TiO2 – Tendência de preços altos estimula alternativas

química e derivados, tintas, dióxido de titânioÉ bom os formuladores de tintas, fabricantes de masterbatches plásticos, produtores de papel e outros usuários de dióxido de titânio se prepararem, o preço internacional desse insumo, o principal pigmento branco do mercado e também agente opacificante, está em alta. A tonelada de TiO2, que em janeiro de 2011 era comercializada por US$ 2,7 mil (FOB), fechou o ano em R$ 3,2 mil e a projeção da consultoria Ti Insight LLC é chegar ao final de 2012 em US$ 4,8 mil. E pode ficar pior. Concretizadas as projeções da consultoria, a tonelada do insumo será comercializada por US$ 5,3 mil em 2013 e superará a barreira dos US$ 6 mil (sempre FOB) em 2015. Ao receber essas projeções de um fabricante chinês, José Carlos Bartholi, diretor comercial da distribuidora Minérios Ouro Branco, confessa que levou um susto. “O pigmento é branco, mas se esses preços se confirmarem, o futuro deste mercado é negro”, vociferou.

Não são muitos os fornecedores de TiO2 que se arriscam a projetar a evolução dos preços. Marco Aurélio Barboza, gerente de marketing da área de dióxido de titânio da DuPont América Latina, prefere não especular sobre o preço futuro do material, uma vez que a evolução dependerá da relação de oferta e procura. Mas confirma que os custos de produção do dióxido de titânio estão sendo pressionados pela alta de seus insumos. Ciro Marino, diretor comercial e de marketing para a América Latina da Millennium, empresa do grupo saudita Cristal, segundo maior produtor global, não faz projeção de preços, mas acredita que o movimento é altista e deve ser impulsionado com a chegada do verão no Hemisfério Norte, período em que o consumo global de tintas cresce substancialmente.

Marino demonstra com números o aumento do custo dos insumos. Em um período de 14 meses terminados em fevereiro, o preço da ilmenita, o principal minério utilizado na produção de TiO2, subiu de US$ 90,00 a tonelada para mais de US$ 300,00. A tonelada do rutilo, mineral básico do insumo, avançou de US$ 700,00 para US$ 2.600,00, e o sintético slag (resíduo metálico) passou de US$ 600,00 para US$ 1.600,00 por tonelada. “Não há como a indústria absorver este aumento de custos, será preciso repassar. Quanto haverá de repasse? Isso vai depender do mercado”, disse o executivo.

Marino e Barboza relatam o mesmo roteiro de problemas que ocasionam este movimento altista. Por quase duas décadas, afirmam, a indústria mundial de dióxido de titânio e as mineradoras que extraem ilmenita e rutilo – a principal delas é a Rio Tinto – não se sentiram estimuladas economicamente a investir em aumento da capacidade de produção. Para complicar, a crise financeira global iniciada em 2008 levou ao fechamento de várias fábricas produtoras no mundo. Agora, o momento é de recuperação da demanda. Produtores estão aproveitando para recompor margens de lucro. Esse cenário deve impulsionar investimentos produtivos no futuro, mas que exigem tempo de maturação. Como disse Marino, “não se deve esperar um grande aumento na oferta dos insumos minerais antes de 2015”.

química e derivados, dióxido de titânio, Ciro Marino, diretor comercial e de marketing para a América Latina da Millennium
Marino: demanda mundial dispara com início do verão no Hemisfério Norte

Hoje a situação é de equilíbrio entre a oferta e a demanda de dióxido de titânio no mundo. A capacidade instalada global, calcula Marino, está em 5,8 milhões de toneladas para um consumo entre 5,2 e 5,5 milhões de t/ano. Mas, para cada 3% de crescimento da economia mundial – em 2011 os países do G-20 cresceram 2,8% –, a demanda de TiO2 cresce em 180 mil toneladas. Uma retomada mais forte da economia global, puxada pelos EUA, já afetará este frágil equilíbrio. Ou mesmo um maior desenvolvimento do potencial de consumo chinês. Uma comparação. Enquanto os 309 milhões de habitantes dos Estados Unidos consomem 1,2 milhão de t/ano de dióxido de titânio, os 1,34 bilhão de chineses consomem 900 mil t/ano. E não é por dificuldade de acesso ao material, pois eles produzem 2 milhões de t/ano.

Da mesma forma, os investimentos anunciados em novas fábricas de TiO2 são poucos. Resumem-se às ações da DuPont. A companhia americana, maior produtora mundial, com uma capacidade de 1,1 milhão de toneladas de TiO2 em cinco fábricas nos Estados Unidos, México e Taiwan, pretende ampliar até 2014 em 200 mil t/ano a capacidade de sua fábrica mexicana de Altamira. Além disso, deve acrescentar outras 150 mil toneladas até 2015 em projetos de ampliação de suas outras fábricas, informou Barboza. Um outro movimento aguardado no mercado são os planos produtivos da joint venture que uniu, no final de 2010, a mineradora Exxaro com a fabricante Tronox, que está saindo de uma concordata.

Importação desafia produção local – Nas contas de Marino, o mercado brasileiro de dióxido de titânio era de 167 mil toneladas em 2008 e caiu para perto de 150 mil t em 2009, no auge da crise financeira. Recuperou-se em 2010, com vendas de 192 mil t, com forte reposição de estoques. Em 2011, o consumo local ficou em 182 mil t, em decorrência de um posicionamento das indústrias para atender a um crescimento econômico no país na casa dos 4%, como o alardeado pelo governo, mas não efetivado.

Nas projeções do executivo da Millennium, as empresas usuárias de TiO2 fecharam o ano passado com estoques altos, o que deve reduzir o consumo brasileiro em 2012 para algo em torno de 174 mil t. Por sua vez, Barboza trabalha com números um pouco diferentes. Em suas contas, o mercado brasileiro foi de 190 mil t em 2010, retraiu-se para 185 mil toneladas em 2011, por conta principalmente das incertezas no mercado global, mas, para 2012, a expectativa na DuPont é de um crescimento no consumo brasileiro de dióxido de titânio da ordem de 4%, se confirmada uma evolução do PIB do país entre 2,5% e 3%.

O único produtor local de TiO2 é a Millennium Cristal. A companhia mantém uma estrutura de produção integrada. Em Mataraca, na Paraíba, a empresa explora uma mina com vida útil estimada até 2020 de zirconita, cianita, ilmenita e rutilo. Estes dois últimos minérios são transportados por 1.100 km para abastecer a fábrica de dióxido de titânio mantida na Estrada do Coco, próxima de Camaçari, na Bahia. A unidade também é abastecida com slag, este, porém, é importado. A mistura com o slag, em proporção não divulgada, propicia um menor consumo de energia e ácido sulfúrico no processo produtivo, reduzindo também a emissão de poluentes. A fábrica tem capacidade instalada de 60 mil toneladas anuais. Mas, relata Marino, a produção tem se limitado a algo entre 80% e 85% desta capacidade.

Segundo o executivo, dois fatores agem simultaneamente para impedir um maior aproveitamento. Por um lado, os custos produtivos no país estão altos, impulsionados principalmente pelos elevados custos de energia, de mão de obra e dos impostos. O segundo fator é a decisão do governo de reduzir a alíquota do imposto de importação do TiO2, que caiu de 12% para zero em 2010, taxa que foi aumentada para 2% em 2011 e mantida neste patamar em 2012, para uma cota de importação de 95 mil toneladas, uma reivindicação dos produtores de tintas. “É um desestímulo à produção local do pigmento”, lamenta. Marino disse que, ainda assim, a companhia consegue ofertar o produto a um preço equivalente ao dos importados com o mesmo padrão de qualidade. “O problema é que está entrando no país um produto de qualidade inferior, principalmente proveniente da China, com preços até 20% mais baratos”, afirmou.

química e derivados, dióxido de titânio, Marco Aurélio Barboza, gerente de marketing da área de dióxido de titânio da DuPont
Barboza: uso dos extensores fica limitado pelas normas de qualidade

Importadores, obviamente, manifestam opinião oposta sobre o desconto no imposto. Bartholi, da Minérios Ouro Branco, que distribui os produtos da chinesa CMP, avalia que a medida proporciona redução do custo e, portanto, um maior consumo do produto final (tintas e plásticos). “Sem dúvida é uma medida benéfica, ainda mais se considerarmos que a produção local não atende nem à metade da demanda interna do produto”, disse. Ele defende que a alíquota de importação seja fixada de forma definitiva em 2% e que não haja mais limites definidos por cotas de importação.

O mercado brasileiro tem despertado o interesse de fabricantes chineses. Estima-se que, no ano passado, 23 mil toneladas tenham sido importadas daquele país. E esse índice deve crescer. Recentemente, a Lomon, companhia que atua integrada desde a mineração da ilmenita até o acabamento, com uma capacidade anual de 200 mil toneladas, fechou um acordo com a distribuidora SCS para atender clientes de porte médio no Brasil, uma vez que, para as grandes companhias multinacionais, os chineses mantêm contratos globais. O diretor da SCS, José Roberto Azevedo, diz que a estratégia é oferecer um produto que ele classifica com qualidade equivalente à dos líderes de mercado, mas com preço 15% inferior. Num primeiro momento, a SCS, que tem seu centro de distribuição em São Francisco do Sul-SC, pretende atacar os mercados do sul do país e de São Paulo. A meta para o primeiro ano é comercializar 300 toneladas/mês e duplicar essa média mensal em 2013.

A DuPont abastece o Brasil por meio de suas fábricas em Johnsonville (EUA), Delisle (EUA) e Altamira (México). Segundo Barboza, a estrutura local de atendimento conta com uma equipe técnica baseada em Alphaville-SP, um laboratório em Paulínia-SP, um armazém de produtos acabados em Guarulhos-SP e quatro distribuidores autorizados com atuação nacional: Bandeirante Brazmo, Iguatu, quantiQ e Proquimil. Não há planos de produção no país, onde já possuiu uma unidade de acabamento em Uberaba-MG. Já a Millennium recorre à importação de suas unidades nos Estados Unidos e na Inglaterra apenas para complementar seu portfólio com itens não produzidos localmente.

química e derivados, dióxido de titânio, Franco Faldini, diretor de marketing da Dow
Faldini: acrílico puro garante opacidade com menos titânio

Alternativas – O aumento do custo do dióxido de titânio impulsiona formuladores de tintas e outros usuários a procurar insumos alternativos. A principal inovação nesse sentido é o Evoque, um pré-composto à base de acrílico puro com alto poder opacificante, desenvolvido pela Dow para aproveitar ao máximo o TiO2. Segundo Franco Faldini, diretor de marketing para América Latina da unidade de negócios para tintas da companhia americana, o Evoque reduz a sobreposição das moléculas do titânio e permite uma dispersão mais uniforme. Dessa forma, pode proporcionar uma redução de até 20% no consumo de TiO2 em formulações de tintas imobiliárias em base água. E, garante Faldini, mantendo a qualidade final do produto. “O foco mercadológico são os produtores de tintas premium e standard”, disse o executivo.

 

química e derivados, dióxido de titânio, José Carlos Bartholi, diretor comercial da distribuidora Minérios Ouro Branco
Bartholi: procura por extensores de boa qualidade segue crescendo

Faldini relata que o Evoque está em fase final de testes em seis fabricantes de tintas no Brasil, mas não revela o preço comercial do produto. A expectativa da Dow é grande com a inovação. Tanto é que já prepara suas fábricas no México, na Colômbia e em Jacareí-SP para produzi-la. Segundo o executivo, os laboratórios da Dow também trabalham em uma segunda geração do Evoque, com o objetivo de ampliar o poder de cobertura, reduzir a emissão de componentes orgânicos voláteis (VOC), reduzir o odor e até mesmo desenvolver a aplicação em outros tipos de tintas.

Extensores – A busca por economia no processo produtivo também reforça uma solução já tradicional, o uso de extensores à base de caulim calcinado e aluminas, tanto para a função de pigmentação como de opacidade. Para Carlos Russo, diretor da distribuidora Adexim, que representa os produtos da francesa Provençale, a evolução tecnológica dos extensores é constante e intensa. “O tamanho da partícula dos extensores já está próximo ao das partículas do titânio, substituindo-o na pigmentação branca, mas ainda não na opacidade”, informou. Há uma década, em uma formulação, os extensores podiam substituir – algo em torno de 5% – o uso de titânio nas formulações. Hoje, porém, dependendo do produto, substituem entre 10% e 15% na recomendação dos fabricantes. “Na prática, vemos que muitos formuladores substituem até 20%; e, dizem eles, sem perda aparente de qualidade”, relatou Russo. A vantagem do extensor é o preço, inferior a US$ 1,50 o quilo. “O ganho econômico fez a procura pelos extensores crescer em 300% desde 2009”, afirmou o executivo.

Carlos Bartholi, da Minérios Ouro Branco, também relata um aumento da procura por extensores. Entre a linha de produtos chineses que ele representa, a expectativa está no desempenho comercial do flash caulim, lançado em fevereiro, que permite a substituição de 15% do titânio na formulação, por um preço de US$ 1.700,00 a tonelada.

Barboza, da DuPont, diz que há espaço para os extensores, mas não acredita numa perda significativa de espaço do TiO2 no mercado. “Avaliamos como pouco provável, dado o requerimento de desempenho esperado dos produtos. O mercado nacional tem regras claras de desempenho mínimo de qualidade das tintas, como resultado do trabalho desenvolvido pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati). Portanto, a redução da quantidade de TiO2 nas tintas tem um limite: o desempenho mínimo assegurado pelo programa de proteção ao consumidor final”, disse.

 

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