Transformação: Indústria local deve adotar conceito 4.0

Indústria local perde mercado para importados e deve investir para adotar conceito 4.0

A indústria nacional de transformação do plástico já viveu momentos mais alvissareiros.

O sentimento em relação ao desempenho no ano que se inicia pode ser resumido pela fala de José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).

“O setor se coloca pessimista quanto ao ano de 2022. Esperamos que o resultado da produção física do setor fique praticamente estável em relação ao observado em 2021, com aumento de 0,5%”.

Para Coelho, sondagens feitas pela associação geram expectativa de que os preços dos insumos e resinas se manterão nos patamares elevados observados em 2021 e de que não haverá ambiente para crescimento da produção e vendas do setor.

O desempenho do ano passado decepcionou.

Transformação - Indústria local deve adotar conceito 4.0 ©QD Foto: iStockPhoto “Nossa expetativa era de um crescimento muito mais acentuado na produção de transformados plásticos em 2021. Esperávamos um avanço de 4%, já que os primeiros meses se mostraram vigorosos”.

Com o decorrer do tempo, em especial depois de julho, os resultados do setor foram definhando e a recuperação esperada não se confirmou.

“As vendas de transformados plásticos para o mercado interno subiram 1,32%, enquanto a produção brasileira teve crescimento de 1,7%”.

Tal diferença foi para atender o aumento das exportações do setor, que evoluíram 11,4%. Em 2020, houve queda de produção em torno de 1% em relação a 2019.

O consumo aparente avançou 1,8%, evidenciando o comportamento histórico de que um percentual do crescimento da demanda brasileira tem sido atendida por produtos importados.

“As importações de transformados plásticos seguem ritmo de crescimento observado historicamente e as principais origens dos produtos são China, Estados Unidos e Alemanha”.

A balança comercial de transformados plásticos é historicamente deficitária, chegando a US$ 2,4 bilhões em 2021. “Mantido esse ritmo, ultrapassaremos em 2022 a marca de US$ 2,5 bilhões de déficit na balança comercial”.

Entre os segmentos da economia consumidores de peças plásticas, o dirigente destaca o de embalagens. “Ele apresentou robusto crescimento no primeiro semestre de 2021, por causa do desbalanceamento de estoques do mercado.

No segundo semestre, houve retração do crescimento, em alguns casos aos níveis pré-pandemia”. Em tempo: a Associação Brasileira de Embalagens (Abre) só vai divulgar os resultados relativos ao ano passado em março e não se pronunciou sobre as expectativas do setor para 2022.

Os resultados decepcionantes dos últimos dois anos trouxeram consequências desagradáveis ao setor de transformação. Um deles atinge a necessidade de implementação de tecnologias habilitadoras para a indústria 4.0, vista como essencial para que as empresas do setor se mantenham competitivas.

De acordo com Coelho, no início de 2021 até houve melhora na expectativa dos empresários em aumentar seus investimentos. Porém, com a retração do desempenho e das expectativas de vendas e a forte alta nos custos de matérias-primas desde 2020, o setor foi ficando com margens cada vez mais reduzidas, o que comprometeu os planos antes estabelecidos.

“Hoje, de acordo com nossas sondagens, a expectativa do empresariado é negativa no quesito investimentos”.

Muro de arrimo – O desempenho de alguns dos setores que mais consomem peças plásticas no país ajuda a estimar como será o ano para o setor. O segmento de construção civil, a despeito das dificuldades previstas, promete ser forte como um muro de arrimo.

A expectativa é de crescer 2%, índice bastante superior às projeções de evolução do PIB do país feitas por instituições econômicas para esse ano, todas inferiores a 1%. A previsão é do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP).

O número é significativo se levarmos em conta que no ano passado o setor cresceu 8%. Em 2020 houve recuo de 2,5% no desempenho do setor quando comparado ao ano anterior.

Odair Senra, presidente do sindicato, reconhece que o ano será marcado por turbulências tanto do ponto de vista econômico quanto político. Existem hoje vários fatores negativos, como queda de renda real dos consumidores, elevação das taxas de juros, maior percepção de risco e incerteza provocada pela realização das eleições.

Algumas características do setor, no entanto, contrabalançam esse cenário. Em tempos incertos, é tradicional a prática da compra de imóveis como ativos seguros. Estão previstos investimentos privados em infraestrutura e em anos eleitorais crescem os investimentos públicos.

Senra ressalta que tal cenário precisa ser relativizado.

“Na construção civil, o momento atual muitas vezes é fruto de negócios gerados em 2019 ou 2020, quando havia outra conjuntura. O que ocorrerá esse ano deve provocar reflexos mais fortes lá na frente”, explica.

Ele informa que as empresas do setor contam com contratos que permitem a manutenção de um bom nível de atividades durante o ano.

Um problema atual que incomoda o setor é a elevação significativa dos custos de matérias-primas. No caso particular da indústria do plástico, o aumento das resinas, em especial do PVC, muito utilizada, pesou bastante.

“O plástico é derivado do petróleo, que no ano passado teve preço que saltou de US$ 50 para mais de US$ 80 por barril. Esse aumento veio acompanhado da desvalorização do real, o que desorganizou toda a cadeia produtiva”.

Velocidade reduzida – O segmento de autopeças, com importante participação no consumo de peças plásticas transformadas, tem expectativa de recuperação moderada.

De acordo com Dan Ioschpe, presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), a expectativa é de fechar 2022 com faturamento nominal da ordem de R$ 166 bilhões, com crescimento de 4,8% em relação aos resultados do ano passado.

Transformação - Indústria local deve adotar conceito 4.0 ©QD Foto: iStockPhoto “A evolução da Covid-19 ainda dificulta as projeções no Brasil e no mundo. Espera-se um ano mais favorável no lado da oferta e mais desafiador no lado da demanda, por conta dos efeitos da inflação elevada e dos juros na atividade econômica”.

Os indicadores do Sindipeças mostram que houve crescimento no faturamento nominal de 25,2% em 2021 sobre o ano anterior. Em 2020 houve recuo de 17,5% no faturamento nominal.

Os dados de 2021 são ainda estimados e serão revistos em breve. “A inflação acentuada e a desvalorização do real resultam em valores nominais faturados expressivos. Em termos reais ainda estamos aquém do que produzimos e comercializamos em 2019”.

A produção de autopeças é 62,1% dirigida para as montadoras, sendo o restante direcionado para os mercados de reposição (18,2%), exportação (15,4%) e transações intrassetoriais (4,3%). Os números mostram a importância das montadoras para o setor.

Essas estimam manter a recuperação moderada das vendas iniciada no ano passado, depois do resultado desastroso verificado em 2020.

“Apesar das turbulências econômicas e do ano eleitoral, apostamos numa recuperação de todos os indicadores da indústria, que poderiam ser ainda melhores se houvesse um ambiente de negócios mais favorável e uma reestruturação tributária sobre os produtos industrializados”, avalia Luiz Carlos Moraes, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

De acordo com dados da associação, para 2022 a expectativa é de aumento de 9,4% no número de unidades produzidas, que deve atingir 2,46 milhões de automóveis, caminhões e veículos comerciais leves. A capacidade de produção nacional é de 4,7 milhões de unidades. A indústria automobilística havia crescido11,6% em 2021 ante o ano interior. Em 2020 foi registrada queda de 31,6% no número de veículos produzidos em comparação a 2019.

A despeito do cenário econômico desfavorável, os resultados poderiam ser melhores, não fosse a crise global de falta de componentes eletrônicos. “A escassez de semicondutores provocou diversas paralisações de fábricas ao longo do ano, levando a uma perda estimada na produção de 300 mil veículos”, informa Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea. Para este ano, a previsão ainda é de restrições na oferta, mas em grau inferior ao de 2021.

Alta voltagem – A indústria eletroeletrônica se mostra otimista. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o setor espera um crescimento real (descontada a inflação) de 2% no faturamento, que este ano deve alcançar R$ 233,3 bilhões.

O mesmo percentual de crescimento é esperado na produção física. Sondagem realizada pela associação mostra que 65% dos empresários do setor têm expectativas favoráveis em relação ao desempenho em 2022. Para 29% as vendas devem se manter estáveis e apenas 6% esperam uma queda.

O levantamento também identificou que 74% das empresas pretendem ampliar os investimentos durante o ano.

Em 2021, o faturamento foi de R$ 214,2 bilhões, com crescimento real de 7% na comparação com 2020. A produção industrial cresceu 3%. O resultado também é 6% maior do que o obtido em 2019.

“Apesar das dificuldades remanescentes da pandemia e das instabilidades do cenário econômico, conseguimos crescimento no faturamento e na produção”, afirma o presidente executivo da Abinee, Humberto Barbato.

Além dos problemas que atingem a grande maioria das indústrias, o setor eletroeletrônico sofreu com dificuldades na aquisição de matérias-primas e componentes, em especial semicondutores.

Nesse sentido, o presidente da Abinee comemora a promulgação da Lei 14.302/2022, voltada para atrair investimentos para a produção semicondutores no país.

Em 2021, foram importados mais de 80 milhões de módulos e a produção nacional foi de apenas 1 milhão. “Com o estímulo, espera-se produzir mais de 5 milhões de módulos no país já neste ano”.

Alegria de criança – Um segmento da indústria nacional está deixando os empresários participantes alegres como crianças. É o de brinquedos, também importante usuário de peças plásticas.

Ele apresentou crescimento de 14% em 2021, resultado ainda mais significativo quando levamos em consideração que em 2020 ele já havia crescido nada menos do que 21%. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Brinquedos (Abrinq).

Synesio Costa, presidente da associação, credita os ótimos resultados a problemas vividos pelos importadores. Um deles tem sido a crise de logística que o mundo vem enfrentando, com falta de navios e de containers para transportar mercadorias.

Transformação - Indústria local deve adotar conceito 4.0 ©QD Foto: iStockPhoto “O navio Ever Given, que durante longos dias ficou encalhado no Canal de Suez, agravou a situação”, ressalta. Houve também a valorização do dólar e a pandemia fez com que a China proibisse durante vários períodos o funcionamento das fábricas em período integral.

“A indústria brasileira tem capacidade instalada e estava preparada para ocupar esse espaço. Nos últimos dois anos lançamos de mil a 1,2 mil novos brinquedos para encantar as crianças”, explica Costa. A expectativa é de sequência na evolução positiva dos negócios.

“O mercado brasileiro é muito grande e os fatores que dificultam a importação devem persistir”. De quebra, o presidente acredita no sucesso da Abrin, maior evento do setor na América Latina, previsto parra ser realizado em março na cidade de São Paulo.

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