Transição energética abre caminhos para mineração

Transição energética abre caminhos para investimentos na produção mineral do país

A transição energética, condição estratégica para que o Brasil e o mundo fiquem menos sujeitos a desastres climáticos, pode contar com as boas perspectivas da mineração. Caso os projetos em andamento sejam bem-sucedidos, o setor se apresentará como um aliado igualmente estratégico para tornar as cadeias produtivas mais sustentáveis, a exemplo do setor químico.

A produção de lítio, isoladamente, conta com 11 novos projetos, totalizando investimentos de mais de US$ 750 milhões para os próximos cinco anos, informa Aline Nunes, gerente de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). O crescimento do consumo vem sendo liderado pela demanda de baterias de íons de lítio para movimentar os carros elétricos, cujas previsões indicam venda anual de 40 milhões a 50 milhões de unidades em 2030, no mercado global.

A boa notícia é parte dos novos empreendimentos em minerais que são fonte de suprimento de elementos de propriedades variadas obtidas do calcário, fosfato, sal (cloreto de sódio), potássio e lítio para suprir a química inorgânica. Estima-se que, além dos recursos que serão aplicados no lítio, outros US$ 4,3 bilhões serão gastos em 19 projetos futuros, contemplando o aumento da extração e beneficiamento de potássio e fosfato.

Vale lembrar que das rochas fosfáticas se obtêm o fósforo (na forma de fosfatos) e o enxofre (com o qual se faz ácido sulfúrico, por exemplo), e o calcário responde por uma série de óxidos de cálcio e alguns carbonatos. É por isso que os minerais são considerados fonte supridora de elementos químicos de fundamental importância para a transição energética, observa o doutor em Química Thiago Canevari, coordenador dos cursos de Química da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

É do sal-gema, segundo ele, que se obtém o sal de cloreto de sódio, soda cáustica, ácido clorídrico e hipoclorito de sódio. O próprio sal-gema que comumente é obtido em oceanos, pode ser produzido por meio da reação de cloretos metálicos com o sódio metálico. Essa vantagem competitiva se deve à possibilidade de isolar um elemento específico e realizar a combinação entre eles objetivando o surgimento de novas propriedades, explica Canevari.

Mineração: Transição energética abre caminhos ©QD Foto: iStockPhoto
Aline: onze novos projetos para produzir lítio no Brasil

Os dados apurados pelo Ibram e Agência Nacional de Mineração (ANM), sucessora do extinto Departamento Nacional de Produção Mineral, apontam que, em 2022, houve a participação de 14,1% do calcário, fosfato, dolomito e magnesita, lítio, potássio e sal no volume total de bens minerais do Brasil, que superou 1,42 bilhão de toneladas comercializadas (ver tabela).

Mas faltam indicadores precisos de que os investimentos previstos serão capazes de redesenhar, quantitativamente e qualitativamente, a cadeia minerária dos elementos citados. “O desempenho futuro do setor depende do enfrentamento permanente de desafios ligados à inovação e do aprimoramento tecnológico”, avalia o engenheiro de minas José Jaime Sznelwar, presidente da Organização Mineronegócio e coordenador da Divisão Técnica da Indústria de Petróleo e Gás, Bioenergia, Mineração e Dutovias do Instituto de Engenharia.

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Para Arthur Pinto Chaves, professor de tratamento de minérios da Escola Politécnica da USP, a mineração busca se firmar em meio a um cenário contaminado por uma série de fatores adversos, relacionados tanto à regulação, como ao perfil estrutural do próprio setor.

“Existe toda uma legislação protegendo pequenas indústrias ou indústrias artesanais em detrimento da economia da mineração”, afirma Chaves, especialista em pesquisa minerária, com trânsito dentro e fora do ambiente acadêmico, como reconhece Sznelwar.

Parte importante da cadeia vinculada à química inorgânica é prejudicada pela legislação que, por um lado protege os salineiros, em detrimento do sal-gema, que também compete com o sal marinho, avalia Chaves. Por isso, segundo ele, a mineração de potássio é obrigada a descartar todo o cloreto de sódio (halita) no mar. Por sua vez, o fosfogesso – um subproduto obtido durante a produção de fertilizantes fosfatados – compete com a gipsita e enfrenta, igualmente, barreiras legais que protegem os gesseiros, acrescenta o especialista da Poli-USP.

Mineração: Transição energética abre caminhos ©QD Foto: iStockPhoto
Canevari: minérios fornecem elementos químicos essenciais

Os produtos integrantes da cadeia de cloro-soda, de ampla utilização e agregação de valor na indústria química, são fortemente dependentes de sal-gema, que os abastece com matéria-prima, observa Sznelwar. Mas a geração local de sal-gema, assim como a do potássio – locomotiva do agronegócio, via suprimento de fertilizantes – são insuficientes para atender a demanda interna; ambos são parcialmente importados. No caso do potássio, os maiores produtores são a Argélia, Estados Unidos e Marrocos, lembra Chaves.

O setor considerado puxador do PIB no Brasil depende cada vez mais de insumos minerais importados. De acordo com informações do próprio Ibram, apesar de o país demandar cerca de 8% da oferta global de fertilizantes, ocupando a 4ª posição no ranking de consumo mundial, 38% dos produtores rurais brasileiros usam potássio importado.

O desequilíbrio entre oferta e demanda de potássio e fosfato no Brasil, cuja produção nacional não é suficiente para atender a indústria química, resulta de uma série de anomalias, segundo Aline Nunes, gerente do Ibram. Dentre elas, destacam-se fatores de produção, questões tributárias e deficiências geológicas que, em conjunto, tornam as fontes nacionais de potássio e fósforo insuficientes, subaproveitadas e/ou de difícil lavra, avalia Nunes.

Há que se considerar também que a implementação de novos empreendimentos minerários ligados ao fosfato, no Brasil, precisa, necessariamente, ser respaldada por pesquisa de viabilidade técnica e econômica, acrescenta o engenheiro de minas Mathias Heider, assessor técnico da ANM. No momento, segundo ele, o grande nó é colocar em produção a jazida de fosfato e urânio no Ceará. A iniciativa proposta pelas empresas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e Galvani é alvo de denúncias de violação de direitos humanos e de risco de contaminação ambiental.

Outros dois projetos se encontram igualmente impactados por questões ambientais transformadas em contencioso junto aos órgãos regulatórios, informa Heider. Um está localizado em Anitápolis, no estado de Santa Catarina, e outro situado dentro da Floresta Nacional de Ipanema, no interior de São Paulo, criada no contexto da ECO-92.

A exploração do sal-gema ocorre em 15 cidades do Brasil, segundo a ANM, principalmente em Maceió-AL. Mas há também uma planta na Bahia, de extração solúvel, da Dow, localizada no município de Vera Cruz, na ilha Matarandiba. A operação de sal-gema está interligada à fábrica de Aratu-BA, formando um complexo com três unidades operacionais: as fábricas de cloro-soda, óxido de propeno e propilenoglicol, além de um terminal marítimo.

Mineração: Transição energética abre caminhos ©QD Foto: iStockPhoto
Tabela – PRODUÇÃO MINERAL BRASILEIRA 2022

O empreendimento da capital alagoana é liderado pela Braskem, paralisado em 2019, e se tornou pivô de uma catástrofe ambiental. Dessa forma, sua gestão de crise praticamente impede a abordagem de outros assuntos como, por exemplo, novos projetos sobre a obtenção de sal-gema, cuja demanda da imprensa por informações tem ficado sem resposta.

A reputação da companhia “está sendo duramente questionada”, como afirmou Heider, da ANM. O resíduo da crise socioambiental protagonizada pela Braskem, na capital de Alagoas, também respingou na imagem do setor como um todo. Com isso, acabou despertando o imaginário da mineração como uma “atividade arcaica e rudimentar”, desconstruindo, de certa forma, a noção do Ibram de que essa lembrança da mineração “tivesse sido deixada para trás”, como afirmou Nunes.

As perspectivas do calcário, com cerca de sete projetos previstos, cujos valores não foram divulgados pelas empresas envolvidas (CBPM, CSN Mineração, Bemisa, Triunfo e Minercal), dependem da evolução da construção civil. O Brasil tem ampla distribuição de jazidas em seu território para atender o parque de cimenteiro e, segundo Heider, da ANM, “a indústria segue seu ritmo de produção, atendendo a demanda de cimento e cal, sem evolução no que tange à mineração”.

De fato, complementa Sznelwar, da Mineronegócio, “não se esperam grandes inovações tecnológicas na produção do cimento nos próximos anos. Mas por ser um mercado bastante competitivo e controlado por empresas de grande porte, não podem ser descartadas inovações”. Ele acrescenta que o calcário destinado para correção de pH de solos tem pela frente o desafio da distância entre o ponto de produção e o de consumo.

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