Tratamento de Efluentes: Setor privado compensa escassez de obras públicas

Essa dura realidade dificulta a ação de grupos nacionais nos processos de privatização e concessões. Tanto assim que se tornou questão de honra ao Sindesam lutar para seus associados participarem desses negócios. “A in­dústria nacional de equipamentos e sistemas tem condições de fornecer e operar 90% das necessidades do sanea­mento básico”, afirma o vice-presidente da entidade, Gilson Afonso. Segundo ele, ao exigir garantias o BNDES só tem financiado grandes grupos estrangeiros. E estes, ainda por cima, depois não compram equipa­mentos dos brasileiros, pois conseguem outras linhas de finan­ciamento no exterior, que impõem condições de aquisição em seus países de origem. “Os almoxarifados das concessões em mãos de estrangeiros são verdadeiros freeshops”, ironiza Afonso.

Se no aspecto financeiro a situação torna-se desfavorável para os fabri­cantes nacionais, pelo menos a proposta de estruturação do saneamento contida no projeto de lei 4.147 pretende facilitar os investimentos. Em primeiro lugar, não poderá haver venda de concessões. Os recursos financeiros do vencedor de possíveis licitações deverão ser apli­cados diretamente em obras. Também por deixar a titularidade do sistema tanto para o Estado (no caso de regiões metropolitanas e microrregiões) como para municípios, o projeto abre a possibilidade de negócios mais di­versos. Ou seja: ao se privatizar uma companhia estadual, não se corre o risco de todo aquele Estado passar a ser explorado por apenas um grupo pri­vado, caso a titularidade fosse exclu­sividade dessa esfera de governo.

Aliás, segundo o projeto, até mesmo quando uma companhia estadual for vendida, as cidades contempladas por seus serviços poderão definir se conti­nuam ou não “clientes”. O único porém é se for feita uma outra concessão a prefeitura precisa indenizar o novo dono da empresa. Essas definições contidas no projeto, e a disposição da União em tomar partido firme nas questões do saneamento, podem ajudar a minimizar o déficit brasileiro, que negativamente afeta a saúde da população.

Falta de água deve desenvolver reuso

Se não se desenvolve com a velocidade desejada pelos fornecedores, pelo menos o mercado de reuso e reciclo de água começa a ter alguns exemplos isolados interessantes e torna-se cada vez mais tema de estratégias comerciais dos principais competidores. Essas expe­riências são os primeiros reflexos de um mercado bastante promissor, cuja motivação principal deve se fundar mais na escassez de água do que no pro­metido plano de cobrança pela captação de água e emissão de efluentes. Isso porque a tarifação sinalizada pelo governo não chega a comprometer muito as finanças das empresas.

A primeira experiência de adoção da cobrança, baseada na lei federal 9.433/97, será desenvolvida no Rio Paraíba do Sul, que passa pelos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O comitê da bacia hidrográfica formado para gerir os recursos hídricos da região (também seguindo deter­minação da lei) decidiu pela cobrança de R$ 0,02 por metro cúbico de água captada e consu­mida e pelos efluentes lançados no rio. Se a previsão de arrecadação para a bacia poderá ser até vultosa (R$ 14 milhões por ano), para as indústrias não com­prometerá muito os custos produ­tivos, na ava­liação de especialistas do setor.

“Esses valores de centavos não vão obrigar ninguém a adotar programas de reuso, o que pode ajudar mais é a falta de água aliada ao alto custo de abas­tecimento em regiões como São Paulo”, afirma Giangiacomo Gallizioli, diretor da Vivendi Water. A empresa, aliás, pretende operar na área de reuso e reciclo em integração com a BetzDearborn. De acordo com o gerente nacio­nal de marketing da Betz, Ricar­do Fernandes, a idéia é aproveitar o know-how da empresa em tratamento de água de resfria­mento para coor­denar projetos de sistemas para reaproveitamento de efluentes como make-up das torres. “Não se pode esquecer que 70% da água de uma indústria volta-se para resfria­mento e é para essa aplicação que devemos focar esforços de reuso, reciclo e conservação”, completa Fernandes.

Também por conhecer de forma mais íntima a qualidade da água do que os fornecedores de equipamentos, a Ondeo Nalco deve coordenar junto à Ondeo Degrémont o programa de reuso do grupo, denominado ART (Advanced Recycle Technology). Já empregado antes mesmo da aquisição da Nalco pela Suez, de acordo com o gerente de marketing Manoel Velloso, o programa segue uma metodologia que com­preende uma primeira auditoria na planta, seguida pela avaliação técnica-econô­mica, com cálculo de modelo mate­mático, confirmação em escala piloto e, finalmente, implementação.

Química e Derivados: Tratamento: Velloso - reciclar efluentes apenas em último caso.
Velloso – reciclar efluentes apenas em último caso.

“Estudamos todas as correntes do cliente, identificamos perdas, avaliamos as melhores alternativas de reapro­veitamento e, por fim, indicamos a tecnologia mais barata para gerenciar a água”, diz Velloso. Segundo ele, o conceito de toda a metodologia se centra no conceito da pirâmide: a base dela seria a conservação, ou seja, o ajuste deve começar por procedimentos simples, evitando-se desperdícios ou tecnologias atrasadas e menos econô­micas. Nessa fase, Velloso afirma ser possível re­­duzir em média 20% o consumo de água a custos prati­camente nulos.

No meio da pirâmide, estaria o reuso, ou seja, o simples deslo­camento da água antes descartada para um uso específico, como por exemplo o ma­ke-up de torre. Aí não seria necessário nenhum processo físico-químico, no máximo um ajuste de pH. Como última alternativa, no topo da pirâmide, estaria o reciclo, onde depois de muitos estudos seria sugerida a utilização de equipamentos e produtos químicos para recuperar efluente da indústria. “É bom lembrar que os trabalhos de ART, incluindo as au­ditorias, serão realizados utilizando-se recursos humanos e técnicos de nosso centro de pesquisa em Naperville, nos EUA”, diz o gerente.

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