Tintas Imobiliárias – Programas sociais incentivam consumo no NE

A julgar pelas percepções dos três maiores fabricantes de tintas imobiliárias instalados no Nordeste – Basf (Suvinil), Iquine, e Akzo Nobel (Coral) –, as atividades de suas empresas, todas instaladas em Pernambuco, tendem a uma fase de expansão acelerada, já certificada pela própria decisão de se expandirem em percentuais acima dos cogitados para as fábricas que mantêm em outras regiões.

Executivos das três fábricas atribuem essa expansão percentualmente maior no consumo de tintas, em relação ao consumo no Sul e Sudeste, em especial aos efeitos das políticas de transferência de renda. Seguidos aumentos reais no salário mínimo e os efeitos desses aumentos nas pensões e aposentadorias das famílias de renda mais baixa, que no Nordeste têm maior relevância, são fatores destacados nas análises referentes à expansão do consumo e bem-estar na região. Programas como o Bolsa Família apenas estariam contribuindo adicionalmente para esta expansão.

Os executivos se referem, também, aos efeitos dos investimentos na formação da renda, principalmente em razão dos que estão em curso em Pernambuco, a exemplo do Polo Naval, das iniciadas construções da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape; e também à construção do trecho da BR 101 entre Natal-RN e Palmares-PE. “O que vemos em Pernambuco é algo que deve ser levado em consideração”, reconhece o diretor de marketing da Iquine, Alan Souza.

Pela Suvinil, o gerente de marketing para o Nordeste, Abraão Costa, enfatiza também o crescente efeito causado por projetos anteriormente implantados, como o polo irrigado de fruticultura nos municípios de Juazeiro-BA e Petrolina-PE, situados em margens opostas do Rio São Francisco; e o programa Minha Casa Minha Vida. Esse programa habitacional estaria elevando em 80 milhões de litros o consumo nacional de tintas e, nesse bolo, a elevação correspondente ao Nordeste estaria sendo de um a dois pontos percentuais a mais, em relação ao Sul e Sudeste. Referindo-se à produção e vendas de sua fábrica, instalada no município de Jaboatão dos Guararapes-PE, assegura: “Nos recentes cinco anos, nosso crescimento na região extrapolou a média nacional.”

Para o gerente da fábrica da Akzo Nobel em Recife, Frederico Gonçalves, a própria expansão do PIB dos estados nordestinos explica o que está ocorrendo. “Hoje há uma busca maior por tinta líquida, em razão do aumento do poder de compra das classes C e D, que antes compravam tinta em pó e estão passando para o consumo de uma tinta de maior qualidade.” Com mais dinheiro no bolso, a necessidade ou desejo de renovar a pintura da casa pulsa mais forte. “É uma reação movida pelo estético”, filosofa. Uma reação, explica, contra o natural desgaste causado na pintura pelas intempéries. “A perda da cor causa um aspecto desagradável e a nova pintura valoriza os imóveis”, argumentou. Quanto mais a renda aumenta, mais haveria essa reação de consumo.

Na Suvinil, o projeto é duplicar a produção da fábrica de Jaboatão, elevando-a a 140 mil t/ano. Na Iquine – que além de fábrica em Jaboatão dos Guararapes, tem a de Serra-ES –, a expansão em curso em ambas as unidades, “para atender às demandas nos 18 estados das regiões Norte, Nordeste e Sudeste onde a marca está presente”, é de 120 mil t/ano. A empresa se apresenta como dona de 7,5% e 30%, respectivamente, do market share nacional e da região Norte/Nordeste.

Alegando questão de posicionamento estratégico, a Akzo não revela qual o volume produzido em sua fábrica pernambucana e outras informações referentes a planos e projetos – e nem os dados referentes ao próprio mercado regional.

Consumo – Mas qual seria, precisamente, o consumo de tintas imobiliárias nos nove estados do Nordeste, e como tem evoluído? Os três executivos alegam que a Associação Brasileira de Fabricantes de Tintas (Abrafati) não divulga estatísticas regionalizadas, alegação confirmada por Química e Derivados.

Alan Souza, da Iquine, é o único a apresentar uma avaliação particular: as regiões Norte e Nordeste, em conjunto, representariam 25% da demanda nacional de 700 milhões de litros/ano. “Nos recentes cinco anos”, arrisca, “o mercado teria crescido nacionalmente a uma média anual de 3% a 5%, mas no Nordeste seguramente cresceu mais”. Souza justifica: depois de as necessidades de alimentação e os serviços mais elementares serem atendidos, a natural propensão das famílias é melhorar a casa, o ambiente onde vive.

Abraão Costa, da Suvinil, ressalta que, em janeiro, a Abrafati projetou para todo o Brasil um crescimento de 4% para 2010; mas agora tende a revisar esta estimativa para 8% ou 9% – para o Nordeste, separadamente, para além dessa marca. Ele avalia que o mercado de tintas na região continua representando apenas 15% a 16% do mercado brasileiro – posição já histórica –, mas a tendência seria equiparar essa marca ao mesmo percentual da população, cerca de 30%. “O Norte segue o mesmo nível de crescimento do Nordeste”, admite.

Enfatiza Abraão Costa que antes desta evolução as famílias das faixas de renda mais baixas muito raramente pintavam suas casas, situação que vem mudando nos recentes seis a oito anos, em paralelo à maciça migração de famílias da classe D para a C. “Muito mais gente passou a ter orçamento para tinta”, atesta. A casa dessas famílias deixou de ser apenas um dormitório e passou a ser, também, local de bem-estar e convívio. “Ao ascenderem socialmente, as famílias começam a aspirar pela valorização e manutenção da casa”, salientou.

O colega da Akzo Nobel apenas concorda: o mercado regional cresce mais, em relação à média do país. Apenas quando instigado, refere-se à influência do programa habitacional Minha Casa Minha Vida: “Com certeza influencia, sim”, diz poupando o entusiasmo.

Padrões de tintas – Os executivos das três fábricas consideram lógico que no atual estágio de desenvolvimento social o mercado majoritário no Nordeste ainda seja o nicho das tintas econômicas, que agregam pouco valor em relação às outras opções, das linhas standard e premium.

Abraão Souza avalia que o consumo das tintas econômicas ainda representa 60% do total – um volume em termos percentuais bem superior à média do restante do país, entre 32% e 35%. “O mercado nordestino sem dúvida é mais econômico, em comparação ao das demais regiões – e essa, sem dúvida, é a maior diferença”, analisou. Para ele, o hábito de morar muito tempo em casas inacabadas persiste, e quando, finalmente, a primeira pintura ocorre, é sempre com uma tinta econômica. “Só depois se descobre que tintas standard e premium oferecem um desempenho bem mais alto”, disse. Ressalva, entretanto, que há uma indecifrável exceção, um paradoxo: no Piauí, o consumo da linha premium é mais elevado do que o dos tipos econômicos. “É difícil entender”, rende-se Costa. “É um ponto fora da curva.” O fato é que no Piauí, um dos dois ou três estados de renda mais baixa, o interesse em manter bem apresentada a casa extrapola em relação ao restante da região.

Concorda Frederico Gonçalves, da Akzo Nobel, que o maior consumo na região ainda corresponde a um mix da linha econômica, para ele com vendas em torno de 65%; mas pondera: já estaria sendo percebida certa tendência a um consumo maior das tintas standard e premium. Em sua empresa, os produtos standard já apresentam maior expansão comercial em confronto com os econômicos. Como consequência, a Akzo Nobel já teria alcançado a liderança regional na faixa premium. Alan Souza apenas ressalva: a Iquine “está mais focada no padrão standard”.

Preferências regionais – Entre as especificidades do consumo nordestino, Alan Souza aponta a “cultura das cores mais fortes”, as notadas nos próprios casarios coloniais, como os de Olinda (Pernambuco) e Pelourinho (Bahia). “Os tons tropicais brasileiros prevalecem”, ressalta. Essa cultura exclui quase completamente o uso de tinta branca nas fachadas, onde a preferência pictórica é voltada, principalmente, para o vermelho e amarelo fortes, carregados na pigmentação.

Frederico Gonçalves atribui ao clima, quase sempre ensolarado, essa crescente procura por cores mais “fortes e vibrantes”, principalmente para usos externos. Ressalva, porém, que nos ambientes internos a predominância do branco persiste. “Ainda é uma escolha frequente, pois possibilita o aproveitamento melhor da luminosidade”, explicou.

Abraão Souza ressalta que o mesmo Piauí, onde o consumo das tintas premium é o mais acentuado no Nordeste, é também onde a cultura das cores fortes, apesar de presente em todos os estados da região, disseminou-se mais intensamente. Cores fortes usadas nas fachadas que ele associa a flores e frutas tropicais.

Entretanto, as três fábricas não produzem tintas especialmente “colorizadas” para a região. As fórmulas de cores são as mesmas das demais regiões. A incidência mais prolongada de sol e das chuvas também não são motivo para mudanças e adaptações. “Não há nenhuma tinta diferenciada para o Nordeste”, resume Abraão Costa. “A norma brasileira é a mesma para todas as regiões.”

Na Bahia e Pernambuco, sabe-se que algumas fábricas costumam doar as tintas de coloração sempre fortes usadas na renovação das pinturas dos sobrados que formam os casarios históricos. Essas doações seriam associadas à intenção dos doadores em disseminar a preferência por tais colorações, ou seja, investir no “efeito vitrine”.

Além de provocar maior impacto visual, induzindo à preferência por cores mais pigmentadas, os fabricantes levam em conta que elas são as mais afetadas pela ação das intempéries e, portanto, também são as mais propensas à renovação da pintura a intervalos mais curtos. Abreviar o tempo para a nova pintura é detalhe importante nas estratégias de marketing. Alan Souza reconhece que a propriedade de se degradarem em tempo menor é fator favorecedor da renovação e do incremento das vendas.

Instigado, Abraão Souza admite que telhados pintados de tintas branco-reflexivas, como os das casinhas vistas na ensolarada costa do Mar Egeu, poderiam reduzir em até quatro graus célsius a temperatura interna nos dias nordestinos mais ensolarados, mas não há tal percepção no mercado.

Segundo o gerente da fábrica da Akzo Nobel, outra peculiaridade regional é a opção ainda alta por tintas a óleo (base solvente), indício de certa resistência ou desconfiança ao uso de esmaltes à base d’água. Seria, segundo ele, um atavismo associado à preferência do pintor, que ainda não se rendeu aos apelos e benefícios ambientais. “Neste aspecto, no Nordeste ainda somos um mercado muito tradicional”, resume Gonçalves.

Alan Souza destaca outra particularidade regional, também admitida pelos outros dois executivos: a maior procura por tintas de secagem mais rápida. Tal preferência seria mais notada na Bahia, o maior estado consumidor de tintas no Nordeste. Decorreria da circunstância de a secagem em 30 minutos evitar que o pintor permaneça de braços cruzados, esperando o tempo passar, para começar a segunda demão. A secagem acaba, explica Souza, quando o solvente se evapora e o odor residual estiver atenuado. Ele propagandeia: “A opção que a Iquine oferece para isso é o esmalte de secagem rápida Dialine, o líder na região.”

Para a Akzo Nobel, a performance da tinta deve ser a mesma nas variadas regiões – “e para isso algumas adaptações podem e devem ser feitas para atender a um bom nivelamento, às condições de aplicação quanto ao clima, secagem etc”, explicou Gonçalves. “Adaptações às necessidades locais expressam respeito à regionalidade.” Ele informa que a Akzo Nobel ajusta suas formulações às necessidades do Nordeste.

É também na Bahia, segundo o representante da Iquine, que a preferência pela embalagem de 18 litros é mais forte contra os galões, preferidos nos demais estados.

Informalidade – O diretor de marketing de Iquine imagina que ainda possa haver alguma produção informal na região, lucrando principalmente com a sonegação do IPI, mas enfatiza ser reduzido esse campo de atuação. E tende a perder o pouco espaço restante “por conta da criação da nota fiscal eletrônica e das fiscalizações mais efetivas da Receita Federal e Polícia Federal”. Nos financiamentos habitacionais, a Caixa Econômica exige a apresentação da documentação fiscal, exigência que também dificulta a informalidade.

Alan Costa alerta: não se deve confundir a pequena produção que está em conformidade com o Programa Setorial de Qualidade da Abrafati com os produtores informais e clandestinos, que não seguem os padrões de qualidade, nem respeitam as obrigações fiscais. “Há pequenas fábricas na Bahia, no Pará, e em outros estados; só no Ceará são 19”, revelou, sem apontar restrições a nenhuma. A convivência das pequenas produções com os fabricantes com maior escala é possível porque a proximidade do consumo é relevante, explicou.

Produzir no Nordeste – Apesar dos avanços na infraestrutura, como o do Porto de Suape-PE, Abraão Souza avalia que produzir no Nordeste ainda é enfrentar o alto custo dos fretes para vencer os mais de 1,5 mil quilômetros entre a fábrica da Suvinil em Jaboatão e Manaus-AM. Uma parte do percurso é feita por cabotagem – de Suape a Belém – e o restante por barco, até Rio Branco, subindo o Rio Amazonas. A logística é complicada. Faltam portos, estradas, conservação e sobram gargalos. “Nossos custos com fretes são muito altos”, assevera.

Essa geografia complicada é o motivo de a fábrica estar em Pernambuco e não na Bahia, onde, no entanto, mantém toda a estrutura comercial para as regiões Norte e Nordeste, incluindo a diretoria. “A Bahia é o mercado mais importante, mas se a fábrica estivesse aqui seria bem mais difícil alcançar os extremos ao Norte”, explicou.

O executivo da Akzo Nobel é mais módico nas queixas: considera Pernambuco uma posição geográfica “muito favorável”. Indagado como se faz para entregar um carregamento em Manaus ou no Acre, e quais os custos em razão das ineficiências e escassez de infraestrutura, apenas se referiu à necessidade de usar toda a malha logística disponível, “conforme a necessidade e a viabilidade para atender nossos clientes da melhor forma”. Valoriza também a boa localização em relação ao mercado externo, segundo ele em crescimento. Assegura que a decisão de produzir no Nordeste considera a busca de cadeias logísticas mais eficazes. “Sempre que possível, a empresa utiliza matérias-primas locais, favorecendo o desenvolvimento regional.” Entre estas matérias-primas cita “pastas pigmentadas, pigmentos óxidos e óleos”.

Exportação – Produzir tintas é uma atividade essencialmente destinada a mercados regionais, mas esse mandamento não exclui as pequenas exportações feitas pelas três fábricas. A Iquine revela que sempre há algum embarque para o exterior, vendas spot para a África e às vezes Europa. O representante da Suvinil lembra que o grande mercado para tintas é sempre o interno, ou, no caso dele, o regional. “As exportações, sempre na modalidade spot, são estimadas em 3% da produção da fábrica, incluindo no bolo as tintas automotivas. Não há marcas globais, nem os chineses produzem para exportar”, arrematou Abraão Souza. E já que se referiu à China aproveitou para dar uma notícia: a Basf está dando andamento a um projeto para produzir tintas naquele país, para consumo dos chineses.

A Akzo Nobel é a mais entusiasmada com o mercado externo. Sem citar números, Frederico Gonçalves revelou: “A nossa posição geográfica é muito favorável.” Ele informou que a área de exportação está em crescimento e a fábrica de Recife investe no aumento das exportações.

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