Equipamentos e Máquinas Industriais

Válvulas – Indústria nacional procura caminhos para recuperar vendas

Marcelo Fairbanks
11 de junho de 2018
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    Retorno possível – O quadro atual é assustador, mas não deve significar o fim da fabricação nacional de válvulas industriais. “O Brasil é um grande consumidor desses equipamentos e a importação precisa conviver com a instabilidade cambial, que é uma vulnerabilidade importante”, considerou Bruno Pellicani, gerente comercial de válvulas da KSB, sobre a possibilidade de a demanda local ser atendida exclusivamente por produtos importados.

    A empresa de origem alemã reestruturou sua atividade em válvulas para fazer frente ao quadro ruim de mercado. “Éramos um empresa independente, agora somos uma divisão da KSB Bombas, nossa fábrica de Jundiaí-SP passou a abrigar também a linha de produção de bombas seriadas da companhia, até porque estávamos com elevada ociosidade”, explicou. Isso permitiu eliminar departamentos redundantes, especialmente na área administrativa, e reduzir custos.

    A KSB montou há cinco anos a sua fábrica de válvulas, segmento no qual ingressou no país mediante a compra da IVC, com foco na demanda do setor de óleo e gás por produtos engenheirados de alta qualidade e confiabilidade, fabricados sob encomenda. “Temos uma linha extensa de válvulas fabricadas em outras unidades do grupo, até mesmo para a indústria nuclear; as usinas de Angra dos Reis-RJ têm válvulas KSB alemãs, por exemplo”, informou.

    Comparando os dois segmentos de atuação da companhia, Pellicani ressalta as diferenças construtivas entre os equipamentos. “Bombas são mais complexas e mais críticas para os processos, os clientes olham mais para a qualidade do que para o preço”, disse. As válvulas, por sua vez, são vistas com menos cuidado. Os compradores admitem a possibilidade de trocar várias vezes o equipamento em vez de preferir uma peça mais cara e mais durável.

    No setor de óleo e gás, Pellicani comentou que a Petrobras reduziu as compras de equipamentos e passou a investir mais em serviços de manutenção e recuperação de válvulas. “Temos um contrato de manutenção com eles que está para ser relicitado, apenas em Macaé-RJ há um estoque de 8 mil válvulas de vários tipos para recuperação”, disse. “A concorrência será pesada”, prevê.

    Nos equipamentos novos, existe a possibilidade de participar do fornecimento para a unidade de processamento de gás natural (UPGN) do Comperj, talvez o único projeto relevante dessa área neste ano. “Isso se o pedido ficar com empresas nacionais.”

    Na opinião do especialista, com várias décadas de trabalho no setor, a indústria brasileira de válvulas regrediu 10 anos nessa crise. “Sem perspectivas de grandes encomendas, ninguém investe nem no produto, nem no processo de produção, isso é ruim”, lamentou. De 2013 para cá, a área de válvulas da KSB registrou redução de 50% de faturamento.

    Química e Derivados, Hube: foco nos produtos que geram valor para os clientes

    Hube: foco nos produtos que geram valor para os clientes

    Aqui e no exterior – “A crise serviu para evidenciar a falta de competitividade da produção no Brasil, como já se sabia há anos”, afirmou Alejandro Hube, presidente da Durcon, fabricante nacional de válvulas que também opera uma unidade de produção nos Estados Unidos. Atualmente, o faturamento da empresa, contando a subsidiária americana, divide-se em partes iguais entre mercado interno e externo.

    Embora venha há vários anos se concentrando em produtos altamente especializados, a Durcon sofreu com a retração econômica do Brasil. Fechou duas de suas três unidades fabris no país (a fundição e a linha de válvulas seriadas), demitiu vários funcionários, reorganizou a empresa e adequou-se ao novo nível de atividade. “Agora estamos bem, mas foi difícil”, afirmou.

    Hube observa que a economia mundial está crescendo forte, em 3,5% ao ano, enquanto o Brasil derrapa para recuperar sua atividade produtiva. “Os árabes e a Ásia estão tocando projetos gigantescos de saneamento básico, os produtos brasileiros poderiam aproveitar essa oportunidade, mas somos praticamente invisíveis no radar dos compradores”, disse. Ele participa dos encontros mundiais do setor, buscando oportunidades, usando um agente comercial da Suíça para exportações.

    “As compradoras estrangeiras fazem exigências ainda mais duras que as da Petrobras, as petroleiras, como a Shell, e epecistas, como a GE e a Fluor, tem normas próprias, além das usuais, como a API”, ressaltou Hube. Para ele, a Petrobras foi uma grande escola que preparou os fabricantes nacionais.

    A Durcon exporta válvulas para a Europa, Estados Unidos, México, Canadá e Ásia, além de estar abrindo mercados no Oriente Médio. Na América Latina, exporta seus produtos como suprimentos OEM de caldeiras de vapor e peças de reposição para esses produtos. “Atuamos sempre mediante traders e distribuidores internacionais”, explicou.

    Entre as válvulas fabricadas pela empresa, Hube destaca as condicionadoras de vapor, as protetoras de turbinas e as de proteção de bombas centrífugas. “São equipamentos que agregam valor ao cliente, seja pelo aumento da vida útil do equipamento, seja pelo aumento da sua disponibilidade ou redução de custos de manutenção”, disse. Além desses, também são fabricadas há 15 anos as válvulas borboletas triexcêntricas com vedação metal/metal, até 60 polegadas de diâmetro, contando com grande base instalada. “A Petrobras trocou as esferas de grandes dimensões, que eram muito pesadas, pelas triexcêntricas nas suas plataformas”, comentou.

    Hube entende como fundamental que as empresas nacionais adotem os conceitos 4.0. Porém, dada a extensão da crise econômica e seus efeitos sobre o setor, ele não acredita que a indústria local tenha capacidade financeira para promover os investimentos necessários.

    Da mesma forma, o perfil setorial antes de 2013 não mais se justifica, segundo Hube. “O mercado gigante que existia no Brasil até 2013 era irreal e acabou, não há mais a profusão de grandes projetos de investimento, só reposição e recuperação de válvulas”, disse. E a exportação exige escala e preços distantes da realidade local.

    “O Brasil voltará a importar equipamentos industriais diversos que já fabricou aqui, porque a tecnologia de produtos evolui muito depressa e os compradores querem qualidade cada vez maior, tudo isso requer investimentos e, sem eles, não se terá competitividade”, avaliou. “Não adianta brigar com os chineses, eles dominarão os produtos mais commoditizados”, disse. Uma possibilidade para a indústria local desse tipo de válvulas seria importar componentes e montar aqui, muito embora fabricantes globais (chineses também) estejam se instalando no país para fazer isso.

    No caso das válvulas engenheiradas, Hube aponta outra dificuldade. “Os dez maiores players globais desses produtos têm faturamento individual acima de US$ 1 bilhão por ano, é difícil brigar com eles”, disse. Em geral, os grandes clientes preferem negociar com grandes fornecedores, fabricantes ou distribuidores.

    Hube também observa que a elevação dos salários na China está começando a provocar a emigração da produção de válvulas e componentes para países com salários baixos, como a Índia. “O Brasil precisa fazer parte do mercado global, não adianta exigir vantagens protecionistas de financiamento, nem criar normas particulares para impedir a entrada de importados”, criticou. Nesse último caso, a indústria local fica restrita à norma particular e perde oportunidades no exterior.



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