Dióxido de titânio – TiO2 – Setor aguarda reestruturação

O mercado global de dióxido de titânio (TiO2) aguarda uma profunda reestruturação.

O comportamento descasado de oferta e demanda conduziu a uma situação de preços baixos, insuficientes para justificar novos investimentos produtivos ou para incrementar a qualidade e segurança das operações.

Alguns produtores de alcance mundial já começaram a fechar unidades menos eficientes, buscando aumentar sua competitividade. Mas esse movimento ainda é tímido para o tamanho do desafio a ser enfrentar.

dióxido de titânio - TiO2 - Setor aguarda reestruturação
dióxido de titânio – TiO2 – Setor aguarda reestruturação

A produção do principal agente opacificante e pigmento branco resulta de um longo encadeamento de processos, desde a mineração até as etapas de acabamento dos produtos finais mais sofisticados. Dependendo do caso, a atividade apresenta elevado potencial de gerar resíduos poluentes, obrigando a adotar medidas de contenção, tratamento e disposição avançadas, que incidem no custo de produção, inevitavelmente.

No passado, alguns países, a exemplo da China, adotaram a política de ignorar os efeitos ambientais para incentivar a produção de pigmentos, entre eles o TiO2, mas já mudaram de postura e passaram a adotar padrões ambientais mais próximos dos exigidos nos principais mercados.

“A China, que desequilibrou o mercado durante a década de 1990 com a abertura de um grande número de fábricas, também está fechando unidades menores e ineficientes”, comentou Ciro Mattos Marino, diretor comercial da Cristal Pigmentos, empresa ligada ao grupo saudita Cristal, de atuação global.

Como informou, os produtores chineses também estão operando no vermelho, justificando uma reorganização.

Como a China atualmente abriga 30% da capacidade mundial de produção do pigmento, ela deverá apresentar movimentos relevantes de reestruturação. “Muitas empresas internacionais montaram e operam unidades nesse país e conhecem a sua realidade”, disse.

Além da questão ambiental, Marino aponta que a produção de TiO2 é voraz consumidora e água e eletricidade, ambas escassas em território chinês, cujas autoridades estão impondo severas restrições de consumo.

Os produtores internacionais vão, aos poucos, promovendo adaptações. Além de fechar unidades menos econômicas, as companhias buscam tornar suas operações mais racionais, especializando unidades em poucos grades, de modo a especializar unidades, evitando paradas e perdas. Mesmo assim, ainda se formaram estoques elevados de produtos.

“Até o ano passado, os estoques em poder dos fabricantes estava muito alto e isso provocou uma derrubada de preços internacionais”, explicou Marino.

“Agora, os estoques estão mais curtos, porém a demanda cresceu muito pouco e não está sustentando preços mais elevados.”

Outra medida adotada pela indústria global foi investir em produtos mais sofisticados, com maior valor e menor concorrência do que os grades commoditizados.

“São produtos que oferecem alternativas tecnológicas para os mercados aos quais se destinam, podem aumentar o poder de cobertura, a durabilidade e outas características das tintas, por exemplo”, disse.

A Cristal passou a se dedicar ao desenvolvimento de produtos especiais, indicados para a produção de catalisadores e revestimentos antipoluentes.

“São pigmentos que, quando aplicados a telhados ou fachadas de prédios, conseguem catalisar a degradação de hidrocarbonetos presentes no ar das grandes cidades, transformando-os em substâncias menos agressivas à saúde humana e ao meio ambiente”, explicou.

A inovação existe, mas será preciso aguardar a sua assimilação pelo mercado.

Brasil sofrendo – Dióxido de titânio

O mercado brasileiro sofre em dobro.

Por aqui, a retração de demanda é muito maior que a verificada no agregado global. É notória a péssima situação da economia local, dispensando maiores considerações.

“Os principais consumidores de TiO2 são a indústria automobilística, a construção civil e os plásticos, todos eles em retração profunda no país”, apontou Marino. Nem mesmo a repintura das habitações, o chamado consumo formiga, está sendo mantido, refletindo o baixo poder de compra da população.

A produção de tintas, segmento que sempre se mostrou resistente às crises brasileiras, fechou 2015 com redução de 7% no volume fabricado. Como as tintas são as maiores usuárias do TiO2, o impacto na venda do pigmento foi muito forte.

Química e Derivados,
Marino: demanda nacional pelo pigmento teve queda acentuada

A Cristal é a única fabricante nacional de dióxido de titânio, com uma unidade em Camçari-BA capaz de produzir 60 mil t/ano, mas dificilmente esse volume é alcançado.

Marino informa que o mercado nacional por TiO2 era de 180 mil t/ano até 2014.

“Em 2015, verificamos uma redução de demanda para 150 mil t, e essa quantidade deve cair em 2016 para perto de 140 mil t, caso a situação atual permaneça estável”, salientou.

A importação do pigmento é necessária para suprir a demanda interna, e a Abrafati capitaneou nos últimos anos pleitos para redução de alíquota do imposto de importação de 20% para 2%, com sucesso até o ano passado.

O último acordo firmado com o governo federal durou de maio de 2014 a julho de 2015, e não foi renovado por causa da debilidade financeira da União.

“Esse acordo se limitava a uma cota de 120 mil t/ano, mas acredito que esse volume sequer tenha sido trazido integralmente no último período”, avaliou Marino.

Ele explicou o fato de a importação acusar mais rapidamente os efeitos da crise econômica do que a produção local pela perda de previsibilidade dos importadores quanto ao comportamento do mercado.

“Como as operações internacionais são mais demoradas, a incerteza é muito maior do que comprar do fabricante local”, afirmou. O impacto cambial e de disponibilidade é menor do que nas importações.

Os preços não apresentaram grandes variações, segundo informou, pois a queda nas cotações internacionais chegou a 40% em dólares, mas a desvalorização do real acompanhou esse percentual, anulando-o.

“Olhando uma série histórica, verificamos uma estabilidade dos preços do TiO2 desde 2011 até agora”, apontou.

A produção nacional segue seu ritmo usual, segundo Marino, que identifica alguns problemas a médio prazo.

“Estamos recebendo informações de que a inadimplência na ponta das cadeias de consumo, ou seja, dos clientes dos nossos clientes, está em crescimento e, como reflexo, os bancos começaram a restringir o crédito, piorando a situação”, comentou.

Ele salientou que a construção civil é fortemente dependente de financiamento.

Há alguns anos, a Cristal adotou medidas para reduzir seus custos e racionalizar a atividade desenvolvida no Brasil. Uma das medidas foi reduzir o portfólio de produtos para ampliar a produtividade da planta. “Isso nos fez concentrar a produção nos grades de consumo local, mas nos deixou sem itens exportáveis, embora façamos algumas operações com países vizinhos, aproveitando a facilidade de frete”, explicou.

O grande pesadelo é garantir a competitividade global da planta baiana, obrigada a suportar o famigerado Custo Brasil. “Temos eletricidade e gás natural a preços muito elevados, problemas de infraestrutura em geral, falta de fretes, além de arcar com uma carga tributária excessiva”, lamentou Marino. Em tempos de crise, como despenca a remessa de bens de consumo da região Sudeste para a Nordeste, faltam caminhões para trazer o pigmento de Camaçari para cá, encarecendo o transporte. Pelo menos, o custo da mão de obra caiu, em relação aos demais sítios da companhia.

“A variação cambial nos colocou de volta ao nível de outros países, porque, com o dólar a R$ 1,50 estávamos com a mão de obra mais cara do mundo”, afirmou.

Na atual condição de mercado, Marino identifica que o maior problema dos clientes não é o preço, mas o prazo de pagamento. “O custo do capital de giro no Brasil está muito elevado, por isso os prazos se tornaram tão importantes”, comentou.

“O mercado vai se arrumar, mais cedo ou mais tarde, por enquanto precisamos ter cautela.”

Um Comentário

  1. Aos preços do mercado assim o advinhavam ! Era previsível que chegaríamos aqui , tal como em 2011 chegamos . Crises cíclicas que limpam e fazem acertar a poeira .

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