Tratamento de efluentes – Retração nos projetos estimula oferta de terceirização por BOTs, BOOs, AOTs ou AOOs…

Química e Derivados, Tratamento de Efluentes

Momentos de crise podem reservar também boas oportunidades para determinados tipos de ofertas no ramo industrial. É o que ocorre, por exemplo, no mercado de tratamento de efluentes, especificamente entre as empresas que comercializam os chamados BOTs (build, operate and transfer) ou BOOs (build, operate and own), operações de terceirização em que o ofertante investe e se responsabiliza pela construção e operação das unidades por um período acordado.

A lógica da oportunidade nesse ramo é simples e começa, em primeiro lugar, pela necessidade comum atualmente dos clientes de reduzir quadros de funcionários próprios para minimizar os efeitos da crise. Isso promete levar muitas indústrias a terceirizar a gestão das utilidades como forma de diminuir seus custos trabalhistas e, ao mesmo tempo, preservar a mão-de-obra das áreas produtivas da empresa, mais importantes de serem mantidas para garantir a competitividade em épocas difíceis. Isso sem falar que, no caso da gestão da água, a modalidade pode ainda ajudar o cliente a economizar seus gastos com medidas de redução de desperdícios e reúso.
A expectativa torna as ofertas de BOTs ou BOOs um ato longe de parecer tresloucado em uma fase em que a indústria adia projetos e diminui a produção. Pelo contrário, oferecer a custo inicial zero um upgrade ou substituição de uma estação de tratamento de efluentes defasada, com promessas de ganhos na “conta da água”, soa como bom argumento de vendas. Tanto é assim que a esperança com as novas possibilidades é compartilhada entre as principais BOTistas – como são conhecidas no mercado essas empresas de engenharia e prestação de serviços – com maior, menor ou nenhum grau de ceticismo.

Química e Derivados, Alain Arcalji, Diretor-executivo da EcoAqua, Tratamento de Efluentes
Alain Arcalji: prestração de serviço com responsabilidade integral

Escopo ampliado – “É o momento certo para a indústria ver as vantagens do nosso modelo de gestão”, afirmou Alain Arcalji, o diretor-executivo da EcoAqua, empresa sediada no Rio de Janeiro, de propriedade do grupo português SGC e especializada em BOTs e outros pacotes de prestação de serviços similares em tratamento de água e efluentes industriais. E, ainda segundo Arcalji, a busca por redução de custos pós-crise já tem levado clientes a procurar as ofertas de terceirização da EcoAqua, as quais ele considera como de “escopo ampliado“ ou “especiais”.

A definição dos modelos de gestão da EcoAqua, que de certa forma norteia também as ofertas de outras empresas da área, serve como resumo daquilo que essa terceirização especial pode proporcionar aos clientes. Isso porque os BOTs e demais modelos são diferentes da prática comum da indústria de chamar de terceirização apenas a transferência da mão-de-obra, usando-a como ferramenta para diminuir os altos encargos trabalhistas de funcionários contratados. “O nosso modelo envolve responsabilidade integral pela operação. A única preocupação do cliente será fiscalizar o cumprimento do contrato, que estabelece volumes e a qualidade da água tratada ou do efluente descartado ou reusado”, explicou. “Se a empresa não está interessada em terceirizar totalmente a gestão, nós educadamente declinamos da oferta”, disse.

Com a delegação integral, além de ter a garantia do tratamento o cliente pode programar melhor seu fluxo de caixa, segundo completou Arcalji. “Afora não se preocupar mais com a água, ele saberá quanto vai gastar com o seu gerenciamento”, disse. Os contratos da EcoAqua, apesar de serem formulados caso a caso, normalmente envolvem uma parcela fixa mensal para cobrir os custos e os investimentos, mais uma variável, referente aos volumes tratados. Isso tudo em uma planilha de custos calculada para amortizar o valor dos ativos dentro do prazo normal dos BOTs de dez a quinze anos.

Modelos similares a esses são implementados em clientes como a Klabin, de Otacílio Costa-SC, onde a EcoAqua ficará por dez anos como responsável pela captação e tratamento de água, a desmineralização e o tratamento dos efluentes descartados da indústria de papel. A única peculiaridade aí é a Klabin continuar como proprietária dos equipamentos. Somando outros clientes, como Petrobras (Cenpes) e a siderúrgica Thyssen Krupp-CSA (em implantação no Rio e cuja concorrência de terceirização foi vencida em novembro de 2008), a EcoAqua já soma R$ 270 milhões investidos em contratos de terceirização, com recursos próprios e de linhas privadas de financiamento (na Klabin, metade são recursos do fundo Itaú-BBA).

AOT e AOO – Embora haja diversificação nas necessidades contratuais dos clientes, a experiência da EcoAqua na venda dos modelos de prestação de serviços leva a crer que até o momento o mercado ainda prefere a terceirização clássica com a transferência dos ativos no final do contrato, ou seja, os tradicionais BOTs. “O cliente ainda se sente mais seguro ao saber que no fim do contrato ficará com os sistemas, como se fosse leasings”, revelou Alain Arcalji. Mas, para ele, é uma questão de tempo para os clientes amadurecerem para outras modalidades. Aí entrariam nas negociações os BOOs (em português, constrói, opera e permanece proprietário, do inglês own), ou então os modelos pelos quais o prestador de serviço chega até a adquirir ativos do cliente para se tornar responsável pela operação, os chamados AOO (acquire, operate and own) ou AOT (acquire, operate and transfer).

Estes últimos modelos podem até ter um apelo maior na crise, segundo a percepção de algumas empresas. Isso por um motivo óbvio, visto que, além de não demandar aportes dos clientes como nos BOTs, a operação poderá ainda render um recurso “extra” ao caixa das empresas. A esperança no novo modelo de aquisição de ativos é tanta que faz não só grupos como a EcoAqua reforçarem a sua divulgação no mercado como provoca o interesse de outros competidores. É o caso da White Martins Soluções Ambientais, empresa pertencente ao grupo norte-americano produtor de gases industriais que se especializou na prestação de serviços de tratamento de água e efluentes industriais.

Química e Derivados, Paulo Bon, gerente geral da White Martins, Tratamento de Efluentes
Paulo Bon aposta nos AOOs e AOTs para manter crescimento em 2009

Já com carteira de clientes extensa em BOTs de tratamento de efluentes e reúso de água na indústria e no mercado institucional, como shopping centers, hospitais e prédios comerciais, a White Martins aposta nos AOOs e AOTs para manter um ritmo de crescimento que vinha ininterrupto desde quando foi fundada há sete anos. E isso mesmo com as perspectivas não tão animadoras previstas para 2009. “É uma forma criativa de fugir da visível retração nos negócios”, afirmou o gerente geral, Paulo Bon.

A ideia é propor a compra de estações para melhorias imediatas na operação, que se refletem em economias consideráveis no custo da água, ou substituições de equipamentos para aperfeiçoar o tratamento. Para custear essas operações financeiras ousadas, a White Martins Soluções Ambientais pretende continuar a usar a retaguarda de seu grande grupo controlador, empregando recursos próprios para os investimentos. Até o momento essa mesma estratégia proporcionou a geração de dez BOTs em operação por todo o Brasil, dentro de indústrias do setor químico, têxtil, automobilístico e de alimentos e no mercado institucional, em condomínios comerciais, hospitais etc.

Um exemplo possível de AOT em tratamento de efluentes, segundo Bon, pode ser feito na indústria têxtil. Fornecedora de sistemas para tratamento com base em suas tecnologias de geração de gases (foi a partir daí que a White Martins passou a fornecer para o setor ambiental na década de 80), a empresa pode instalar sistemas de remoção de cor de efluentes com ozônio, substituindo os tradicionais tratamentos físico-químicos. “A unidade antiga poderia ser empregada em outro uso, enquanto prestaríamos o serviço com a geração in-situ do ozônio, muito mais eficiente nessa aplicação”, disse. Bom acrescentar que a White Martins já possui um BOT com base na tecnologia de remoção em uma indústria têxtil.

O modelo do AOT é novo apenas na área ambiental, segundo explicou Paulo Bon. Isso porque a própria White Martins, na sua longa experiência de fornecedora de gases industriais, várias vezes comprou unidades geradoras dos clientes para passar a ser a prestadora de serviço, sobretudo no fornecimento de oxigênio na indústria siderúrgica. “O modelo já é conhecido na indústria, basta passar a fazer a oferta que há muita chance de ela ser adotada também em estações de tratamento de água e efluentes”, afirmou Bon.

Química e Derivados, MBR tem sido muito empregado em BOTs, Tratamento de Efluentes
MBR tem sido muito empregado em BOTs

MBR e O2 – A ligação da White Martins com gases não teria como não ser transportada para seus negócios na área ambiental. Aliás, o seu início na área, quando ainda não contava com empresa específica, foi no meio da década de 80 com a venda de oxigênio para melhoria de tratamento biológico, de gás carbônico para neutralização, ozônio (O3) para desinfecção e nitrogênio para flotação. Com a compra da empresa Neotex em 2000, a estratégia passou a ser completa, de projeto, construção e operação de estações, mesmo que ainda agregada muitas vezes à venda de gases.

Esse know-how levou a empresa a conjugar tecnologias para ofertar sistemas de reúso de água. Um exemplo foi iniciar a dosagem de oxigênio em sistemas de biorreatores a membranas (MBR), que empregam membranas de ultrafiltração para remoção de contaminação orgânica (sólidos coloidais e suspensos, bactérias e vírus). Sistema patenteado, o oxigênio empregado no reator melhora o rendimento da biota, permitindo compactar mais a estação.

O MBR, com ou sem oxigênio, é bastante usado nos BOTs da White Martins. Para isso, segundo Paulo Bon, a empresa conta com parcerias com a holandesa Norit e a norte-americana Koch, ambas por meio de seus escritórios no Brasil. A preferência, porém, recai sobre o sistema da Norit, que utiliza membranas em tanque externo ao reator biológico, em detrimento da tecnologia com membranas submersas no biorreator empregada pela Koch. “Pelo menos na nossa experiência percebemos que o fato de as membranas não ficarem dentro do reator biológico facilita a manutenção”, explicou. De acordo com ele, o MBR está em nove clientes de BOT, todos eles reusando efluentes. Aliás, pelas contas de Paulo Bon, a White Martins Soluções Ambientais promove, em seus clientes, o reúso de 10 milhões de litros de efluentes por dia. “Isso equivale ao consumo de uma cidade de 67 mil habitantes”, completou o gerente geral.

BOT verticalizado – Além dos aspectos mais imediatos ligados à crise econômica, a longo prazo a confiança no mercado de BOT também é comprovada pela ação de alguns grupos empresariais, que se estruturam para ofertar o máximo possível de serviços de terceirização, deixando o cliente atendido em todas as suas necessidades ambientais. O melhor caso para ilustrar essa tendência ocorre com a Haztec, empresa sediada no Rio de Janeiro que, a partir de 2007, quando recebeu investimentos dos fundos FIP Multisetorial, do Bradesco BBI, e Infra-Brasil, do Banco Real, adquiriu seis empresas de serviços e produtos ambientais.

Criada há dez anos para atuar em remediação ambiental, com o aporte de capital – que elevou seu faturamento de R$ 40 milhões em 2006 para cerca de R$ 420 milhões previstos para 2009 – a Haztec passou a contar com forte massa crítica e carteira de clientes para atuar na terceirização do tratamento de água e efluentes. E isso com a vantagem competitiva de incluir no escopo áreas complementares importantes para a operação, como a destinação de resíduos (aterros, incineração e coprocessamento) e a fabricação de sistemas e equipamentos.

Química e Derivados, Marcelio Fonseca, superintendente operacional da Haztec-Geoplan, Tratamento de Efluentes
Marcelio Fonseca: Haztec adquiriu empresas para facilitar ofertas

De forma direta, para melhorar sua participação no segmento de BOTs, a Haztec adquiriu no final de 2007 a empresa mais importante da atividade, a Geoplan, com uma carteira de mais de 50 clientes, em contratos de longo prazo que incluem o abastecimento de água industrial e pública, tratamento de efluentes e alguns casos interessantes de reúso de água, como na unidade da Braskem em São Paulo e no complexo industrial da Bayer de Belford Roxo-RJ (ver QD-444, dezembro de 2005). “A entrada da Geoplan já trouxe a Haztec para o coração do mercado de BOT de água”, afirmou Marcelio Fonseca, superintendente operacional da Haztec-Geoplan (em breve o nome Geoplan deve sair).

Mas as outras aquisições da Haztec devem tornar as ofertas de BOTs ainda mais atraentes. Para começar, a Tribel, que opera incinerador de resíduos perigosos e aterro classe 1 em Belford Roxo, no site multipropósito da Bayer, facilitará operacional e financeiramente as destinações de lodos de efluentes e outros resíduos dos clientes. A essa mesma necessidade favorece ainda a aquisição da Nova Gerar, do Rio, proprietária de aterro classe 2 e em fase de licenciamento de outro de classe 1 e também com unidade de blendagem de resíduos para coprocessamento em fornos de cimento.

Uma outra adquirida fortalece bastante a operação em tratamento de água e efluentes. Trata-se da Aquamec, de São Paulo, fornecedora de sistemas e equipamentos com boa participação na área industrial e pública, fábrica própria em Itu-SP e um portfólio diversificado de tecnologias licenciadas. “O fato de contar com uma empresa que pode atender a todas as demandas de ativos para tratar água sem dúvida deixa o BOT muito mais fácil de operacionalizar”, afirmou Fonseca. Isso sem falar que permite à Haztec também vender simplesmente os equipamentos e sistemas em regime de EPC, caso o cliente não queira optar pela prestação de serviços agregada. “Torna a empresa competitiva em qualquer situação”, completou.

E as facilidades para o corpo comercial da Haztec não param por aí. Segundo Fonseca, caso as vazões a ser tratadas não compensem a construção de uma unidade, há a opção de ofertar o tratamento externo dos efluentes na Gaiapan, estação de despejos industriais para terceiros no distrito industrial de Santa Cruz, no Rio, situada no site da produtora de cloro-soda Panamericana. A ETE realiza tratamento convencional para preparar o efluente para descarte e a empresa também faz outros serviços ambientais, como descontaminação de transformadores com ascarel.

Além disso, para Fonseca, o fortalecimento da Haztec permite o planejamento de novos voos para o futuro. Um deles é expandir mais a presença no mercado público de saneamento e de disposição de resíduos urbanos. No primeiro caso, tanto no abastecimento de água, nos moldes de contratos já existentes em Araçatuba-SP e Guarulhos-SP, nos quais opera para as autarquias municipais poços de alta profundidade, como em concessões para tratamento de esgoto. Já no caso de disposição de lixo o propósito inicial é utilizar os aterros da Nova Gerar.

Não é só a Haztec, aliás, que pretende aumentar a participação no mercado público. Uma outra empresa com foco em prestação de serviços para tratamento de água e efluentes, a General Water, de São Paulo, também pensa em fazer o mesmo, aproveitando um novo cenário que se tornou mais animador depois da promulgação do marco regulatório do saneamento.

Química e Derivados, Ricardo Ferraz, Diretor-comercial da General Water, Tratamento de Efluentes
Ricardo Ferraz quer ganhar mais contratos na área pública

De acordo com seu diretor-comercial, Ricardo Ferraz, a decisão estratégica foi tomada ao se perceber que a nova legislação do saneamento trouxe segurança aos investidores, há cerca de dois anos. “Nossa assessoria jurídica avaliou que o momento é propício, pois as regras são claras e há garantias”, explicou. Daí para a empresa passar a participar de pequenas concorrências na área foi um pulo. E isso já computou uma vitória: um BOT para o SAAE da cidade de Porto Feliz, em São Paulo. No projeto, a General Water construirá e operará poços de 500 a 800 metros de profundidade para fornecer 100 mil m3/mês de água potável. Será no modelo de concessão parcial para extração, tratamento e adução até o reservatório da autarquia.

Reator vertical – O plano de operar no mercado público também permite à empresa utilizar tecnologias desenvolvidas nos últimos anos para atender os casos de tratamento de efluentes no mercado privado, sobretudo o institucional (prédios, shopping centers), no qual tem maior participação do que na indústria. No caso, o destaque fica por conta da nacionalização da tecnologia deep-shaft, originariamente criada para despoluir o Rio Tâmisa, na Inglaterra, baseada na perfuração de poços de 80 metros de profundidade que funcionam como reatores verticais biológicos capazes de remover 98% de DBO.

Esses poços com diâmetros mais largos (de até 80 cm) sofrem pressão por ar comprimido para que as partículas do esgoto/efluente diminuam ao máximo e acelerem assim a ação das bactérias. Sobre o reator fica um tanque para manter a cinética da digestão. Aliás, a velocidade da digestão, de 1 a 2 horas, é um de seus principais pontos fortes, muito mais veloz do que as lagoas convencionais, que chegam a levar uma semana para fazer o mesmo. “Isso aliado ao fato de não gerar odor, por ser processo confinado no subterrâneo, e pouco lodo, visto que após uma flotação a sobra do processo retorna ao reator”, disse Ferraz, que também considera o consumo energético do sistema bastante baixo.

Química e Derivados, Unidade instalada em sistema terceirizado de tratamento, Tratamento de Efluentes
Unidade instalada em sistema terceirizado de tratamento

Por enquanto, o deep shaft é usado principalmente no mercado institucional, em shopping centers, que precisam de soluções compactas para tratar esgoto. “A técnica pode ser instalada em um estacionamento”, revelou. Segundo Ferraz, hoje a empresa conta com cerca de 80 contratos, todos de prestação de serviço para cumprimento em períodos de oito a dez anos. Os investimentos são obtidos de recursos próprios da General Water e atendem clientes com necessidades de 2 mil a 25 mil m3/mês. De início, a maior parte dos contratos era de BOT, mas Ferraz acredita que há hoje uma migração para os modelos de BOO. “O cliente não quer o equipamento, quer a água”, resumiu. Está aí um bom slogan para aqueles que acreditam na terceirização como uma maneira de gerar negócios no mercado da água.

Um Comentário

  1. Trabalhei nessa empresa e percebi sua responsabilidade com os outros principalmente, o gestor Alain Arcalji que sempre se dirigiu a mim com muito respeito .

    Hoje professora de uma rede municipal, e vendo o crescimento dessa empresa e esse gestor integro atuando não poderia deixar de enfatizar minha admiração.

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