IYC 2011 – Trabalho Químico – Economia em expansão melhora salários, mas impõe novos desafios

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Trabalho Químico – Economia em expansão melhora salários, mas impõe novos desafios

Os bons ventos que animam a economia nacional também sopram a favor das carreiras químicas no Brasil. Tanto o número de postos de trabalho nos últimos dez anos quanto a remuneração percebida pelos profissionais aumentaram. A expectativa para o futuro é de dias ainda melhores. O desenvolvimento dos campos de óleo e gás da região do pré-sal absorverá grandes contingentes de pessoal especializado, em parte trabalhando hoje na indústria química, provocando um considerável impacto.

Ao mesmo tempo, os profissionais que atuam em atividades químicas precisam se manter em constante atualização. Os investimentos realizados em controle e automação de processos reduziram o número de trabalhadores nas fábricas. No entanto, estas passaram a contratar profissionais de qualificação mais alta, capazes de operar sofisticados sistemas computadorizados e de interpretar a grande quantidade de informações coletadas no campo pelos instrumentos avançados.

“O perfil dos trabalhadores do ramo químico e farmacêutico no estado de São Paulo revela uma categoria altamente escolarizada e jovem”, avaliou Paulo Lage, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Similares do Grande ABC, valendo-se de estudos realizados pela Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico da CUT no estado de São Paulo (Fetquim). Os números, reunidos pelo Dieese com base nos dados oficiais de 2008 da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e do Emprego, indicam que 42,5% do total de profissionais do ramo, em ambos os sexos, contavam com ensino médio completo. Do total, 16,6% dos homens e 23,4% das mulheres da categoria têm o diploma de nível superior. A média geral de 18,9% de formação superior no estado supera em muito a média nacional do ramo químico, calculada em 8,3%. Cerca de 70% da categoria paulista tinha menos de 39 anos de idade em 2008, sendo 36,6% com menos de 29 anos.

A base da Fetquim contava, nesse estudo, com 172.210 profissionais (32% de mulheres), correspondentes a 56,4% do total da categoria no estado e a 27,9% no Brasil, este com 617.499 profissionais (30% mulheres). A base inclui todo o pessoal que atua na fabricação de produtos químicos, farmoquímicos, farmacêuticos, de artefatos de borracha e de material plástico.

Com dados da Rais de dezembro de 2009, Lage aponta a alta concentração da indústria química nacional na Região Sudeste, especialmente no estado de São Paulo. Para um total nacional de 669.062 trabalhadores, atuavam em território paulista 325.169 profissionais, com remuneração média mensal de R$ 2.497,82, a maior da indústria. Apenas o Distrito Federal ostenta média mensal melhor: R$ 2.671,55, porém grande parte desses profissionais desenvolve atividades governamentais.

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Tabela 1: Piso da Categoria - Clique para ampliar

A consequência dessa concentração química está na relevância dos dissídios do estado como orientadores para os demais. A categoria renegocia todos os anos sua remuneração e condições laborais em abril (setor farmacêutico) e novembro (demais segmentos). “Desde 2004, temos obtido sucessivos aumentos salariais e do piso da categoria, sempre acima do INPC e do salário mínimo oficial, e também da participação nos lucros e resultados (PLR)”, afirmou Lage. “Aliás, o ramo químico foi o pioneiro no Brasil no estabelecimento de programas de remuneração variável associados a metas de produção e lucratividade, seja por empresa ou por convenção coletiva.”

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Tabela 2: Ganhos Salariais Químicos - Clique para ampliar

Os avanços salariais da categoria estadual acumularam ganho real de 11,4% entre 2005 e 2010. “Isso nos permitiu compensar as perdas dos dez anos anteriores”, avaliou o presidente do sindicato. No mesmo período, o piso salarial aumentou 18,6%, chegando a R$ 890,00 em dezembro de 2010 – para um salário mínimo nacional de R$ 510,00. Segundo o presidente, o sindicato tem negociado aumentos maiores na base do que no topo salarial.

O estudo da Fetquim, porém, aponta que a massa de remuneração na base da categoria permaneceu inalterada entre janeiro de 2009 e março de 2010. A entidade sindical registrou um índice de rotatividade de 32,7% nas indústrias químicas e farmacêuticas nesse período. Os 56.416 trabalhadores admitidos na região de abrangência ingressaram com salários iguais a 78,1% do valor recebido pelos profissionais desligados. Lage considera esse dado como uma expressão isolada daquele período, ainda marcado por efeitos da crise no exterior. “Algumas empresas ainda têm essa mentalidade, mas a rotatividade atual é do bem; o profissional é que se demite para ganhar mais em outro emprego”, comentou.

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Tabela 3: Aumento da PLR - Clique para ampliar

O sindicato dos químicos do ABC, embora abrigue o polo petroquímico paulista, tem como o maior empregador da categoria a transformação dos plásticos. “Na maioria, são pequenas e médias empresas que sofrem com o câmbio, com a concorrência chinesa e com a pressão da concentração petroquímica nacional; mas mesmo essas empresas querem contar com profissionais com diploma”, comentou Lage. “E o próprio trabalhador quer se qualificar porque ele poderá ganhar salário maior, fora a melhoria da autoestima.”

Atento ao anseio de seus filiados, o sindicato oferece cursos de aprimoramento e formação em parceria com as escolas do Senai instaladas na região. “Um dos trabalhos mais importantes que estamos fazendo é a qualificação dos portadores de necessidades especiais, até para suprir as vagas abertas pelo regime de cotas imposto pela legislação”, explicou.

Química e Derivados, Paulo Lage, Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Similares do Grande ABC
Lage: químicos devem assumir um papel mais amplo na comunidade

Evolução acentuada – O levantamento realizado pelo Conselho Regional de Química da 4ª Região (São Paulo) abrange um leque de segmentos industriais tão amplo quanto os estudos do sindicato laboral, mas é mais específico em relação aos profissionais da química de nível médio e superior. Apesar da base mais restrita, a tendência do mercado de trabalho é igualmente positiva. Entre 2000 e 2010, o número desses especialistas no estado saltou de 40.578 para 68.040, ou seja, um incremento de 67,67%.

Os números do CRQ-IV foram obtidos pelos registros profissionais e das empresas, confirmados pelas fiscalizações empreendidas pelo órgão. O setor químico e petroquímico permaneceu na liderança durante todo o período e empregou 14.287 trabalhadores em 2010, 59,57% a mais que os 8.953 de 2000. A maior variação foi oferecida pelo setor sucroalcooleiro, com 329,42% de evolução, partindo de 1.176 contratados para 5.050, em 2010.

“Esse crescimento foi obtido mediante um trabalho de formação e qualificação de pessoal promovido pelo CRQ no norte do estado, em parceria com o governo estadual e dos municípios envolvidos, contando com a ajuda do Centro Paula Souza”, explicou Manlio de Augustinis, presidente do CRQ-IV. Ele comentou que esse segmento, no passado, usava muitos operadores leigos, por falta de instituições de ensino que os formassem. Detectado o problema durante as fiscalizações, foi preciso obter apoio do Centro Paula Souza para qualificar esse pessoal, usando instalações cedidas pelas municipalidades. “Hoje esse setor é o segundo maior empregador químico do estado”, afirmou.

Augustinis revela preocupação com os efeitos dos planos da Petrobras para a exploração do pré-sal. “A própria estatal acredita que faltarão profissionais da área química para tantos empreendimentos”, comentou. Para piorar, segundo o presidente do CRQ-IV, os jovens estão buscando menos as profissões químicas. Isso exigirá um esforço para atrair esse público para os cursos da área, tanto de nível médio como superior, além de investir para melhorar a imagem pública do setor químico como um todo.

No espírito do Ano Internacional da Química, o órgão vai ampliar sua divulgação sobre o trabalho dos profissionais da química além do seu período tradicional. “Todos os anos fazemos isso apenas no mês de junho, por ocasião do dia do profissional químico, mas em 2011 vamos iniciar esse trabalho mais cedo e estendê-lo por todo o ano”, explicou.

O plano prevê realizar palestras em escolas públicas e privadas dos níveis fundamental e médio sobre a química e seus benefícios para a sociedade, com o apoio da Abiquim e da Sociedade Brasileira de Química (SBQ). “O Instituto de Química da USP está preparando um formato adequado para essas palestras, enquanto buscamos uma recomendação da Secretaria Estadual de Educação para facilitar o contato com as escolas”, explicou. Além disso, o CRQ-IV vai ocupar espaços publicitários no Metrô paulistano e também em painéis ao longo das rodovias do estado para chamar a atenção para a atividade química.

Química e Derivados, Manlio de Augustinis, CRQ-IV
Augustinis: CRQ intensifica ações para atrair jovens para a química

Augustinis credita parcialmente ao péssimo desenvolvimento da economia nacional durante os anos 90 a baixa atratividade das carreiras químicas entre os jovens. “Antes de 1990, as indústrias iam buscar novos profissionais químicos até mesmo nas suas casas, tamanha era a falta de gente qualificada”, afirmou. Com a crise da década de 90, o desemprego químico aumentou, desmotivando novos ingressos na carreira. “A situação mudou, estamos em crescimento econômico acelerado e o setor está reagindo, apesar do aumento significativo das importações de produtos”, avaliou.

O presidente do CRQ-IV estima entre 4 mil e 5 mil o número de profissionais da química de nível médio e superior contratados anualmente pelas indústrias dos vários segmentos abrangidos pelo órgão. “Atualmente ocorrem tanto a renovação dos quadros quanto a sua ampliação”, explicou.

Ele tem verificado um crescente aumento nas exigências de qualificação para a contratação de técnicos químicos. “Oferecemos minicursos de um dia de treinamento desde 2006, sem nenhum custo para os interessados, beneficiando mais os de menor poder aquisitivo, que trabalham em pequenas e médias empresas, para as quais é mais difícil formar seu pessoal”, comentou. Em 2010, foram promovidos 23 minicursos pelo CRQ-IV.

Há preocupações também quanto à qualidade dos cursos oferecidos na área química, tanto os de nível médio quanto superior. “Instituímos em 2007 um selo de qualidade para cursos técnicos, de aplicação voluntária, mas só emitimos até agora quatro deles”, informou. Em 2010, o CRQ firmou convênio com o Ministério da Educação para que o órgão participasse das avaliações de cursos superiores existentes e do lançamento de novos. “Até agora só fomos chamados para uma consulta, sobre um curso em atividade”, lamentou Augustinis.

A fiscalização empreendida pelo órgão tem caráter de conscientização, segundo o presidente. Porém, em casos de acidentes graves ou denúncias de problemas sérios, o comitê de ética profissional investiga a conduta dos profissionais da química envolvidos e pode aplicar punições que vão da advertência à suspensão por um ano. “É o máximo previsto na lei, que deveria ser revista para admitir a expulsão, especialmente nos casos de negligência ou erro grave de conduta profissional com consequências relevantes”, comentou.

Química e Derivados - Tabela - IYC 2011 - Trabalho Químico - Remuneração Média
Tabela 4: Remuneração média dos trabalhadores químicos - Clique para ampliar

Seleção rigorosa – Maior empregadora petroquímica no Brasil, a Braskem acompanha com atenção as movimentações nas áreas de formação profissional e no mercado de trabalho. “Estamos em fase de crescimento e precisamos formar mais pessoas, além da reposição de quadros que completaram o tempo de serviço para aposentadoria”, explicou Patrícia Maia, gerente de desenvolvimento da cultura da Braskem.

Ela informou que 70% dos quase 6,8 mil profissionais, do chão de fábrica à diretoria, atuantes na companhia pertencem às carreiras químicas de nível médio e superior. A maioria do contingente é representada pelos operadores de plantas, com participação de 45% do total, seguidos pelos engenheiros, com 20%.

A Braskem mantém um processo seletivo rigoroso para a admissão de novos profissionais, especialmente os de nível superior. Para estes, a formação acadêmica em escolas de primeira linha é um pré-requisito. “Procuramos encontrar candidatos que possuam valores compatíveis com os da Braskem, ou seja, pessoas criativas, ambiciosas, capazes de operar em grupo e que tenham uma personalidade mais construtiva, positiva”, comentou Patrícia. A formação escolar não é o ponto mais analisado, mas as experiências de vida e participação em iniciativas sociais e programas de formação.

Esse sistema funciona bem para os iniciantes na área. “Quando não temos competências formadas em casa para assumir posições mais elevadas dentro da companhia, precisamos buscar profissionais no mercado”, informou. Durante os próximos três ou quatro anos, segundo Patrícia, a Braskem vai contratar cerca de 400 cientistas (mestres ou doutores) com alta qualificação nas áreas de biomassa, biotecnologia e química sustentável. Como não há tantos especialistas disponíveis no Brasil, a companhia poderá contratar parte deles no exterior, especialmente repatriando brasileiros que se destacam lá fora. “O país voltou a ser atrativo, com as empresas crescendo muito e com salários elevados em relação ao exterior, em parte por causa do real forte”, considerou.

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Patrícia: empresas buscam escolher profissionais cada vez mais cedo

Toda essa animação enfrentará uma possível escassez de profissionais especializados. “A química sofre como as engenharias em geral; como o Brasil ficou décadas sem grandes investimentos, os formados nesses tempos migraram para outras atividades econômicas, como o setor financeiro e a tecnologia da informação”, explicou. Atualmente, o país forma anualmente cerca de um terço dos engenheiros de que precisa para atender às exigências dos novos projetos industriais. “Em 2007, foram formados 40 mil engenheiros, isso é pouco, ainda mais que boa parte não fica no ramo”, informou.

Nesse quadro, a competição pelos jovens em fase de formação está recrudescendo. “As empresas tendem a escolher cada vez mais cedo os seus profissionais, principalmente por meio dos programas de estágio”, disse. Segundo Patrícia, a Braskem recruta estagiários que tenham pelo menos ametade do curso superior concluído. Em 2011, a companhia contratou 120 novos estagiários, dos quais 70% cursam engenharia. “Nossa média histórica é de contratar definitivamente 10% dos estagiários”, afirmou.

Além disso, a companhia mantém um programa de trainees, recém-formados que desenvolvem atividades em vários departamentos durante um prazo de quase dois anos. Em 2011, pela primeira vez a Braskem dividiu o programa em duas modalidades, industrial e negócios, buscando diferentes vocações nos selecionados. De um total de 1.280 inscritos, foram escolhidos 27 trainees em 2011, 16 para a área industrial e onze para negócios. “Eles passarão por todas as divisões, mas ficarão mais tempo nas áreas para as quais foram selecionados”, explicou. Patrícia disse que a operação é considerada o coração da companhia e, ao contrário de outras empresas do setor, oferece remuneração melhor que a de negócios.

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Tabela 5: Onde Cresceu o Emprego Químico - Clique para ampliar

Apesar da elevada procura pelas vagas de trainees, a Braskem está reforçando a aproximação com universidades. “Em 2011, vamos aumentar as visitas aos vários cursos de química e engenharia química no Brasil e participar de encontros e congressos”, comentou Patrícia. Ela afirmou que, em algumas universidades brasileiras, a engenharia química passou a figurar entre os cursos mais disputados.

Pela sua experiência, Patrícia nega qualquer dificuldade ou choque cultural com as gerações mais novas de profissionais. “As pesquisas mostram que os jovens de hoje dão mais valor para a oportunidade de crescimento pessoal e profissional, ao bom ambiente de trabalho e à boa imagem da empresa do que para o salário”, disse. “A Braskem acredita em meritocracia, atua com delegação de poderes e autonomia para os gestores, ou seja, proporciona desafios para a equipe e isso é uma forte motivação para os jovens.”

O baixo índice de rotatividade dos funcionários mais jovens (na faixa da chamada geração Y), calculada em 0,6% na Braskem, atesta o poder de motivação. Além disso, Patrícia revela que a taxa de retenção de trainees após a conclusão do programa chega a 80%. “Os jovens que se

Química e Derivados - Tabela - IYC 2011 - Trabalho Químico - Piso da Categoria - Distribuição dos Profissionais
Tabela 5: Distribuição dos Profissionais - Clique para ampliar

apresentam para disputar as vagas são muito bons, muitos possuem mais de uma experiência no exterior, trabalho voluntário e domínio de duas ou mais línguas estrangeiras”, salientou.

A política da companhia prevê o monitoramento constante dos seus profissionais, independentemente da sua faixa etária. “Fazemos uma avaliação anual para a sucessão de pessoas em todos os níveis, para detectar a necessidade de promover ou movimentar alguns indivíduos na estrutura”, comentou Patrícia.

Em um ranking de “empresa dos sonhos para se trabalhar”, a Braskem ocupou a 12ª posição em 2009, resultado muito melhor que o 32º lugar alcançado em 2008. “Trabalhamos muito bem a imagem da companhia entre os estudantes e o público em geral, além do forte ritmo de crescimento que tivemos nos últimos anos, também um fator de atração”, explicou.

A imagem negativa da indústria química que ainda se revela na população pode ser atribuída à baixa informação dos brasileiros. “A Braskem, assim como todo o setor, tenta mostrar a importância da química e dos plásticos para a vida de todos, mostramos a importância do descarte correto e da reciclagem, e notamos que os jovens são mais conscientes quanto ao uso adequado dos materiais e ao consumo sustentável”, comentou.

A remuneração dos profissionais da química tende a se elevar acima dos índices de inflação, principalmente pela disputa acirrada por esse pessoal. Segundo Patrícia, atualmente na Braskem o salário inicial de um químico ou engenheiro júnior é de R$ 5 mil mensais, enquanto um técnico júnior recebe R$ 3.300,00. “Esses valores não incluem a PLR, que adicionou no ano passado quatro e meio salários para cada um”, enfatizou.

O processo de concentração empresarial ocorrido na petroquímica brasileira nos últimos anos, associado ao investimento em sistemas mais avançados de automação e controle de processos, realmente reduziu os grupos por turno. “Porém, os trabalhadores que ficaram são mais qualificados e remunerados”, comentou Patrícia.

Como os polos petroquímicos foram implantados no Brasil nas décadas de 1970 e 1980, há um grande número de profissionais pioneiros que completou os 35 anos de serviço, com direito a aposentadoria. “Criamos um programa de preparação para a aposentadoria, o Projeto Horizontes”, explicou. Nesse projeto, durante um ano, o profissional que pretende se retirar forma um substituto e recebe, com a sua família, orientação psicológica e financeira para a nova fase da vida. O projeto começou em 2010, com onze adesões. Para 2011, já são 34 os inscritos. “A participação é voluntária”, salientou.

“Estamos acompanhando o caso das aposentadorias da Braskem com atenção”, informou Paulo Lage, presidente do sindicato dos químicos do ABC, justificando a preocupação pelo elevado número de trabalhadores nessa situação.

Em geral, a situação dos petroquímicos não constitui problema para o sindicato. “Os petroquímicos são a elite da categoria, são altamente preparados e, às vezes, é difícil falar com eles”, comentou Lage. Há um grande número de outros trabalhadores com demandas mais urgentes, principalmente de saúde e segurança no trabalho. Essa disparidade gera algumas divergências na definição do piso da categoria, aspecto menos relevante para os petroquímicos, que ganham bem mais que isso. “No caso deles, os adicionais quase duplicam o salário, fora os benefícios”, comentou. O segmento farmacêutico é relativamente pequeno na base do ABC, porém a sua remuneração é muito satisfatória.

A consolidação de empresas petroquímicas é vista como um risco para a categoria profissional, segundo o presidente do sindicato. “Quando o Brasil tinha os três polos, havia um ambiente de concorrência efetiva, com mais oportunidades para os trabalhadores”, analisou. Além dos cortes de pessoal após as sucessivas incorporações, Lage teme pelo futuro do polo paulista. “Nosso polo está defasado em capacidade e tecnologia de produção; será que ele sobreviverá a uma eventual entrada da Braskem no Comperj?”

Com maior número de filiados atuando na transformação de plásticos, Lage aponta uma questão adicional. O gigantismo da Braskem a afastou dos pequenos transformadores, que agora só podem se abastecer nos distribuidores de resinas, pagando mais caro por elas. “Como é que vamos brigar com os produtos chineses desse jeito, com a Braskem só vendendo carreta fechada?”, indagou.

Além de presidir o sindicato, La­ge é vice-presidente da Agência de Desenvolvimento da Região do ABC, entidade que reúne toda a cadeia produtiva para apoiar o avanço das pequenas e médias empresas locais. “Queremos aumentar os Arranjos Produtivos Locais, os APLs, para aproveitar oportunidades como as do pré-sal”, explicou. Ele critica a atuação dos municípios, que estão criando estruturas isoladas para atender a estatal. “Estão dormindo de touca, porque eles ainda serão muito pequenos, é preciso atuar de forma regional”, aconselhou.

O sindicato também tem apoiado indústrias a se instalarem na região, chegando a procurar terrenos adequados para elas. “Diadema hoje está totalmente ocupada, mas Mauá e São Bernardo do Campo ainda dispõem de espaços livres”, comentou. Lage criticou a especulação imobiliária que está encarecendo demais os terrenos, um motivo adicional para afastar novas indústrias da região, fato que poderá custar muitos postos de trabalho.

“Mais que o preço dos terrenos, a guerra fiscal e as pressões ambientais poderão levar a uma dispersão das indústrias químicas e dos seus empregos para longe de São Paulo”, aduziu o presidente do CRQ-IV, Manlio de Augustinis.

Desafios futuros – Ficou no passado o tempo em que os profissionais da química só precisavam conhecer a própria ciência e seus processos industriais. Enquanto a globalização econômica venceu as fronteiras entre países, o avanço do conhecimento humano derrubou os limites estabelecidos entre disciplinas e carreiras, impondo a todos os campos de atuação uma visão cada vez mais ampla e interdisciplinar.

“Há um apelo muito grande da revolução tecnológica, da bioengenharia e da sustentabilidade”, apontou Patrícia Maia, da Braskem. Para o futuro, ela vê a necessidade de aproximar mais as atividades químicas das biológicas, com o objetivo de ampliar os campos de exploração científica e tecnológica.

“Além do pré-sal, o Brasil está avançando na química verde, biocombustíveis e no uso do gás natural, que também exigirão mais profissionais químicos com formação adequada”, avaliou Manlio de Augustinis, do CRQ-IV. Ele também acompanha os avanços de novos campos de atuação dos químicos, por exemplo, na esteira da nanotecnologia, citando trabalhos já realizados nas universidades do país.

Apesar da amplitude dos conhecimentos requeridos, Augustinis entende a interdisciplinaridade das atividades químicas como uma característica inerente dessa ciência, que está presente em áreas tão diversas como o tratamento de superfícies e a produção de ingredientes farmacêuticos. “Fui durante anos professor universitário da cadeira de processos químicos e posso dizer que esse campo é tão vasto que ninguém pode se gabar de conhecê-lo totalmente”, afirmou. Há a necessidade de contar com a colaboração de profissionais de outras ciências, mas a atividade química permanece sendo fundamental.

Novos descobrimentos representam novos desafios e ameaças aos profissionais do ramo químico. “Precisamos estar preparados para lidar com essas novas tecnologias, com as doenças profissionais e danos ambientais delas decorrentes”, afirmou Paulo Lage, do sindicato dos químicos do ABC. No segundo semestre deste ano, o sindicato promoverá um seminário sobre a Indústria Química em 2020. “A ideia é discutir que tipo de indústria queremos ter no futuro, dentro das metas estabelecidas no pacto de Johanesburgo, visando produtos mais seguros e saudáveis”, comentou Nilton Freitas, assessor técnico de políticas públicas e sociais do sindicato.

Química e Derivados, Nilton Freitas, Sindicato dos Químicos do ABC, produtos mais seguros e saudáveis
Freitas: química do futuro deve ter produtos mais seguros e saudáveis

O sindicato tem tradição em enfrentar problemas de saúde e meio ambiente, como a presença de benzeno no polo petroquímico, de mercúrio nas células eletrolíticas da Solvay (substituídas por processos menos agressivos), e do chumbo na Ferro Enamel. “Também buscamos formas inovadoras de relacionamento com as empresas, instituindo jornadas alternativas de trabalho, além de aproximar as Cipas e as comissões de fábrica para prevenir problemas mais sérios de segurança”, salientou Lage. O sindicato mantém uma equipe treinada para visitar as fábricas e verificar se as caldeiras estão operando dentro dos requisitos da norma NR-13, além de sugerir alternativas técnicas para melhorar o ambiente de trabalho por meio de sistemas de exaustão e ventilação, por exemplo.

Uma grande preocupação da região consiste na falta de informação a respeito dos processos e produtos existentes em algumas empresas, geralmente instaladas próximas a residências. “Depois do acidente da Dial Química, uma distribuidora irregular de solventes em Diadema que pegou fogo no ano passado, conseguimos apresentar um projeto de lei municipal para criar um canal de denúncia da população no Conselho de Segurança (Conseg) local, ampliando o conceito de crime ambiental”, afirmou Lage. Com essa lei, qualquer cidadão poderá requerer informação sobre o grau de risco a que está submetido pela proximidade de uma empresa, além de solicitar uma vistoria nela a qualquer tempo.

Essa pletora de funções amplia a importância do profissional químico e do seu papel na comunidade na qual vive e labora. A tendência, portanto, é ir além dos limites das fábricas, assumindo uma consciência mais abrangente, visando um mundo melhor, como ressalta o moto adotado pela Sociedade Brasileira de Química para o AIQ 2011.

 

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