Tintas – Versatilidade do PU satisfaz demanda técnica e ambiental

química e derivados, tintas, PUO versátil e resistente poliuretano amplia sua participação nas tintas e vernizes brasileiros. A razão para esse crescimento está no aumento de exigências de desempenho dos revestimentos, especialmente em produtos exportáveis. A complexidade química desses materiais pode ainda assustar alguns usuários, mas representa a possibilidade de desenvolver uma pletora de alternativas para suprir as necessidades do mercado, oferecendo vantagens igualmente no campo ambiental.

“O poliuretano é mais caro do que as commodities usadas nas tintas, mas quando se pretende exportar um artigo ou quando há uma exigência técnica superior, é preciso usá-lo”, comentou Danilo Zanin, gerente regional para a América Latina da Perstorp. A partir de 2012, todas as ações na região serão comandadas pelo escritório de São Paulo, incluindo o México, que se reportava à filial norte-americana.

Com o aumento da responsabilidade regional, a empresa ampliou sua estrutura e implantou três divisões: specialties (com a linha clássica da Perstorp, como trimetilolpropano e pentaeritritol), coatings (isocianatos alifáticos e aromáticos), e nutrição animal. “A estratégia é criar sinergia entre essas divisões, reduzindo custos logísticos e criando valor nas aplicações”, explicou.

Como observou, o perfil de demanda por isocianatos do Brasil se aproxima do estabelecido no México e na Colômbia, com preferência pelos alifáticos nas tintas e vernizes. Na Argentina, segundo Zanin, a posição se inverte, favorecendo os aromáticos. Aliás, os maiores mercados para tintas poliuretânicas na região são, pela ordem, Brasil e Colômbia, segundo o gerente regional. A média de crescimento de PU em tintas na região fica entre 8% e 10% ao ano, como indicou, aproveitando o avanço de setores industriais consumidores, como a produção de pisos de madeira e tintas automotivas. “Além disso, o PU cresce conquistando aplicações antes atendidas por outras resinas, com tecnologias mais antigas”, disse.

Zanin ressaltou que o mercado sempre procura inovações. Há alguns anos, por exemplo, o setor moveleiro consumia muito isocianato aromático, que tende ao amarelecimento quando exposto à radiação ultravioleta. Hoje, os alifáticos já lideram esse setor.

Mario Fernando de Souza, diretor comercial da Galstaff Multiresine do Brasil, confirma que os PUs alifáticos custam mais caro, às vezes o dobro dos aromáticos, mas oferecem performance superior. “Os alifáticos têm aderência maior, secam mais lentamente e formam revestimento mais resistente, sem amarelar com a incidência de luz solar”, afirma. “Mas, quando a aplicação não é muito exigente e não é branca, cinza, por exemplo, dá para usar o TDI”, explicou.

Souza aponta a possibilidade de formar blends com as duas famílias de isocianatos para alcançar propriedades satisfatórias com um custo final atraente. “Nesse caso, trazemos o blend pronto da Itália, porque a manipulação dos isocianatos é muito complexa”, comentou Souza. Ele espera manter o crescimento de vendas de resinas (PU e poliéster) em torno de 10% ao ano, como vem se mantendo nos últimos anos.

A Galstaff atua mais com poliuretanos bicomponentes e em base solvente, com componentes trazidos na forma líquida, porém com alta concentração de sólidos. “Os clientes diluem, aditivam e pigmentam conforme seus objetivos, mas também sugerimos algumas formulações”, disse. Ele também oferece um tipo monocomponente, com 60% de sólidos.

André Oliveira, supervisor de desenvolvimento de mercado de coatings da Reichhold, avalia como estável o comportamento da demanda por poliuretanos em tintas durante 2010 e 2011. “Esse tipo de revestimento é mais usado em pintura automotiva original e repintura, em aplicações sobre madeira e produtos da indústria em geral, cuja demanda não se modificou muito nesse período”, disse.

No entanto, Oliveira percebe uma clara tendência de aumento de demanda pelos produtos de base aquosa. “Para isso, lançamos em 2009 um PU-acrílico da linha Arolon e, em 2011, os óleos uretanizados Urotuf F”, comentou. “Mas leva um certo tempo para que os clientes testem e aprovem essas inovações e as incluam nas suas linhas.”

Base água – A Perstorp direciona grande parte de suas pesquisas para o desenvolvimento de PUs de base água, preferencialmente partindo do hexametileno isocianato (HDI). “Com essa mesma molécula, podemos fazer a linha base solvente, marca Tolonate, e também a de base aquosa, a Easaqua, necessitando rearranjar a cadeia molecular para torná-la hidrofílica”, explicou Zanin. A Perstorp mantém centro de pesquisas na França para poliuretano, com um centro de suporte para aplicações na América Latina sediado nos Estados Unidos.

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Zanin: isocianatos alifáticos conferem melhor desempenho

A linha Easaqua contém tipos que podem ser fornecidos na forma sólida, sendo dispersáveis com facilidade, consumindo baixa energia de agitação. Esse tipo de polímero já é usado em adesivos, por exemplo. “A Itália exige que o acabamento do couro seja feito com PU base água”, comentou.

Essa exigência está sendo replicada em todo o mundo nos segmentos de madeira, repintura automotiva, autopartes e outros. Zanin avalia que a América Latina é um pouco mais lenta na adoção da tecnologia, mas acompanhará a tendência global.

São as exigências de mercado que aceleram ou retardam a aplicação das tecnologias de base água. Zanin admite que as pequenas oficinas de funilaria não estão preparadas para usar essa tecnologia. Mas os fabricantes de tintas estão. “Eles lançarão essas tintas PU base água quando sentirem que há mercado suficiente para isso”, ressaltou.

Na repintura automotiva, ele informa a disponibilidade de tintas para primer e base coat em base aquosa, curáveis em estufa ou ao ar livre. “No verniz de acabamento (clear coat), os produtos com solvente ainda predominam”, afirmou, embora já existam alternativas para fazer tudo com PU base água. Os usuários resistem porque a tinta fica mais cara e não existe legislação que imponha essa tecnologia. “Caso venha a surgir uma restrição mais forte contra os solventes orgânicos, a demanda certamente crescerá”, disse Zanin.

Oliveira, da Reichhold, confirma ser ainda pequeno o uso de PU base água nas tintas de repintura automotiva. “Estamos recebendo algumas solicitações nesse sentido”, disse. Ele acredita ser necessária uma profunda mudança de conceitos no setor para que essa tecnologia deslanche. “Nós só fazemos a resina, o setor é uma cadeia com muitos elos que também precisam avançar, especialmente os usuários e os lojistas”, considerou.

O especialista avalia ser preciso mudar muito o sistema de aplicação de base solvente para base água, exigindo um longo trabalho de conscientização. “É preciso considerar que isso trará benefícios para a saúde dos trabalhadores, para o meio ambiente e também para as empresas, pela redução dos prêmios de seguros”, apontou.

No caso dos óleos uretanizados, eles são produzidos pela reação entre óleos e isocianatos (alifáticos ou aromáticos), aumentando assim seu peso molecular, tornando-os adequados ao uso pretendido. Segundo Oliveira, qualquer óleo mineral ou vegetal pode servir de ponto de partida para a reação. “A preferência recai nos produtos vegetais, pela sua origem natural e renovável, proporcionando um ganho ambiental adicional”, explicou. Quanto maior o índice de iodo, maior a capacidade posterior de reticulação. Ele admite a possibilidade de usar ácidos graxos puros, mas isso dependerá da aplicação e do custo. A presença de glicerina também deve ser compatível com o resultado esperado, pois ela tem baixo peso molecular e é linear, proporcionando baixa resistência ao filme quando em grande quantidade.

A seleção do isocianato também considera o destino da tinta ou do verniz. Para uso ao abrigo do sol, os aromáticos são uma alternativa interessante. Porém, quando é preciso suportar a incidência da luz solar, os alifáticos são preferidos. “Em geral, os alifáticos são mais usados”, confirmou Oliveira.

Os clientes recebem os óleos uretanizados e formulam tintas e vernizes com a agregação de pigmentos e secantes (os octoatos são os mais usados), além do acerto da diluição final com água. O produto seca em contato com o ar, por oxidação. “A presença de umidade vai retardar a secagem”, informou.

Os óleos uretanizados encontram aplicações na produção de pisos de madeira, proporcionando alta resistência e excelente aparência final. “Não acreditamos que esse produto vá tirar mercado de outros poliuretanos, mas vai atender aplicações mais nobres e muito específicas”, considerou Oliveira.

“O mercado de PU caminha para as resinas hidrossolúveis e sistemas base água”, avaliou Mario Fernando de Souza, da Galstaff. A empresa, por enquanto, possui PU base solvente e o hidrossolúvel. Neste caso, seu uso requer estufas de secagem, com alto custo de energia. “Não dá para a repintura, mas vai muito bem nas tintas e vernizes para embalagens de vidro, sendo capaz de resistir até ao álcool isopropílico usado nos perfumes”, comentou.

Atualmente, Souza recomenda sistemas híbridos para várias situações, combinando isocianatos hidrossolúveis com melamina (por exemplo), na presença de solventes pesados, para depois reagir com os hidroxilados (componente A). Ele aponta também um primer automotivo formado pela mistura de isocianatos alifáticos e aromáticos, em combinação com isocianuratos. “O HDI confere adesão ao substrato, o aromático reduz custo, enquanto o isocianurato permite lixamento rápido”, disse. Esse componente B combinado com um poliéster apresenta um pot life de três horas, permitindo lixamento a partir de uma hora depois de aplicado, sem estufa.

A Galstaff também oferece o acelerador Mittel 6821, para mistura ao componente A (hidroxilado), capaz de acelerar a secagem do filme sem prejudicar o pot life (tempo disponível para aplicação após a mistura dos componentes), sem amarelar e nem alastrar. “É uma mistura de organometálicos com aminas e outros ingredientes, compatível com sistemas de base solvente, podendo ser vendido separadamente”, disse.

Souza tem encontrado um bom mercado para o PU no acabamento de peças plásticas, incluindo a metalização. “Temos um poliéster acrilado com cura dupla, por UV, incluindo isocianato, com base solvente, aplicado na forma de spray, com uso também possível em madeira”, comentou. Sua aplicação é precedida por um fundo específico, também curado por UV. “É uma especialidade nesse campo”, informou.

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Souza: PU reveste substratos difícies, como vidro e plástico

Influência global – A crise europeia persiste e influencia o mercado mundial de insumos químicos. “Como há uma demanda menor por isocianatos lá fora e o mercado brasileiro está em alta, isso representa uma oportunidade para desenvolvermos novas aplicações por aqui”, avaliou Zanin.

Ele adverte, porém, que os preços dos principais insumos químicos não foram diretamente afetados pela crise. Até o inverso ocorreu. Como algumas indústrias retardaram investimentos ou pararam a produção, alguns itens se tornaram escassos, a exemplo dos derivados de propeno e de butadieno. A valorização do real disfarça um pouco a alta de alguns componentes.

A participação de fontes alternativas de isocianatos não preocupa a Perstorp. “Isso é um problema para quem atua com os aromáticos, pois há muitos fornecedores, mas isso não acontece com os alifáticos, que têm poucos produtores mundiais”, considerou. A produção do HDI, por exemplo, é complexa, assim como a de seus derivados, desestimulando o aparecimento de novos players.

O uso de diisocianato de isoforona (IPDI), um cicloalifático, também não ameaça o HDI. “Trata-se de outra geração de isocianatos que temos também em linha”, explicou Zanin. “Mas o IPDI, embora promova boa resistência química e física, gera filmes duros, ou seja, quebradiços, exigindo misturar com HDI.”

A Perstorp também atua nos hidroxilados, oferecendo insumos mais compatíveis com os isocianatos para alcançar o objetivo desejado. “Já tivemos de mexer no trimetilolpropano (TMP), um produto clássico, para atender a solicitações mais sofisticadas”, afirmou.

Como ingrediente mais moderno, ele cita as caprolactonas, capazes de alterar a performance dos revestimentos de PU. Esse componente é aplicado em tintas navais, automotivas e industriais, sendo apresentado apenas recentemente ao Brasil. “A companhia inaugurou uma fábrica de policaprolactonas em novembro, na Inglaterra, e agora teremos produto para trabalhar no mercado regional”, informou.

A ideia não é substituir os ingredientes clássicos, como o TMP ou o pentaeritritol, mas abrir novos campos de atuação. “As caprolactonas aumentam a flexibilidade dos filmes, mas mantêm as demais propriedades, sendo muito usadas em couro, por exemplo”, disse.

A Galstaff, com fábrica na Itália, não aponta dificuldades com a crise europeia. “Nossa produção é grande, foi dimensionada para exportação, tanto que atendemos mais de 60 países, inclusive na Ásia”, informou Souza. Recentemente, a companhia comprou uma produtora europeia de poliéster poli-insaturado, usado para fabricar massas para reparo de carros. Segundo ele, a subsidiária brasileira é a líder na comercialização de PU com melamina e de poliésteres para massa automotiva.

Satisfeito com o desempenho do mercado local, Souza só critica a postura de alguns fornecedores alternativos de isocianatos que chegam a vender esse ingrediente com apenas 15% de sólidos. “O mínimo de sólidos deve ficar entre 25% e 35%, do contrário o produto fica instável, vai dar problema na aplicação final”, explicou.

Zanin também se mostra animado com o comportamento dos negócios na região. Porém, ele aguarda com alguma ansiedade o desenrolar das obras necessárias para a realização da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada do Rio, em 2016, ambas com forte potencial para consumir tintas feitas de PU, especialmente no caso das tintas de segurança intumescentes, contra incêndios. “Com certeza, o PU será muito usado, mas será que essas tintas de alto valor serão feitas no Brasil?”, indagou.

5 Comentários

  1. Será que passaram pra voces onde encontrar este azul ? quero pintar meu gol desta cor. Se alguém descobriu me passe por favor. Obrigado

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