TiO2 Preços despencam e obrigam produtores a reorganizar a atividade

TiO2 Preços e Mercado: Está longe de ser azul o mercado do dióxido de titânio. Espremidos pelo aumento dos custos dos minérios e da eletricidade, enquanto a demanda mundial se mantém retraída, os produtores do principal pigmento branco e agente opacificante das tintas começam a paralisar fábricas inteiras. Alguns desses fechamentos são definitivos.

Os três maiores segmentos consumidores do dióxido de titânio – tintas, plásticos e papel – acusam os efeitos da crise econômica global, iniciada em setembro de 2008. Antes dela, as vendas eram crescentes, embora a rentabilidade das operações pouco animasse os investidores a pensar em instalar novas fábricas. O cenário de oferta muito justa para uma demanda aquecida motivou a formação de estoques nas cadeias produtivas. O corte abrupto de vendas e de expectativas de negócios para 2009 desencadeou movimento no sentido contrário: a desestocagem.

Química e Derivados, Ciro Marino, Responsável pelos negócios da Millennium Inorganic Chemicals, Tintas e Revestimentos
Ciro Marino: ajustes da operação local foram feitos em 2008

“Desde outubro, a desova de estoques mundiais contribuiu muito para a queda de vendas calculada em 45% do TiO2”, comentou Ciro Marino, responsável pelos negócios da Millennium Inorganic Chemicals, pertencente à Cristal Global, liderada pela saudita Tasnee (66%), com a participação do fundo Gulf Investment, que reúne capitais oriundos de países do Oriente Médio, como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Omã e Kuwait. A compra foi concluída em maio de 2007.

“A demanda brasileira no quarto trimestre de 2008 caiu mais da metade do que era esperado com base no desempenho do primeiro semestre”, aduziu Paulo Vieira, vice-presidente da DuPont Titanium Technologies – América Latina. Ele atribui a queda à retração das vendas de bens de consumo e duráveis, com a contribuição da desestocagem das cadeias consumidoras. “As linhas de tintas, plásticos e papéis encontraram dificuldades para financiar o capital de giro, fato que se somou à incerteza quanto ao comportamento da demanda, agravada pela desvalorização do real em relação ao dólar e ao euro”, disse.

Fernando Antunes, responsável pelas vendas de dióxido de titânio da Huntsman Tioxide na América do Sul, salienta que a indústria do pigmento está sob forte pressão no curto prazo. Para enfrentar a queda de demanda e a elevação dos custos, os produtores adotaram a estratégia de só produzir as quantidades que possam ser absorvidas imediatamente pelo mercado. “Essa situação, se não for revertida, poderá levar a novos fechamentos de unidades produtivas, concentrando a produção nas fábricas mais eficientes”, explicou.

Ainda há alguma esperança no mercado de TiO2. Os maiores consumidores – Estados Unidos e Europa – concentram seu consumo nos meses de primavera e verão, fase que se inicia em março, no Hemisfério Norte. Saliente-se que o inverno deste ano está muito rigoroso, postergando a renovação da pintura das casas. Nos últimos anos, com vendas crescentes, era preciso formar estoques do pigmento durante o período de baixa demanda, porque a capacidade instalada mundial era inferior ao volume no pico das vendas. Os estoques garantiam o abastecimento e evitavam a explosão dos preços.

“O mercado sempre se mostrou muito ajustado entre oferta e demanda, mas neste ano não foram feitos estoques preventivos e os preços poderão apresentar uma recuperação depois de abril, mas isso ainda é incerto”, avaliou Ciro Marino. Paulo Vieira prefere não arriscar previsões, dadas as incertezas da crise econômica, mas entende que as cadeias produtivas estão sendo obrigadas pelas circunstâncias a gerar caixa no curto prazo. “Essa insegurança aumenta o valor da integração entre as empresas da mesma cadeia, tanto para melhorar a qualidade das estimativas quanto para evitar custos relacionados a mudanças repentinas”, afirmou. Ele acredita que os preços devem se estabilizar ao final do primeiro trimestre.

No caso do setor de tintas, Antunes acredita que o mercado deverá passar até março pela fase de desova de estoques formados com preços elevados. “Daí em diante, a realidade será outra”, comentou. Mas a recuperação de rentabilidade só poderá acontecer depois de 2012.

A capacidade mundial de produção do pigmento é estimada em 5,5 milhões de t/ano. Marino calcula que a capacidade efetivamente disponível não passou de 5 milhões de t/ano no exercício fiscal de 2007/08. Cerca de 45% da produção mundial é obtida pelo processo sulfato, mais caro do que a via cloreto, predominante na China, Índia e Europa Oriental. Os produtores americanos atuam quase que exclusivamente com o processo cloreto.

Dada a situação de mercado, a tendência é de paralisar algumas unidades da via sulfato, mais antigas e mais difíceis de atualizar. “O processo sulfato não vai desaparecer porque ele gera tipos de dióxido de titânio mais macios, preferidos para fabricar tintas gráficas e de sinalização viária, além de algumas especialidades, como catalisadores”, explicou Marino. Geograficamente, a região do Oriente Médio oferece vantagens para a produção do pigmento, principalmente pela oferta de energia de baixo custo, aproveitando o abundante gás natural.

Química e Derivados, Paulo Vieira, Vice-presidente da DuPont Titanium Technologies – América Latina, Tintas e Revestimentos
Paulo Vieira: crise levou a fechar fábrica de Uberaba

Vieira, da DuPont, concorda com a estimativa de capacidade produtiva, mas informa que a demanda mundial caiu expressivamente nos últimos meses de 2008 e provoca “alguma racionalização” na indústria. “Essas ações já começaram a ser feitas, mas provavelmente serão insuficientes para compensar a grande queda de demanda que prevalecerá em 2009”, ponderou.

Restrições de oferta – O problema da baixa rentabilidade da indústria de TiO2 é recorrente e já provocou mudanças abruptas no perfil dos participantes.

A Huntsman, por exemplo, ganhou destaque no mercado pela compra da Tioxide, uma divisão da antiga ICI, movimento que lhe deixou a liderança no mercado europeu. Agravado pela crise global, o quadro impõe a necessidade de promover ajustes. O índice mundial de ocupação de capacidade está sendo estimado ao redor de 65%, historicamente muito baixo. A debilidade da demanda fez a Tronox (terceira maior produtora mundial de TiO2) apelar, em janeiro, para uma concordata (chapter 11) em suas operações nos EUA.

A única produtora brasileira, a Millennium (que herdou a fábrica da antiga Tibrás, em Camaçari-BA), afirma já ter realizado sua adequação. “Com o dólar a R$ 1,57, nossos resultados de 2007 foram ruins, a Cristal avaliou a situação e recomendou mudanças”, informou Marino. A mesma equipe de especialistas aconselhou o fechamento da fábrica de Le Havre (na França, com 65 mil t/ano), em abril de 2008. A fábrica baiana foi salva pelo fato de contar com sistemas de automação de processos e de proteção ambiental atualizados.

Os especialistas pediram para aumentar o uso de um resíduo metalúrgico com alto teor de titânio (chamado slag) para reduzir o consumo de ácido sulfúrico com vantagem econômica. O uso de slag passou de 9% para 40% da matéria-prima, complementada pela ilmenita da mina própria. Além disso, o número de grades produzidos na Bahia foi reduzido para aumentar o tamanho dos lotes e reduzir o consumo de gás natural. Segundo Marino, um dos três calcinadores que perfaziam a capacidade de 56 mil t/ano foi fechado. Porém, a redução de produção foi de apenas 10%, ficando próxima a 51 mil t/ano. “Essas 5 mil t anuais eram vendidas para a Argentina, que passou a ser abastecida pelas nossas fábricas nos Estados Unidos”, comentou.

O projeto pretendia reduzir os custos operacionais em 25% e aumentar a participação de insumos importados, uma vez que a relação cambial era favorável a isso. Houve cortes na folha de pessoal da companhia da ordem de 15% a 16%, sem contar os contratados indiretamente. “Os resultados esperados foram alcançados e a companhia decidiu manter o esquema no longo prazo, embora a relação cambial tenha mudado”, afirmou Marino. Segundo informou, a atividade mineradora não foi afetada, pois seu principal produto é a zirconita, vendida para a indústria cerâmica. Parte da ilmenita extraída está sendo exportada para vários destinos.

A Cristal, de origem saudita, era uma pequena produtora de TiO2, com menos de 200 mil t/ano de capacidade total. A compra da Millennium, que pertencia à Lyondell, transformou a companhia em um player global, capaz de produzir 870 mil t/ano em vários continentes.

Desde o último trimestre de 2008, a DuPont reduziu agressivamente a produção de TiO2 em todas as suas unidades, com profunda atenção à geração de caixa. Isso implica reduzir o capital de giro, reavaliar investimentos, além de ter mais cautela quanto à concessão de crédito aos clientes e redobrar cuidados com a cobrança.

Como efeito dessa política, a unidade de acabamento de Uberaba-MG foi fechada em 18 de dezembro. “A decisão foi tomada para melhor aproveitar os recursos disponíveis e aumentar a eficiência de toda a DuPont Technologies”, explicou Vieira. Ele salientou que o mercado local continuará sendo atendido com produtos importados do México e dos Estados Unidos, com os mesmos grades.
Fernando Antunes comenta que o mercado foi bem abastecido com TiO2 durante 2008, embora os custos de produção tenham sido majorados, puxando para cima os preços finais. Apenas a China sofreu alguma restrição de oferta, causada por um terremoto na maior região produtora do pigmento, cuja produção só foi normalizada entre outubro e novembro. A atual expectativa de demanda fraca deverá provocar algumas paralisações no setor.

Química e Derivados, Fernando Antunes, Responsável pelas vendas de dióxido de titânio da Huntsman Tioxide na América do Sul, Tintas e Revestimentos
Fernando Antunes entra na região pelos nichos

Apesar disso, a Huntsman ampliou uma fábrica na Inglaterra, via cloreto, passando de 70 mil para 150 mil t/ano. Ao mesmo tempo, fechou uma unidade antiga, via sulfato, no mesmo país, de 40 mil t/ano de capacidade. “Temos uma boa distribuição geográfica da produção, com quatro plantas na Europa e outras nos Estados Unidos (em parceria com a Kronos), África do Sul e Malásia”, comentou. O portfólio é amplo, com aplicações nas áreas de tintas, plásticos e alimentos, entre outras.

Na América do Sul, a companhia pretende conquistar uma fatia de 8% do mercado de dióxido de titânio, da qual a participação brasileira deverá representar quase a metade. “Começamos pelos nichos de mercado, oferecendo suprimento a longo prazo”, disse Antunes. Ele inaugurou o primeiro escritório próprio da Huntsman para o produto na região, antes atendida por agentes e representantes. Três distribuidores químicos (MBN, Assumpção e IQBC) foram nomeados para atender os consumidores de pequeno porte no Brasil. Grandes clientes locais do setor de tintas, oriundos de contratos de suprimento global entre as matrizes, são atendidos diretamente por Antunes. Estes e os distribuidores importam diretamente os grades desejados, em operações Indent.

A variação cambial é vista como obstáculo importante para as operações locais, pelo risco que representa. “Como há volatilidade, os clientes preferem comprar volumes menores e, se possível, pagar em reais”, explicou. Ele salientou que as fábricas europeias são muito flexíveis, podendo suprir todos os tipos consumidos. Para maior eficiência, a companhia optou por concentrar os tipos para plásticos na fábrica da Espanha; os anatases e os indicados para tintas ficaram com a Itália; e as linhas para tintas gráficas e outras ocupam a planta francesa.

Outro obstáculo é a alíquota de 12% de imposto de importação aplicada no Brasil. “O país produz apenas cerca de 20% do TiO2 que consome e esse imposto deveria cair para favorecer os usuários”, criticou Antunes.

Contando com produção local, Mari­no descarta movimentos oportunísticos no setor. “Temos estoque no Brasil pa­ra 90 dias de operação, para entrega imediata aos clientes, enquanto uma importação leva de 90 a 120 dias para ser concluída”, comentou. Para ele, produtores e clientes devem trabalhar em conjunto, com responsabilidade.

A qualidade dos pigmentos oferecidos no Brasil também chega a ser preocupante. “Há muito produto oriundo da Ásia que não recebeu tratamento superficial e, por isso, dispersa muito mal nas tintas, proporcionando uma cobertura ruim, sem falar na presença de contaminantes como o chumbo”, afirmou. A China, por exemplo, exporta muito pigmento barato, porém também é a maior importadora de TiO2 de qualidade.

Vieira salientou haver uma clara tendência mundial para adotar normas de controle ou eliminação de substâncias que possam causar danos ao homem ou ao meio ambiente, como o sistema europeu Reach, cujos efeitos também deverão ser observados em todo o mundo. “Um exemplo dessa tendência é a entrada em vigor, em fevereiro deste ano, da lei 11.762 que proíbe a produção ou a importação de tintas imobiliárias que contenham 0,06% ou mais de chumbo”, considerou. O mercado brasileiro de tintas também se beneficia da adoção do sistema de qualidade da Abrafati, impondo o uso de TiO2 de qualidade na quantidade correta.

Inovação mantida – Atenta às necessidades dos clientes de reduzir custos de estoques e de capital de giro, a Huntsman começou a oferecer um grade “polivalente” para clientes de médio e pequeno portes. “É um grade que aceita bem a formação de cores, dá brilho e apresenta elevada resistência às intempéries, características importantes para a fabricação de tintas”, explicou Antunes.

Além disso, a linha Deltio, lançada no ano passado na Europa, está procurando aplicações no Brasil. Compre­ende produtos com alteração na estrutura cristalina com desempenho físico superior. “Eles eliminam a poeira e o acúmulo nos pontos de baixa vazão no sistema produtivo”, explicou. Com a característica free flow, o pigmento não forma aglomerados (cake) e escoa facilmente pelo processo produtivo dos clientes. Segundo Antunes, o uso desses produtos elimina a necessidade de bater nos funis de alimentação para desprender o insumo, principalmente na indústria de plástico. Embora sejam 20% mais caros, em média, que os tipos convencionais, ele acredita na boa aceitação pelo mercado em razão do fato de proporcionar ganhos de 35% para os clientes, por permitir dosagem mais precisa com fluidez homogênea. “Sem falar na eliminação do pó, que pode afetar a saúde dos operadores”, disse.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.