Tintas: Perspectivas 2009 – Indústria prevê ano fraco, mas tenta se animar com medidas de estímulo a montadoras e construtoras

Química e Derivados, Tintas e RevestimentosO biênio 2007-2008 deixará saudades na indústria nacional de tintas. Foi um período em que o setor cresceu, em volume, a um ritmo de 8% ao ano. Segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), em 2008 foram comercializados 1,13 bilhão de litros de tintas e o faturamento do setor alcançou a cifra de R$ 5,4 bilhões, um total 14% superior ao do ano anterior, sendo que o IPCA acumulado em 12 meses até novembro foi de 6,39%. A crise econômica internacional trouxe uma certeza: os anos de crescimento vigoroso ficaram para trás. Como diz o diretor da Basf Rui Goerck: “Acabou a euforia, vamos voltar aos ritmos de crescimento normais.” Mas até alcançar a normalidade, a economia terá de superar 2009, quando o impacto da crise no bolso da população e nos investimentos deve chegar a seu auge. Prever o desempenho do setor de tintas neste ano não é uma tarefa simples.

No final de 2008, a assessoria econômica da Abrafati arriscou uma previsão de crescimento de 2% no volume de tintas a vender durante 2009. Para chegar a esse número, porém, os economistas da associação utilizaram uma estimativa, elaborada pelo Banco Central, de crescimento de 3% do PIB no ano. O problema é que poucos agentes econômicos ainda apostam nesse prognóstico do Bacen. A maioria das previsões aponta para números inferiores a 2,5% na evolução do PIB, reduzindo também o teto de crescimento do setor de tintas.

Química e Derivados, disse Fernando Val y Val Peres, Presidente do Conselho Diretivo da Abrafati e diretor-comercial da Sherwin-Williams no Brasil, Tintas e Revestimentos
Fernando Val y Val Peres confia no desempenho do mercado de tintas imobiliárias

Outros dois fatores sobre os quais não se tem clareza e que podem alterar custos e comprometer os resultados do setor são os preços internacionais do petróleo e a taxa de câmbio. O governo tem agido com o intuito de criar estímulos para as indústrias da construção e automobilística, o que pode repercutir favoravelmente no desempenho da indústria de tintas. “A crise reduziu o crédito e gera incertezas em relação à manutenção do poder aquisitivo das pessoas e dos investimentos. A indústria de tintas também será afetada, mas o impacto será diferente sobre cada segmento consumidor”, disse Fernando Val y Val Peres, presidente do Conselho Diretivo da Abrafati e diretor-comercial da Sherwin-Williams no Brasil. Para ajudar os players do setor a formar um panorama mais amplo das perspectivas para 2009, a Abrafati reuniu, no final de 2008, representantes de segmentos consumidores e fabricantes de tintas no 3º Fórum Abrafati, em São Paulo.

Construção civil – O segmento de tintas imobiliárias, o de maior volume do setor, terminou 2008 com 864 milhões de litros de tintas comercializadas, um total 8% superior ao do ano anterior. O faturamento foi 13% superior, alcançando a marca de R$ 3,18 bilhões. Sérgio Watanabe, presidente da regional paulista do Sindicato da Construção – SindusCon-SP, avaliou um crescimento na casa dos 10% do setor de construção em 2008, com um faturamento de quase R$ 40 bilhões. Apenas as obras já iniciadas em 2008 e que terão continuidade em 2009 deverão garantir um impacto superior a 3% sobre o PIB da construção no ano. Portanto, ele prevê que a indústria da construção deverá crescer entre 3,5% e 4,5% em 2009.

Watanabe apontou o maior volume de crédito imobiliário, disponibilizado principalmente por agentes financeiros estatais, como um fator que pode influenciar positivamente o desempenho do setor no ano. Além disso, também foram citados os investimentos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja previsão orçamentária inicial do governo é de R$ 21,2 bilhões em investimentos no ano. O problema é a falta de garantias da real aplicação desses recursos, que podem sofrer contingenciamentos. Além disso, como lembrou Watanabe, o governo não tem conseguido investir o total de recursos disponíveis.

Já Cláudio Elias Conz, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), demonstrou-se mais otimista. Segundo o executivo, o varejo da construção, que reúne 138 mil lojas no país, cresceu 9,5% em 2008. Para 2009, em sua opinião, as perspectivas também são positivas. Uma pesquisa encomendada pela associação à LatinPanel detectou que o brasileiro dedica à habitação 13,4% de seu gasto total e os materiais de construção respondem por 19% dos gastos com habitação. Em média, o brasileiro gastou R$ 1.344,20 em 2008 com material de construção e pretende continuar gastando. A pesquisa detectou que 77% dos brasileiros acreditam que precisam promover algum tipo de reforma em suas casas e 39% pretendem fazer essas benfeitorias nos próximos seis meses. Obras nas salas, dormitórios, cozinhas e banheiros são as prioritárias. Outros 12% pretendem construir. Entre as reformas e construções, 52% são obras de até 25 m²; 24% são obras maiores, de 26 a 50 m²; e os demais pretendem realizar obras acima de 51 m². A pesquisa também detectou que 56,1% da população pretende comprar tintas para piso, parede e teto e 20,6%, esmaltes e vernizes. “Não sabemos o quanto a crise econômica esfriará os ânimos dos consumidores, mas esses números projetam uma perspectiva promissora para o setor”, disse Conz.

A projeção da Abrafati aponta que o segmento de tintas imobiliárias deve ser o de melhor desempenho em 2009, com um crescimento em volume de 2,5%. Para Val Peres, o mercado imobiliário deverá apresentar dois comportamentos distintos diante da crise. No segmento de imóveis de alto padrão, no qual a quantidade de imóveis prontos e em construção é grande, espera-se uma queda nas vendas de tintas a partir do final de 2009, após a conclusão das obras em andamento, com a desaceleração nos negócios se acentuando ainda mais no decorrer de 2010. Por sua vez, as vendas de tintas decorativas para a classe média e para as habitações populares devem continuar aquecidas, por conta dos incentivos oficiais anunciados com o intuito de amenizar o efeito da crise sobre o emprego.

Automotivo esfria – Após um ótimo desempenho em 2008, as perspectivas no segmento de tintas automotivas não são animadoras, mesmo com as medidas do governo federal para aliviar a queda das vendas, como a redução de impostos e o aumento da disponibilidade de recursos para financiamentos. No ano passado, as vendas de tintas automotivas OEM, destinadas aos carros novos, chegaram a 48 milhões de litros, 15% acima de 2007. O faturamento, de R$ 402 milhões, superou em 21% o do ano anterior. Mas a previsão da Abrafati para 2009 é de estagnação, crescimento zero. “E esse é o cenário otimista”, disse Val Peres. A própria Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) não arrisca previsões para o volume de veículos produzidos em 2009. Mas o presidente da General Motors do Brasil, Jaime Ardila, afirmou em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o setor se prepara para uma queda de 11% a 15% nas vendas totais no ano. Se confirmada a projeção do executivo, nem o cenário “otimista” de crescimento zero nas vendas de tintas OEM se sustentará.

As perspectivas melhoram no segmento de repintura automotiva. Em 2008, foram vendidos 49 milhões de litros, num crescimento de 8% em relação a 2007. Já o faturamento cresceu 11%, totalizando R$ 481 milhões. Para 2009, a estimativa da Abrafati é de aumento de 2% no volume de tintas comercializadas, chegando a 50 milhões de litros. “Quem não compra carro novo, reforma o antigo”, afirma Val Peres. Opinião semelhante apresentou Antonio Carlos Fiola da Silva, presidente do Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo (Sindirepa). “Depois de anos de boas vendas de carros, teremos agora o ano da reparação de veículos”, acredita o executivo. Porém, Maurício Gustavo Palumbo, executivo da PPG, avalia que a maior procura pela repintura automotiva em 2009 virá acompanhada por uma pressão maior das seguradoras por redução de custos.

Tintas industriais – No segmento de tintas industriais, o crescimento em 2008 também foi de 8% em relação a 2007. O volume de tintas comercializadas no ano foi de 171 milhões de litros e o faturamento foi de R$ 1,33 bilhão, 14% superior ao registrado no ano anterior. A expectativa da Abrafati é de um crescimento de 1% no volume de tintas comercializadas em 2009. Segundo Val Peres, a menor disponibilidade de crédito na economia, os juros altos e a queda de renda da população devem influenciar negativamente nos investimentos industriais. O desempenho das exportações, apesar da desvalorização do real, ainda é uma incógnita, principalmente diante da queda das demandas internacionais. Porém, o segmento pode ser favorecido pelos investimentos em obras de infraestrutura.

Reinaldo Richter, diretor da WEG, também acredita numa desaceleração forte nesse segmento de mercado. Um exemplo são os investimentos suspensos na área de papel e celulose. Mas ele acredita que o ritmo da desaceleração será pautado pela oferta de financiamento para os investimentos industriais. Uma expectativa positiva são os projetos de plataformas marítimas da Petrobras e os 25 novos navios petroleiros programados pela sua subsidiária Transpetro. “Muito tem se falado nesses investimentos, mas pouco se concretiza. Esperamos que os investimentos finalmente aconteçam em 2009”, disse o executivo.

Durival Pitta, executivo da Sherwin-Williams, lembrou que o mercado mundial de tintas para a indústria naval em 2007 era de 142 milhões de galões e a previsão, antes da crise, era de que este número chegaria a 217 milhões de galões em 2012. As Américas respondem por 5,5% do consumo mundial e o Brasil, em 2007, consumiu 1,06 milhão de galões. A projeção de crescimento deste mercado no país é de 8% a 10% ao ano. Ele lembrou que, além da renovação da frota da Transpetro e das novas plataformas de exploração programadas, há a expectativa por novos investimentos no longo prazo, impulsionados pela descoberta de novas reservas de petróleo do pré-sal. Mais imediatos são os investimentos em novos estaleiros, como o Atlântico Sul (Pernambuco), Rio Grande (Rio Grande do Sul) e Maragogipe (Bahia).

No segmento de tintas para manutenção industrial, o consumo mundial em 2007 foi de 374 milhões de galões e a previsão (antes da crise) para 2012 era de 550 milhões de galões. As Américas respondem por 10% do consumo mundial e o Brasil, em 2007, consumiu 5,9 milhões de galões, com a projeção de crescimento, como dito pela Abrafati, de 1% em 2009. Entre as perspectivas positivas para o segmento, Pitta relacionou a construção de novas refinarias de petróleo no Maranhão e no Ceará, a construção do parque industrial e de refino em Suape-PE, os investimentos nas hidrelétricas de Jirau, no Rio Madeira, e Santo Antônio, a expansão do parque eólico e a ampliação da produção de biodiesel.

Pitta também mencionou investimentos em aumento de capacidades na produção de açúcar e álcool, papel e celulose, siderurgia e mineração. Segmentos que, após sua palestra no Fórum Abrafati, informaram cancelamentos e postergações de investimentos. Como alertou o próprio Pitta: “O andamento e a confirmação de algumas das iniciativas estão vinculados à continuidade de investimentos governamentais em infraestrutura, disponibilidade de créditos, preço das commodities e reação do mercado global.” De fato, todas as previsões em relação a 2009 estão cercadas de inúmeras condicionantes.

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