Tintas: Mercado em recuperação busca Pigmentos de Qualidade

Os fornecedores de pigmentos para a indústria de tintas estão na expectativa de que a economia brasileira mude de rumo em 2018. Após amargar um período recessivo, o setor se prepara para crescer e enfrentar os desafios das regulamentações cada vez mais exigentes e das novas tecnologias que estão chegando em um momento em que a China reduz a produção de matérias-primas, gerando instabilidade.

Química e Derivados, Caetano: tintas inteligentes exigem avanço nos pigmentos
Caetano: tintas inteligentes exigem avanço nos pigmentos

“Acreditamos que, a partir deste ano, vai ocorrer uma recuperação de consumo nas principais áreas de tintas”, declara Marcelo Caetano, gerente técnico de pigmentos e preparações pigmentárias da Colormix Especialidades. “O maior consumo irá refletir no aumento de vendas dos pigmentos orgânicos e estimular projetos que ficaram on hold, como a substituição de pigmentos com metais pesados”.

“Para 2018, há um otimismo moderado para os pigmentos orgânicos”, classifica Milton Yoshio Uehara, gerente técnico de coatings da Clariant América Latina. “Há expectativa de retomada da economia e, consequentemente, do consumo no país, porém fatores relacionados com o cenário político e econômico fazem com que o futuro ainda não esteja muito claro”.

Representante do portfólio de pigmentos da Basf Colors & Effects, a IMCD também aposta na tendência de recuperação, mesmo com as incertezas que o ano traz. “A situação macroeconômica tem mostrado melhorias e sinais de recuperação’, informa Eider M. Amorim Junior, diretor do negócio de pigmentos da distribuidora.

Na ótica da Forscher, o mercado de pigmentos orgânicos deverá experimentar um crescimento, em 2018, de 8% a 10% nos valores de importação. “Há dois fatores de impacto a considerar: o crescimento do PIB e a forte alta de preços dos pigmentos orgânicos clássicos pela falta de matérias-primas. Muitos pigmentos tiveram aumentos superiores a 20% em dólar. A tendência é de alta por pelo menos mais uns 6 meses. Se esses aumentos perdurarem por um tempo maior, é possível que o crescimento em valor seja maior do que os estimados 10%”, analisa o diretor Harry Heise. “Com relação aos volumes, estimamos que haverá uma manutenção de consumo, ou até uma redução, por causa das elevações nos preços”.

Química e Derivados, Amorim oferece pigmentos para linha automotiva, da Basf/Landa
Amorim oferece pigmentos para linha automotiva, da Basf/Landa

“A construção civil não engrenou, continua andando de lado. Há falta de investimentos em infraestrutura e o ramo imobiliário não ganhou velocidade”, lamenta o gerente executivo de vendas da unidade de pigmentos inorgânicos da Lanxess, Givanildo Ferreira. Com razão, pois o desempenho das tintas em geral (e o da empresa) depende do crescimento do imobiliário, o grande propulsor de consumo de matérias-primas e de tintas (80% do volume).

Outras áreas, como as de tintas industriais ou protetivas e marítimas, também sofrem com o baixo desempenho ou estagnação dos negócios e, na opinião de Ferreira, “não têm contribuído para o avanço do segmento”. Já o automotivo, no qual é relativamente menor a participação da companhia, vem exibindo recuperação com base no comportamento das exportações.

Ele avalia que o crescimento setorial deste ano será modesto, da ordem de 1,5%, índice que a Lanxess deverá acompanhar. Difícil, entretanto, é fazer previsões com um prazo maior. “Tudo está conectado com a economia e a política. O Brasil precisa de um novo presidente que tenha compromisso com um programa de investimentos e de incentivo à indústria. Precisa haver uma retomada na construção civil, motor para muitas divisões da economia e fonte de geração de renda e de emprego. O que está movimentando o segmento de tintas, atualmente, são as reformas. Somente a construção de novos imóveis é que fará a indústria ter um giro mais rápido”.

Heise considera difícil fazer qualquer estimativa, “especialmente no Brasil, onde a instabilidade política e a complexidade fiscal têm afastado investimentos e causado fechamento de fábricas tradicionais”. Arriscando um palpite, ele diz que, no médio prazo (5 anos), deve ocorrer um crescimento no consumo de pigmentos da ordem de 2% a 3% ao ano. No longo prazo (10 anos), a tendência a restrições ambientais, pressão de preços e outros fatores farão que se experimente uma substituição por produtos incolores ou fabricados com tecnologias novas e mais ecológicas.

“No médio e longo prazos estamos otimistas e confiantes na capacidade de recuperação cada vez mais expressiva da economia e de todos os setores com que nos relacionamos”, sintetiza Amorim. Por isso, a IMCD investiu nos laboratórios de aplicação de coatings, plásticos e cosméticos para dar suporte técnico em pigmentos para os clientes, assim como na abertura de unidades no Uruguai, na Argentina e no Chile.

Química e Derivados, Heise: restrição chinesa pode ser mera estratégia comercial
Heise: restrição chinesa pode ser mera estratégia comercial

A crise – A alemã Lanxess conseguiu driblar a crise com os seus pigmentos inorgânicos.

“2015 e 2016 foram anos muito difíceis, de recessão geral. Mas registramos um crescimento de 6% em 2016 e de 4% em 2017, com aumento de market share. No ano passado, o setor esboçou uma pequena reação, em relação aos exercícios anteriores, voltando a crescer 1,9%”. Fazendo um balanço desses últimos três anos, Ferreira julga o período como positivo.

Nos últimos anos, os negócios de pigmentos orgânicos sofreram, segundo Heise, “uma forte retração, particularmente após 2014”. Ele calcula que a redução acumulada até 2016, superou os 22%. No ano passado, houve ainda uma pequena retração em relação a 2016, inferior a 1%, já dando sinais de estabilização. Em quantidades, a retração foi menor. De 2014 a 2016, a retração foi de aproximadamente 9% e, de 2016 para 2017, houve um aumento de 8%. Essa análise indica que ou os preços tiveram uma queda maior do que as quantidades, ou seja, produtos de maior valor foram substituídos por produtos mais baratos.

O uso de pigmentos está diretamente ligado à economia do país. Evidentemente, com o desempenho positivo no último trimestre de 2017, o consumo de pigmentos também apresentou melhora, raciocina Uehara. “Tintas imobiliárias, tintas de impressão gráfica e o ramo de plásticos acompanharam essa tendência, porém em tintas automotivas, apesar de também haver crescimento, a tendência de cores das novas coleções (prata, cinza, preto e branco) não favorece o uso de pigmentos coloridos”.

Caetano lembra que a maioria dos pigmentos coloridos são importados. “Com a recessão em diversos campos, houve retração das importações e do consumo destes insumos nos últimos anos. As tintas automotivas, industriais e decorativas sofreram quedas significativas neste período e, automaticamente, impactaram os negócios de pigmentos orgânicos”, argumenta.

Para Amorim, da IMCD, a queda dos últimos anos foi estancada e o comércio de pigmentos voltou a crescer, ainda que de forma comedida, buscando acompanhar a retomada da economia e do PIB. Setores que apresentaram declínios expressivos, como o de automóveis, mostraram crescimento em 2017.

Química e Derivados, Uehara: gestão de fornecedores garante suprimento a clientes
Uehara: gestão de fornecedores garante suprimento a clientes

China – A Lanxess investiu € 70 milhões em uma planta na China que é considerada o estado da arte na produção de óxido de ferro (25 mil toneladas/ano). É de lá que provém a linha New Red, uma nova geração de pigmentos de óxido de ferro vermelho que se diferencia por um novo método de produção. Informa-se que o processo Ningbo representa um verdadeiro salto em inovação e oferece vantagens especiais em termos de sustentabilidade e qualidade de pigmento.

Como uma extensão do consolidado portfólio Bayferrox, é a única empresa no mundo a abranger o espectro completo de vermelhos com tons amarelados destinados às tintas de alta performance e revestimentos. E além disso, pela primeira vez, com esse novo processo, é possível produzir pigmentos vermelhos em espaços de cor que antes eram inalcançáveis.

A organização produzia pigmentos vermelhos com o processo Laux. Entretanto, o espectro de cor na faixa dos vermelhos brilhantes e amarelados era limitado. Daí o desenvolvimento de um processo inteiramente novo, que oferece vantagens significativas sobre os métodos de produção tradicionais de Penniman e Copperas para a produção de pigmentos vermelhos amarelados. A produção teve início no primeiro trimestre de 2016 na costa leste da China. “O New Red é uma inovação. Não há ninguém que tenha esse vermelho”, comemora Ferreira.

A instalação da unidade chinesa coincidiu com o aperto da legislação ambiental naquele país, que já provocou o fechamento acelerado de indústrias ou redução das capacidades instaladas de produção de óxido de ferro em até 60%. “Em 2008, a China abrigava 80 fábricas de óxido de ferro. Hoje, há aproximadamente 30 e a tendência é de consolidação”, observa o gerente executivo de vendas. A China é líder mundial na manufatura desse insumo.

O uso de ácido nítrico e de soda cáustica no processo industrial do óxido de ferro é algo “extremamente perigoso do ponto de vista ambiental”. Para se adequar aos novos tempos, a produção do New Red é sustentável. “Isso exigiu investimentos elevados em filtragens e reaproveitamento nos processos industriais”, relata Ferreira.

Química e Derivados, Ferreira: fábrica na China faz o pigmento inovador New Red
Ferreira: fábrica na China faz o pigmento inovador New Red

Caetano, da Colormix, também testemunha que, nos últimos anos, diversas empresas asiáticas foram obrigadas a se adequar às novas legislações ambientais; algumas não conseguiram aprovação do governo e tiveram que reduzir ou encerrar as suas produções. Consequentemente, o aumento da demanda e a redução de produção “tem pressionado os preços de pigmentos neste primeiro trimestre”.

Heise, da Forscher, está preocupado. “Constantemente somos surpreendidos por medidas governamentais de alto impacto na indústria química como um todo. Não esperamos que esse ciclo seja de curta duração. É difícil avaliar se são efetivamente medidas de cunho ambiental ou estratégias comerciais da China, uma vez que toda a indústria de pigmentos foi transferida para a Ásia (notadamente a China). Pode simplesmente ser uma estratégia de elevação de preços, afinal, montar novas plantas em países europeus ou mesmo nos Estados Unidos é custoso, demorado e a pressão ambiental é muito maior”.

“Toda a cadeia produtiva de pigmentos orgânicos está sendo seriamente afetada pela redução proveniente da China”, afirma Uehara. “Matérias-primas essenciais para a produção tiveram a sua disponibilidade impactada e alguns Color Index foram afetados por indisponibilidade e aumento de preços. A Clariant tenta amenizar estes fatores por meio de sua estratégia de gestão de fornecedores”.

“As empresas cada vez mais solicitam produtos que sejam comprovadamente não tóxicos e não agridam o meio ambiente. Apesar de não haver legislação especifica quanto a esse tema no Brasil, há maior conscientização e substituição espontânea”, pondera Caetano.

Uehara pensa que as regulamentações estão em constante atualização e no Brasil isso não é diferente. “Está em discussão, junto à Abiquim, a diminuição do teor máximo de chumbo em tintas, não só nas imobiliárias, mas em todos os tipos. O tema VOC também está em discussão junto à comissão da Abrafati”.

“A Clariant trabalha na vanguarda do segmento, estando sempre à frente em relação às novas regulamentações e exigências globais de mercado. Avaliamos e desenvolvemos novas matérias-primas com o intuito de que nossos produtos estejam de acordo com as mais rigorosas regulamentações ambientais, até mesmo as que ainda não são requeridas. Temos metas audaciosas de redução das emissões de resíduos e diminuição do consumo de água para todo o grupo”, complementou.

Heise argumenta que as regulamentações estão sempre mais exigentes e assim deverão permanecer. “Agora, até o dióxido de titânio entrou na mira dos órgãos regulamentadores; questiona-se a segurança de seu uso. No Brasil, a alfandega endureceu os procedimentos com relação à presença de pragas em paletes de madeira, exigindo o retorno da carga para a origem, não aceitando nem processo de fumigação”.

Tecnologia: Caetano comenta a existência de um nicho que, atualmente, busca tintas mais tecnológicas, as chamadas tintas inteligentes.

Estas, além de proporcionar estética, conferem características funcionais e também têm crescimento expressivo na Europa, Ásia e Estados Unidos e, lentamente, estão sendo introduzidas no Brasil. “Pigmentos que acompanhem estas tendências e tecnologia terão maior utilização em breve”, prevê.

Ele antecipa que novas tecnologias de aplicação para tintas com efeito espelhado, tintas marítimas não incrustantes sem adição de materiais tóxicos, tintas com altíssima proteção anticorrosiva com menor camada e livres de fosfatos são alguns exemplos de tendências para novas aplicações.

A Colormix Especialidades trabalha com aditivos poliméricos e reológicos da BYK, pigmentos de alumínios e micas sintéticas da Eckart, micas naturais da Ruicheng, pigmentos orgânicos da DCC para a indústria, Toyo Color para as tintas gráficas, pigmentos inorgânicos da Ferro, além de óxidos de ferro amarelo, vermelho e preto.

Heise revela que existem alguns estudos relacionados à fabricação de pigmentos que refratam a luz, simulando, por exemplo, as cores de uma asa de borboleta, que ocorre sem a presença de nenhum pigmento ou corante. Simplesmente por efeito físico da luz incidente, refletida e refratada e as interferências entre os comprimentos de onda da luz.

“É uma tecnologia que promete a cor sem nenhum composto químico perigoso”, salienta. A Forscher é especializada em pigmentos de alta performance. “Temos a linha mais completa. Alta performance implica propriedades de alta resistência à luz, intempéries, química e à temperatura. Como não somos fabricantes, temos como estratégia buscar sempre inovações, produtores de altíssima qualidade e competitivos”, assinala o diretor.

“A  Basf Colors & Effects anunciou, no ano passado, o desenvolvimento, em conjunto com o laboratório Landa de uma nova linha de pigmentos para o setor automotivo, de alta cromaticidade e fácil dispersão, que simplificará a produção dos clientes e tem potencial para ser um novo marco na indústria”, diz Amorim.

Uehara observa que a Clariant começou a produzir pigmentos orgânicos com matérias-primas derivadas de fontes não fósseis. Os pigmentos à base de quinacridona (magenta PR122) já estão sendo fabricadas com parte das matérias–primas à base de fontes renováveis, como é o caso do ácido succínico.

“Também temos em nosso portfólio uma linha de preparações de pigmentos à base de solvente, a linha Hostatint A-100 ST, que conta com uma série de pigmentos supertransparentes isentos de halogênios, muito indicados para uso em materiais que serão reciclados no futuro. Destacamos também a linha de pigmentos de fácil dispersão (ED Pigments), com a qual o fabricante de tintas pode reduzir em até 80% o custo de transformação do produto, pois não há necessidade da etapa de moagem da tinta. Vale ressaltar que as nossas tradicionais linhas de produtos sempre estão de acordo com as mais exigentes normas de sustentabilidade”, adiciona.

A Lanxess tem planos para aumentar a sua produção global. Em Porto Feliz-SP, o projeto é ampliar a produção de amarelos em mais 2 mil toneladas/ano. A unidade tem capacidade de 35 mil t/ano de amarelos por síntese e pretos. “Esses pigmentos têm baixa absorção de óleo e são desejáveis para a indústria de tintas”, afirma Ferreira. Tonalidades de amarelo são exportadas para a Europa e América do Norte. Na matriz da Alemanha, espera-se ampliar de 20 mil a 30 mil t/ano a capacidade atual, da ordem de 350 mil t/ano de óxido de ferro. Os prazos das ampliações estão em estudo.

O presidente da IMCD na região, Maurício Lopes, destaca que está abrindo um centro de distribuição no Uruguai, que irá servir também a Argentina, o Chile e o Peru.

“Esta expansão é chave para o crescimento no continente. Iniciaremos pela área de pigmentos, mas a estratégia é servir estes países de forma ampliada, com todas as linhas de produto, expertise e apoio técnico”. A IMCD oferece desde dezembro de 2017 todo o portfólio de pigmentos da Basf Colors & Effects: orgânicos, inorgânicos, corantes e de efeito, de forma exclusiva, para o Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia e Paraguai.

Química e Derivados, Lea: instabilidade política ainda afeta mercado nacional
Lea: instabilidade política ainda afeta mercado nacional

Negro de fumo: Tradicional fabricante de negro de fumo, a Cabot aposta que o mercado de tintas deve melhorar este ano, embora de uma forma mais lenta e ainda não consolidada.

“Este ainda é um ano de muitos desafios e incertezas com as eleições se aproximando, o que nos deixa sem saber ao certo o que prever”, afirma Lea Sgai, gerente de marketing e serviços técnicos.

Ela revela que a Cabot tem crescido acima do PIB global e espera continuar nesse ritmo também no segmento de tintas, que é de “grande importância”. Observa, no entanto, que as restrições de meio ambiente na China afetaram a demanda mundial por negro de fumo.

Mesmo diante das adversidades macroeconômicas, há otimismo. “Tivemos um crescimento importante no ano passado e esperamos que seja consolidado nos próximos anos”. Lea diz que a Cabot está sempre atenta às inovações e busca de novas tecnologias e aplicações alinhadas às necessidades de mercado, tais como produtos condutivos, contatos com alimentos, produtos para baterias, base água, entre outros. A empresa “tem investido fortemente em suas plantas ao redor do mundo, ampliando capacidade e buscando novas tecnologias”.

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