Tintas: Revestimento protege saúde do consumidor

Tintas e vernizes devem suportar o repuxo e os meios agressivos, sem contaminar o material embalado

Química e Derivados:Tintas: tintas_abre. O desempenho do segmento de tintas para embalagens refletiu a queda de 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, ocorrida durante o primeiro trimestre de 2003. Segundo o IBGE, o consumo de produtos e serviços por parte das famílias brasileiras foi 2,3% menor nos primeiros três meses deste ano, quando comparado a igual período de 2002. Produtos nobres, porém caros, os alimentos processados e embalados já mostram sinais de retração de negócios, sendo substituídos pelo consumo de produtos in natura.

Química e Derivados: Tintas: Chapas pintadas saem secas da estufa.
Chapas pintadas saem secas da estufa.

O ano passado já foi ruim para o segmento. A queda do poder aquisitivo da população e a menor atividade econômica, que só não foi pior graças aos setores exportadores, desacelerou negócios. Nesse ambiente, fica difícil incentivar a adoção de tecnologias mais sofisticadas, prevalecendo os sistemas de revestimentos de baixo custo, com desempenho satisfatório já comprovado.

Existem duas linhas de embalagens: as rígidas (em geral metálicas) e as flexíveis, com diferentes características e aplicações, que se refletem no tipo de revestimento empregado. As embalagens metálicas oferecem vida de prateleira (shelf life) mais extensa, sendo direcionadas a alimentos prontos ou semiprocessados, como os molhos de tomate, pescados e vegetais em conserva, muitos dos quais devem manter preservadas suas caraterísticas organolépticas e higiênicas por até quatro anos. Para tanto, as superfícies interna e externa pedem proteção adequada.

Mesmo nos casos de produtos químicos, como as tintas, essa proteção se faz necessária, de modo a garantir a satisfação dos clientes.

Nos flexíveis, a durabilidade é menor, com o próprio filme plástico oferecendo proteção suficiente. Resta ao revestimento, nesse caso, a função de diferenciar e valorizar o produto embalado, atraindo o consumidor. “Atualmente, o mercado de tintas para embalagens metálicas chega a 20 milhões de litros por ano, quase 10% abaixo do volume produzido no ano passado”, informou Alexandre Spiess, diretor comercial da ICI Packaging Coatings Ltda. A metade desse volume é consumida pela indústria de bebidas, ficando o restante para ser absorvido pelas linhas de alimentos, tampas e produtos industriais.

Química e Derivados: Tintas: Spiess - fábrica de Santo André atende toda a América do Sul.
Spiess – fábrica de Santo André atende toda a América do Sul.

Trata-se de mercado dominado por ICI, Valspar e PPG cuja soma detém entre 80% e 90% dos negócios, que passam longe de operações informais. “Os clientes são de grande porte, não há espaço para isso”, afirmou Spiess. A disputa por fornecimentos é acirrada, principalmente no ramo de bebidas, no Brasil profundamente concentrado entre os engarrafadores de Coca-Cola e a gigante AmBev. A disputa chegou ao ponto de tornar-se desinteressante para os fornecedores. “O mercado global de embalagens está estagnado, com perda de valor nas linhas; a alternativa é diversificar e atingir novos nichos de mercado mais interessantes”, explicou Walmir Pires, diretor gerente da unidade de Packaging Coatings da PPG para a América do Sul. “Em época de crise, o melhor é buscar rentabilidade e não market-share”, afirmou, criticando a instalação de uma guerra de preços entre concorrentes nos últimos meses.

Pires também critica o conservadorismo dos fabricantes de embalagens quanto à substituição dos revestimentos internos, impossibilitando a aplicação de tecnologia mais recente. “Nos EUA e na Europa, a PPG mudou suas formulações para reduzir a liberação de compostos orgânicos voláteis, além de eliminar residuais de bisfenol A”, comentou.

Contrastando com essas visões de mercado, Antonio Bellizia Junior, proprietário da Revest Indústria Química Ltda., apontou aumento de 55% de volume produzido nos cinco primeiros meses de 2003, em relação a igual período do ano anterior, no qual já havia registrado aumento significativo de negócios. Em faturamento, porém, o crescimento ficou em torno de 26%, evidenciando a redução de preços.

Química e Derivados: Tintas: Bellizia - desenvolvimentos recentes garantem as vendas.
Bellizia – desenvolvimentos recentes garantem as vendas.

O bom resultado é explicado pela introdução, iniciada há três anos, de linhas sintéticas, substituindo as óleo-resinosas para a embalagem de alimentos. Com 40 anos de atuação profissional no mercado de tintas, o químico e engenheiro químico Bellizia concentrou esforços para resolver problemas junto a dois clientes distintos.

O fabricante gaúcho de embalagens Bertol queria revestir latas expandidas (17% de expansão, pronunciada na metade inferior), enquanto a produtora de pescados enlatados Femepe queria um sistema que protegesse e decorasse as latas e fosse capaz de suportar o rigoroso processo produtivo. As sardinhas são cozidas nas latas (fechadas), dentro de autoclaves, com sistema de contrapressão, sob temperatura de 121°C, por 90 minutos, condições que provocam amarelecimento dos revestimentos comuns, feitos à base de epóxi ou acrílico.

A embalagem de sardinhas consumia folha-de-flandres, que foi sendo gradativamente substituída por folhas de aço com camada de cromo. Dada a severidade do processo de esterilização, a litografia externa é usualmente substituída pela aposição de rótulos. Atualmente, a espessura das folhas de aço está sendo diminuída, exigindo proteção mais rigorosa.

No caso das embalagens expandidas, Bellizia salienta tratar-se de uma folha-de-flandres diferenciada, produzida pela Cia. Siderúrgica Nacional (CSN), de modo a suportar a deformação. Em ambos os casos, o verniz interno é epóxi-fenólico, em dupla camada, no caso das expandidas, e monocamada, nas sardinhas.

Bellizia explica que os sistemas óleo-resinosos exigem aplicação em camada espessa sobre as chapas. “Isso tira o brilho do verniz final e prejudica a qualidade da impressão que sai borrada”, disse. Usando poliésteres, tanto no esmalte base, como nas tintas de impressão e verniz final, foi possível reduzir muito a espessura de camada, obtendo melhor resultado final. Com isso, o consumo de tinta acaba sendo menor, compensando, em parte, o custo superior.

Química e Derivados: Tintas: Pires - não é hora de ampliar o share, mas a rentabilidade.
Pires – não é hora de ampliar o share, mas a rentabilidade.

A procura por revestimentos adequados reflete a busca por maior economia e qualidade. “O aço pode representar até 80% do custo da embalagem, e qualquer redução de espessura da chapa representa uma economia brutal”, comentou Walmir Pires, da PPG. Isso deveria incentivar o uso maior de revestimentos mais modernos.

“O maior cliente de embalagens metálicas para alimentos usa folhas-de-flandres estanhadas de alta qualidade, com rótulo de papel”, afirmou. Mesmo esse cliente, quando compra embalagens de terceiros, já dá abertura para o uso de chapas finas revestidas.

“Ao contrário da Europa, o Brasil usa aço em 90% das embalagens e apenas 10% de flandres, este direcionado para óleo de soja e tintas”, comentou Alexandre Spiess, da ICI Packaging. No óleo de cozinha, a situação dos revestimentos é pior. Segundo Spiess, esse cliente pode usar aço com uma camada de estanho, que impede o contato direto com o ferro (componente do aço), elemento capaz de alterar a cor e o sabor do produto. Além disso, boa parte desses óleos adotou embalagens transparentes, feitas de PET. “As latas de tintas também são estanhadas, mas levam revestimento interno de epóxi PVA para aumentar a resistência aos ingredientes químicos e à corrosão”, explicou, ressaltando que as tintas atuais são, em maioria, de base aquosa. No Brasil, as linhas de pintura decorativa feitas à base de látex PVA e acrílicos usam revestimentos sem adição de pigmentos. Nos Estados Unidos, segundo o diretor, revestimentos pigmentados são aplicados para dar mais resistência às embalagens, em especial nas linhas de manutenção marítma.

Proteção interna – A parte interna das latas exige tratamento cuidadoso, de modo a garantir proteção tanto ao produto embalado, quanto ao aço da embalagem. No caso dos alimentos, a preocupação é maior, tanto que os revestimentos precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Falhas do verniz podem permitir a contaminação do produto embalado, além de facilitar a proliferação de bactérias, entre as quais as do gênero Chlostridium, produtores da toxina botulínica. “As embalagens feitas no Brasil estão entre as melhores do mundo”, afirmou Bellizia. “Tanto que, nos últimos 50 anos, foram registrados menos de quatro casos de botulismo em alimentos e, em nenhum deles, a lata foi a culpada.”

Dominam o segmento de vernizes internos para latas de alimentos os epóxi-fenólicos. No entanto, cada produto precisa ser avaliado, podendo exigir complementos de formulação ou aplicação de uma camada superior, de modo a garantir a proteção. O pH ácido dos molhos de tomate exige cuidados, bem como os pescados. Não raro surgem problemas. Bellizia cita o ocorrido quando do lançamento dos molhos de tomate prontos (temperados). “O fabricante precisou recolher milhões de latas porque o verniz interno descolou do susbtrato, e ninguém sabia o motivo”, contou. O primeiro problema foi convencer o cliente a revelar a composição, ainda que apenas qualitativa, do produto, então considerado um segredo. Quando foi informado da presença de cebola no molho, a situação ficou esclarecida. “A cebola, quando cozida, libera uma substância que ataca o verniz epóxi-fenólico”, explicou. O problema foi solucionado incorporando pasta de alumínio e zinco à formulação do verniz.

A necessidade de aplicar uma camada dupla depende menos do verniz, e mais do processo de aplicação. “Mesmo feita com cuidado, a aplicação deixa alguns pequenos pontos mais frágeis, que podem dar origem à corrosão”, explicou Spiess, da ICI. No Brasil, por razões de custo, os vernizes óleo-resinosos são muito usados. “No exterior, a preferência recai na segunda camada feita com o mesmo epóxi-fenólico”, comentou. Há preferências regionais, segundo o diretor comercial. O mercado de pescados e mariscos enalatados no Chile prefere incorporar alumínio ao verniz epóxi-fenólico, demanda pouco usual no Brasil.

Química e Derivados: Tintas: Lacerda - Suiça proibirá o uso de epóxi dentro das latas.
Lacerda – Suiça proibirá o uso de epóxi dentro das latas.

A ICI Packaging brasileira atende ao mercado sul-americano, desde 2002, substituindo fornecimentos feitos pelas subsidiárias do grupo nos EUA e na Europa, com participação muito forte no Chile e no Peru, além de iniciar trabalho na Venezuela, que não era atendida pela companhia. A fábrica aproveitou parte da antiga unidade da Coral (comprada pelo grupo ICI na década de 90) no bairro de Utinga, Santo André-SP, que passou por profunda reforma e atualização de equipamentos. Desde janeiro de 2000, o sítio foi dedicado totalmente à fabricação de tintas para embalagem, contando com grande capacidade produtiva, estimada em 27 milhões de litros por ano. “Estamos operando com um só turno, por volta de 10 milhões de litros/ano”, explicou o diretor de operações Cláudio Conde. A fabricação de resinas opera com três turnos, podendo produzir 18 milhões de litros/ano, aproveitando o parque de dez reatores modernizados.

Praticamente metade da área da antiga produtora de tintas imobiliárias e industriais da Coral (hoje instalada como ICI Paints próxima do pólo petroquímico paulista) foi desmobilizada e devolvida ao proprietário. A área remanescente absorveu investimentos de US$ 10 milhões, aplicados desde o ano 2000.

A instalação de laboratórios modernos apóia o desenvolvimento de produtos e a verificação do atendimento às normas sanitárias. Dotado de cromatógrafos e fotocolorímetros avançados, pode identificar e quantificar a emissão de substâncias voláteis no interior das latas revestidas, fator importante para evitar prejuízos ao sabor e odor dos produtos embalados. Spiess salienta que todos os ingredientes usados para os vernizes em contato direto com alimentos são aprovados pelo Food and Drugs Adminstration (FDA) norte-americano. “Os vernizes são certificados pelo Instituto Adolpho Lutz, mediante ensaios que se prolongam por até quatro anos”, afirmou.

Como parte da estratégia global do grupo, e reflexo da taxa cambial, a unidade brasileira produz quase todas as tintas e boa parte das resinas que comercializa para a região. “Como em todas as tintas, há ingredientes importados, como aditivos e pigmentos”, explicou Spiess.

Para a PPG, presente no mercado nacional desde 1996, por meio de importações, tendo recebido a fábrica de Cajamar-SP ao comprar mundialmente o negócio de tintas para embalagem da Courtaulds, em 1998, o segmento de vernizes internos para alimentos tem por base os epóxi-fenólicos, com espaço para poliéster-acrílicos, já usados para revestir latas de palmito exportadas para o Oriente Médio. “O poliéster isoladamente resiste menos ao meio ácido, exigindo combinação com o epóxi”, afirmou Walmir Pires. O mais comum é o epóxi-fenólico em mono ou dupla camada, esta substituível por verniz sanitário óleo-resinoso (resina fenólica modificada com óleo de tungue). “Temos encontrado nichos de negócios na confecção de latas destinadas a embalar produtos exportados para a Europa, que não aceitam BADGE [bis-hidroxifenil propano]”, comentou. Nesses produtos, os fabricantes se esforçam para obter aplicação uniforme, cuidar da cura ideal e confeccionar a embalagem.

Bellizia, da Revest, concorda que os vernizes epóxi-fenólicos apresentam bom desempenho e são mais econômicos, mas acredita que poderá, em breve, oferecer uma alternativa melhor para o mercado de alimentos. “Estamos desenvolvendo um verniz poliéster-fenólico, que já está em fase de análise prévia pela Anvisa”, comentou. Esse verniz já é usado há vinte anos na Europa, mas ficou de fora do Brasil nesse período porque o País segue, desde a Segunda Guerra, padrões norte-americanos. “Só a partir da década de 80 é que Basf e International apresentaram ao Brasil produtos de linha européia, mais avançados”, disse. Em comparação com o epóxi-fenólico, o poliéster-fenólico suporta mais a acidez, é menos agressivo, e pode ser formulado com maior teor de sólidos – até 50% no verniz e 62% no esmalte, contra 30% no epóxi-fenólico.

Fornecedora de insumos para a indústria de tintas, a Degussa recomenda o uso de poliésteres de alto e médio peso molecular para can coating.

Para a parte interna das latas, de aço ou alumínio, a empresa indica a linha de poliésteres saturados lineares Dynapol, produzida na Alemanha, de alto peso molecular, com ligações intermoleculares feitas de poliuretano ou melamina. “O FDA recomenda o uso de melamina”, observou Elias Nahssen de Lacerda, chefe de produto da linha de tintas e resinas da empresa. A preferência pelo alto peso molecular se explica pelo menor número de ligações entre moléculas, considerados pontos mais vulneráveis do filme formado.

“A legislação suíça, uma das mais rigorosas do mundo, vai proibir o uso de epóxi na parte interna até o final do ano”, comentou Lacerda. Os resíduos de bisfenol-A também são criticados em âmbito internacional, acusados de disruptores endócrinos. O uso de isocianatos como endurecedores é seguro, segundo Lacerda. “Usamos poliisocianatos cicloalifáticos, derivados da isoforona (linha Vestanat, em especial o tipo B 1358A)”. São produtos bloqueados, até a chegada à estufa, onde são desbloqueados pela temperatura de 180ºC, com tempo de cura de 10 minutos.

Algumas embalagens de alimentos exigem a aplicação de ceras para impedir que o alimento fique aderido às paredes. “Os produtos cárneos para o exterior precisam apresentar essa característica, chamada meat release, uma exigência dos consumidores”, comentou Lacerda, mencionando a linha de ceras Vestowax.

A linha interna de soldagem pode dispensar proteção, como no caso dos óleos comestíveis, que usam aço estanhado. Nas demais, essa faixa interna recebe uma camada protetiva especial, geralmente com o mesmo material do revestimento. Essa região estreita não é pintada antes para não interferir com a soldagem, nem ser queimada por ela.

Aparência melhorada – Do lado de fora das latas, a preocupação com a aparência precisa ser compatível com as linhas produtivas, cada vez mais velozes. Latas para a indústria geral e as para alimentos geralmente são do tipo três peças (tampa, fundo e lateral). A lateral é pintada interna e externamente nas chapas planas, posteriormente dobradas e soldadas, recebendo em outras etapas o fundo e a tampa, por recravamento.

O desenho das embalagens obriga a produzir dobras, ondulações e expansões na superfície lateral, exigindo que o revestimento acompanhe as deformações, sem prejuízo de brilho ou cor. “Em geral, quando as paredes da lata são retas e paralelas, recomendamos esmalte de base branco feito com acrílico”, afirmou Walmir Pires, da PPG. Desenhos mais complicados exigem tintas à base de poliéster.

Segundo explicou, nas embalagens para alimentos, a demanda se concentra nos esmaltes acrílicos e vernizes de cobertura epóxi-éster. A camada intermediária, voltada para embelezamento, é suprida por fornecedores ligados às tintas gráficas, podendo usar até linhas alquídicas convencionais.

Química e Derivados: Tintas: Lata nacional de três peças com easy open.
Lata nacional de três peças com easy open.

Alexandre Spiess, da ICI, observa que os acrílicos proporcionam melhor cobertura de superfície que os poliésteres, com bom desempenho. Porém, os poliésteres apresentam aparência final superior, além de resistir mais ao repuxo. Nas tintas de impressão, a ICI atua apenas na Europa, com produtos de alto poder de tingimento, indicados para embalagens de alta qualidade.

A Revest investiu na linha dos poliésteres para todas as camadas, inclusive as tintas gráficas, de modo a atender clientes em processos exigentes em resistência e beleza. “Tínhamos produtos já aprovados para isso quando os clientes começaram a demandá-los”, explicou Bellizia.

Do ponto de vista de proteção ambiental, a empresa se diferencia por desenvolver linhas de altos sólidos, em vez dos produtos de base aquosa, preferidos pelos maiores fornecedores do mercado. “Adotamos sistemas de baixa cura, com temperaturas entre 100 ºC e 110 ºC, com economia de energia para os usuários”, afirmou.

Instalada no distrito industrial de Araçariguama-SP, a Revest ocupa instalações construídas em 1988, capazes de fabricar, por mês, um milhão de kg de resinas, 30 t de vedantes (emulsão de borracha de látex de petróleo), 400 t de esmalte e 400 t de vernizes. “Cada cliente exige uma formulação específica, para funcionar bem no seu equipamento e nas suas condições climáticas”, explicou.

“Desenvolvemos nossas próprias formulações, sem copiar nada de ninguém.” Atualmente, a empresa desenvolve, em escala laboratorial, a incorporação de PET reciclado em algumas formulações, tanto contribuindo para a proteção ambiental, quanto para a redução de custos.

Para indústria geral, Bellizia confia na resistência química dos epóxis para assegurar a resistência da embalagem. Para aerossóis inseticidas, por exemplo, eles conseguem suportar a presença de xileno e também dos ingredientes ativos. “Já fizemos revestimentos para tambores para ácido sulfúrico de alta concentração, usando epóxi especial, além de tintas para revestir pilhas”, comentou. A única ressalva de Bellizia é atuar em segmentos de mercado que ofereçam preços compensadores. “Se não tiver preço adequado, é melhor sair”, disse, citando como exemplo as tampinhas de garrafas, após a decisão da AmBev de verticalizar sua produção.

A Degussa recomenda, para a parte externa de latas, os poliésteres Dynapol hidroxilados, de médio a alto peso molecular, endurecidos com isocianatos. “No esmalte base, os poliésteres superam os acrílicos por apresentar melhor balanço de dureza e flexibilidade, além de não sofrer amarelecimento mesmo em alta temperatura”, explicou Lacerda. O verniz externo precisa ter elevada resistência e pode ser formulado como epóxi-éster. “O mercado ainda vê o poliéster como um produto caro, mas estamos provando que a diferença no produto acabado é pequena”, explicou.

Lacerda admite que, nas aplicações para indústria geral, os acrílicos, embora com desempenho inferior, possam ser usados com bom custo-benefício, o mesmo não se dando nas linhas de alimentos, ou de embalagens mais nobres. Caso seja necessário aumentar a adesão do poliéster ao substrato metálico, a Degussa oferece resinas de adesão, feitas de poliésteres funcionais específicos, que interagem bem com o Dynapol e também ao material de embalagem. “É possível ampliar a resistência química e ao processo, em especial nas esterilizações”, explicou. Também são oferecidos aditivos para promover a flexibilidade do material e facilitar a incorporação de pigmentos. “O Oxiéster T1136 é um poliéster 100% sólido e linear com hidroxilas funcionais”, comentou. A linha da Degussa abrange também solventes (isoforona, decaidronaftaleno), aditivos Tego (da recém-incorporada Theodore Goldschmidt), sílicas, negro-de-fumo e dióxido de titânio (da Kronos). As ceras Vestowax também podem ser usadas na camada externa das latas, para aumentar o deslizamento das embalagens nas linhas de produção, evitando paradas.

Tampas e tubos – O mercado de tampas ganhou atratividade com o uso crescente das linhas “abre fácil”, que dispensam o auxílio dos abridores. “Um fabricante nacional, a Rojek, criou e patenteou um sistema mais seguro e prático que o disponível no exterior”, afirmou Spiess, da ICI. Essas tampas admitem pintura decorativa externa e também se sujeitam às normas oficias de vernizes e plastissóis para a parte interna.

Bellizia, da Revest, estuda a possibilidade de lançar um esmalte de flutuação para as tampas. Trata-se de esmalte base capaz de eflorescer na tinta de impressão aplicada sobre ele, conferindo bom acabamento mesmo sem a aplicação do verniz final. Já existem alguns tipos dessas tintas sendo aplicadas a tubos para produtos pastosos, em geral, feitos de alumínio. “Para funcionar bem, a chapa precisa esquentar rápido, o que é conseguido facilmente com o alumínio, mas também pode ser feito nas tampas de aço”, explicou.

Há também um nicho de mercado nas tampas de aço para potes de vidro com boca larga, tipicamente usados em palmito, picles, azeitonas e conservas. Chamada twist open, essa tampa precisa suportar grande esforço mecânico de abertura e fechamento e, usualmente, é revestida com tinta de poliéster.

Química e Derivados: Tintas: Latas para bebidas usam verniz especial.
Latas para bebidas usam verniz especial.

A disputa maior está ligada ao fornecimento de revestimentos para as tampinhas de garrafas de bebidas, dotadas de tecnologia inversamente proporcional ao tamanho das peças. “É uma aplicação de alto risco, com elevadas exigências de selagem, mas, ao mesmo tempo, de baixo preço”, comentou Spiess, da ICI. Segundo ele, a face externa é tratada com epóxi-éster, embora a companhia tenha aprovado alguns vernizes acrílicos para a aplicação. Na parte interna, predominam os organossóis (PVC modificado com monômeros menos viscosos, sem os plastificantes convencionais). “Vendemos mais no Chile, mas fornecemos pouco dessas linhas no Brasil”, afirmou.

Também chamada rolha metálica, a tampinha exige adaptação dos fornecedores de revestimentos. “A base característica da parte interna é feita de organossóis, mas eles precisam ser formulados conforme as necessidades locais”, explicou Walmir Pires, da PPG, fornecedora de tintas para a AmBev, que passou a fabricar ela mesma suas tampinhas, gerando uma reorganização do segmento. O revestimento base precisa aderir bem ao PVC, material que compõe o disco de vedação da tampinha. Segundo Pires, a PPG é líder no mercado norte-americano nesses produtos, oferecendo grande variedade de formulações, de modo a atender às exigências dos muitos fabricantes de tampinhas e dos clientes finais.

No segmento de tubos para pastas (colas, dentifrícios e outros), a exigência de alta flexibilidade é marcante, para suportar a conduta dos consumidores de aproveitar até a última gota do produto embalado. “Na parte interna, os epóxi-fenólicos dão conta, mas, por fora, recomendamos usar poliuretano, muito flexível”, afirmou Spiess, da ICI. No Brasil, a empresa não atua fortemente nessa área, embora tenha experiência internacional, comprovada por deter aproxidamente 45% do mercado europeu. Antes do PU, os acrílicos eram recomendados, e Spiess menciona o fato de seus concorrentes divulgarem o uso de poliésteres.

Elias de Lacerda, da Degussa, recomenda usar PU ou poliésteres, ambos de alto peso molecular, nessa aplicação, para suportar as dobras durante o uso, sem quebrar ou descolar o revestimento, que também precisa suportar a abrasão. “Esse segmento já teve melhores dias, antes de as embalgens plásticas dominarem a área de dentifrícios”, afirmou. Os tubos metálicos são, em maioria, feitos de alumínio, dispensando tratamento interno. Tanto o poliéster de base, quanto o componente do verniz final, apresentam secagem rápida, por volta de cinco minutos. “O esmalte de base cura a 80ºC, enquanto o verniz precisa de 165ºC”, explicou.

Bebidas embaladas – Embora também sejam acondicionadas em embalagens metálicas, de aço (com paredes extrafinas) ou alumínio, esse segmento de mercado apresenta características específicas, que se refletem nos sistemas de pintura. A começar pelo tipo de lata, nesse caso composto de duas peças, o corpo e a tampa. Diferente das anteriores, essas são pintadas após a estampagem.

Alexandre Spiess comenta que a linha de produção das embalagens é muito veloz, exigindo compatibilidade por parte do fornecedor de tintas. A lata conformada recebe, primeiro, a pintura externa, sendo curada em estufa contínua, para depois receber, simultaneamente, os vernizes interno e externo, na forma de spray. “São vernizes diferentes; o interno, nossa especialidade, é um epóxi-acrílico”, informou.

A ICI possui quatro fábricas em todo o mundo para produzir esse verniz. No sítio de Utinga, há uma unidade dedicada exclusivamente a ele, abastecendo toda a América do Sul. “Essa unidade é totalmente dedicada ao verniz para inside spray, não há contato com nenhuma outra linha, mesmo para alimentos”, enfatizou. Também as operações de transporte exigem veículos exclusivos. Isso é feito para impedir qualquer tipo de contaminação, fator importante tanto do ponto de vista sanitário, quanto do de aplicação. Trata-se de verniz muito específico, a aplicar em processo de alta velocidade e em camada fina, onde qualquer alteração, por mínima que seja, prejudica o desempenho do produto. “Nós controlamos toda a cadeia produtiva do verniz, desde as matérias-primas, até a película seca, oferecendo assistência técnica total”, disse.

Diferente do mercado industrial e de alimentos, o setor de bebidas é povoado por pequeno número de clientes, que atuam mediante contratos de fornecimento muito rígidos. “A pressão sobre os preços é muito forte, pois é preciso concorrer também contra outros materiais, como os recipientes plásticos e o vidro”, explicou Spiess. Essa pressão de custo se reflete sobre toda a cadeia produtiva, mas há motivos para alimentar boas expectativas quanto ao futuro das bebidas em lata, tanto de aço como de alumínio. “Tanto assim que todas as grandes produtoras mundiais desse tipo de embalagem já se instalaram no País”, afirmou.

Nos últimos meses, a disputa pelos fornecimentos de inside spray foi acirrada entre a ICI e a Valspar, segundo Walmir Pires, da PPG, que assistiu de longe à disputa. “Tradicionalmente, somos fortes nos vernizes para a parte externa das latas, tanto de alimentos, quanto de bebidas”, comentou. Mesmo assim, ele não vê muitos motivos para comemorar. Com ajuda das taxas de câmbio elevadas desde o ano passado, que só arrefeceram em maio deste ano, a PPG passou a produzir, desde junho de 2002, em Cajamar-SP o verniz externo para latas de bebidas, a partir de componentes importados. “Quase 80% do custo da tinta é atrelado ao dólar, mesmo nos insumos feitos no Brasil”, disse. A empresa apostou na expansão do mercado de bebidas enlatadas da ordem de 10% em 2002, mas esse mercado cresceu apenas 5%.

A expectativa do setor é a de o próximo verão ser muito quente e que a população tenha alguma sobra de dinheiro para viajar nas férias. Isso se explica pelo fato de as latinhas de bebidas levarem vantagem excepcional sobre os outros materiais nas regiões litorâneas. Elas gelam mais rápido, economizando energia, e podem ser melhor acomodadas dentro dos recipientes de isopor que povoam as praias brasileiras. Além disso, são mais leves. Porém, fora das praias, a briga com o PET e com o vidro fica mais difícil. As garrafas de PET, por serem maiores, acabam saindo mais em conta para o consumo de soft drinks das famílias. O vidro é preferido na embalagem da cerveja (fora da praia).

“Diversificar a produção é um imperativo, nessas circunstâncias”, confirmou Pires. A PPG desenvolveu e já vende no exterior o revestimento externo denominado Barricade, para ser aplicado às embalagens de PET. Segundo Pires, que não revela a composição química da inovação, trata-se de um verniz que confere ao plástico melhor barreira à migração de gases, em especial o CO2 (que não pode sair) e o O2 (que não deve entrar), permitindo até engarrafar cerveja, sem a necessidade de usar tecnologias mais caras, como a blendagem do PET com o PEN (polietileno naftalato).

Além das propriedades de barreira, o revestimento, aplicado sobre a embalagem pronta, pode receber pintura decorativa, com grande apelo visual. “O Barricade já está sendo usado em águas carbonatadas e sucos naturais nos EUA, além de alguns usos na Austrália e Oriente Médio”, disse. Há um produto específico também para pintar as tampinhas dessas embalagens, feitas, em geral, de polipropileno. Em tempo: o verniz não prejudica a reciclagem posterior das garrafas, segundo a PPG.

Química e Derivados: Tintas: Lavini - aparência é o forte das linhas flexíveis.
Lavini – aparência é o forte das linhas flexíveis.

Flexíveis seguem PIB – O setor de embalagens flexíveis acompanha a evolução do PIB. Usados por grande número de itens supérfluos, como salgadinhos industrializados, esse mercado apresenta-se muito pulverizado, havendo fornecedores especializados nas tintas e também convertedores que as produzem de forma integrada. Há espaço para diferentes níveis de qualidade de acabamento, definidos pelo padrão de consumo do mercado-alvo. De modo geral, os revestimentos são aplicados apenas na parte externa, com função mais decorativa do que protetiva, pois os materiais plásticos se encarregam dessa função.

A resina mais usada para as tintas em embalagens flexíveis é a nitrocelulose, produto aprovado e seguro inclusive para alimentos. “A nitrocelulose é de alto peso molecular e ramificada, portanto, precisa ser modificada para ganhar flexibilidade”, explicou Vitor Lavini, representante técnico-comercial da área de cargas avançadas e pigmentos da Degussa. Ele indica a incorporação de 10% a 15% em base sólida de resinas cetônicas de cadeia curta, capazes de melhorar o desempenho final da nitrocelulose e também de facilitar a dispersão de pigmentos. A empresa oferece cicloexanona-formaldeído (CA), acetofenona hidrogenada (SK), e a acetofenona hidrogenada após reação com isocianato (I201). “Estamos divulgando esses produtos no Brasil há dois anos, obtendo boa aceitação”, informou, mencionando a existência de outros modificadores de uso possível com a resina, mas incapazes de oferecer o mesmo brilho e cor final.

A adesão da tinta ao substrato também pode ser problemática, exigindo o uso de aditivos. As embalagens multicamada usadas para salgadinhos usam um filme de poliéster em contato com o alimento, seguido de uma folha de alumínio, recoberta por outro filme de poliéster ou de polietileno, formando uma eficiente barreira à luz, umidade e permeação de gases. A linha Dynapol, de poliésteres saturados, adere bem ao filme de poliéster, servindo como preparo de superfície para outras camadas de tintas (base solvente). “Quando o substrato é o polietileno, é preciso usar uma resina de adesão”, afirmou Lavini.

Em outra linha de embalagens, a Degussa oferece resinas metacrílicas termoplásticas para garantir a adesão entre os filmes de alumínio e os potes plásticos usados para iogurtes e outros. A linha Degalan de resinas para vernizes termosselantes tem produtos adequados para os potes de PVC, poliestireno e polipropileno. “Há alguns itens que são selantes universais, ou seja, servem para qualquer resina, enquanto outros pedem o uso de um primer ou são misturados com PVC”, afirmou Lavini.

Como exemplos, o PM 666 liga-se facilmente ao alumínio e às resinas (PVC, PS, e PP), enquanto o L23 é indicado para potes de PVC, sendo aprovado para contato direto com alimentos. Já o P555, funciona bem com potes de PP, mas exige primer para aderir ao PVC. “Cada polímero é desenhado para aplicações distintas”, comentou.

Entre os outros produtos da linha, ele destacou a disponibilidade do special black 250, um tipo furnace pós oxidado, com partículas de tamanho grande, que se dispersam bem até na nitrocelulose, proporcionando alto brilho e cor profunda. “Temos também o dióxido de titânio Kronos 2063 e 2063S, que apresentam baixo índice de abrasividade, sendo recomendado para reduzir o desgaste dos cilindros de rotogravura”, comentou.

Abre prepara lista de exclusão

Está quase pronta uma lista de exclusão de produtos químicos usados na fabricação de tintas para embalagens de alimentos. A lista foi elaborada pelo Comitê de Toxicologia, instalado há cerca de um ano pela Associação Brasileira de Embalagem (Abre), com a participação de indústrias químicas, fornecedores de insumos, convertedores de embalagens e seus clientes.

Química e Derivados: Tintas: Ana Maria e Coelho - adesão voluntária.
Ana Maria e Coelho – adesão voluntária.

Como primeiro trabalho do comitê, no qual os quase cinqüenta participantes atuam em nome próprio, independentemente do interesse das empresas nas quais trabalham, e sem hierarquia ou funções previamente definidas, foi identificada a necessidade de reunir em uma só fonte as restrições aos produtos usados no setor. “Verificamos que cada empresa, seja fabricante de tinta, seja fabricante de embalagem, possui uma lista interna de exclusão, o que acaba criando muitas dificuldades e confusões no mercado”, explicou Ana Maria Inglez de Souza, participante do comitê e engenheira de pesquisa em ésteres de glicol da Dow Química S.A.

Entre os vários fatores que embasam a elaboração das listas internas estão as alterações de cor e sabor dos produtos embalados, a solidez dos revestimentos aos processos, e aspectos relacionados à saúde dos consumidores e dos trabalhadores das indústrias. Ana Maria salienta que a lista se refere aos revestimentos externos das embalagens, pois os internos já são oficialmente regulamentados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O escopo de trabalho do comitê abrange saúde dos consumidores, segurança ocupacional e proteção ao meio ambiente.

O trabalho começou tomando por referência a lista de exclusão elaborada em 2001 pelo Conselho Europeu de Tintas para Pinturas, Impressão e Uso Artístico (Cepe), contendo aproximadamente trinta itens, incluindo solventes e alguns corantes. “Agora, vamos fazer uma pesquisa junto aos fabricantes de alimentos e, depois, com os convertedores de embalagens para verificar o grau de aceitação”, explicou Carlos Coelho, membro do comitê e coordenador de mercado da Bandeirante Química. Na Europa, a lista não é obrigatória, mas foi adotada espontaneamente pelo setor de embalagens alimentícias. A mesma atitude é esperada no caso brasileiro, buscando o comitê o apoio das associações empresariais, a começar pela Abre.

Os critérios adotados na Europa para a elaboração da lista visam a eliminação de substâncias reconhecidamente perigosas, com efeitos carcinogênicos, mutagênicos, tóxicos, ou alteradores de reprodução, classificados como tóxicos ou muito tóxicos pela Diretiva Européia de Substâncias Perigosas (67/548/EEC). Alinhada com a lista européia, a idéia é realizar reuniões periódicas de reavaliação, ampliando-a ou reduzindo-a, mediante a discussão de novos dados toxicológicos ou informações relevantes.

“As indústrias de grande porte, geralmente internacionais, já descontinuaram o uso dessas substâncias, mas outras, de menor porte ainda os mantêm, podendo excluí-los a partir das exigências de mercado”, considerou Ana Maria. O comitê está se baseando apenas em dados técnicos e toxicológicos para a elaboração da lista, não importando o impacto econômico das substituições. “Na Europa, houve um alinhamento dos preços dos insumos, que acabou eliminando esse impacto”, afirmou Coelho.

A lista européia pode ser encontrada na página: www.cepe.org/eas/easpdf/00ea2f.pdf (em espanhol). Eventuais interessados em comunicar-se com o Comitê de Toxicologia da Abre podem usar o e-mail: [email protected].

Entrevista

Normas européias são mais restritivas

A pesquisadora Sílvia Tondella Dantas, gerente da área de embalagens metálicas e de vidro do Centro de Tecnologia de Embalagem de Alimentos (Cetea), do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas-SP, ofereceu à Química e Derivados informações atuais sobre a normalização e evolução técnica de revestimentos, reproduzidas a seguir:

QD – Existe regulamentação oficial sobre a composição das tintas para contato direto com alimentos (em latas metálicas) capaz de garantir a segurança da aplicação? Ou seria preferível adotar normas usadas em outras regiões, como a Europa, por exemplo?

Sílvia Tondella Dias – Existe regulamentação estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde, sobre os diferentes materiais para contato com alimentos, incluindo os revestimentos orgânicos internamente a embalagens metálicas que, nesse caso, seguem a Resolução N° 105, de 19 de maio de 1999, que estabelece as disposições gerais para embalagens e equipamentos plásticos em contato com alimentos. Inclui uma lista positiva dos componentes aprovados para uso em contato com alimentos, alguns dos quais devem atender a limites máximos de migração específica e/ou de composição. Também estabelece limites para migração total e outros parâmetros. Essa regulamentação foi harmonizada junto ao Mercosul, sendo, portanto, válida em todos os países-membros e se baseia nas Diretivas da Comunidade Econômica Européia, portanto apresenta requisitos de segurança similares. Alguns itens não fazem parte da Legislação Brasileira atual, que, entretanto, encontra-se continuamente em processo de evolução, por meio de revisões, sempre que se façam necessárias. Posso citar, como exemplo, os limites de migração máxima de 1 mg/kg resultante da somatória de BADGE [2,2-bis(4-hydroxyphenyl) propane bis (2,3-epoxypropyl)ether], de BFDGE [bis(hydroxyphenyl)methane bis(2,3-epoxypropyl)ethers] e de seus derivados, e a ausência de NOGE [novolac glycidyl ethers], estabelecidos pela Diretiva 2002/16/EC, de 20 de fevereiro de 2002, na Comunidade Européia e em discussão em diversas partes do mundo.

Essa diretiva é aplicável a materiais e artigos produzidos com qualquer tipo de plástico, materiais e artigos relativos a revestimentos de superfície (entre eles os vernizes, esmaltes e tintas) e os adesivos. Ela também estabelece que o uso e/ou presença de BADGE na produção desses materiais somente poderá ocorrer até 31 de dezembro de 2004. Outra regulamentação, a Diretiva 2002/72/EC estabelecia em 2002 a migração específica máxima de 3 mg/kg de bisfenol-A em materiais e artigos plásticos para contato com alimentos, existindo a previsão de alteração desse valor para 0,6 mg/kg de alimentos, e seus simulantes, quando for introduzida emenda a essa diretiva. Segundo a literatura, estudos realizados na Europa e no Japão com muitos tipos de alimentos evidenciaram que não ocorre migração de bisfenol-A em limites superiores aos estabelecidos. Apenas um caso de produto cárneo apresentou problema, no qual o sistema de envernizamento foi substituído. Existe na Europa uma comissão formada por representantes europeus e dos EUA de produtores de revestimentos e de embalagens metálicas, de profissionais da área de química e outros, no sentido de incentivar o estabelecimento de limites de migração mais orientados para essa classe de materiais poliméricos, os revestimentos de embalagens metálicas, com base em diferenças em matérias-primas e insumos e na quantidade de material polimérico que entra em contato com os produtos alimentícios. A legislação brasileira, harmonizada pelo Mercosul, por meio da Resolução N° 105/98, inclui limite de migração específica de bisfenol-A correspondente a 3 mg/kg, limite de composição de epicloridrina de 1 mg/kg e limites de migração específica e de composição de BADGE, correspondentes a 0,02 mg/kg e 1 mg/kg, respectivamente.

QD – O mercado para proteção in can se distribui entre sistemas alquídicos, acrílicos e poliésteres saturados de alto peso molecular. Todos eles atendem aos requisitos das normas oficiais? Haveria justificativa técnica para se preferir algum deles?

Sílvia Tondella Dantas – Os diferentes fornecedores apresentam produtos com qualidade e desempenho adequados aos diferentes usos, não havendo um produto único que satisfaça os requisitos específicos de cada aplicação. Entretanto, o revestimento interno de uso mais comum em latas de alimentos é o epóxi-fenólico, usado em cerca de 70% do total de latas para essa aplicação, segundo dado de literatura. Em relação ao atendimento da norma, até 2000 havia obrigatoriedade de registro dos materiais de embalagem, incluindo os insumos como tintas e vernizes, e portanto não havia alternativa para seu não-cumprimento. A partir da Resolução N° 23, de 15 de março de 2000, o registro deixou de ser obrigatório para alguns tipos de embalagem, incluindo as embalagens metálicas e seus insumos, tendo sido transferida a responsabilidade de seu atendimento aos produtores desses materiais que podem, entretanto, sofrer fiscalização das agências oficiais. Entretanto, de forma geral, não foi verificado relaxamento no cumprimento dos requisitos para contato com alimentos, ou seja, as empresas continuam a avaliar seus produtos para verificar se atendem aos parâmetros estabelecidos. Por sua vez, o Ministério da Agricultura publicou a Instrução Normativa N° 08, de 16 de janeiro de 2002, que estabelece a obrigatoriedade de obtenção da chamada Autorização de Uso de Produto (AUP) para todos os produtos de origem animal, incluindo as embalagens que os acondicionam. A AUP é um registro emitido Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), do Ministério da Agricultura. Portanto, para as embalagens em contato direto com produtos de origem animal (carnes, leite e seus derivados), ocorre novamente a obrigatoriedade de aprovação segundo normas específicas.

QD – A área da solda interna das latas constitui problema para os revestimentos protetivos?

Sílvia Tondella Dantas – Na região da eletrossolda o aço da folha-de-flandres se encontra exposto, devido à remoção parcial do estanho pelo fio de cobre e seu descolamento para as adjacências devido à temperatura e pressão aplicadas no processo de soldagem, fazendo com que grande parte do estanho da folha-de-flandres seja removido. Além disso, a estrutura da eletrossolda, que apresenta um desnível na espessura, torna-a difícil ser recoberta totalmente com vernizes líquidos. A importância de sua proteção depende do produto que será acondicionado e da própria embalagem, ou seja, para óleo comestível, por exemplo, é dispensável a aplicação de verniz sobre a solda, o mesmo se dá para latas sem verniz interno, em geral, enquanto produtos ácidos como o extrato e o purê de tomate, acondicionados em latas envernizadas internamente, requerem uma boa proteção da região da eletrossolda. Assim, não se pode dizer que “a solda constitui problema sério para os revestimentos protetivos”, e sim que a sua especificação deve ser particular para cada aplicação.

QD – Enquanto a pintura interna é mais voltada para impedir o contato da lata com o produto embalado, a pintura externa (sem contato direto com o alimento) prioriza o aspecto atrativo, embora também tenha função de proteger a lata. A pintura externa também está sujeita a normas? A preocupação ambiental e de saúde ocupacional impõem restrições às formulações? Também nesse caso, o desempenho técnico (flexibilidade, brilho, aparência, durabilidade, etc.) permitiriam recomendar algum sistema de tintas em particular?

Sílvia Tondella Dantas – Não há condição de recomendar um sistema de tintas em particular. A pintura externa não está sujeita a normas relativas ao Ministério da Saúde, somente aqueles revestimentos destinados ao contato direto com alimentos. Entretanto, vários países estabelecem limites para determinados contaminantes metálicos, que podem estar presentes devido ao pigmento utilizado para coloração da tinta. Esses limites estão relacionados principalmente ao impacto sobre o meio ambiente. Por exemplo, a Diretiva da Comunidade Européia 94/62/EC, de 20 de dezembro de 1994, que trata de embalagens e resíduos de embalagem, entre outros itens dispõe no artigo 11 sobre a concentração de metais pesados, ou seja, a somatória dos elementos chumbo, cádmio, mercúrio e cromo hexavalente presente em embalagens e seus componentes não deve exceder a 100 ppm (partes por milhão), em peso. A restrição promove, ao menos parcialmente, a substituição dos pigmentos inorgânicos pelo orgânicos. Em relação à saúde ocupacional, destacam-se parâmetros como a emissão de compostos voláteis e as dificuldades decorrentes do uso de revestimentos com cura por radiação UV. A primeira já foi amplamente divulgada, as indústrias de vernizes e tintas desenvolveram opções de materiais para atender à necessidade de redução de VOC e estão sendo estudados limites a serem implementados na Comunidade Européia. Em relação aos revestimentos com cura UV, vários desenvolvimentos já tomaram lugar, sendo que dificuldades do ponto de vista da saúde do trabalhador já foram minimizadas ou superadas. Não disponho, entretanto, de informação detalhada sobre a medição e eficiência desses sistemas.

QD – Atualmente, quais as linhas de pesquisa em revestimento de embalagens metálicas para alimentos que se mostram mais interessantes?

Sílvia Tondella Dantas – Os revestimentos orgânicos têm apresentado uma evolução contínua em diversos fatores:

1. Desempenho – maior flexibilidade, capacidade de recobrimento e barreira, resistência à abrasão, maior produtividade em linha, bases de impressão que dispensam o uso de verniz de acabamento, maior vida útil de revestimento de cura UV.
2. Na redução de seu impacto sobre o meio ambiente – vernizes e tintas com alto teor de sólidos, vernizes e tintas à base de água, vernizes e tintas para cura por radiação UV (para a face externa da embalagem), materiais com baixa temperatura de cura (economia de energia) e baixa emissão de voláteis, vernizes isentos de bisfenol-A.
3. No apelo mercadológico revestimentos com aparência multissensorial, com efeito no tato e na aparência da embalagem, acabamentos com diferentes tipos de textura.

Todos esses aspectos têm grande importância, podendo ser aplicados simultaneamente ou sendo particularmente priorizados conforme a situação.
(A página eletrônica do Cetea é: www.cetea.ital.org.br).

Metalúrgica prepara as próprias tintas

A Companhia Metalúrgica Prada, uma das maiores produtoras de embalagens metálicas do País, combina produção própria com fornecimento de tintas por parte de terceiros. Em operação desde 1936, a empresa passou a atuar como fornecedora de embalagens para o mercado a partir de 1944. Forte nas linhas de indústria geral, a empresa decidiu reforçar a atuação da área de alimentos a partir de 1996, com a transferência de máquinas da desativada unidade de Belém-PA para São Paulo. No ano seguinte comprou a antiga planta cativa de embalagem da Etti, em Araçatuba-SP. Possui também unidades em Uberlândia-MG (para alimentos e óleos comestíveis) e Mairinque-SP (óleos), além de ter adquirido a Real Embalagens, no ano passado, quando ingressou no mercado de pescados (sardinha e atum).

Química e Derivados: Tintas: Sarmento - preço, qualidade e suprimento garantidos.
Sarmento – preço, qualidade e suprimento garantidos.

A produção própria de tintas abrange 100% dos produtos para impressão litográfica e aproximadamente 30% dos esmaltes e vernizes protetivos, perfazendo o total de 60 t/mês. “Fabricamos as tintas de alto desempenho, a partir de resinas, pigmentos e aditivos importados, além de alguns itens considerados estratégicos”, explicou o gerente de litografia Aldemir Sarmento, presente em grande parte dos congressos e feiras internacionais da área de tintas, nos quais toma contato com novas tecnologias.

Segundo ele, a Prada fabrica as tintas que consome desde a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil passou por uma fase de desabastecimento de insumos químicos. “Tornou-se necessário fazer desenvolvimentos tecnológicos e adaptações de fórmulas, e a empresa preferiu fazer isso ela mesma”, comentou.

A disponibilidade de tintas feitas em casa também permite grande agilidade para alimentar a linha de impressoras, sem depender de encomendas junto a fornecedores, além de garantir a qualidade dos revestimentos aplicados às mais de 80 milhões de latas (de vários tamanhos e formatos) fabricadas por mês, em média. “Por termos produção própria de tintas, temos facilidade para obter cores especiais, com alta reprodutibilidade”, afirmou Sarmento.

Do ponto de vista prático, a possibilidade de fabricar tintas permite adaptação perfeita aos equipamentos de impressão. Segundo o gerente, cada máquina apresenta algumas peculiaridades, como a eficiência do sistema de molhagem dos rolos, além de variações de condições ambientais. Tudo isso também resulta em economia para a empresa, garantindo competitividade. “Não fazemos em casa as commodities, preferimos comprá-las de fornecedores idôneos”, afirmou, citando a ICI, Valspar e PPG, em especial para os revestimentos internos. O fato de operar linha fabril de tintas, permite ter melhor compreensão desse processo produtivo, com vantagens na negociação de aspectos técnicos e econômicos.

As tintas e vernizes especiais, usadas em situações de grande repuxo e voltadas para esterilização, são formadas a partir de insumos contratados junto a empresas de qualidade reconhecida, como Degussa, Ciba, Dow, Clariant, DSM, BIK, Daniels, entre outras, promovendo as modificações com óleos nobres, como soja, linhaça ou tungue. Nos esmaltes, a formulação é feita a partir de resinas. “Temos um reator, mas é pequeno, usado mais para desenvolvimento de novos produtos”, explicou Sarmento, que confirma receber apoio técnico de vários fornecedores de matérias-primas.

A preferência da metalúrgica recai nas linhas de altos sólidos. “As linhas de base aquosa funcionam melhor para latas de duas peças, mas perde das de base solvente nas de três peças, a nossa especialidade”, afirmou Sarmento. A formulação aquosa exige, segundo ele, a incorporação de aminas e aditivos, que evaporam na estufa de secagem e provocam aumento da corrosão. Alguns vernizes, por sua vez, continuam a ser formulados com baixos sólidos, por razões técnicas.

Para evitar danos ambientais, a empresa instalou sistemas de captura de voláteis em todas as linhas de impressão, cada qual dotada de incinerador de resíduos especial. “O projeto, elaborado pela alemã LTG, foi desenvolvido em conjunto com a Cetesb”, explicou.

Os vernizes epóxi-fenólicos são considerados “pau para toda obra”. Usados em mono ou dupla camada, suportam meios ácidos, presença de gorduras e outros, com custo relativamente baixo. “Só não devem ser usados em bebidas carbonatadas, campo para os epóxi-acrílicos ou epóxi-poliésteres, sempre de base aquosa”, comentou. Revestimentos internos do tipo porcelana são feitos com epóxi-anidrido, que apresenta resistência química tão boa quanto dos epóxi-fenólicos, porém com menos flexibilidade na película e versatilidade de aplicações. “O efeito final é muito bonito, dá bom contraste com o produto embalado”, avaliou. A linha dos epóxi-poliésteres apresenta alto desempenho, mas ainda fica devendo aos modificados com fenólicos, enquanto os poliésteres isocianatos, segundo Sarmento, são mais usados na parte externa das latas. O especialista confirma que o custo do aço nas embalagens chega a 70% do total e, portanto, “não vale a pena economizar no revestimento”.

Uma preocupação adicional está ligada ao aumento de velocidade alcançado nas linhas mais novas de montagem das latas. As chapas já impressas e cortadas no tamanho adequado precisam ser dobradas e soldadas, para depois receberem fundo e tampa (esta, por vezes, só colocada após o enchimento). “A velocidade chega a 600 unidades por minuto nas latas de óleo [900 ml] e a mil unidades/min nas latas para alimentos”, afirmou. Como conseqüência direta dessa velocidade, os vernizes externos com efeito deslizante tornam-se fundamentais. “Se uma lata travar, é preciso parar toda a linha de produção, o que implica custo elevado”, explicou.

O verniz final varia conforme a aplicação da embalagem. A chamada indústria geral pode usar vernizes alquídicos, sem problemas, enquanto os alimentos chegam a usar poliésteres e poliuretanos. “Deixamos de adicionar óleos de silicone ao verniz final porque havia migração para a face interna da folha colocada imediatamente acima quando do empilhamento”, disse. A empresa usa como deslizantes os silicones modificados ou ceras micronizadas de polietileno ou PTFE. Segundo Sarmento, as ceras também protegem o revestimento contra arranhões e abrasão durante o processo de embalagem.

Abrafati divulga o temário do congresso

Química e Derivados: Tintas: Ferreira - expectativa de recuperar margens.
Ferreira – expectativa de recuperar margens.

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) divulgou, no final de maio, o programa técnico do 8º Congresso Internacional de Tintas, a realizar-se de 3 a 5 de setembro no ITM Expo, na Vila Leopoldina, em São Paulo. Cada um dos 75 trabalhos serão apresentados em 35 minutos de palestra, seguidos de 15 minutos de discussão, distribuídos por cinco salas, em atividade simultânea.

Aproximadamente 40% desses trabalhos têm origem nacional, com destaque para a crescente participação de universidades, revelando o aprofundamento das relações entre indústrias e instituições de ensino e pesquisa. “São palestras de conteúdo com aplicação prática, atestando o bom relacionamento com as indústrias do setor, atitude para a qual o congresso que promovemos certamente colaborou muito”, afirmou Dilson Ferreira, presidente executivo da Abrafati.

A participação internacional, que sempre foi o grande atrativo do congresso, identificado pela excelência de temário e expositores, deverá apresentar crescimento em relação ao encontro anterior, realizado em 2001. “Naquele ano, pouco antes do congresso, ocorreu o atentado às torres gêmeas em Nova York, e boa parte dos visitantes estrangeiros desistiu de viajar”, explicou Ferreira.

Finda a guerra do Iraque e com o anúncio de acordo entre Israel e a nação palestina, o ambiente internacional pacífico trará de volta os técnicos e executivos internacionais ao Brasil. Nem mesmo a síndrome respiratória aguda (Sars), que afeta o Oriente, prejudicará a promoção. “A participação asiática, historicamente, é pequena no congresso e na exposição”, afirmou.

As palestras foram selecionadas de modo a abordar todos os principais aspectos que envolvem a fabricação e comercialização de tintas, incluindo temas ambientais. O congresso também prevê a realização de três sessões plenárias, iniciadas por Juan Marcos Saavedra, presidente para a América Latina da ICI Paints, que abordará temas atuais do negócio de tintas. No segundo dia, o vice-presidente da Rohm and Haas e diretor da unidade de negócios de coatings, Alan Barton, discorrerá sobre a cadeia de valor na fabricação e comercialização das tintas, apontando para a necessidade de o setor inovar conceitos para reverter a situação de baixa rentabilidade observada tanto pelos fabricantes de tintas, quanto pelos seus fornecedores. Barton advoga investir em tecnologia e inovação de produtos, além de promover esforços de marketing para adaptar-se às novas necessidades dos consumidores finais. No terceiro dia, o publicitário, professor e consultor Roberto Menna Barreto falará sobre criatividade do ponto de vista de gestão de negócios e pessoas.

Outra forma de participação consiste nas sessões de pôsteres. “Os trabalhos relevantes, porém não selecionados para palestras, serão divulgados nesse formato”, comentou Ferreira. Nesse caso, cada trabalho ficará exposto em um pôster, colocado em local de grande circulação. Em um horário predeterminado, afixado no cartaz, um representante da empresa ficará à disposição de interessados para oferecer mais explicações e iniciar contatos.

Paralelamente ao congresso, será realizada a 8ª Exposição Internacional de Fornecedores para Tintas, que ocupará área de 19 mil m², 50% maior que a de 2001, abrigando mais de 200 estandes. “Como conseguimos mais espaço, os estandes e corredores de circulação serão maiores, mais confortáveis, e também poderão ser oferecidos mais serviços aos visitantes”, afirmou Ferreira. Até maio, já havia sido vendida área igual à da realização anterior, demonstrando o forte interesse das empresas na exposição, já consagrada mundialmente, segundo avaliação de expositores como Degussa, Bayer e Rohm and Haas, principalmente por se tratar de evento muito bem focado no setor.

Expectativas para 2003 – Com faturamento anual estimado de US$ 1,5 bilhão e responsável por aproximadamente 16 mil empregos diretos, a fabricação de tintas no Brasil alimenta boas expectativas de crescimento ainda neste ano. Dilson Ferreira justifica o otimismo pelas condições macroeconômicas que levaram à valorização do real e ao controle da inflação, permitindo ampliar as exportações de produtos, como automóveis, autopeças e móveis. Contribuem também a queda nas cotações do petróleo e de seus derivados, entre os quais a nafta petroquímica, e o anúncio da liberação de verba oficial de R$ 5,3 bilhões para a construção civil. “Esse setor é grande consumidor de tintas, e também absorve grande contingente de mão-de-obra, com forte efeito multiplicador sobre a economia nacional”, comentou.

Aspectos preocupantes, porém, permanecem. “A economia mundial entrou em recessão, e se refletirá no Brasil”, considerou. As taxas elevadas de juros também prejudicam o setor, porque as indústrias financiam seus cientes, mediante a concessão de prazos para pagamento. As vendas de bens móveis e imóveis tende a declinar com o alto custo do capital.

Em 2002, o setor de tintas apresentou aumento de volume produzido da ordem de 1,7% sobre o ano anterior, embora tenha apresentado redução de faturamento dolarizado entre 15% e 20%. Para 2003, o setor espera crescer percentual igual à elevação do PIB acrescida de 1%.

Segundo Ferreira, o setor já envida esforços para promover o crescimento de vendas ao mercado interno. A primeira iniciativa consiste no reforço das verbas de propaganda junto aos consumidores, acompanhada pelo lançamento de novas linhas de produtos, voltadas para nichos de mercado, visando vários níveis econômicos.

Depois do Plano Real, em 1994, verificou-se um crescimento significativo das tintas mais econômicas (segunda e terceira linha), em especial no segmento imobiliário (decorativas). Fabricantes de grande porte passaram a disputar mercado com pequenos produtores. Porém, com a perda de poder aquisitivo da população de renda mais baixa, esses produtos entraram em fase de estabilização. Isso motiva os fabricantes a diferenciar seus produtos.

Ferreira discorda dessa avaliação e afirma que as linhas populares mantém suas vendas e que o lançamento de novos produtos, com mais valor adicionado, se deve ao fato de as empresas terem identificado o desejo dos consumidores por produtos mais sofisticados, capazes de conferir efeitos diferenciados às superfícies pintadas. “A qualidade das tintas também vai aumentar”, afirmou.

A par desses movimentos, a Abrafati atua em dois fronts distintos: o combate à sonegação fiscal e a campanha pela qualidade das tintas. “Todos os participantes do mercado precisam pagar os mesmos impostos, para não haver competição desleal”, afirmou. A postura ética nos negócios, que condena também a corrupção, segundo Ferreira, reflete um anseio da sociedade, manifestado até na eleição do presidente Lula.

No tocante à qualidade, a Abrafati já conta com um laboratório (no Senai) que está trabalhando na elaboração de normas de qualidade mínimas para o setor. “Queremos identificar parâmetros para traçar uma linha divisória abaixo da qual um produto já não mais possa ser classificado oficialmente como tinta”, disse. Atualmente não há nenhum controle sobre a composição e o desempenho das tintas. Muitas delas apresentam preços muito baixos, mas, em compensação, não satisfazem à expectativa dos consumidores. “Isso prejudica a imagem de toda a indústria de tintas”, ponderou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.