Transporte – Setor regulamenta estações de limpeza para coibir desleixos em segurança e meio ambiente

Química e Derivados, Transporte
Transporte – Setor regulamenta estações de limpeza para coibir desleixos em segurança e meio ambiente

Na caminhada empreendida pela indústria química brasileira para melhorar sua gestão socioambiental, faltam ainda alguns degraus para o setor chegar ao andar da excelência. Isso nem tanto dentro dos limites de suas instalações, já bastante incorporadas por boas práticas ensinadas por programas como o Atuação Responsável, compulsório às associadas da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que respondem por quase 80% da produção nacional. Mas principalmente quando se toma conhecimento de problemas ao longo de sua extensa cadeia de fornecedores.

Um caso emblemático ocorre no segmento de transportes de produtos químicos, mais especificamente em uma importante etapa de sua operação, aquela pela qual os tanques precisam ser limpos e descontaminados. É consenso hoje entre os mais familiarizados com o cotidiano da indústria que são poucos os locais habilitados para realizar operações confiáveis nos quesitos meio ambiente e segurança operacional. Essa constatação, aliás, fez a Abiquim criar um módulo do seu Sistema de Avaliação de Segurança, Saúde, Meio Ambiente e Qualidade (Sassmaq) – que já afere e qualifica de forma compulsória todas as transportadoras prestadoras de serviços aos associados – específico para estações de limpeza, o qual da mesma forma passará a ser mandatório a partir de janeiro de 2010.

A preocupação da Abiquim é proteger o segmento de riscos, os quais já levaram o Inmetro a também criar um sistema de qualificação e registro no final de 2007 para diferenciar empresas que prestam o serviço para carretas e isotanques (tanques-contêineres). O selo federal, originado por portaria (255/07), nasceu para atender à solicitação do ministério público do trabalho que, por sua vez, dava uma resposta a uma série de acidentes fatais ocorridos com trabalhadores envolvidos em descontaminações de tanques. Apenas na região de Paulínia-SP, ao redor da refinaria da Petrobras (Replan) e de onde surgiram as solicitações para a procuradoria regional do trabalho forçar a regulamentação da atividade, cerca de dez mortes foram registradas nos últimos anos. Todas elas em virtude do amadorismo, infelizmente majoritário, em uma atividade de alto risco.

Os acidentes mais comuns envolvem desleixos conjugados com a manutenção dos equipamentos. Caso padrão é aquele em que um funcionário entra no tanque para fazer uma solda e, em razão de a descontaminação não ter sido feita ou mal realizada, os voláteis ainda presentes provocam explosão e muitas vezes a morte do trabalhador. Mas já foram registrados acidentes ainda mais lamentáveis, como óbitos provocados por atos quase insanos, como utilizar um isqueiro para iluminar o interior do tanque de inflamáveis ou verificar o odor de um tanque com produto altamente tóxico com o nariz, e não com equipamento apropriado ou o uso de máscara.

Ordem na casa – As iniciativas tanto da Abiquim como do Inmetro visam a disciplinar e a criar padrões de conduta em estações de limpeza e descontaminação que prestam serviços a terceiros ou nas unidades cativas de transportadoras. O módulo de estação de limpeza do Sassmaq já está valendo desde o meio de 2008 e até o momento apenas uma empresa foi avaliada e certificada, a Concórdia Transportes, de Camaçari-BA. Mas várias outras empresas estão em preparação e, neste ano, para atender às novas exigências dos clientes químicos em 2010, há a previsão de uma grande corrida atrás da certificação, o que movimenta o mercado de consultorias e auditorias. Já o registro do Inmetro, na última contagem, foi concedido a 39 empresas em todo o Brasil.

A percepção atual é a de que a certificação do Inmetro, aferida por técnicos do Ipem (Instituto de Pesos e Medidas), se preocupa mais com os aspectos de segurança operacional, levando em conta os cuidados com os equipamentos empregados, a condição de salubridade e de risco para os trabalhadores. Já o Sassmaq ultrapassaria a preocupação para a questão ambiental, investigando de forma mais criteriosa a maneira como a estação lida com seus perigosos efluentes, resíduos sólidos e os vapores tóxicos e inflamáveis. Com seu sistema implantado, o módulo pode fazer, segundo a opinião de conhecedores da atividade, o que até agora o registro do Inmetro ainda não garante a algumas empresas já auditadas pelo Ipem: a boa gestão ambiental e a própria efetividade das descontaminações no dia-a-dia da indústria química.

Química e Derivados, Registros por atividade no estado de Sao Paulo / Percentual de registro por estado, Transporte
Registros por atividade no estado de Sao Paulo / Percentual de registro por estado
Química e Derivados, Daniela Farulli, Diretora da Servtruck, Transporte
Daniela Farulli: Sassamaq pode colocar “ordem na casa”

Compartilha dessa opinião Da­niela Farulli, a diretora de uma das primeiras empresas do Brasil a passar pela certificação do Inmetro, a Servtruck, de Guarulhos-SP. Também envolvida com a elaboração do módulo Sassmaq como integrante da comissão responsável na Abiquim, Daniela acredita que o Ipem confere apenas a adequação operacional dos equipamentos usados para o serviço, visando a segurança das instalações. Para ela, que já passou por três auditorias do Ipem na Servtruck, essa política compromete a verificação dos cuidados ambientais. “O registro, mesmo recertificado a cada seis meses, não vai atrás de evidências de que todos os rejeitos são corretamente destinados, apenas solicita ao auditado suas licenças de operação e documentos como o CADRI”, explicou a diretora, cuja unidade em Guarulhos, com nova estação compacta de tratamento de efluentes por processo físico-químico, passará por avaliação do Sassmaq em novembro de 2009.

A diferença entre as certificações fica clara no item de proteção ambiental do módulo de estação de limpeza. É nessa parte do programa que se exigem evidências do gerenciamento de resíduos, ou seja, os registros de disposição com o detalhamento das quantidades, as datas e os locais para onde os rejeitos foram destinados. Trata-se, aliás, de determinação básica de um sistema de gestão, difícil de ser falsificado e ao qual a indústria química, por meio do Atuação Responsável, já se acostumou a documentar no dia-a-dia fabril. “Além disso, o Sassmaq tem a vantagem de exigir planos de melhoria e programas para redução de geração de resíduos”, completa Daniela.

Outra característica do Sassmaq, segundo a diretora da Servtruck, é fundamental para tornar o módulo uma ferramenta mais efetiva para o controle das estações de limpeza. Isso porque o registro federal é apenas exigido para descontaminações realizadas em capacitações de cargas, calibrações e manutenções, operações feitas normalmente apenas uma vez por ano pelas transportadoras. Já a limpeza com certificação do módulo do Sassmaq é obrigatória em todos os carregamentos para os associados da Abiquim. “Sua estrutura tem mais potencial de colocar um pouco de ordem na casa”, afirmou. Antes de completar a carga no tanque, o transportador precisa apresentar um documento para confirmar a limpeza, cedido por estação certificada.

“Jeitinho” – A oportunidade de adotar um sistema de gestão como o do Sassmaq é preciosa para tentar combater um problema já considerado endêmico. Além de não haver hoje um mecanismo para pelo menos atestar a descontaminação a cada carregamento, até mesmo nas capacitações o sistema não é confiável. Isso porque as auditorias dos chamados Organismos de Inspeção Acreditados (OIAs), que oficializam as capacitações, se contentam com a apresentação de CADRIs, registros, licenças de operação ou de dispensas de licença, não solicitando os certificados de descontaminação que poderiam realmente dar detalhes confiáveis do que foi feito. Segundo Daniela Farulli, esse descontrole institucionalizado provoca situações como a de uma grande indústria química que registrou em 2008 exatas 203 contaminações de carga.

Química e Derivados, Transporte
Transporte – Setor regulamenta estações de limpeza para coibir desleixos em segurança e meio ambiente

Além da falta de controle e das ainda incipientes tentativas de disciplinar o segmento, coopera com esse clima de perigosa negligência o mau hábito nacional de tentar “dar um jeitinho” em tudo. É de conhecimento no mercado o uso nas auditorias de cópias de licenças de operação emprestadas por terceiros para convencer auditores e clientes por sua vez menos preocupados em conferir a autenticidade das informações. Em suma o que ocorre é que muitas transportadoras fazem as limpezas nas chamadas “bocas de porco”, que cobram barato pelo serviço não-confiável, e apresentam cópias de documentos de outras empresas legalizadas para contentar o auditor. E isso quando não há falsificação de certificados de descontaminação, apresentados em auditorias.

Mas, assim como há consenso a respeito dos problemas do segmento, também há para as soluções. Mais do que esperar a ação da fiscalização, sempre muito desaparelhada no Brasil, a vontade da indústria de forçar a boa conduta de seus transportadores é considerada a melhor ferramenta para consertar esses gargalos. O Sassmaq é apontado como a base teórica que pode servir para os clientes químicos começarem a se preocupar mais com seus carregamentos, exigindo as evidências concretas de gerenciamento de resíduos e efluentes, fazendo vistorias nos prestadores de serviços e nas estações dos transportadores. Afinal, sem esse envolvimento, não tem valor os esforços intramuros da indústria, que continuará assim a poluir de forma indireta, por meio de estações de lavagem que descartam os efluentes nas calçadas ou nos corpos d´água, ou a ser cúmplice de óbitos e acidentes graves de trabalho ocorridos nas estações com operários despreparados.

Química e Derivados, Gisette Nogueira, Assessora técnica da Abiquim, Transporte
Gisette Nogueira: no mínimo, empresas precisarão estar dentro da lei

Como as 140 associadas da Abiquim representam quase 80% da produção química nacional, o potencial do módulo Sassmaq de cooperar para mudar o cenário é muito grande. De acordo com a assessora técnica da Abiquim, Gisette Nogueira, hoje há 650 transportadoras com Sassmaq e todas elas a partir de 2010 serão obrigadas a usar estações de lavagem também certificadas. “No mínimo, elas precisarão estar respeitando as leis e normas ambientais, de saúde e segurança ocupacional, o que já é um primeiro passo”, disse Gisette.

Química e Derivados, Wellington Watanabe, Chefe de logística da Evonik, Transporte
Wellington Watanabe: exigências serão mais específicas

Para o membro da comissão de transportes da Abiquim, Wellington Watanabe, também chefe de operações logísticas da Evonik, uma grande vantagem do módulo do Sassmaq é padronizar os cuidados por tipos de produtos e não por classes de riscos como no registro do Inmetro. “Por ser feito pela indústria química, temos condições de detalhar as exigências conforme as especificidades de cada produto. Já a avaliação do Inmetro corre o risco de ser muito genérica”, disse. Bom lembrar que o órgão de metrologia trabalha com sete classes de risco: 2 (gases), 3 (inflamáveis), 4 (substâncias sólidas inflamáveis), 5 (oxidantes), 6 (tóxicos), 8 (corrosivos) e 9 (substâncias de risco ao meio ambiente). Há algumas empresas autorizadas pelo Inmetro para descontaminar tanques com todas as classes de produtos, mas muitas outras apenas para as 2 e 3, consideradas mais simples.

Curiosos saem? – A previsão com as novas exigências é a de uma revolução nesse mercado, segundo Watanabe. “Os curiosos vão ter que sair, porque todos vão precisar se adequar”, disse. Essa saída, porém, significaria para essas empresas apenas deixar de prestar serviços para a indústria química, visto que a abrangência do módulo Sassmaq não atinge, por exemplo, as várias “estações” que fazem limpeza de tanques de caminhões transportadores de combustíveis. Na região de Paulínia, por exemplo, a maior parte das prestadoras de serviços não conta com registro do Inmetro e nem com preocupação ambiental ou de segurança, o que ainda não as impedem de trabalhar não só para transportadores de combustíveis como para o setor químico.

Mesmo que a imprudência continue no setor de transporte de combustíveis, que deve continuar a driblar a tentativa de organização promovida pelo Inmetro, pelo menos a iniciativa da Abiquim dá mostras de que no ramo químico isso pode mudar. Não por menos, prestadores de serviços interessados em continuar a operar nesse setor começam a investir em melhorias, assim como as transportadoras o fazem em suas estações próprias.

A começar pela Servtruck, dá para se ter uma ideia da tendência de profissionalização da atividade. Com licença da Cetesb e autorizada pelo Inmetro para descontaminar tanques em qualquer classe de risco, a empresa investiu em uma estação de tratamento de efluentes, na contratação de dois químicos para supervisionar os trabalhos e na padronização de procedimentos operacionais que garantam a descontaminação e a segurança do processo.

Segundo Daniela Farulli, as descontaminações seguem um padrão básico, que começa com a análise preliminar do caminhão, a avaliação da FISPQ (Ficha de Informação de Segurança do Produto Químico) e as consequentes precauções, como uso de EPI adequado para abertura da tampa de visita e a exaustão interligada com lavadores dos gases. “Após isso, abrimos o tanque do caminhão para verificar seu estado”, disse Daniela.

Química e Derivados, ETE na Tquim, Transporte
ETE na Tquim: efluente não é reusado

A lavagem em si começa com a vaporização, que dura em média duas horas e é gerada por caldeira de baixa pressão. Há então a drenagem do condensado, que se direciona para o tratamento físico-químico e o seguinte resfriamento do equipamento. Logo após, mede-se com aparelho de detecção a atmosfera do tanque, para se averiguar o nível de oxigênio e a possível explosividade do ar. Se a primeira vaporização não for suficiente para inertizar o ambiente, retoma-se o processo. Caso esteja dentro dos parâmetros seguros, é permitida a entrada de um operador no tanque para fazer o hidrojateamento ou a lavagem com soluções específicas, como a neutralização em ambientes corrosivos e de bases para os oleosos.

Os efluentes vão para a ETE e, quando muito complicados, são tratados por batelada. Os resíduos das tortas seguem ou para incineração ou para aterro classe 2. Com quatro baias para lavar os caminhões-tanque, o último procedimento é o teste de isenção de contaminantes (com metodologia mantida sob sigilo), que embasará o certificado de descontaminação eletronicamente emitido, numerado, com prazo de validade, assinado por um operador responsável e chancelado em alto-relevo. Em 2008, a Servtruck fez cerca de 2 mil descontaminações, com preços que variam entre R$ 60 e R$ 5 mil (este o valor máximo obtido em lavagem de tanque com pesticidas).

Estações cativas – Talvez até mais do que nas empresas terceirizadas, há um grande movimento de modernização nas estações de limpeza e descontaminação das transportadoras. Há tantos exemplos que fica difícil acreditar em uma tendência de terceirização nessa área, como alguns reverberam. E isso não apenas por motivos estratégicos, visto que contar com uma estação dentro do próprio pátio pode tornar mais ágil a logística. Mas também por uma questão econômica: o custo do frete, já considerado alto, aumenta se a transportadora precisar levar seus caminhões e tanques para lavagens e descontaminações externas.

Tem essa visão do negócio a Tquim, de Diadema-SP, tradicional no transporte de produtos perigosos em granel líquido. Foi por esse motivo que a empresa montou completa estação de tratamento de efluentes em sua nova sede perto da Rodovia dos Imigrantes e ainda passou a se organizar para realizar descontaminações em breve certificadas pelo módulo Estação de Limpeza do Sassmaq. “Em maio devemos passar pela auditoria e provavelmente em junho também nos credenciaremos pelo Inmetro”, afirmou a gerente de qualidade Luciene Lemes de Oliveira. A Tquim, aliás, foi uma das empresas que se sujeitou a uma auditoria piloto do módulo há dois anos, ainda em sua antiga sede no Bairro do Limão, em São Paulo.

Química e Derivados, Wilson Ventura, Encarregado de operações da Tquim, Transporte
Wilson Ventura tenta economizar água com os clientes

A nova ETE, fornecida pe­la empresa Filtrando, de São Bernardo do Campo-SP, é compacta (pode ser removida caso a empresa mude de sede) e conta com sistemas físico-químico e bio­lógico, além de polimento com filtro de areia e carvão ativado. Por enquanto, o efluente tratado ainda não é reaproveitado, por não terem sido aferidas cientificamente suas possibilidades de reúso, segundo explicou o gerente-comercial da Tquim, Roberto de Oliveira. Outra etapa a ser concluída, para breve, será a inclusão na planta de um sistema de lavagem de gases, o que será feito antes da auditoria do Sassmaq.

A opção de ter sua própria estação, e assim conhecer melhor os problemas que cercam a atividade, permitiu também à Tquim envolver seus clientes para tentar reduzir o consumo elevado de água das lavagens. Para isso, a empresa pesquisa com os clientes a possibilidade de identificar produtos embarcados que podem ser usados no lastro de outro, sem necessidade de descontaminações e, portanto, proporcionando economia de 1 m3 de água normalmente consumida por lavagem. “Isso já é possível entre vários solventes, mas também pode ser estudado entre outros produtos”, explicou o encarregado de operações Wilson Ventura.

A estratégia usada nesse esforço é a criação de tabelas de compatibilidade para orientar os carregamentos. Uma dessas já foi feita com um cliente para o transporte de resinas. Nesse caso, há orientações sobre o que pode ser misturado e o que é incompatível: resinas base solvente, por exemplo, não podem ser lastreadas com as base aquosas. Para evitar qualquer dissabor, essas operações envolvem o lacre dos caminhões-tanque não  descontaminados que aguardam o carregamento com carga compatível. “Isso é viável e representa um grande ganho ambiental”, afirmou o gerente-comercial.

Nessa mesma vertente, há a estratégia também de tornar o caminhão de uso cativo de um produto. “Já fizemos isso com um cliente e economizamos, a partir daí, oito lavagens a cada 10 viagens, deixando de consumir em média 8 m3 de água”, disse. E isso ocorre muitas vezes por causa da própria natureza dos produtos. Um caso à parte, por exemplo, ocorre com o peróxido de hidrogênio. Segundo Wellington Watanabe, o chefe de logística da Evonik, com fábrica de H2O2 em Barra do Riacho-ES, o produto não pode ser misturado sequer com água potável. “Os tanques são totalmente cativos”, disse. Essas determinações técnicas muitas vezes até impedem a tentativa de compatibilização feita pela Tquim. “Precisamos convencer o cliente de forma técnica de que não há problema, contradizendo até mesmo determinações de suas matrizes no exterior”, completou Roberto de Oliveira.

Isotanques – Outra transportadora química que entrou de corpo e alma na lavagem e descontaminação é a Cesari, cujo centro intermodal em Cubatão-SP conta com complexa estação com capacidade atual para atender 30 isotanques (tanques-contêineres) e seis carretas de uma só vez. Isso totaliza 900 descontaminações de isotanques por mês, o grande foco da central, em três baias específicas, e cerca de 400 de caminhões-tanques em um local ao lado.

A confiança na atividade leva a Cesari a investir mais na estação. Além de já ter montado uma ETE, com tratamento biológico e físico-químico com breve entrada em operação (por enquanto o efluente é enviado para tratamento na Sabesp), mais uma baia será organizada para ampliar a capacidade para 1.200 lavagens de isotanques por mês. Segundo o diretor da Cesari, Francisco Borlenghi, já foram investidos desde 2008 R$ 2,5 milhões na estação de lavagem e descontaminação e, com os novos aportes, serão totalizados quase R$ 5 milhões no projeto. “A estação vem agregar valor aos nossos serviços logísticos na região do Porto de Santos, carente de prestadores legalizados”, afirmou.

A estação da Cesari, segundo seu gerente-comercial, José Roberto Torres, já está pronta para ser certificada pelo Sassmaq. “Só falta marcar o dia para a auditoria”, disse. Pelo Inmetro, já conta com o registro desde agosto de 2008 e, pela Cetesb, com licença de operação concedida em janeiro de 2009. Outro detalhe interessante na grande central situada em um vale incrustado na Serra do Mar em Cubatão é a presença constante de auditores da certificadora SGS aptos a conceder certificados internacionais de descontaminação para os clientes. É bom acrescentar que a Cesari armazena, descontamina e faz serviços de manutenção para as principais gerenciadoras de isotanques, empresas como Bulkhaul, Hoyer e Stolt, além de fazer o mesmo para tanques cativos de indústrias químicas como Clariant e Evonik. “São na maioria contêineres que precisam voltar descontaminados para a Europa, para diminuir o valor do frete e garantir segurança ao armador”, explica.

Um outro investimento da Cesari visa a extinguir ou pelo menos diminuir uma das etapas de maior risco da descontaminação: a entrada do operário dentro do tanque para hidrojateamento ou lavagem com solução. A Cesari começou a utilizar um equipamento chamado spray-ball, pelo qual uma mangueira com cabeçote de alta pressão é inserida no tanque para fazer o serviço sem a necessidade de um operador. Porém, em virtude de o sistema não ter se mostrado satisfatório para todas as aplicações, a ideia é testar um equipamento holandês que utiliza água a altíssima pressão (suficiente para remover tinta de casco de navio ou até para arrancar um pé de uma pessoa, como já ocorreu recentemente) e um sistema de câmera para visualizar e orientar o serviço de fora do tanque. Trata-se aí de uma boa iniciativa para tornar a descontaminação uma atividade de menor risco do que tem se mostrado hoje em dia.

Química e Derivados, Registros por classe de risco no Brasil / Descontaminadores e transportadoras registrado registrados no Brasil, Transporte
Registros por atividade no estado de Sao Paulo / Percentual de registro por estado
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Serviço em Paulínia sofre com concorrência hostil

A região de Paulínia-SP, na circunvizinhança da maior refinaria de petróleo da Petrobras, a Replan, é emblemática para o segmento de estações de limpeza e descontaminação de caminhões-tanque. Com um fluxo sem igual no país de carretas se abastecendo de combustíveis, é lá onde se concentra a maior quantidade de empresas de beira de estrada que realizam os chamados “vaporzinhos” e, de quebra, de todos os tipos de serviços de manutenção nos caminhões. Consequentemente, é também na região onde há o maior rol de problemas.

Estima-se que existam 11 empresas na região, a maior parte delas com nomes sugestivos como “Mineiro do Vapor”, “Catatau”, “Vapor & Cia” etc. Embora tenha sido de Paulínia que o Inmetro tenha elaborado seus procedimentos de registro, a maioria das empresas trabalha de forma irregular, ainda sem a chancela do órgão e muito menos com licença operacional das agências de meio ambiente. O resultado é uma operação de alto risco ambiental e para a segurança operacional.

Química e Derivados, Transporte
Carlos Alberto Ribeiro (abaixo): sua empresa é uma das únicas legalizadas

A grande oferta de empresas na região facilita a falta de profissionalismo. Como a maior parte delas não computa em seus custos operacionais os gastos com a segurança e o meio ambiente, há uma perigosa briga de preços que incentiva descontaminações malfeitas e sob risco, comprometendo aqueles que pretendem trabalhar de forma correta.

“Cansei de ver indústrias e transportadoras da região dizerem que conseguem fazer limpezas bem mais baratas do que a minha, mas em lugares tristemente famosos por já terem sido até palco de acidentes com vítimas fatais”, afirmou Carlos Alberto Ribeiro, proprietário da Vapor & Cia, uma das únicas empresas da região a ter registro do Inmetro, licença da secretaria de meio ambiente de Paulínia e, melhor, estação própria para tratar seus efluentes.

Para Ribeiro, a canibalização leva as indústrias e transportadoras a recorrer a uma lamentável prática do faz-de-conta. “Quando eles precisam de algum documento para provar que fazem as limpezas corretamente, e não em lugares irregulares, como na verdade fazem, chegam a ligar para a gente para pedir uma cópia do nosso registro”, diz Ribeiro.

Carlos Alberto Ribeiro, proprietário da Vapor & Cia, Transporte
Carlos Alberto Ribeiro

Apesar dos problemas, o proprietário da Vapor & Cia, estabelecida desde 1999 e também especializada em manutenção das carretas, acredita que tem potencial de crescimento, principalmente na área química. Isso porque, segundo informações do próprio Inmetro, na região de Paulínia não há nenhuma empresa habilitada a fazer descontaminações para essas classes de risco. Mesmo ainda certificado apenas para descontaminar tanques com combustíveis líquidos, gases, BPF e biodiesel, Ribeiro se prepara para atender produtos químicos. “É uma boa oportunidade e uma maneira de não depender tanto de um mercado com concorrência muito hostil”, disse.

A Vapor & Cia realiza cerca de 300 vaporizações por mês, a um preço médio de R$ 120,00. “Tem empresa que faz a R$ 60,00, o que é impossível para quem tem o mínimo cuidado com os equipamentos, com a segurança e o descarte dos efluentes”, completou Ribeiro. A sua empresa, que presta serviço entre outros para os caminhões da Ultracargo na região, passou a recircular seus efluentes há cerca de três meses, deixando de enviá-los para tratamento na Sabesp, e manda os resíduos sólidos para o aterro classe 2 da Estre.

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