Tubos – Encontro discute saídas para a crise – Tubotech

Química e Derivados, Tubotech: Encontro discute saídas para a crise

Caso prossigam os leilões da Agência Nacional do Petróleo para a venda dos cinco blocos exploratórios restantes no pré-sal da Bacia de Santos, será possível não apenas reativar a economia nacional, como também estabelecer um novo ciclo virtuoso de investimentos no setor de petróleo.

Em 2013, com a venda do primeiro bloco do campo de Libra em regime de partilha, da qual participaram a Petrobras e quatro empresas estrangeiras, foram pagos à União bônus de R$ 15 bilhões, valor importante para o país, carente de recursos para cumprir o ajuste fiscal prometido.

A observação foi feita pelo secretário executivo de Exploração e Produção (E&P) do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Antônio Guimarães, um dos participantes da cerimônia de abertura da 8 ª Tubotech – Feira Internacional de Tubos, Válvulas, Bombas, Conexões e Componentes, realizada de 5 a 8 de outubro no São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, junto com a 2ª edição da Wire South America International Wire and Cable Fair.

Paralelo à feira, foi lançado o I Congresso Brasileiro do Setor de Tubos. O evento reuniu especialistas das áreas do governo e do setor privado que apresentaram um panorama atual da economia brasileira e os desafios para superar. Os temas discutidos levaram em consideração a importância da produção de tubos, válvulas, bombas e conexões, indispensáveis em instalações mecânicas e industriais, tais como na indústria química, naval, petrolífera, automotiva, entre outras. Devido à participação de 13% no PIB nacional, o setor de petróleo e gás foi o principal destaque das palestras apresentadas no congresso. Ainda que a Petrobrás tenha reduzido em 37% seu plano de investimentos em comparação ao anterior – a companhia deverá investir US$ 103,3 bilhões entre 2015 e 2019, menos da metade dos US$ 220 bilhões inicialmente previstos –, a estatal é considerada vital para os negócios de milhares de fabricantes e fornecedores de peças e equipamentos.

Conteúdo local

Substituindo o secretário Marco Antônio Almeida, Lauro Doniseti Bogniotti, gerente de projetos da Secretaria de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis, defendeu a Política de Conteúdo Local vigente no Brasil. Idealizada pelo governo federal a partir do Prominp – Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural, instituído pelo Decreto nº 4.924 de 2003, a medida prevê que em setores considerados estratégicos como o petrolífero e o naval, as encomendas públicas exijam um percentual mínimo de produção local de 20% a 50%, que pode subir, em casos específicos, como a exploração de petróleo, até 37% a 50% e 53% a 65%, caso as operações sejam realizadas em águas profundas.

“A política foi pensada para incentivar a engenharia nacional, a inovação dos produtos e o desenvolvimento de novos fornecedores”, argumenta Doniseti. Desde a implantação da Política de Conteúdo Local, o número de pequenas e microempresas cadastradas como fornecedoras de suprimentos para a Petrobras, segundo dados do Sebrae, passou de 14 mil para 19 mil.

O executivo, entretanto, disse que está sendo criado um grupo de trabalho, em nível ministerial, para apresentar propostas de atualização da lei. Dentre as sugestões, está a criação de um programa para definição de modelos de incentivos e bonificações para os fornecedores. Segundo Doniseti, a ideia é valorizar a livre iniciativa do concessionário em realizar percentuais de conteúdo local, sem restrições.

Edival Dan Junior, gerente de conteúdo local da Petrobrás, por sua vez, garante que a política tem gerado renda e emprego na indústria, aumentado arrecadação e contribuído para o desenvolvimento da capacidade produtiva local. “A maior garantia que as operadoras têm é contar um fornecimento de peças e equipamentos que cumpram seu cronograma, sem riscos ligados a fatores externos”, defende o executivo, acrescentando que uma das vantagens do conteúdo local é a redução de estoques e custos para a Petrobras. Mas ele adverte: “É necessário contar com fornecedores capacitados, que atendam nossas exigências de qualidade, custo e eficiência”.

Investimentos – O executivo da Petrobras ressaltou que a legislação não engessa a concorrência e permite à estatal importar o que não tiver fabricação nacional. Segundo ele, a empresa tem planos de investimentos futuros da ordem de US$ 180 bilhões que correspondem a mil projetos. Dan Junior destacou que os tubos são imprescindíveis às operações da companhia. Ele informou que, em tubos para condução, a demanda atual da Petrobrás exige 930 mil toneladas de aços carbono, inox e ligas. “O segmento de tubulações é estratégico para Petrobrás. Temos poucos fabricantes no Brasil, por isso estamos realizando estudos de competitividade dos fornecedores nacionais para diversificar e aumentar a oferta”.
Revisão de modelo

Antonio Guimaraes, secretário executivo do IBP e diretor de Upstream da Shell Brasil, lembrou que antes de estabelecer regulação para o setor é necessário atentar para as transformações do panorama global do petróleo. A oscilação cíclica dos preços internacionais é um dos fatores que devem ser levados em conta na projeção de investimentos. “Em 2008, por exemplo, o preço do barril de petróleo estava no patamar de US$ 100 dólares. Hoje, está em torno de US$ 40 e não há perspectivas de que seu preço se elevará no curto prazo”, alertou.

Crítico do atual modelo de política para o setor, Guimaraes disse que há outras razões, além da crise econômica, que travam os investimentos em petróleo e gás no Brasil. “Governo e empresas devem investir para atender à demanda de bens e serviços, em bases internacionalmente competitivas. O modelo vigente no País precisa ser aperfeiçoado para acompanhar os desafios globais. Hoje temos um único operador no polígono do pré-sal. A Petrobrás conseguiu descobrir 40 bilhões de barris. É louvável. Mas se tivéssemos mais três ou quarto operadores na mesma área, estudos apontam que o Brasil poderia superar a casa dos 100 bilhões de barris”.

O executivo também defende a estabilidade tributária e regulatória. “É preciso respeito e manutenção às regras e condições econômicas que balizam os investimentos para não prejudicar os negócios”. Disse ainda que o País precisa ter um calendário fixo de rodadas de licitação para estimular os investidores e o planejamento de longo prazo. Antonio Guimarães acrescentou que dos mais de US$ 1 trilhão de investimentos globais em 2013 para exploração e produção de petróleo no mundo, apenas 4% foram destinados ao Brasil. “Pela riqueza de nossas reservas e capacidade dos nossos técnicos, especializados em águas profundas, poderíamos estar, no mínimo, no patamar de US$ 80 bilhões de investimentos”.

Outros setores

Outra palestra relevante do I Congresso Brasileiro do Setor de Tubos foi a do engenheiro Marcelo Mafra Borges de Macedo, que falou sobre a nova regulamentação de dutos submarinos, com enfoque na segurança das instalações. “O Brasil possui uma vasta rede de sistemas submarinos, com várias unidades em operação que datam das décadas de 1970 e 1980, que precisam ser atualizadas”. O novo regulamento para o Sistema de Gerenciamento de Segurança Operacional de Sistemas Submarinos SGSS, será editado até o final de 2015 e terá um período de adequação de dois anos.

No setor naval, o vice-presidente executivo do Sinaval, Franco Papini, demonstrou preocupação com a redução da demanda por tubos, conexões e válvulas em razão da retração de investimentos da Petrobrás em novas plataformas de petróleo, sondas e rebocadores. “Hoje mais de 14 mil empregados estão fora do mercado, isso representa uma redução de 18% do efetivo da indústria naval”, observou, acrescentando que a crise da Petrobrás já resultou na queda de demanda dos estaleiros de 367 para 274 unidades, entre barcaças, navios de apoio marítimo, petroleiros e navios de patrulha. “Estamos com muitas atividades paralisadas, nossa expectativa é que a retomada do crescimento gere condições de demanda para atrair novos investidores que possam dar impulso ao setor naval brasileiro”.

Cesar Prata, presidente do Conselho do Óleo e Gás da Abimaq – Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos, por sua vez, mostrou-se preocupado. Com faturamento da ordem de R$ 80 bilhões/ano o setor de máquinas e equipamentos tem sido um dos mais afetados com a crise econômica. Ele destacou que quando foi anunciada a descoberta do pré-sal, entre 2003 e 2004, o setor de máquinas tinha grandes expectativas em oferecer à Petrobras produtos de valor agregado. O diretor da Abimaq, entretanto, reconhece que o cenário atual é diferente e desafiador.

Texto: Marcia Mariano

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.