Tratamento de Efluentes – Desempenho reflete o ânimo do mercado

Fornecedores de equipamentos para tratamento de efluentes esperam sair este ano de uma de suas piores fases, enquanto os formuladores químicos conseguem vender tecnologias para aumentar produtividade das estações

O desempenho do mercado de tratamento de efluentes reflete o atual estado de ânimo da economia brasileira. Preocupante para muitas empresas, principalmente ao se levar em conta a performance pífia de 2003, mas não muito desanimador para outras cujas vendas se mantêm estáveis mesmo em momentos de crise, o sentimento comum a todo o setor é o de cautela com o futuro. E esse cenário tem uma explicação plausível: os esperados investimentos públicos em saneamento ainda estão no campo da promessa e a indústria apenas lentamente dá sinais de sair da letargia.

Química e Derivados: Tratamento de Efluentes - efluentes_abre. ©QD
Tratamento de Efluentes – ETE da Cosipa em Cubatão-SP
Química e Derivados: Efluentes: O governo prometeu R$ 6 bi para obras de saneamento em 2004. ©QD Foto - Cuca Jorge
O governo prometeu R$ 6 bi para obras de saneamento em 2004.

A dicotomia entre os mais e os menos preocupados tem a ver com a própria estrutura do setor de tratamento de efluentes. Dividido entre os fornecedores de sistemas e equipamentos, de um lado, e os vendedores de soluções e insumos químicos, do outro, o impacto da falta de investimentos logicamente recaiu mais sobre os primeiros. Em razão do desaquecimento da economia e da lentidão do governo em definir sua política de saneamento, as cotações e concorrências de novas estações de tratamento caíram drasticamente. Já o impacto sobre os fornecedores químicos não teve o mesmo peso, tanto em virtude do parque atual continuar demandando insumos, como porque muitas vezes a escassez de capital intensivo para as obras de ampliação favorece a adoção de tecnologias químicas para aumentar a produtividade do tratamento.

Mas, independente das diferenças no grau de impacto sobre o setor, o melhor para todos sempre será contar com um ritmo de investimentos no mínimo razoável. “Há muitos entraves que precisam urgentemente ser removidos para o setor deixar de andar de lado ou para trás”, afirmou Gilson Cassini, desde o início de fevereiro de 2004 presidente do Sindicato Nacional de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam), entidade da Abimaq. Seu alerta se baseia no fraco desempenho da maior parte das 75 associadas do Sindesam. “Sei que muitas delas, empresas tradicionais com mais de 30 anos no mercado, consideraram 2003 o pior da história”, lamenta. A própria indústria dirigida por Cassini, a Aquamec, não foge à regra. Segundo ele, o faturamento da empresa caiu pela metade no ano passado.

A causa imediata para a bancarrota foi o freio de mão puxado na indústria e logicamente a paralisia nas obras públicas. E é bom ressaltar que além do cenário macroeconômico outros fatores mais diretos ajudaram a criar esse clima de estagnação.

Para começar, Cassini cita os morosos e muitas vezes insensatos processos de licenciamento ambiental. Segundo diz, várias obras de saneamento público e até da iniciativa privada estão há muito tempo no aguardo de aprovação de estudos de impacto. Isso quando não são objeto de complicados imbróglios, que envolvem Ministério Público, ambientalistas e outros responsáveis.

Química e Derivados: Efluentes: Cassini critica demora das lideranças ambientais. ©QD Foto - Cuca Jorge
Cassini critica demora das lideranças ambientais.

Outro fator complicador foi o BNDES, tradicional braço financeiro dos compradores de máquinas e equipamentos, ter passado 2003 com os fincanciamentos suspensos, em razão da reestruturação empreendida pelo seu novo presidente, o controverso Carlos Lessa. Nem mesmo o recente anúncio de uma política industrial para o setor de máquinas, que incluiu uma linha de financiamento (Modermaq) com dinheiro do banco, animou muito o presidente do Sindesam. “Tínhamos pedido juros de 8% e o governo o definiu como de 14,95%”, diz.

Mas esses dois obstáculos lembrados por Cassini são pontuais entre outros ainda mais importantes de ser eliminados. O tido como fundamental é a definição da política nacional de saneamento, que norteará o ritmo dos investimentos para os próximos anos e que está para ser divulgado.

Muito dependente dessas obras, que em tempos normais correspondem a cerca de 60% das vendas do setor, é no imenso vácuo existente no saneamento básico que boa parte das empresas ainda insistem em fundamentar suas expectativas, apesar dos freqüentes adiamentos. Só para se ter uma idéia, o último número divulgado pelo IBGE dá conta que 102 milhões de pessoas não têm acesso direto ao esgoto canalizado, ou seja, cerca de 60% da população.

Química e Derivados: Efluentes: Azevedo duvida das intenções oficiais. ©QD Foto - Divulgação
Azevedo duvida das intenções oficiais.

Em uma primeira análise, as indicações do governo são positivas, com constantes anúncios de liberação de verbas para saneamento. A última delas afirma que haverá aplicação de R$ 2,9 bilhões, em 2003, resultado do cumprimento dos acordos com o FMI. “Esse montante, segundo a Caixa Econômica Federal, será liberado em razão da entrada de reservas internacionais de US$ 5 bilhões e porque as metas de superávit primário de 2003 foram superadas”, explica o presidente do Sindesam. Além disso, foram prometidos ainda mais R$ 3 bilhões provenientes do descontingenciamento do FGTS, dinheiro a ser liberado pela CEF.

Apesar da dinheirama prometida, o cenário ainda é de desconfiança. Caso esses recursos realmente entrem, a dúvida seguinte dos participantes do setor é saber se os investimentos necessários para alcançar a universalização dos serviços de água e esgoto continuarão. Compartilha desse questionamento o vice-presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib), Newton de Lima Azevedo. Para ele, é óbvio que o governo sozinho não terá como bancar todos esses projetos, cuja demanda foi avaliada pela secretaria nacional de saneamento em um total de R$ 178 bilhões nos próximos 20 anos. Ou seja, para suprir a população com os tratamentos adequados serão necessárias obras de R$ 9 bilhões por ano. Isso fatalmente demandará a ajuda da iniciativa privada.

A dúvida, segundo explica Azevedo, é saber se o governo está disposto a deixar de lado as questões ideológicas e atrair o capital privado. No primeiro ano de mandato, a secretaria nacional de saneamento, anexa ao Ministério das Cidades, passou elaborando dois projetos de lei que serão os pontos de partida para os investimentos: um define o plano nacional e o outro, o marco regulatório. Até aí tudo bem. Ocorre que essa elaboração, teoricamente produzida com participação de todos os integrantes do setor, desde sociedade civil até a iniciativa privada, não tem sido muito bem-vista pela Abdib.

Química e Derivados: Efluentes: Ceccato investiu em caldeiraria a laser. ©QD Foto - Cuca Jorge
Ceccato investiu em caldeiraria a laser.

“Lemos uma minuta dos projetos e sentimos um tom estatizante e municipalizante nos documentos, o que dá a entender que o governo ouviu muito mas escutou pouco os setores privados que querem investir”, lamenta-se Azevedo, também presidente da Degrémont do Brasil. Essas posições, que o dirigente considera ideológicas, podem também ser prejudiciais ao País. Privilegiar a titularidade do município deve dificultar investimentos privados, muitos deles interessados em adquirir companhias estaduais ou pelo menos em responsabilizar-se na gestão de conglomerados urbanos que incluem mais de uma cidade. Já o tom estatizante, para ele, diminuirá o ritmo das obras. “Além de tradicionalmente ter o orçamento comprometido com outros gastos, com a meta de superávit primário o governo jamais conseguirá liberar o montante necessário”, diz.

A necessidade de contar com capital privado para se alcançar a universalização, para o vice da Abdib, fica evidente e, de forma contraditória, também foi confirmada pelo governo. Tanto é assim que o Poder Executivo vem contando como arma principal para os investimentos de infra-estrutura as chamadas PPPs (parcerias público privadas). O problema é que sem um ambiente favorável, o que significa um marco regulatório que proteja os investidores e privilegie o respeito aos contratos, dificilmente sairão essas modalidades de gestão. “O capital privado existe, mas está literalmente parado, esperando para ver o rumo que os planos vão dar ao setor”, diz.

Química e Derivados: Efluentes: Grade do tipo step-screen - produzida em aço inox. ©QD Foto - Sérgio Ceccato
Grade do tipo step-screen – produzida em aço inox.

Até mesmo se o governo, o que não é muito provável, conseguir financiar as obras em saneamento sem a ajuda dos investidores privados, haveria um outro problema na opinião de Azevedo. Caso libere o dinheiro diretamente para as companhias de saneamento, o risco de malversação é muito grande. Isso porque dois terços destas empresas revelam despesas maiores que as receitas. E de acordo com um relatório recente da Controladoria Geral da União, após análise de 260 obras do período de 1999 e 2000, 52% das de abastecimento de água e 60% das de esgotamento sanitário têm irregularidades ou impropriedades. “Isso prova que o dinheiro público foi tratado com descaso”, conclui o vice da Abdib.

Inox – Como 2003 foi um ano atípico negativamente, 2004, pelo pouco de encomenda recebida nos primeiros meses, sinaliza ser um pouco melhor. A própria Aquamec, empresa tradicional na fabricação de equipamentos e sistemas completos para tratamento de efluentes municipais e industriais, já sente uma leve retomada. “O ano começou bem, com projetos na Sanasa, em Campinas, e outros em vista em São Paulo e Minas Gerais”, afirmou o presidente da Aquamec, Sérgio Ceccato.

Grosso modo, e apesar das indefinições, a expectativa maior para o ano continua sendo no setor público, responsável por quase R$ 150 milhões dos R$ 250 milhões do mercado total de equipamentos para efluentes (sem contar as obras da Petrobrás, que representam mais cerca de R$ 100 milhões em média). Além dos anúncios de verba federal, conta a favor desse panorama, segundo Ceccato, os planos eleitorais de alguns governadores de Estado, sobretudo o de São Paulo e Minas Gerais, que almejam a presidência ou, pelo menos, a reeleição.

Química e Derivados: Efluentes: Cuetos - foco da Nalco voltou a ser privado. ©QD Foto - Cuca Jorge
Cuetos – foco da Nalco voltou a ser privado.

Na seara privada, a previsão é ainda contar com os grandes projetos em setores exportadores, como o de papel e celulose, siderurgia e mineração. Um deles programado para este ano é o da fábrica de celulose Veracel, em Eunápolis-BA, uma megaobra de US$ 1 bilhão. Já o mercado industrial de porte um pouco menor, de indústrias mais voltadas para o mercado interno, a expectativa, segundo Gilson Cassini, do Sindesam e também da Aquamec, não é das melhores. “Enquanto o consumo interno não crescer, não há como a indústria investir”, diz.

Apesar desse cenário, as empresas do ramo de água e efluentes não deixam de investir em novas tecnologias, que normalmente são empregadas primeiro pelo setor privado. Para iniciar por um exemplo do segmento mais atingido pela crise, o de equipamentos, a Aquamec está apostando em uma tendência mundial de utilização de aço inox na caldeiraria para tentar modernizar seus fornecimentos. Em breve com um prédio próprio em Itu-SP, onde já possui uma fábrica convencional para preparação de chapas, corte e solda e montagem de seus equipamentos com capacidade de 150 t/mês, a Aquamec fundou em setembro de 2002 a Filaqua Laser, empresa equipada com máquinas de corte a laser específicas para o aço inox.

Química e Derivados: Efluentes: Santiago - mais bactérias no tratamento biológico.
Santiago – mais bactérias no tratamento biológico.

“O aço inox, muito mais resistente e sem necessidade dos revestimentos, que nem sempre funcionam, do aço carbono, precisa ser cortado a laser, muito mais preciso e sem o risco de deformar a peça”, explica Sérgio Ceccato, também professor de máquinas hidráulicas e mecânica dos fluidos na Escola Politécnica da USP. Para montar a nova linha, a Aquamec recorreu a financiamentos externos dos vendedores das máquinas (cada uma chega a 1 milhão de euros), a alemã Trumpf e a suíça Bystronic. Por enquanto, possuem duas máquinas, mas o objetivo é elevar o parque para cinco modelos.

Segundo Ceccato, muitos consumidores de equipamentos para efluentes já sabem das vantagens do aço inox sobre o aço carbono. “O movimento constante das partes submersas desgastam os revestimentos de epóxi do aço carbono a médio prazo”, diz. A migração só não é maior para o inox porque seu preço ainda é alto no Brasil, de três a seis vezes maior por quilo de aço (o teor de cromo que determina sua qualidade e seu valor).

“Apesar de ganhar no custo total da produção, ao se levar em conta os gastos de manutenção menores e as espessuras inferiores das peças, com o tempo seu preço deve cair”, completa Ceccato. A Açominas é a principal fornecedora do aço especial.

A Aquamec já desenvolveu equipamentos em aço inox e fez alguns fornecimentos. São exemplos gradeamentos finos para comportas, aeradores, step-screens, removedores de lodo, prensas desaguadoras, peneiras de rolo, entre vários outros que também poderão ser nacionalizados em breve. Além do seu mercado de água e efluentes, a Filaqua Laser também diversificará os serviços para mercados como montadoras e fabricantes de tratores, podendo suas máquinas cortar chapas de até 22 mm.

Biouamentação – O outro segmento importante do mercado de efluentes, o químico, é o mais repleto de exemplos de resistência à crise e de preocupação em lançar soluções tecnológicas com possibilidades de ganhos no custo total do tratamento. Empresas menos atingidas pela paralisia das obras, por manterem seus fornecimentos de insumos, sobretudo no setor privado, e também por pertencerem a grupos internacionais com condições de salvaguardas emergenciais, elas têm procurado corresponder à curiosidade dos clientes por novas alternativas de produtos e sistemas.

Química e Derivados: Efluentes: Uebel - óleos essenciais anulam mau cheiro. ©QD Foto - Cuca Jorge
Uebel – óleos essenciais anulam mau cheiro.

A americana Nalco reflete bem essa situação, não só por estar lançando um novo programa para tratamento de efluentes, mas também em razão de sua nova constituição acionária, segundo explica o gerente de marketing para América Latina, Luis Cuetos. Para ele, desde que a empresa deixou de pertencer ao grupo francês Suez, em 2003, e passou a ser controlada por um grupo americano de investidores, o foco voltou para a iniciativa privada. E isso, segundo o venezuelano Cuetos, fez também a pesquisa do grupo recuperar sua força. “A indústria consome mais tecnologia do que o setor público, onde a Suez focava mais sua ação”, diz.

O novo programa para efluentes da Nalco, em lançamento no Brasil, é o Biomanagement Program Service, que consiste na chamada “bioaumentação” em estações de tratamento biológico. Trata-se, em suma, da dosagem de cepas de fungos, bactérias e/ou enzimas para melhorar a digestão aeróbica do efluente. “A aplicação controlada das cepas, preferencialmente de forma contínua, ou em situações emergenciais, mantém a estabilidade do tratamento biológico”, explicou o consultor técnico da Nalco, Paulo Santiago.

O programa de bioaumentação da Nalco, já ofertado no Brasil por empresas especializadas (ver QD-389), tem o diferencial de ser comercializado como um serviço, segundo informa Santiago. “Não adianta apenas vender as bactérias, sem um estudo de tratabilidade”, diz. Esse estudo será em breve feito no laboratório da Nalco em Suzano-SP, mediante ampliação e adaptação no núcleo de microbiologia e com a inauguração de unidade piloto de tratamento biológico.

Química e Derivados: Efluentes: Dimas - serviços da Clariant em outros países. ©QD Foto - Cuca Jorge
Dimas – serviços da Clariant em outros países.

Nessa etapa laboratorial, por análise de biomassa do lodo, a empresa define a dosagem, o tipo de cepas, os nutrientes (NPK) e oxigênio necessários para manter as famílias microbiológicas em ação. “O princípio da bioaumentação é aumentar a população desejável e diminuir a indesejável”, complementa Luis Cuetos. A Nalco vai trabalhar com três famílias básicas de cepas: a voltada para indústria de alimentos, outra para papel e celulose e uma terceira para refinaria e petroquímica. Além disso, haverá também uma específica de bactérias nitrificantes, que consomem amônia e liberam nitrito, ideal para a indústria de fertilizantes.

Ainda segundo Paulo Santiago, a biouamentação consegue reduções de DBO, DQO e de sólidos suspensos no efluente final (há casos nos EUA de redução de DBO de 20 mil para 7 mil em papel e celulose). Além disso, há quedas no consumo de energia dos aeradores, que operam menos, e pode-se de quebra acabar com maus odores da estação, visto que as bactérias metabolizam o sulfeto de hidrogênio (H2S), o pior cheiro do efluente. Aliás, na aplicação inicial no Brasil pela Nalco, no mercado institucional, além de usada nas caixas de gordura as bactérias também são empregadas para melhorar o péssimo odor de banheiros coletivos.

Combate ao mau cheiro – Por falar em controle de odor, uma outra empresa importante do ramo, a GE Betz, detaca atualmente nova linha de produtos específicos, a ProSweet. Na verdade, são três tipos de controladores, segundo explica o gerente de marketing para o Brasil, Fernando Uebel, que foram reformulados e cujo catálogo foi ampliado. Segundo ele, há alternativas que inibem o sulfeto de hidrogênio por reação biológica; uma segunda que seqüestra o composto por reação química; e uma terceira, que neutraliza por aspersão vários odores.

Química e Derivados: Efluentes: Meliauskas - melhoras com dióxido de cloro.
Meliauskas – melhoras com dióxido de cloro.

Essa última alternativa, conforme Uebel, é a mais nova e a qual a GE Betz acredita ser mais versátil. A ação neutralizante é por meio meio da aspersão de misturas de 19 tipos de óleos essenciais. Seu controle, em efluentes muncipais e industriais, é eficaz não só contra o sulfeto de hidrogênio, mas também com mercaptanas e outros compostos mais complicados, como as cadaverinas (resultado do apodrecimento de proteínas em frigoríficos).

“Esses óleos não são perfume, eles reagem com as moléculas dos odores”, explica Uebel. Essa reação é conhecida cientificamente como formação de pares de Zwaardemaker. Trata-se da capacidade que os compostos dos óleos possuem em unir determinados pares químicos das substâncias odoríficas, eliminando seu efeito indesejado. “Quando os pares estão separados, a substância provoca o odor, ao uni-los eles somem”, completa. A GE Betz já está vendendo essa linha, em uma primeira fase em fábricas de gelatinas e curtumes, mas a idéia é estender seu uso a toda indústria e até em estações municipais.

A GE Betz também está dando ênfase a sua linha Novus, de polímeros catiônicos para deságüe de lodo, com resistência ao cisalhamento (shear resistant polymer) em centrífugas e filtros-prensa. Característica possível graças a sua estrutura tridimensional, esse polímero evita a quebra dos flocos comum nessas operações de impacto. “Apesar de mais caro, ele proporciona um custo global menor, porque o consumo por quilo é menor do que o polímero convencional e porque gera um lodo mais seco”, diz o gerente.

Química e Derivados: Efluentes: Carvalho - produto flocula e coagula. ©QD Foto - Cuca Jorge
Carvalho – produto flocula e coagula.

Serviço é a solução – Além dos produtos, a GE Betz pretende demonstrar mais para o mercado a sua estratégia de ação agora reforçada com o controle da General Electric. O grupo ampliou consideravelmente seu leque de ofertas para as chamadas soluções completas.

Além da parte química oriunda da Betz, conta com a divisão de fabricantes de equipamentos GE Osmonics (osmose, micro e ultrafiltração, ozônio, UV e filtros) e GE Glegg (água ultrapura), de sistemas de automação e softwares (GE Industrial Systems) e de terceirização de serviços e outros contratos de customização (divisão CSA). Além disso, na área financeira, a empresa pode bancar investimentos de unidades completas ou de equipamentos isolados, por meio da GE Capital.

Para Fernando Uebel, essa oferta da GE Water Technologies de gerenciar completamente um sistema de tratamento de efluentes tem também o propósito de fugir do problema da “comoditização” do mercado. “A melhor saída para os especialistas é criar contratos por cobrança de água tratada, embutindo os custos de tratamento”, diz. A lógica aí é escapar de um fato comum no mercado. Muitos clientes deixam de contar com os serviços dos tratadores de água depois que aprendem os segredos da operação, passando a comprar os produtos químicos, como floculantes e polímeros, diretamente no mercado, de importadores ou de produtores locais.

Esse risco que todos os fornecedores químicos correm leva as empresas a tentar cativar os clientes com novas ofertas, que vão desde os contratos de terceirização até os lançamentos de produtos diferenciados. No primeiro caso, além da GE Betz, a própria Nalco, mesmo sem estar agora sob o guarda-chuva da Suez, que promovia a sinergia com suas empresas de equipamentos e serviços (Degrémont, Vega, Essencis, etc), não abandonou essa tendência. Pelo contrário, nos Estados Unidos já firmou parceria com a Veolia (ex-concorrente francesa em equipamentos e sistemas) e no Brasil procura também um parceiro exclusivo.

Química e Derivados: Efluentes: Aguiar comemorou melhor ano da Kurita. ©QD Foto - Cuca Jorge
Aguiar comemorou melhor ano da Kurita.

O outro caso relevante em oferta de serviços na área é o da Clariant, que continua sua estratégia no Brasil iniciada em 2003. O País serviu como experiência piloto do grupo de origem suíça e os resultados, segundo relata o gerente de negócios para a América Latina, Dimas Carlos de Campos, foram satisfatórios. Prova é que a atuação como prestadora de serviços em água e efluentes está sendo replicada neste ano na Argentina, Chile, Venezuela e México.

Neste primeiro ano, a Clariant assumiu as utilidades de quatro unidades próprias (Suzano-SP, Rezende-RJ e Duque de Caxias-RJ). “Passamos a controlar desde a captação de água, torres e caldeiras até o tratamento de efluentes”, explica o líder de tratamento de água da Clariant, Magno Meliauskas.

Um outro case comemorado é o da Refinaria de Capuava (Recap), em Mauá-SP, da Petrobrás, onde ganhou concorrência para tratar uma das torres de resfriamento. “Embora seja apenas uma torre, conseguimos criar uma solução mais complexa, alterando o tratamento da água de abastecimento, com desinfecção com dióxido de cloro e a mudança do coagulante (PAC modificado)”, diz Meliauskas. Com isso, segundo ele, hoje a torre alcança seis ciclos, contra três do tratamento anterior.

A estratégia de serviços da Clariant, para o gerente Campos, tem como etapa imediata atacar o mercado de refinarias e plataformas da Petrobrás. Nesse caso, ele acredita ter facilidade em expandir a participação em água, principalmente porque a Clariant já tem presença forte como fornecedora de sistemas para extração de petróleo, onde vende polímeros deoilers (removedores de óleo).

Uma etapa seguinte será o mercado de mineração, onde atua fornecendo coagulantes para o processo de flotação. Após isso, os outros setores, como químico, têxtil, couros, também seus clientes em processo, serão os visados. “É só fazer a sinergia com nossas divisões de processo”, diz.

Química e Derivados: Efluentes: Perecin também lança floculante-coagulante.
Perecin também lança floculante-coagulante.

Dois em um – Na outra alternativa para cativar os clientes, a de constantemente procurar ofertar novas tecnologias químicas, há mais exemplos de empresas adeptas dessa corrente. Existe até um caso em que duas delas lançam simultaneamente uma alternativa similar de produto, cujo princípio é unir em uma única formulação um coagulante inorgânico com um floculante orgânico. A Kurita, com seu Biotreat, e a Degussa, com seu water-in-water, são as empresas que tiveram a mesma idéia, no mesmo período.

Embora nenhuma das duas empresas revele a base química do produto, o princípio de ação é o mesmo: em uma só dosagem é possível neutralizar as cargas coloidais e formar um precipitado (flocos) pequenos, ou seja, realizar a coagulação, e também a reunião dos vários flocos pequenos, a floculação propriamente dita.

O normal é utilizar para a primeira função coagulantes inorgânicos, como o sulfato de alumínio, sulfato férrico ou cloreto férrico e, para a floculação, os polieletrólitos catiônicos. A vantagem é a facilidade de manuseio e de operação do produto com dupla função, podendo ser aplicados em deságüe de lodo e estações de lodo ativado.

De acordo com o líder da área técnica da Kurita, Antonio Ricardo Carvalho, o que motivou a empresa japonesa a desenvolver o BioTreat foi um caso em uma refinaria na Alemanha. Por ser uma típica unidade européia, antiga, ela estava funcionando com uma estação de lodo ativado com capacidade aquém do necessário para atender sua produção. “Estava ocorrendo fuga de flocos contaminados, o que produzia um efluente com DQO acima do permitido”, diz. A refinaria até mesmo reduzia sua produção para não ter problemas com o efluente.

Química e Derivados: Efluentes: Fábrica da Degussa - produção em dois turnos. ©QD Foto - Cuca Jorge
Fábrica da Degussa – produção em dois turnos.

Em vez de ampliar a unidade, a empresa preferiu encomendar com a Kurita européia uma solução química. Daí surgiu o desenvolvimento do BioTreat, segundo explica Carvalho. O produto conjugado, dosado adequadamente, passou a coagular e flocular melhor o lodo, evitando as fugas químicas no efluente. “Para eles, era uma solução que precisava ser imediata, porque a fiscalização ambiental na Alemanha é muito rigorosa, com incursões de coletas de efluentes constantes”, complementa.

A Kurita, caso sinta uma aceitação no mercado brasileiro, deve começar a produzir localmente o BioTreat. Mas, de acordo com seu superintendente de operações, José Aguiar Jr., não será uma tarefa tão fácil esse desenvolvimento de mercado. Isso porque no Brasil não é comum o uso de coagulantes e floculantes em conjunto, muito em razão da falta de fiscalização, mas também porque as estações de tratamento de forma geral são novas e ainda não precisam aumentar a eficiência e a capacidade.

Já a Degussa, segundo o gerente geral da fábrica de polímeros de Americana-SP, Sérgio Perecin, já começou a produção do seu water-in-water em 2003. Por ser uma emulsão livre de óleo, o gerente percebeu boa aceitação em setores onde o solvente oleoso pode contaminar o processo. A Kurita, que em 2003, segundo Aguiar Jr., teve o melhor ano de seus 29 de história no Brasil, com crescimento de 28% nas vendas (faturamento de US$ 23 milhões), também tem outro novo sistema para efluentes a ser destacado. Trata-se do WellClean, um polímero orgânico com função quelante e seqüestrante de metais pesados (chumbo, níquel, mercúrio). É um substituto para a convencional alcalinização, que tem sempre o risco de voltar a solubilizar os metais, caso o aumento do pH seja exagerado. “Temos a dosagem exata de ppm do polímero para extrair cada tipo de metal”, afirmou Antonio Ricardo Carvalho.

Além do coagulante-floculante, a Degussa também tem outro ponto em comum neste ano com a Kurita. Segundo Sérgio Perecin, o ano foi muito bom para a nova unidade de poliacrilamidas da empresa alemã, inaugurada em novembro de 2002. Operando com dois turnos, com produção atual de 3.500 t/ano, a fábrica de poliacrilamidas teve bom resultado, sobretudo porque não depende apenas do mercado da água, que responde por cerca de 20% das vendas diretas. As negociações para aplicações em papel e celulose, petróleo, açúcar e álcool e mineração, para as quais cerca de 30% do uso dos polímeros também é em água ou efluentes, foram bastante positivas. Em 2003, o crescimento da fábrica, que produz polímeros em emulsão, foi de 41% em faturamento, segundo Perecin. Um plano para breve é a nacionalização de linha de antiespumantes. Prova de que a esperança ainda não foi vencida pela desilusão, pelo menos no mercado da água.

Kemwater lucra com sulfato férrico

Química e Derivados: Efluentes: Ferreira - coagulante barato e com vantagens. ©QD Foto - Cuca Jorge
Ferreira – coagulante barato e com vantagens.

Um bom exemplo de que, para o mercado químico, a lentidão das obras de saneamento básico não o prejudica tanto é a análise do desempenho da Kemwater do Brasil, sociedade entre o grupo finlandês Kemira (51%), a Millenium Inorganic Chemicals (39%) e a Andrade Gutierrez (10%). Desde 1996 no Brasil, quando passou a utilizar o sulfato ferroso resultante da produção de dióxido de titânio da ex-Tibrás (atual Millenium), no pólo petroquímico da Bahia, para oxidação e conseqüente produção do coagulante inorgânico sulfato férrico, a empresa tem crescido de forma expressiva.

Com duas fábricas, uma na Bahia, no próprio canteiro da Millenium, onde produz 30 mil t/ano, e a outra em São Bernardo do Campo-SP, com produção de 80 mil t/ano, a Kemwater registra taxas médias de crescimento superiores a 30% ao ano.

De acordo com seu diretor de vendas e marketing, Wanderley Ferreira, isso se deve principalmente à crescente substituição por parte das companhias de saneamento, sobretudo a paulista Sabesp e a baiana Embasa, do sulfato de alumínio pelo sal férrico em estações de tratamento de água. “Além de ser até 20% mais barato, ele tem vantagens, como menor corrosividade, menor uso de alcalinizante e menor geração de lodo”, reitera Ferreira. Bom lembrar que os sais férricos (também o cloreto) podem operar com pH de 4 a 11, enquanto o de alumínio, apenas no 6.3, caso contrário deixa residual na água.

Química e Derivados: Efluentes: Fred expande venda para outros Estados. ©QD Foto - Cuca Jorge
Fred expande venda para outros Estados.

Embora historicamente o Brasil seja grande consumidor de sulfato de alumínio em potabilização de água, cujo parque produtor abrange mais de dez fábricas, outros Estados também estão aderindo. Em breve, segundo explica o diretor geral da Kemwater, Fred Shuurman, outros lugares do País poderão chegar a média da região metropolitana de São Paulo, onde 60% das estações de tratamento utilizam o sulfato férrico.

A estratégia de expansão da Kemwater é triplicar seu faturamento até 2005, chegando a R$ 100 milhões. Para isso, além de ampliar o leque do coagulante férrico para outros Estados, faz parte do plano também vender sulfato de alumínio, por meio da compra em andamento de duas empresas nacionais do ramo, e vender mais produtos especiais para a indústria. Nesse último caso, são exemplos um coagulante inorgânico para oxidação de cianeto, para efluente de siderurgia, outro para precipitação de arsênio, e a venda de permanganato de potássio, um excelente oxidante alternativo ao cloro e ao dióxido de cloro.

Outra possibilidade de expansão, segundo Ferreira, compreende a aplicação do sulfato férrico em tratamento biológico. Duas estações de tratamento de esgoto testam o produto no Brasil, no Rio de Janeiro e em Goiás. A vantagem é a capacidade do sal de remover a carga orgânica e reduzir o teor de fósforo, que favorece a proliferação de algas. O único obstáculo para o desenvolvimento desse nicho é o Brasil não possuir restrições nesse sentido, como na Europa, onde a Kemwater costuma vender o sulfato férrico e outros coagulantes para esse uso, inclusive em despoluição de lagos.

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