Tintas – Mercado orientado pelo preço repele a introdução de resinas inovadoras

Inovação, definitivamente, não é uma característica forte no mercado brasileiro de resinas para tintas. Não por deficiência dos fornecedores deste insumo. Em muitos casos, multinacionais com acesso direto ao que há de mais inovador em tecnologia de resinas no mundo. O mercado conta também com empresas nacionais capacitadas tecnologicamente e há ainda a hipótese de importação de resinas de ponta. O problema, afirmam os players, é que o brasileiro compra tinta pelo preço, pouco identifica qualidade. Nesse cenário, as inovações ficam restritas a segmentos técnicos ou aos casos em que os benefícios de novas resinas sejam bastante evidentes.

“No Brasil, prevalecem resinas de gerações antigas. A introdução de novos produtos ocorre de forma tímida. O interesse é pequeno”, afirma Ayrton Macedo, gerente de desenvolvimento de mercado da Reichhold do Brasil. O baixo apetite do mercado brasileiro por inovação, segundo executivos do setor, está diretamente relacionado a algumas peculiaridades do segmento de tintas do País.

A primeira dessas peculiaridades é que no Brasil, ao contrário do que ocorre no exterior, prevalece uma estratégia de produção em que o fabricante de tintas fabrica sua própria resina. No segmento de tintas imobiliárias, responsável por 77% do volume de produção e algo como 60% do faturamento do setor de tintas, avalia-se que um pouco mais da metade das vendas seja realizada por seis empresas, que possuem produção cativa de resinas.

Para os fornecedores independentes de resinas, que em teoria seriam os maiores interessados em introduzir inovações no mercado, afinal resina é o foco de seus negócios, sobra a metade menos atraente do mercado de tintas: a dos pequenos e médios fabricantes. Entre esses produtores menores, é freqüente uma segunda peculiaridade brasileira, a prática da informalidade. Alguns executivos do setor calculam que algo entre 20% e 25% das tintas comercializadas no País são provenientes de empresas que, em algum grau, sonegam impostos.

A estratégia do informal é clara: vencer pelo preço, pouco valorizando inovação. Os fabricantes de tintas intermediários, por sua vez, ficam espremidos. De um lado, os informais. De outro, grandes corporações com escala, produção cativa de resinas e poder de marketing. Para completar, o poder aquisitivo da população é predominantemente baixo. O que faz com que o consumidor brasileiro seja relutante em pagar mais por um produto de melhor qualidade.

“A decisão de compra no País é muito mais relacionada ao preço do produto do que ao resultado de uma análise do custo/benefício da tinta”, diz Edson Luiz Cimadon, gerente de mercado de resinas da Denver. Inovar, lançando novos produtos de maior valor agregado, num ambiente como esse, é uma ação restrita para quem tem uma ótima estratégia em nichos de mercado. Caso contrário, é sucumbir pela falta de competitividade nos preços.

Para uma mudança significativa nesse cenário, acreditam alguns executivos do setor, são necessários três fatores. O primeiro é uma redução da informalidade. O segundo fator exige um novo comportamento do consumi dor, prevalecendo a cultura da análise da relação custo/benefício. O terceiro fator seria uma mudança de estratégia entre os principais fabricantes de tintas do País, com a compra de resinas de empresas especializadas, em detrimento da produção cativa.

Luiz Carlos Pestana, gerente de produto para América Latina da Clariant, uma das maiores fornecedoras independentes de resinas para tintas no País, acredita que já há sinais de um declínio da estratégia de produção cativa de resinas. A tendência, diz o executivo, é de que os fabricantes de tintas privilegiem a especialização, como ocorre no exterior.

Neste caso, os insumos, como as resinas, seriam adquiridos de empresas independentes, experts em seus negócios, e as fábricas de tintas seriam “montadoras”, como ocorre na indústria automobilística. “Já há empresas realizando consultas no mercado nesse sentido. Em cinco a dez anos, a produção cativa de resinas será marginal no País”, acredita Pestana. Ocorrendo essa alteração na estratégia produtiva, acreditam os fornecedores independentes de resinas, abrem-se inúmeras oportunidades para a introdução de insumos de maior valor agregado.

Estireno-acrílicas– Enquanto isso não ocorre, o mercado continua concentrado em resinas de baixo custo. No segmento de tintas imobiliárias, essa realidade é bastante evidente. Entre as resinas para tintas de parede predominam as de acrílico modificadas com estireno, ou estireno-acrílicas, como são chamadas. Estas resinas, segundo algumas estimativas, respondem por mais de 95% dos negócios. Fica algo como 3% para as resinas à base de acetato de polivinila (PVA), consideradas ainda inferiores, sobrando apenas nichos para resinas mais avançadas.

Química e Derivados, Ayrton Macedo, Gerente de desenvolvimento de mercado da Reichhold do Brasil, Tintas - Mercado orientado pelo preço repele a introdução de resinas inovadoras
Macedo: procura por resinas mais recentes é baixa no País

As resinas estireno-acrílicas se impuseram sobre as resinas PVA por apresentarem maior resistência e lavabilidade. Mas também, como informa Edson Cimadon, porque, há uma década, possuem preços equivalentes. “Não julgo que essa posição das resinas estireno- acrílicas seja 100% consolidada. Havendo uma mudança no equilíbrio de preço das duas resinas, com o PVA tornando-se mais barato, uma parcela significativa dos fabricantes migrará para o PVA”, diz o executivo. O quilo da resina acrílica estirenada é comercializado na faixa de R$3,50 aR$ 3,60.

Apesar de ser considerada avançada em relação à resina PVA, a resina estireno-acrílica se encontra na base da pirâmide tecnológica, em se tratando de resinas para tintas de parede. Com maior valor agregado, são resinas como as de acrílicos puros e as resinas à base de vinil etilênico.

Luiz Pestana, da Clariant, faz uma comparação entre as três tecnologias. Ele informa que a resina estireno-acrílica tem uma resistência máxima de cinco anos, sendo que após dois anos a pintura passa a sofrer um amarelamento, em virtude da incidência de ultravioleta. Já as tintas elaboradas com resinas à base de acrílicos puros apresentam uma vida útil superior a dez anos, sem alteração de cor. Estas resinas, porém, são pelo menos 20% mais caras.

Na Europa, as resinas de acrílico puro respondem por 30% do mercado. Entre os europeus, informa o executivo, prevalecem as resinas vinil etilênico, que possuem desempenho próximo das resinas de acrílico puro, mas são mais econômicas. Essa inovação, porém, não tem data para chegar ao Brasil.

O problema, informa Pestana, é que em toda a América Latina é baixa a oferta de óxido de etileno, insumo básico da resina vinil etilênica. “Enquanto não houver grande oferta do insumo, não haverá produção local da resina e a importação não é competitiva”, diz o executivo.

Por ora, portanto, a aposta de inovação da Clariant no Brasil, no segmento de tintas para parede, é o desenvolvimento do mercado de resinas 100% acrílicas. Para isso, a estratégia da empresa envolve produção local e importação.

Aposta semelhante faz a Rohm and Haas. Há um ano a empresa introduziu no País, com produção local, a Avanse 412, nova resina em acrílico puro. Conforme informa Oswaldo Prickaitis, gerente de contas do negócio de tintas e revestimentos, o preço da nova resina é 20% superior ao das resinas estirenoacrílicas. Mas com duas vantagens, que acabam anulando esta diferença.

A primeira vantagem é que a quantidade necessária da resina 100% acrílica na formulação é inferior à quantidade exigida de resina estireno-acrílica. A segunda vantagem é que a nova resina reduz a necessidade de dióxido de titânio na formulação, por apresentar um alto poder de cobertura. “É uma resina que permite ganho de qualidade, sem impacto no custo”, diz Prickaitis. “Quando se apresentam soluções que unem estes dois fatores, há espaço para inovação no País”, afirma. Na prática, porém, este desempenho ainda não resulta em conquista significativa de mercado. O consumo de resinas 100% acrílicas ainda é incipiente no País. “Nossa meta é fazer esse consumo deslanchar”, diz o executivo.

Esmaltes e vernizes– Um segmento de mercado em mutação é o de esmalte sintético, utilizado para a decoração de ferros e madeiras. As formulações tradicionais de esmalte sintético são realizadas com resinas alquídicas, que exigem solventes. A inovação chega com os sistemas aquosos, que utilizam acrílicos puros.

Química e Derivados, Edson Luiz Cimadon, Gerente de mercado de resinas da Denver, Tintas - Mercado orientado pelo preço repele a introdução de resinas inovadoras
Cimadon: estireno-acrílicas ganham do PVA no preço

A vantagem, claro, é o apelo ecológico dos sistemas aquosos, que, por não utilizarem solventes, apresentam um menor impacto ao meio ambiente. Outra vantagem é a rapidez da secagem. O ponto negativo da inovação, como sempre, é o preço. O galão de esmalte sintético formulado com sistema aquoso chega ao consumidor entre 30% e 40% mais caro.

Denver e Clariant oferecem resinas para a formulação de esmaltes sintéticos aquosos. Pestana, da Clariant, informa que na Europa os esmaltes sintéticos base aquosa respondem por 90% do mercado. Nos Estados Unidos, por aproximadamente 40%. No Brasil, onde o mercado para a formulação nasceu há pouco mais de dois anos, os esmaltes aquosos respondem por 5% das vendas. “Mas é um negócio que cresce 10% a 15% ao ano”, afirma. Para a Clariant, que há mais de dez anos aboliu as resinas à base de solventes de seu portfólio, esta é uma boa notícia.

Ayrton Macedo, da Reichhold, uma das empresas líderes em resinas alquídicas para esmalte sintético, também acredita que a tendência neste segmento de mercado seja o crescimento das formulações aquosas. A Reichhold prepara o lançamento no País de uma resina para atender a este segmento de mercado. Mas a estratégia da empresa é oferecer produtos para os dois sistemas, alquídico e aquoso. “Quem vai decidir qual sistema é melhor é o consumidor”, afirma o executivo.

No segmento de vernizes para pisos de madeira, o consumidor, tudo indica, está fazendo sua escolha a favor da inovação. Neste segmento de mercado, tradicionalmente dominado por formulações à base de uréia-formol, como a conhecida marca Synteko, ganham espaço as soluções aquosas à base de poliuretano, apesar do preço do novo produto ser três vezes maior.

Química e Derivados, Luiz Pestana, da Clariant, Tintas - Mercado orientado pelo preço repele a introdução de resinas inovadoras
Pestana: produção cativa de resinas tende a declinar

Segundo Pestana, as formulações à base de poliuretano apresentam melhor resistência química. Mas o fator decisivo para o consumidor é o cheiro. Os produtos com uréia-formol exalam um forte odor, que impede o uso do local onde o material é aplicado em um prazo mínimo de 48 horas. Outro problema do sistema é a agressividade à saúde do aplicador. “O consumidor paga para livrar-se desses inconvenientes”, diz o executivo. As formulações com poliuretano já respondem por mais de 50% das vendas destes vernizes.

Anticorrosivas – Para o segmento de tintas com funções anticorrosivas, utilizadas principalmente em aplicações industriais, a Rohm and Haas está lançando no Brasil uma resina 100% acrílica, para formulações em tinta base água. Segundo Oswaldo Prickaitis a formulação é um novo paradigma, mais ecologicamente correto, para este segmento de mercado, hoje dominado por formulações alquídicas. “Os testes de salt spray demonstram que as tintas aquosas apresentam uma ótima performance em ambientes não muito agressivos”, diz o executivo.

O segmento de tintas anticorrosivas é o mercado por excelência das resinas epóxi, atendido, no Brasil, principalmente pela Huntsman e pela Dow Brasil. A resina é a que apresenta a melhor performance em ambientes agressivos. Por isso, é bastante aplicada em tintas navais, tintas para plataformas de petróleo, manutenção industrial e no e-coat utilizado pela indústria automobilística.

Química e Derivados, João Batista Jensen, Tintas - Mercado orientado pelo preço repele a introdução de resinas inovadoras
Jensen: mercados dos epóxis seguem apertados até 2010

O preço da resina epóxi, porém, tem sido bastante inflacionado nos últimos tempos. Há dois anos, o quilo da resina era comercializado a US$ 2,50. Hoje os contratos internacionais variam entre US$ 4,50 e US$ 5,00 o quilo. Segundo João Batista Jensen, gerente de marketing da divisão de epóxi da Dow Brasil, a escalada do preço da resina é resultado da baixa oferta mundial dos dois insumos básicos de sua formulação, a epicloridrina, obtida com cloro e propano, e o bisfenol-A, derivado do fenol.

Por outro lado, o consumo de resinas epóxi se encontra aquecido, não apenas no mercado de tintas, responsável por um pouco mais de 50% da demanda da resina, mas também no mercado de placas de circuitos impressos, utilizados pela indústria eletrônica.

Jensen avalia que a oferta de epóxi continuará pressionada pelo menos até 2010, quando deve entrar em operação uma nova unidade da Dow com capacidade de produzir 100.000 MTPA (milhões de toneladas por ano) de resinas epóxi líquidas em Jiangsu, na China.

Jensen não acredita que o alto preço do epóxi viabilize, no curto prazo, o mercado para resinas alternativas no segmento de tintas anticorrosivas. “Não há tecnologias com performance equivalente em ambientes agressivos”, afirma o executivo.

O alto preço do epóxi também não é visto como um impedimento para a introdução de uma nova resina, a epóxi novolac, que tem custo acima de US$ 10,00 o quilo. É claro, a aplicação é bastante técnica e o mercado, no Brasil, bem restrito. Aqui, o consumidor em potencial é a Petrobrás, com a aplicação direcionada para revestimento de tanques. A grande vantagem da nova resina é sua capacidade de resistir a altas temperaturas. Enquanto um tanque revestido com epóxi tradicional opera a uma temperatura de até 60ºC, com uma resina epóxi novolac, a resistência do tanque chega a 100ºC.

Mercado em alta – Ainda que timidamente, os fornecedores de resinas vão apresentando suas novidades ao mercado brasileiro. A aceitação depende do preço ou de um alto ganho tecnológico. Mas inovar é sempre mais fácil quando o mercado está comprador. Dilson Ferreira, presidente-executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (ABRAFATI), estima que as vendas do setor em 2007 devam crescer entre 6% e 6,5% em relação ao ano passado, quando foram comercializados 968 milhões de litros de tinta no País. Resta saber se a demanda aquecida vai ser suficiente para quebrar as resistências dos consumidores aos produtos com maior valor agregado e viabilizar a introdução de resinas mais avançadas no Brasil.

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