Tratamento de Superfície: Apelo ecológico predomina nos novos produtos

Linha “verde” é a principal tendência em mercado com dificuldade para inovar

Química e Derivados: Superfície: . ©QDA principal briga de quem realiza tratamentos de superfície é contra a corrosão. No entanto, para sobreviverem em um mercado com faturamento pequeno e disputado por uma infinidade de concorrentes, as empresas de tratamento de superfícies precisam buscar diferenciais econômicos e tecnológicos que garantam seus lugares ao sol. Essa busca, entretanto esbarra em algumas idiossincrasias do setor. As novidades tecnológicas rareiam e há muito não se noticia grande mudança de paradigma. A descoberta de novas aplicações é árdua, e um gigante – antes fosse de contos de fadas – ameaça abocanhar de vez a galvanoplastia mundial: a China está tomando de assalto mais um quinhão da economia, acontecimento cada vez mais comum desde que os asiáticos aderiram, pero no mucho, às regras do comércio internacional.

A despeito dos percalços, os fabricantes de produtos químicos para banhos eletrolíticos continuam a tocar suas naus. Uma das representantes da indústria nacional é a Tecnorevest, de Barueri-SP. Com capital nacional e 35 anos de atuação, a empresa vende produtos de toda a linha de tratamento de superfícies metálicas, desde desengraxantes até banhos de zinco, níquel, cobre e cromo, incluindo nesse rol também alguns metais preciosos (ouro, prata e paládio).

A luta da Tecnorevest pelos tais diferenciais tecnológicos é bem expressa pelas várias representações comerciais que a empresa conquistou. É por meio delas que oferece ao mercado brasileiro algumas novidades, como banhos de cobre alcalino, desengraxantes e mordentes de alumínio isentos de cianetos.

Também compõem suas linhas os produtos para o segmento de circuitos impressos, os especiais para acabamento (da francesa LC Systeme) e os vernizes eletroforéticos (da inglesa LVH Coatings). Os novos mordentes de alumínio, diz Carlos Alberto Amaral, gerente comercial da empresa, possibilitam a deposição eletrolítica de cromo sem a necessidade usual de uma pré-camada metálica de deposição química.

Embora todo metal seja recobrível por outro, o acabamento esperado é obtido pela deposição de várias camadas metálicas. Em outros casos, como quando se deseja cromar peças confeccionadas no metal denominado zamack, é necessário o depósito de uma primeira camada de cobre alcalino (a bem da verdade, a solução que contém os sais de cobre é alcalina), seguida por outra de cobre ácido e depois por níquel e cromo. Fosse o cobre ácido o primeiro depósito, o zamack seria corroído pela solução ácida.

No caso do latão, ao contrário, pode ser recoberto diretamente com banho de cobre ácido, mas ainda assim, explica Amaral, é desejável uma cobertura com cobre alcalino para refinar a camada que servirá de substrato para os depósitos de níquel e cromo.

Mas nem sempre as camadas são depositadas eletroliticamente. Empresas do ramo de aviação operam com pequenas galvânicas para repor peças de fuselagem, utilizando em geral níquel de deposição química, cuja dureza e resistência à corrosão são bastante elevados por um processo final de têmpera (aquecimento em estufa). Mais comum, entretanto, é a necessidade de uma primeira deposição química em superfícies não condutoras de eletricidade para que sejam convertidas em condutoras e, então, possibilitem a deposição eletrolítica. Em plásticos, é praxe depositar-se paládio, capaz de ativar o níquel químico em solução. Somente após a ativação com paládio e a deposição química do níquel se torna factível a deposição eletrolítica do mesmo metal.

Química e Derivados: Superfície: Amaral aposta no sucesso do que for menos poluente. ©QD Foto - Cuca Jorge
Amaral aposta no sucesso do que for menos poluente.

Meio ambiente – “Os produtos menos danosos ao ambiente irão predominar”, diz Amaral. É comum a vários dos lançamentos da Tecnorevest o apelo ecológico, ao mesmo tempo um dos principais avanços e tendências a marcar o segmento conhecido por sua agressividade ao meio ambiente. A diminuição da quantidade de cianetos, e em muitos casos a sua eliminação nas formulações, é um dos principais feitos dessa indústria rumo a produtos ecologicamente amigáveis.

Cianetos estão entre os principais alvos da Cetesb e causam graves danos à saúde humana. O cromo é outro vilão, motivo pelo qual foram desenvolvidas as formulações à base de cromos trivalentes, menos prejudiciais que os hexavalentes. A empresa também está introduzindo desplacantes – produtos que removem camadas de pintura para reuso da peça – sem cloreto de metileno e sem fenol. “Esses desplacantes não causam queimaduras, câncer ou outros danos a saúde”, afirma o gerente. Não por coincidência, os produtos “verdes” ( banhos de cobre alcalino e zinco sem cianetos) são os de maior demanda, segundo Amaral, ao lado dos vernizes eletroforéticos.

A multinacional Atotech, instalada em Taboão da Serra-SP, também investe alto nos produtos menos poluentes. Um deles, segundo o diretor executivo da unidade brasileira Milton Moraes Silveira, são os desengraxantes biológicos. Tanto as chapas como as peças metálicas a serem tratadas chegam à galvanização impregnadas de óleo, seja ele proveniente das prensas de estampagem ou do embobinamento das chapas, e sua retirada é essencial à garantia de qualidade dos processos de deposição. Para isso são usados os desengraxantes, e a Atotech desenvolveu desengraxantes biológicos, introduzidos no Brasil em 1998. Esses produtos permitem que após o desengraxe, o óleo, acompanhado de uma solução de pH e temperatura controlados, seja consumido por bactérias, gerando água e gás carbônico. Assim, o desengraxante é regenerado, sem a necessidade de descarte de volumes que podem ser de 3 mil a 4 mil litros mensais, e que precisam ser necessariamente tratados em estações de tratamento de efluentes. O produto também prolonga a vida útil dos banhos eletrolíticos.

Química e Derivados: Superfície: Moraes - equipamentos podem ser saída para o marasmo. ©QD Foto - Cuca Jorge
Moraes – equipamentos podem ser saída para o marasmo.

O foco da atuação da Atotech no País são as especialidades em produtos químicos para banhos, embora também forneçam cobre e níquel químicos e produtos para os fabricantes de cartões telefônicos. A fabricação dos cartões tem sua etapa de deposição eletrolítica, e segundo Moraes, é mercado que já impulsionou muito as vendas da empresa no Brasil.

Na atualidade, no entanto, o principal mercado é o de galvanoplastia de acabamento em geral (general metal finishing ou GMF), em que fornecem abrilhantadores, niveladores, umectantes e outros produtos que funcionam como aditivos de processo para refinar os grãos depositados e possibilitar uma cobertura de maior qualidade. Sem o uso dos aditivos, grande parte dos depósitos eletrolíticos teria aspecto rugoso e fosco.

O segmento de motocicletas é um importante cliente nas linhas de níquel e cromo. Já na área de eletrônica, que divide (a grosso modo) com a GMF o faturamento da Atotech, os cartões telefônicos e os circuitos impressos dominam os pedidos. Nos circuitos, é feita inicialmente a deposição de paládio (pois a superfície não é condutora), seguida de uma camada de cobre química e de outra de cobre eletrolítico.

Passivação – As passivações, processos cujo objetivo também é tornar superfícies metálicas mais resistentes à corrosão, também foram influenciadas pelas preocupações com o meio ambiente (ou com as pesadas multas impostas aos infratores das leis ambientais). A Labrits Química, de São Paulo, oferece produtos de passivação isentos de cromo hexa ou trivalente.

Química e Derivados: Superfície: Automação modificou galvânicas , diz Sarabia. ©QD Foto - Cuca Jorge
Automação modificou galvânicas , diz Sarabia.

Conforme disse Jeronimo Carollo Sarabia, diretor industrial da empresa, o produto da Labrits é composto por selantes orgânicos com três camadas: uma de zinco, outra de selante e uma terceira com 22% de alumínio. “Desde 2002, a indústria automobilística deve respeitar o limite de 2 g de cromo por veículo, e a partir de 2007 a isenção de cromo deve ser total”, afirma Sarabia. Também deverão estar banidos, até lá, outros vilões famosos como o asbestos, o amianto, o chumbo e o cádmio.

O carro-chefe da Labrits, entretanto, são as ligas de zinco (zinco-ferro, zinco-níquel e zinco-cobalto) com alta resistência à corrosão e as tintas organometálicas da marca Zyntec (da representada Sidasa Units Coating Group), revestimentos com alto teor de zinco e alumínio (68% de fração de sólidos, pois a quantidade de metal a ser depositada é grande) e resistência muito superior ao zinco eletrolítico. O processo, segundo Sarabia, contorna um grave problema da deposição eletrolítica: a oclusão (fragilização da camada de proteção) por hidrogênio. “Nas grandes montadoras de automóveis, todos os elementos de fixação importantes devem ser revestidos com organometálicos”, diz Sarabia.

A Labrits também está introduzindo revestimentos anticorrosivos de cura por UV. Quem adota o processo se livra dos grandes fornos de cura por calor, que passa a ser feita por lâmpadas. Além disso, a tinta oligomérica, bicomponente, é curada com emissão nula de voláteis, característica que torna a tecnologia mais limpa.

O principal filão da Labrits são as aplicações decorativas, como na caso de deposições de níquel em metais sanitários. A indústria moveleira também responde por importante fatia do faturamento com aplicações decorativas. Na família das aplicações técnicas, têm destaque os depósitos de cromo “duro”, assim chamado por tratar-se de camadas com 80 a 100 mícrons do metal, depositadas em alta velocidades, na presença de catalisadores, e com alta densidade de corrente elétrica. O processo torna a camada bastante dura, com grande resistência à abrasão, característica que interessa particularmente a fabricantes de cilindros hidráulicos e autopeças como pontas de eixo.

Outra multinacional com foco distante das commodities é a alemã Surtec, de São Bernardo do Campo-SP, fabricante de produtos para a decapagem, limpeza e desengraxe, remoção de tintas, proteção à corrosão e produtos de eletrodeposição. A Surtec é a dona da patente mundial dos produtos de passivação à base de cromatos trivalentes, aplicados geralmente em superfícies zincadas, com resultados de resistência à corrosão melhores que os dos produtos à base de cromo hexavalente disponíveis no mercado. A filial brasileira, segundo seu diretor técnico Domingos Spinelli, desenvolveu processo de fabricação do produto, eficiente a ponto de permitir a produção com melhor qualidade e em maior escala, e portanto, com melhor preço. O feito possibilitou a exportação para China e EUA, e, mais recentemente, para a Colômbia. Nesse mercado em que é tão difícil descobrir novas aplicações, a Surtec também está introduzindo cromatos trivalentes para o uso em peças de fuselagem de aeronaves, algo bastante novo no País.

Ao lado dos cromatos trivalentes, a empresa tem mais duas linhas de produtos para atender a requisitos ambientais mais estreitos. Mais que um simples banho de zinco isento de cianetos, a Surtec oferece um processo completo, em que são utilizados eletrodos inertes catalisados dissolvidos em uma câmara (o operador é responsável por alimentar o banho com zincato de sódio), combinados a um gerador automático de zinco no banho e um controle rigoroso das grandezas voltométricas do processo, de modo a manter a operação no ponto ótimo, com as flutuações totalmente atenuadas. Este conceito integrado já foi instalado em duas grandes empresas no Brasil, e pode possibilitar à Surtec tornar-se fornecedora também da matriz de uma dessas empresas.

Completam a linha ecológica os desengraxantes recicláveis com tensoativos biodegradáveis. Esses tensoativos demulsificam o óleo em etapas de processo posteriores ao engraxamento, de modo que, separado o óleo, é possível reciclar-se mais de 90% do desengraxante. “A Surtec tem esse foco de procurar materiais menos agressivos ao meio ambiente”, diz Spinelli.

Química e Derivados: Superfície: Spinelli - Sn e Ni dão provas de estagnação. ©QD Foto - Cuca Jorge
Spinelli – Sn e Ni dão provas de estagnação.

Na linha de processos eletrolíticos, a Surtec oferece banhos de zinco, níquel, cobre (alcalino e ácido), cromo e estanho. Mesmo detendo 60% do mercado de zinco isento de cianeto em São Paulo, a empresa ainda vende pequena quantidade de zinco cianídrico. Embora o uso do cianeto tenha custo ambiental elevado, banhos com cianetos são mais robustos, pois o cianeto é capaz de limpar sujeiras que não saíram na etapa de desengraxamento. Por isso, algumas galvânicas pouco engajadas chegam até a usar excesso do produto nos banhos eletrolíticos.

Mercado parado – Uma das características mais marcantes da atividade de tratamento de superfície é a grande dificuldade para se fazer crescer o mercado, tanto porque é raro o surgimento de grandes novidades, quanto pela dificuldade em descobrir novas aplicações para as tecnologias já existentes.

Alguns mercados em baixa, no entanto, parecem ter recarregado suas baterias. Para Amaral, da Tecnorevest, o mercado de cromação, em baixa durante muito tempo, parece ter se fortalecido nos últimos anos, principalmente se for lido o termômetro das grandes feiras internacionais.

Cromar sempre foi mais caro que zincar, e o processo também é tecnicamente mais desafiador. A pintura também roubou do cromo parte das vendas. Pára-choques de automóveis era cromados, mas hoje são feitos com plásticos pintados. “Mas mesmo em peças de carros nós temos recebido muitas consultas acerca da cromação”, atesta Amaral. O motivo do revival, para ele, é estético: “O acabamento cromado é mais bonito que a pintura”, opina. Moraes, da Atotech, concorda: “O cromado ainda é muito atrativo esteticamente, principalmente ma indústria moveleira, de motocicletas e de automóveis”.

Para driblar o mercado até certo ponto engessado e com um tamanho muito menor que seu faturamento mundial, superior a 500 milhões de euros, a Atotech aposta no package approach, isto é, buscar vender sempre um equipamento associado aos produtos químicos para uniformizar as operações. A presença da empresa no mercado nacional, se justifica mais por razões estratégicas do que pelo volume de compras. Segundo Moraes, as operações de galvanoplastia se caracterizam por oscilações de desempenho (assim como diversos outros processos produtivos): os banhos começam a funcionar com um alto desempenho, que diminui à medida que se reduzem os teores de sais e metais nos banhos e os aditivos se desgastam. O banho também começa a sofrer os efeitos de contaminação e, em certo ponto do baixo desempenho, são feitos reforços que novamente aumentam o desempenho. Esse comportamento é cíclico e, se plotado em um gráfico desempenho x tempo, assume uma forma característica denominado por vezes “dente de serra”, ou “dente de tubarão”.

Com a ajuda dos equipamentos, o objetivo da Atotech é realizar a operação sempre tão próxima quanto possível de seu ponto de desempenho ótimo. Entre esses equipamentos, a empresa disponibiliza sistemas de dosagem; equipamentos para cromo trivalente que retiram as contaminações metálicas sem a adição de purificadores ao banho; equipamentos de troca iônica para banhos de níquel que multiplicam sua vida útil por cem vezes (mantendo as condições de operação uniformes); e equipamentos para a remoção das contaminações orgânicas dos banhos eletrolíticos (resíduos de desengraxante e resíduos dos próprios aditivos, cadeias orgânicas que só têm efeito enquanto longas, mas que tendem a se quebrar. Quebradas, essas cadeias se tornam contaminantes do processo)

Um dos aspectos em que houve maior evolução, de acordo com Sarabia, da Labrits, foi no incremento da resistência à corrosão, principalmente nas aplicações técnicas (as decorativas também representam importante filão para a grande parte das galvânicas). Nos testes de corrosão acelerada, usados para controlar a qualidade dos tratamentos de superfície, a resistência passou de cerca de 144 para mil horas, atualmente. Outro ponto chave foi a influência da indústria de automóveis. Quando se iniciou a utilização de robôs para apertarem elementos de fixação, foi necessário incorporar elementos que garantissem resistência ao torque. “A margem de erro é de apenas trinta parafusos por milhão. A necessidade de adequação a esse padrão tirou muitas galvânicas amadoras do mercado”, afirmou Sarabia.

O diretor também aposta na possibilidade de mudanças nas linhas decorativas, como a substituição de algumas ligas de níquel e cromo por níquel e estanho. Como recebem menos investimentos em pesquisa, no entanto, essas linhas têm ainda menor chance de apresentar novidades que as técnicas.

Nas linhas técnicas, quem concentra as novidades são os banhos de zinco – embora a principal delas, a ausência de cianetos, tenha surgido há vinte anos. “Em estanho e níquel quase não surgem novidades. Em níquel, o máximo que existe é um níquel mais branco”, confirma Spinelli, da Surtec.

Uma das alternativas para a galvanoplastia é a metalização de plásticos, principalmente em automóveis, de acordo com ele. A aplicação, entretanto, pode ser inviabilizada caso não se desenvolvam técnicas mais eficientes que as disponíveis para aderência de ABS em poliamida, base para a metalização.

Química e Derivados: Superfície: Controle em metais nobres é mais rígida, diz Carlos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Controle em metais nobres é mais rígida, diz Carlos

Nobres – Além dos processos eletrolíticos de deposição de metais como o zinco, o cobre, o níquel e o cromo, são comuns também as deposições de metais preciosos, segmento em que atua a belga Umicore. Dentre outras atividades industriais, a empresa é especializada no fornecimento de produtos para banhos de ouro (douração e folheação de relógios, óculos, bijuterias, metais sanitários, fivelas e eletroeletrônicos), prata (baixelas e talheres), ródio (responsável pela tonalidade branca do ouro branco), paládio e platina (principalmente em indústria eletrônica, mas por enquanto com aplicações apenas na Europa).

Os segmentos de jóias e eletroeletrônicos (contatos) são os nichos principais para a empresa, segundo o supervisor de vendas da área galvanotécnica Rubens Carlos Filho. Nas aplicações em eletroeletrônica, além da resistência à corrosão é grande a demanda pela propriedade de condutibilidade elétrica e, como muitos óxidos não são condutivos, há restrições para a utilização de certos materiais em aplicações mais exigentes. Cobre, por exemplo, não é usado por que o óxido de cobre não conduz bem eletricidade, embora a condutibilidade do cobre metálico seja das mais altas. Já o óxido de prata é bom condutor, e pode ser utilizado em aplicações não tão severas.

Segundo informou Carlos Filho, a empresa introduziu há dois anos no Brasil um novo banho constituído por uma liga de estanho, cobre e zinco para substituir o níquel em conectores.

“O níquel utilizado em redes de telecomunicações acaba se imantando e isso interfere no campo magnético das redes, prejudicando a transmissão de informação”. A nova liga contorna o problema, e encontra boa aceitação principalmente entre as empresas americanas. Outra exclusividade da Umicore é a douração direta em aço inoxidável (feita em instrumentos cirúrgicos), sem necessidade de camadas anteriores (cobre alcalino, cobre ácido e níquel) obrigatórias em todas as outras aplicações de metais nobres.

A deposição de metais puros é exceção, na galvanoplastia de metais nobres, e só ocorre quando peças muito pequenas precisam ser recobertas. Eles não se prestam ao processo eletrolítico e são recobertos por processos químicos de imersão que necessitam de uma pré-camada de níquel químico.

Como todas as outras empresas do segmento, a Umicore também tem seus produtos “verdes”. Um dos destaques é o banho isento de níquel para deposição em peças decorativas que possam entrar em contato com a pele humana, já que muitas pessoas são alérgicas ao metal. Em contato com a pele, mesmo peças com camadas adicionais de ouro ou prata acabam se corroendo e expõem o metal danoso. Na Alemanha, já há séria restrição ao metal nas aplicações em que há contato com a pele. “Já é uma preocupação para os exportadores”, afirma Carlos Filho.

A deposição de metais preciosos, no entanto, tem certa vantagem no aspecto ambiental em relação aos outros fornecedores de produtos para tratamentos de superfície. Utilizando produtos muito caros nos processos, a preocupação em recuperar resíduos, evitar contaminações e conseqüentes desperdícios sempre foi central: “O processo é fechado e tudo é recuperado. Não há descarte. Os resíduos são acumulados até que seja possível recuperar os metais preciosos”, explica o supervisor de vendas da Umicore. Mas a peculiaridade também tem desvantagens: por conta do rígido controle da quantidade de metal depositado, a exigência de controle dos processos é maior. Em zincagem, alterações do pH do banho podem tornar o depósito mais ou menos claro, mas, em se tratando de aplicações técnicas de metais preciosos, pequenas alterações podem provocar até a precipitação do metal, inviabilizando a deposição.

Além de reforçar o trabalho nos banhos isentos de níquel (que adorariam um empurrãozinho das leis ambientais brasileiras, frouxas ou até inexistentes), a Umicore aposta em uma das suas últimas novidades: banhos de prata que produzem deposições com resistência térmica superior à tradicional (ao redor de 27ºC os recobrimentos tradicionais começam a manchar pela decomposição de aditivos), importantes para o mercado brasileiro. A novidade permite resistência a temperaturas de até 38ºC e está em fase de tropicalização.

Fosfatos – Embora os processos de tratamento de superfícies sejam galvânicos, um deles foge à regra. A fosfatização, realizada sempre em peças metálicas, e antes da etapa de pintura, destina-se a elevar a resistência à corrosão e também a aderência da camada de tinta à chapa, que praticamente não existiria sem o tratamento.

A alemã Chemetall, de Diadema-SP, é uma das empresas que fornece linha completa para o tratamento. O primeiro passo, assim como em outras técnicas de tratamento de superfícies, é o desengraxamento, em que são retirados todos os tipos de resíduos da chapa, incluindo carbonosos, graxas e lubrificantes. Em seguida, a superfície é ativada para receber o fosfato. Esse acondicionamento, de acordo com o gerente da divisão de tecnologias automotivas Ronald Gama, caracteriza-se pela formação de microcristais de titânio que auxiliam na correta formação da camada de fosfatos, última etapa do processo. Nesta, os fosfatos em solução (inicialmente era utilizado fosfato de zinco), substituem microcristais de ferro das chapas metálicas, em um processo de troca que resulta na deposição de um composto de zinco, como a aloperita ou a fosfofilita. A partir daí, seguem os processos tradicionais de pintura de chapas metálicas.

Conforme Gama, há muitas aplicações para a fosfatização na indústria moveleira, em linha branca e em quase todos os eletrodomésticos com partes metálicas. A mola propulsora do segmento, entretanto, é a indústria automobilística (como para grande parte das empresas de tratamento de superfície). A evolução tecnológica do segmento também está fortemente atrelada às exigências das montadoras. Antes, a pintura era feita exclusivamente sobre aço-carbono, e eram utilizados fosfatos de zinco e níquel no tratamento.

O advento das chapas galvanizadas com zinco obrigou a indústria de fosfatização a desenvolver os fosfatos tricatiônicos (fosfato de zinco, níquel e manganês, o estado da arte nessa indústria), e já são pintadas chapas que, além de galvanizadas, já saem das usinas pré-fosfatizadas. “Isso requer adaptações do fosfato e do desengraxante que, se não for adequado, ataca o fosfato pré-depositado”, explica Gama. Com a multiplicação dos materiais utilizados na construção dos veículos (alumínio, plástico, magnésio), também aumentam as preocupações da indústria de fosfatização, que precisa desenvolver produtos compatíveis com todos eles.

Outro grande desafio, como não poderia deixar de ser, é a questão ambiental. “A grande preocupação é com o consumo de água”, alerta Gama. Os desengraxantes preocupam, e na Europa já são exigidos tensoativos biodegradáveis, e mesmo no Brasil já há movimentos nesse sentido. O óleo retirado durante o desengraxe também é motivo de preocupação. Utilizando-se tensoativos biodegradáveis e retirando-se dos efluentes o óleo, resta apenas neutralizar o pH da solução resultante. A fosfatização também gera resíduo, uma borra com fosfatos, zinco, ferro, níquel e manganês, o que significa dizer que a água de enxágue do fosfato também está contaminada com metais pesados (níquel, zinco e manganês), e precisa ser tratada em estações de tratamento de efluentes.

Galvanoplastia, possessão chinesa?

Uma das opiniões unânimes entre os fornecedores de produtos químicos para a galvanoplastia é o avanço agressivo da China no mercado mundial, cujos reflexos já podem ser sentidos, em maior ou menor escala, no Brasil. Moraes, da Atotech, diz não ter sentido reflexos profundos no mercado brasileiro, mas sob a perspectiva da Atotech como grupo mundial, a migração para a Ásia tem sido “absurda”. Presente no País há cerca de oito anos, a empresa teve quedas nas vendas dos mercados dos EUA e Europa amplamente superadas pelo desempenho na China.

Sarabia, da Labrits, ao contrário, culpa o boom chinês pelo quase banimento da linha decorativa do mundo – “tudo está sendo feito em solo chinês”. Clientes importantes, como fabricantes tradicionais de bicicletas (como Monark e Caloi) sumiram, ao passo que no país asiático, diz o diretor, há cidade com 1.200 produtores de componentes de bicicletas, cada um com sua própria galvânica automatizada. “De 1990 para cá, a redução de vendas em nosso segmento foi gigantesca”.

Carlos Filho, da Umicore, engrossa o coro. “Na área de eletroeletrônicos, as placas de computador, os contatos e outros componentes vêm todos da Ásia já tratados. O mercado técnico perdeu muito para a Ásia, principalmente o de placas de circuitos impressos”, confirma.

O que realmente preocupa os brasileiros, entretanto, é a crescente melhora do nível tecnológico dos produtos chineses, diferentemente de alguns anos atrás quando o Made in China era quase um selo de identificação de trambolhos. Para piorar, os chineses não são conhecidos por pagar royalties ou respeitar patentes e segredos industriais. Some-se a isso a necessidade de importação de boa parte dos insumos e a carga tributária exorbitante, e se torna muito clara a preocupação que insiste em incomodar o mercado brasileiro.

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