ano, mais a TJLP. “Os fabricantes italianos captavam dinheiro a menos da metade disso, com vantagem significativa”, disse.

As recentes manifestações do novo presidente da Petrobrás, o ex-senador petista por Sergipe José Eduardo Dutra, no sentido de rever o plano de investimentos da estatal, deixa os empresários de cabelos em pé. “O ritmo de investimentos da Petrobrás, somados aos do setor elétrico, podem sustentar a produção nacional de válvulas por oito anos”, comentou Araújo. “Mexer nisso, agora, depois de todos os esforços do setor, pode ser fatal.”

A própria Ciwal tem a metade de suas encomendas direcionada para a estatal. “Há empresas com 100% da carteira de pedidos voltada para a Petrobrás”, disse Lapietra. O nível de exposição ao risco é elevado, mas inevitável, dado o porte da maior compradora nacional de equipamentos. Um outro grande comprador, o saneamento básico, reduziu muito as compras.

Fundidos preocupam – Como nem só de financiamento vive uma cadeia produtiva, o presidente da Câmara Setorial aponta outra fragilidade do setor: a oferta de fundidos. “Muitas fundições fecharam, e as que ficaram aumentaram seus preços, já inflados pela elevação das cotações do aço”, considerou. A qualidade desse serviço varia muito, mas há fornecedores confiáveis. Essa variabilidade é comum ao redor do mundo, com fundidos bons ou ruins de qualquer procedência. “Americanos e europeus já fundem parte até na China, mas exigem qualidade”, comentou.

Química e Derivados: Válvulas: Hube - meta é tornar-se multinacional.
Hube – meta é tornar-se multinacional.

Com o objetivo de integrar todo o processo produtivo, a Durcon/Vice comprou, no ano passado, a Fundição Eldorado, em Franco da Rocha-SP, produtora de peças de pequenas dimensões, mas que já atende a 30% das necessidades da empresa em fundidos. “A integração é estratégica para o negócio, as companhias internacionais fazem assim”, explicou o presidente da Durcon/Vice, Alejandro Hube.

Como vantagens diretas da aquisição, ele considera a melhor compreensão da atividade de fundição e a busca de melhor qualidade de suprimentos. Hube verificou que a oferta de fundidos sofre com a inconstância da qualidade, exigindo manter caras estruturas de inspeção e análise dos materiais comprados. Apenas os grandes fundidores nacionais conseguem manter constante a qualidade do serviço, mas cobram preços nem sempre compatíveis com o interesse dos compradores de válvulas.

“Agora nós sabemos o quanto custa fundir uma peça, e podemos negociar melhor com os outros fornecedores”, disse. Hube afirmou que a Fundição Eldorado direciona apenas 40% de sua produção para a Durcon/Vice, atendendo também outros clientes nas linhas de aço carbono, inox e ligas especiais. Além disso, as empresas são administradas de forma independente, sem favorecimentos.

Para 2003, a meta da Durcon/Vice é de ampliar seu faturamento em 50%, mesmo com o cenário de guerra no Oriente Médio. “O governo brasileiro já está se antecipando às dificuldades e elevou a taxa de juros que implica retração da economia nacional”, observou Hube. O retrospecto tem sido favorável, com elevação de faturamento de 100% em 2001 (sobre 2000) e de 40%, em 2002, considerando valores em reais.

“Nos próximos dois anos, vamos ampliar as exportações”, afirmou o presidente da Durcon/Vice. Com 70% de suas vendas direcionadas para clientes na área de energia, alavancadas pelas válvulas de recirculação e pela experiência da Vice em linhas de gaveta, globo e retenção pressure seal para altíssimas pressões (até a classe 4.500 libras) e diâmetros até 16 polegadas, a empresa debutará na Power-gen, maior feira mundial de produtos e serviços para energia, em dezembro de 2003, em Las Vegas (EUA), na categoria de fornecedora. Fornecimento recente foi realizado para a termoelétrica Ibiriterm, em Minas Gerais, que encomendou válvulas tipo borboleta de 72 polegadas de bitola para atuar na tubulação de resfriamento de condensadores instalados na saída de gases de turbinas de geração.“Atuar na área de utilidades nos permite trabalhar em mercados diversos como o sucroalcooleiro, siderurgia e outros, ampliando a escala produtiva e aprimorando a tecnologia dos produtos”, disse Hube.

Como cabeça-de-ponte para atuar no exterior, a Durcon firmou acordo comercial e de tecnologia com uma fabricante de válvulas em Three Rivers, Michigan (EUA), dividindo com ela o controle das operações. Citando dados do mais recente congresso mundial do setor (The Valve World), realizado na Europa, o mercado mundial de válvulas industriais representa US$ 40 bilhões por ano, com crescimento anual da ordem de 2%. Desse montante, a metade corresponde a projetos novos e o restante, à reposição de peças.

“A concentração de negócios em âmbito mundial é cada dia maior”, disse Hube. Há 3.800 fabricantes de válvulas em todos os países, mas aproximadamente 11 grandes grupos operam perto de uma centena de fábricas e dominam 30% dos mercados.

No Brasil, o mercado é estimado em US$ 400 milhões ao ano, US$ 150 milhões oriundos de produção local e US$ 250 milhões obtidos a partir de importações. “As exportações brasileiras de válvulas industriais ficam entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões por ano, muito baixas”, comentou. Em comparação, o México produz US$ 800 milhões em válvulas por ano, tendo se beneficiado pela transferências de algumas unidades produtivas dos Estados Unidos, país no qual o setor apresenta produção da ordem de US$ 10 bilhões/ano. “O mercado interno do México também cresceu, o PIB deles já ultrapassou o do Brasil”, explicou. A Durcon/Vice abrirá em março uma unidade comercial no México, a qual poderá tornar-se fabril a partir de meados de 2004.

Com a intenção manifesta de tornar-se multinacional, a empresa lamenta a elevação dos custos ocorrida nos últimos anos. “O aço inox praticamente dobrou de preço desde 2001, enquanto o custo de mão-de-obra subiu 20%, e é cada vez mais difícil repassar esses aumentos para os clientes”, afirmou Hube. A situação não é pior porque a desvalorização do real ofereceu alguma proteção contra importações. Mesmo as encomendas feitas em regime de turn key perderam força, depois do estrago provocado há quatro anos no mercado local de equipamentos industriais.

O presidente da Durcon/Vice recomenda também aprimorar a gestão dos empreendimentos. “Gestão é cultura, não se copia, cada empresa precisa desenvolver a sua”, afirmou. De modo geral, ele considera baixa a produtividade nacional para válvulas seriadas (commodities), estimada em US$ 35 mil por trabalhador/ano, contra US$ 120 mil nos EUA.“Esperamos chegar nesse nível de produtividade no próximo ano, contando com alto grau de automação de processos produtivos e administrativos”, afirmou, embora ressalte trabalhar mais com produtos especiais que seriados. A Durcon adotou um sistema informatizado de gestão integrada fornecido pela brasileira Microsiga, com bons resultados.

Newton Araújo, da Ciwal, acredita na competitividade da fabricação brasileira de válvulas, em especial com o câmbio atual. Aos empresários do setor, ele recomenda evitar o endividamento financeiro, pois o custo do capital é extremamente elevado, e várias empresas do setor sucumbiram a ele. “Felizmente, a fase de quebradeira já passou”, disse. Na sua opinião, o setor de válvulas poderá ganhar mercado no exterior a partir dos planos da Abimaq de montar clusters (aglomerados de empresas) por cadeia produtiva.

Química e Derivados: Válvulas: Machado - fábrica no País alavanca vendas.
Machado – fábrica no País alavanca vendas.

Esferas disputadas – Entre os tipos de válvulas industriais, as de esfera atraem mais as atenções dos fabricantes nacionais. Há quem justifique ingressar nesse mercado pelo fato de se tratar de equipamentos robustos, com abertura e fechamento com giro de 90º, permitindo passagem plena dos fluidos e aceitando com facilidade sistemas de automatização. “O fato é que existem no Brasil 73 fabricantes de válvulas de esfera, com níveis diferentes de qualidade e diâmetros”, comentou Walter Lapietra, da IVC, que produz esferas com vedação metal/metal, totalmente estanques, inclusive modelos de esfera segmentada para aplicações de controle, também efetuado por borboletas. Segundo ele, as válvulas admitem funções de controle, mas também podem ser equipadas com atuador automático para on-off, com custo acessível.

O mercado principal de atuação da IVC é a montagem de estações medidoras de vazão e pressão para gás natural (city gates), prontas para instalação, representando 60% do faturamento anual. Nas vendas de válvulas isoladas, além do setor petroleiro, a empresa identifica boa demanda por parte do setor sucroalcooleiro, principalmente no início deste ano. “Com a possibilidade de faltar álcool no mercado, o governo autorizou a antecipação de safra e fez com que as usinas acelerassem os trabalhos de manutenção feitos na entressafra, provocando uma corrida por equipamentos”, explicou. A empresa atua com produtos de alta qualidade, preferencialmente engenheirados, incluindo borboletas triexcêntricas e linhas fire safe.

“Entramos nas esferas e obtivemos crescimento firme de vendas”, afirmou Newton Silva Araújo, da Ciwal, com produtos fire safe e vedação metal/metal. As vendas incluíram um lote de peças de 26 polegadas, classe 600 lbs., para o gasoduto Nordestão. A encomenda incluiu gavetas e retenções (portinhola) de 12 polegadas, classe 2.500 lbs.

Digna de nota é a atuação da Flowserve, que adquiriu, em âmbito mundial, a divisão de Flow Control da Invensys, recebendo investimentos anteriores desta, entre as quais a Worcester, conhecida fabricante de válvulas de esferas, com fábrica em São Caetano do Sul-SP. A Flowserve tem sede em Dallas, Texas (EUA), e consolida faturamento anual da ordem de US$ 2,5 bilhões, tendo sido formada com a intenção de dominar as linhas de movimentação e controle de fluidos, mantendo agressiva política de compra de empresas nas áreas de bombas, válvulas e vedações (selos mecânicos e gaxetas).

A divisão de bombas apresenta faturamento anual de aproximadamente US$ 1 bilhão, sendo seguido de perto pelos US$ 900 milhões da divisão de válvulas, engordada pelos negócios antes detidos pela Invensys, enquanto a área de selos fica com US$ 600 milhões. “A idéia da companhia é seguir comprando empresas, para chegar ao faturamento de US$ 10 bilhões, até 2010”, explicou Luiz Vieira Machado, gerente de vendas da divisão Flow Control para a América do Sul. Além das aquisições, a Flowserve planeja desenvolver seus negócios próprios na razão de duas vezes o crescimento vegetativo da demanda.

No Brasil, a divisão Flow Control prioriza a atuação nas esferas de um quarto a quatro polegadas, faixa em que se situa o maior volume de vendas a partir da produção sediada em São Caetano do Sul. Essa fábrica está habilitada para elaborar válvulas de esfera até 16 polegadas, diâmetros nos quais possui grande quantidade de material instalado no País. “Diâmetros maiores exigem especialização, e precisariam ser atendidos por importações oriundas de outras unidades fabris do grupo, hoje não muito competitivas, dada a taxa cambial”, comentou Machado.

Ele qualifica a unidade da Worcester como moderna e bem equipada, com boa disponibilidade de espaço físico. Tanto assim que, em fevereiro, a divisão de selos mecânicos (antiga Durametallic) transferiu para São Caetano do Sul a fábrica e o escritório antes localizados em Diadema-SP. “As operações são totalmente independentes, mas dividiremos custos fixos do espaço, a área de recursos humanos, suporte de tecnologia da informação, além das áreas administrativas e financeiras”, comentou. Uma vantagem adicional para as válvulas consiste em aproveitar a experiência anteriormente desenvolvida pela divisão de selos com o programa de gestão da BaaN, que facilitará a adoção do sistema.

Com base na plataforma de produtos da antiga Worcester, o setor de petróleo e gás é o cliente preferencial, com 30% das vendas, percentual igual ao representado pelas indústrias químicas e petroquímicas. As vendas para a indústria alimentícia respondem por 15% do faturamento, seguidas pelas fornecidas ao setor de papel e celulose (10%). “Cerca de 80% do total de vendas se refere aos produtos da Worcester”, disse, atestando a qualidade e o bom preço dessas válvulas. Machado estima deter 15% do mercado nacional de válvulas do tipo esfera e pretende ampliar a posição. “A meta para 2003 é crescer 30% sobre os resultados de 2002”, informou o gerente de vendas.

Química e Derivados: Válvulas: Válvula de controle com setor de esfera.
Válvula de controle com setor de esfera.

Contar com fábrica no Brasil deve impulsionar a venda de outras marcas do amplo portfólio da Flowserve, possivelmente com a nacionalização de peças e partes. É o caso das válvulas de controle Valtek, já conhecidas no mercado brasileiro, mas que devem manter importações de atuadores, itens fabricados em escala mundial, muito além do que suportaria o mercado interno nacional. “É uma peça padronizada, com dois ou três tamanhos dá para atender a 90% das necessidades, reduzindo o custo de inventário”, explicou Machado, para quem mais importante que a nacionalização total é entregar o produto ao cliente no prazo e preço adequados. Com isso, corpo e internos podem ser feitos no Brasil, garantido estoque de peças para assistência técnica.

É preciso mencionar que, da década de 80 até 2001, a marca Valtek foi representada no Brasil pela licenciada Valtek Sulamericana, na qual trabalhou o próprio Luiz Machado. Embora ainda exista uma pendência judicial sobre a propriedade da marca, já é certo, segundo o gerente de vendas da Flowserve, que ambas podem atuar licitamente no mercado. “A Sulamericana detém as licenças para os modelos lançados até o final da década de 90, enquanto a Flowserve tem exclusividade para as atualizações introduzidas desde então”, afirmou.

Estratégia de negócios – Machado considera que a linha de produtos ideal para atuar no mercado brasileiro precisa conjugar itens econômicos e os altamente especializados. Entre estes estão as válvulas de controle da Valtek, com posicionadores que podem receber sinais de qualquer origem, pneumática, elétrica ou digital, em vários protocolos, de modo a se integrar a qualquer sistema de controle. Também é o caso da linha Edward, com especificação para uso em indústrias nucleares. Na outra ponta, há válvulas manuais Durco e até uma válvula de controle simples e robusta, herdada da Invensys, para 1 a 4 polegadas, até 300 lbs de classe de pressão, para uso geral, com preço muito atraente, que admite alto índice de nacionalização. “Temos até borboletas triexcêntricas”, comentou. Só faltariam na linha da Flowserve produtos para segurança/alívio e borboletas de grandes dimensões, com vedação feita de elastômeros.

Especificamente para celulose e papel, a Flowserve possui a tradicional marca NAF, de origem sueca, indicada para controle de fluxo de massa e licores. “Também estudamos a possibilidade de produzir alguns desses itens no Brasil”, disse. O maior entrave não está na área produtiva, mas no mercado. “A indústria brasileira tem boa qualidade, dá para fazer o que se quiser, mas falta escala e os custos nem sempre são razoáveis”, lamentou. Por enquanto, a linha mundial da empresa não está recebendo inovações significativas, pois está em fase de tornar mais racional o portfólio existente, aproveitando as possibilidades já disponíveis.

Controle em sistema – A variação cambial não foi problema para a Emerson Process Management (antiga Fisher Controls). “Houve um impacto, mas as vendas foram mantidas por se tratar de um produto diferenciado”, explicou Darcy Rocha, gerente de aplicação de válvulas. Ela considera que a empresa detenha 15% do mercado nacional de válvulas de controle, sendo mais voltada para situações que requeiram controle fino de variabilidade de processos e alta confiabilidade do equipamento, em especial nas indústrias de petróleo, petroquímicas e químicas de grande porte.

A Emerson tem realizado fornecimentos regulares para a Petrobrás, principalmente pelo interesse da estatal nos posicionadores inteligentes, que permitem diagnóstico on line (sem parada de processo), além de oferecer importantes subsídios para a manutenção preditiva. “Atualmente, as válvulas de controle estão no estado-da-arte mundial, só recebem pequenas modificações”, afirmou Darcy. Exceção é o modelo de controle com esfera em “V”, que depois de vinte anos de mercado, recebeu alterações no design da esfera, de modo a melhorar a capacidade de controle, recebendo também eixo estriado, em acoplamento integrado, mais adequado à função no processo.

Ponto forte na Emerson é a interligação a sistemas de controle, uma especialidade da companhia. No elemento de campo, o ponto nevrálgico é o posicionador, o grande responsável pelo desempenho das válvulas. “Nosso posicionador melhora o desempenho até de válvulas fabricadas por concorrentes”, disse Darcy.

Ao mesmo tempo, a Emerson se desfez da linha de válvulas manuais Xomox, voltadas para ambientes e produtos agressivos, contemplando produtos feitos de materiais sintéticos ou de aço revestido, incluindo uma borboleta revestida com função de controle. “Era um apêndice da linha, que deixou de ser interessante para os negócios do grupo”, explicou. “Nós temos uma globo revestida que atende à maioria das necessidades do mercado.” A Xomox foi comprada pela Crane.

Maior fabricante nacional no segmento de válvulas de controle e líder de mercado, a Hiter confirma a boa fase do setor. “Em 2002, aumentamos nossa capacidade de produção e notamos uma forte expansão de negócios com usinas termoelétricas e indústrias químicas e petroquímicas”, afirmou o gerente de vendas Carlos Eduardo Zago. Mesmo sem apresentar números, ele também informou que as exportações da empresa, sobretudo para a América Latina, foram ampliadas, movimento incentivado pela desvalorização do real frente ao dólar.

Ao mesmo tempo, a Hiter enfrentou a majoração de seus principais componentes de custos. “No ano passado, a mão-de-obra ficou entre 10% e 15% mais cara, e o aço foi valorizado em 20%”, calculou Zago. “E estamos esperando novo aumento do aço para os próximos meses.”

Uma preocupação de Zago é a atuação de fabricantes pouco qualificados que oferecem válvulas para aplicação de controle, representando risco elevado para os usuários. Além disso, ainda persiste um comércio pararelo de peças de reposição para as válvulas Hiter, geralmente oferecidas por empresas de manutenção. “A colocação de uma peça falsificada nos nossos produtos interrompe nossa garantia de segurança e qualidade”, alertou.

A automação influi no controle de processos, mas não diretamente sobre o elemento final, a válvula. “Essa influência é direta nos acessórios, em especial nos posicionadores”, disse Zago. A Hiter não fabrica esses acessórios, mas os adquire de terceiros e os instala conforme os pedidos efetuados pelos compradores.

Incentivo sucroalcooleiro – A demanda da indústria de álcool e açúcar alavancou o crescimento da RTS, de Guarulhos-SP, que prevê ampliar de 20% seu faturamento neste ano. Com linha de produtos se estendendo desde borboletas, nas quais já chegou a 42 polegadas em disco integral, às de retenção, a empresa aposta em dois novos produtos de lançamento recente.

O primeiro é uma válvula borboleta biexcêntrica de alto desempenho (HPW), de 2 a 36 polegadas, com sede em peça única, em teflon ou metal, para a classe 150 a 300 lbs. A linha é robusta, admitindo operação a altas e baixas temperaturas (de -20ºC a 600ºC), sob pressão. A forma de construção proporciona vedação bidirecional com baixo desgaste da sede, além de reduzir o torque requerido para acionamento.

Outra novidade é o atuador pneumático de dupla ou simples ação com retorno por mola, para torque até 12.500 N.m, com corpo e cremalheira em alumínio extrudado e anodizado, para montagem em linha ou perpendicular. Pode acionar borboletas até 48 polegadas e esferas até 24 polegadas. “Todos os mercados, inclusive o sucroalcooleiro, querem produtos automatizados, deixando de lado as linhas manuais”, afirmou Rogério Henrique Rodrigues, analista de marketing da empresa. Produto nacional, o atuador concorre com similares italianos, em relação aos quais oferece garantia de qualidade e assistência técnica no País, contando com certificação ISO 9000.

Como alternativa de baixo custo, a empresa oferece um dosador automatizado, que permite uma única parada no curso de abertura e fechamento, sendo mais usado na indústria de alimentos e alguns segmentos da área química. Em relação aos conjuntos posicionador/atuador, o dosador interligado ao painel de controle central chega a ser quatro vezes mais barato.

A RTS desenvolve negócios também na área de petróleo e gás, mas, nesse caso, atua em parceria com a fabricante fluminense Embraval, responsável pelos contatos com a Petrobrás. “Temos um acordo com a Embraval para não haver sobreposição entre as de linhas de produtos”, comentou. Para melhorar sua cobertura nacional, a empresa nomeou distribuidores nas regiões Nordeste e Sul do País, além de contar com vários representantes. “Distribuição e representação são o nosso segundo ou terceiro mercado”, disse Rodrigues.

Pirataria ativa – Há anos, a Abimaq e a indústria de válvulas se esforçam para combater a falsificação de produtos e a revenda de equipamentos que deveriam ser sucateados. Além de prejudicar as vendas de peças novas, esses equipamentos representam risco elevado aos usuários, ainda mais quando se trata de aplicações críticas, como válvulas de segurança e alívio.

“A pirataria permanece atuando no mercado e exige que acompanhemos de perto os leilões de sucata industrial para tentar impedir abusos”, disse Newton Silva Araújo. Segundo ele, há notícias que usineiros da região Nordeste estariam enfrentando problemas com válvulas “recuperadas”.

Segundo Araújo, a gerência de operações da Bacia de Campos da Petrobrás já se comprometeu publicamente a enviar todas as válvulas sucateadas para a Abimaq, que se encarregará de remetê-las aos fabricantes associados para dar um destino final adequado ao material.

“O serviço de recuperação de válvulas só deve ser feito por empresas capacitadas no ramo”, afirmou Walter Lapietra. A IVC desenvolve trabalhos de recuperação, que representam aproximadamente 10% do seu faturamento atual. Recentemente, recuperou válvulas do oleoduto Guararema-SP a Belo Horizonte-MG, com idades entre 25 e 30 anos. “É preciso considerar que essas válvulas ficam abertas na maior parte do tempo e trabalham com um produto que as lubrifica”, comentou. “Depois de recuperadas, elas devem durar mais 30 anos, sem problemas.”

Uma recomendação do empresário e líder setorial é desconfiar de preços muito baixos para recuperação. As operações exigem pessoal qualificado e equipamentos adequados, não admitindo gambiarras. Uma válvula de esfera, por exemplo, requer troca de anéis de teflon, retificação da esfera e do eixo, pelo menos.

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