Tintas em Pó – Melhor afinidade com substratos favorece crescimento das vendas

química e derivados, tintas em póA Associação Brasileira dos Fa­bricantes de Tintas (Abrafati) relata forte crescimento no seg­mento de tintas em pó. As estatísticas são escassas, mas ninguém duvida da existência de um boom comercial. Estima-se que o consumo nacional supere as 40 mil toneladas/ano.

Há, porém, quem avalie essa demanda com moderação, ficando em torno de 30 mil t/ano, como o diretor presidente da Protech do Brasil, Moises Cohen. E há também quem dimensione esse mercado de forma mais generosa: 50 mil t/ano, segundo Anselmo Freitas, gerente de vendas e marketing da AkzoNobel Powder Coatings. Outros, ainda, sustentam uma versão intermediária, como Edson Sanches, gerente de vendas da Reichhold do Brasil, cujas estimativas são de mais de 35 mil t/ano.

Como o volume exportado é pequeno – menos de 10% do total produzido –, as vendas se dividem entre a indústria em geral, equipamentos de transporte, eletrodomésticos, construção civil (ferragens/alumínio) e o chamado FBE (revestimento de tubos e gasodutos). Uma das explicações para esse fenômeno de crescimento é a preocupação, cada vez maior, com a aquisição de produtos com baixo impacto ambiental.

Além da preocupação com a emissão de voláteis à atmosfera, Hermes Antonio Campos, diretor de suplementos da Sherwin-Williams, comenta que a migração de componentes que são pintados em sistemas líquidos para o pó também decorre de alguns substratos possuírem melhor afinidade com a pintura em pó, seja em tamanho ou forma geométrica. “Em geral, o sistema de pintura em pó permite às empresas uma redução no custo final de seus produtos, pelo fato de essa tinta possuir 100% de sólidos.”

Reinaldo Richter, diretor superintendente da WEG Tintas, corrobora a tese: “O mercado de tintas em pó apresenta crescimento ano após ano, apesar do aumento do número de competidores.” Segundo ele, os fabricantes de equipamentos e aplicadores têm se especializado e já conhecem melhor as vantagens da pintura a pó. “As novas tecnologias, tanto das tintas como das cabines de pintura, também têm colaborado muito para esse crescimento”, adiciona.

Freitas comenta que o mercado brasileiro é muito promissor, considerando as possibilidades de utilização de tintas em pó nos mais diversos segmentos, assim como a migração, em alguns casos, da tinta líquida para o pó. “Novas tecnologias também contribuem com a perspectiva consistente de incremento de sua participação.”

Para Campos, o mercado de tintas em pó cresce em média dois pontos percentuais acima do mercado regular de tintas. Cohen arrisca um palpite: o mercado nacional está crescendo de 6% a 7% ao ano, nos últimos anos, empurrado pela tendência mundial de busca de tecnologia ambientalmente correta. Freitas estima um crescimento em torno de 5% a 7% ao ano.

Na visão de Sanches, o segmento de tinta em pó “não tem demonstrado linearidade no consumo mês a mês”. Mas, neste segundo semestre, há aumento de demanda decorrente do crescimento do consumo de produtos industrializados para as vendas de final de ano.

Para Narciso Moreira Preto, diretor-geral da Arpol Red Spot Tintas Ltda., o segmento de tinta em pó ainda é um mercado crescente com bom apelo em relação à produtividade e à proteção ambiental, principalmente para as peças metálicas com médio peso e alta produção. Ou seja, “é um produto específico para linhas de produção em que o investimento no projeto do equipamento, alinhado à necessidade técnica da tinta, bem dimensionado, gera um bom resultado”.

Híbridos – Na avaliação de Richter, da WEG, e de Cohen, da Protech, o mercado brasileiro de tintas em pó apresenta uma maior concentração nos produtos híbridos (mistura de epóxi e poliéster) e, em segundo lugar, poliéster. “O mercado brasileiro está focado nesses tipos e não em especialidades”, diz o executivo da Protech.

Sanches, da Reichhold, informa que as resinas mais utilizadas são poliéster e epóxi. O poliéster garante, segundo Campos, da Sherwin-Williams, uma ótima performance com relação à resistência aos raios UV, sendo indicado para pintura de componentes que fiquem em áreas externas. Esta resina “é utilizada para conferir à tinta em pó maior flexibilidade do filme e maior durabilidade”, define Sanches.

A resina epóxi possui baixa resistência a UV, porém alta resistência química, oferecendo proteção, por exemplo, à ferrugem. O híbrido mescla as características do poliéster e do epóxi.

Preto, da Arpol, acrescenta que os híbridos são produzidos com formulações entre 70% de poliéster e 30% de epóxi. “Este produto tem uma vasta aplicação para pinturas da indústria em geral, para peças que não sofrem muito a ação das intempéries.” Já as tintas para a construção civil usam produtos com maior concentração de poliéster, que têm maior resistência à ação dos raios UV, conservando o brilho e a cor do acabamento por longo tempo. E as peças que exigem maior resistência química são produzidas com maior concentração de resinas epóxi.

O executivo da Arpol enfatiza que há uma divisão clara entre os produtos de grande consumo, como a linha branca e a de autopeças, a linha industrial variada e a de produtos especiais. “O grande diferencial é a alta produtividade que as duas primeiras linhas exigem. Somente quem investiu em uma linha de produção com equipamentos de alta produção por hora tem condição de atendê-los.”

Os insumos – A questão crucial é que muitos insumos são importados. “Por conta do crescimento do mercado asiático, nos últimos anos os insumos têm aumentado significativamente os seus preços em dólar, enquanto que as vendas no mercado brasileiro são realizadas em reais”, reclama Richter.

Cohen reforça: “Os custos das matérias-primas estão sempre aumentando. Acredito que houve um acréscimo de 10% no último ano.” Há fornecedores locais das resinas, mas os fabricantes de tintas em pó dizem que é compensador importar as matérias-primas.

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Cohen: consumo nacional se concentra em tintas híbridas e de poliéster

Campos relata que 2010 e este ano são marcados por grandes aumentos nos custos dos principais insumos da cadeia petroquímica, o que impactou na produção das tintas em pó. “O fortalecimento do real ajudou a amenizar este impacto na cadeia como um todo, porém o fato é que estamos pagando muito mais do que no passado”, afirmou.

“Outro detalhe importante é que certos insumos são utilizados não só na indústria de tintas, mas também na indústria têxtil, plástica e outras. Um crescimento muito alto na demanda desses segmentos reflete diretamente no preço e na disponibilidade das matérias-primas”, declara Richter.

Freitas, da AkzoNobel, resume: “As principais famílias de matérias-primas apresentaram incrementos muito elevados, com destaque para o titânio (TiO2).” Cohen confirma e fala em escassez mundial do óxido de titânio.

O maior esforço, segundo Freitas, tem sido a manutenção de determinadas linhas de produtos que, em função do aumento do consumo e a consequente escassez de algumas matérias-primas, apresentam variações muito significativas nos custos e preços finais.

Há algum tempo, esse mercado sofreu com a entrada de tintas em pó ruins e de qualidade inferior provenientes da China. “Os produtos chineses têm avançado no mercado nacional não só nas tintas em pó, mas também nas matérias-primas. Em ambos os casos, os produtos são, em sua maioria, de qualidade duvidosa, o que é comprovado em análises específicas”, aponta Sanches, da Reichhold.

“A qualidade e a garantia de um produto constante e confiável é a arma que temos contra este tipo de ataque ao nosso mercado”, dispara Preto. “O mercado está cada vez mais exigente e ávido por produtos de alta qualidade”, reconhece Richter. “Mesmo assim, os produtos chineses de baixa qualidade e custo têm atrapalhado o mercado.”

Preto diz acreditar muito no investimento em tecnologia e nas aplicações especiais. “Hoje, os processos líquidos de várias camadas para atingir alta espessura e resistências físicas e químicas requeridas para aplicações anticorrosivas já podem ser substituídos por tinta em pó com maior facilidade de aplicação e custos mais baixos. O crescimento deste mercado é o resultado de muita pesquisa e desenvolvimento.” Ele considera esse crescimento como um prêmio para quem insiste nesse trabalho e fica protegido contra o ataque de produtos não confiáveis.

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Preto: boas para peças metálicas de peso médio

Cohen, da Protech, também reconhece a presença de produtos de qualidade inferior no mercado e lamenta que o consumidor brasileiro se limite a comparar preços: “Os clientes nem sempre são fiéis e alguns só enxergam o preço e não a performance e a qualidade das tintas em pó.”

Ele conta um exemplo disso: “Desenvolvemos tinta em pó com acabamento cromado. Embora essa opção compense mais do que mandar cromar a peça, o cliente só quis saber da questão preço e a nova tecnologia não foi aproveitada. É difícil convencer o cliente a adquirir produtos com maior tecnologia quando ele só tem foco no preço”, lamenta.

Enquanto os fabricantes de tintas em pó se queixam do custo dos insumos, Gustavo Oliveira, business manager para a América Latina da Lubrizol Performance Coatings, se defende: “O desequilíbrio entre a demanda e a oferta de algumas matérias-primas essenciais para o segmento tem sido a grande causa do aumento de custos em âmbito mundial.” E acrescenta: “A Lubrizol tem buscado minimizar esse impacto para seus clientes por meio de várias iniciativas. É uma questão, entretanto, que preocupa toda a indústria e é de difícil resolução a curto prazo.”

Edson Sanches, gerente de vendas da Reichhold, concorda que as resinas e os pigmentos geram os maiores impactos no custo final das tintas em pó “devido ao percentual elevado utilizado nessas formulações”. As oscilações de preço ocorrem de forma periódica porque “a maioria das matérias-primas sofre a variação dos preços internacionais, seja por sua composição (derivados de petróleo, para as resinas) ou pela disponibilidade”.

A Lubrizol possui unidades produtivas espalhadas em várias regiões do mundo, divididas por especialidade/tecnologia. A produção é exportada para diversos mercados, por conta das necessidades dos clientes. No segmento de tintas em pó, a empresa conta com um amplo portfólio de aditivos para obtenção e incremento de diversas propriedades, tais como: fosqueamento, texturização, resistência ao risco, agentes antiestáticos, nivelantes, desgaseificantes e dispersantes. “Destacamos, principalmente, os modificadores de superfície Lanco, com funcionalidades de PE, PP, PTFE, amida, compostos de PE-PTFE e composições especiais”, afirma Oliveira.

O executivo explica que a Lubrizol investe continuamente em pesquisa e desenvolvimento. Recentemente, lançou no mercado modificadores de superfície da família PowderAdd, “desenvolvidos para tintas em pó com o objetivo de atingir efeitos e propriedades específicas e diferenciadas”. Oliveira assegura que a empresa tem um foco estratégico no crescimento dos negócios no Brasil. E conclui: “No curto prazo, buscaremos aumentar nossa penetração nos segmentos em que atuamos trazendo produtos novos e diferenciados. A médio e longo prazo, analisaremos as alternativas de crescimento por meio da produção local de alguns itens.”

Já a Reichhold dispõe de um portfólio variado de produtos para as mais diversificadas condições, como a Fine Clad M8950, a Fine Clad M8932, a Fine Clad 11559 e a Fine Clad M8711. A Fine Clad M8950 tem propriedades especiais de cura, permitindo a produção de tintas em pó para serem aplicadas até mesmo em madeira.

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Formas geométricas de alta produção são ideais para aplicação em pó

André Oliveira, supervisor de desenvolvimento de mercado, esclarece que algumas das novidades tecnológicas da Reichhold visam à otimização do processo de fabricação e aplicação das tintas em pó, como as resinas que permitem a redução no tempo de micronização (Fine Clad 11559), e a fabricação de tintas em pó de elevadíssima durabilidade para aplicações em ambientes externos (Fine Clad M8911). Outras novidades se aplicam ao aspecto da tinta, como sistemas foscos especiais, com o uso de resinas específicas (Fine Clad M8081) e vários tipos de acabamentos. Além de produtora de resinas poliésteres para todos os tipos de tintas em pó, a empresa se destaca também pela produção de aditivos do tipo masterbatch, como o Fine Clad A551H.

Maus-tratos – Cohen chega a dizer que as tintas em pó, por requererem equipamentos específicos e alta tecnologia, têm sido muito “maltratadas” no Brasil. Ele se queixa que a rentabilidade desses produtos é baixa em comparação com as tintas líquidas. Por outro lado, é difícil competir porque há muita concorrência no mercado, gerando excesso de capacidade instalada e redução nas margens de lucro.

Campos concorda com Cohen. “Este é um mercado claramente orientado por preço. Alguns setores, porém, começam a demandar produtos um pouco mais elaborados, mas ainda são nichos, pois a maciça demanda do mercado ainda é por preço, sendo estes produtos mais técnicos supridos em sua grande maioria pela tinta líquida.”

Preto, da Arpol, também tem queixas quanto à baixa lucratividade do produto: “Os altos custos das resinas sólidas para produção de tinta em pó reduzem significativamente o resultado financeiro das empresas, que não têm produção própria de resinas. O investimento para a produção de tinta em pó não é pequeno, principalmente quando se projeta uma planta para produção de resina também.”

“A WEG investe anualmente no desenvolvimento tecnológico”, declara Richter. “A empresa se preocupa em disponibilizar produtos que apresentem boas propriedades anticorrosivas e que curem em temperaturas menores do que as atuais.” Esses desenvolvimentos têm sido utilizados em diversos segmentos, entre os quais petróleo e gás.

Há sinais evidentes de que a política da WEG de inovação tecnológica e de crescimento contínuo veio para ficar. “O lançamento de produtos inovadores, bem como a expansão dos negócios, como a aquisição da argentina Pulverlux, são provas dessa política”, informa Richter.

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Oliveira: investimento em novos modificadores de superfície

Este ano, a Arpol transferiu a unidade de tinta em pó para um site maior e investiu em mais um equipamento para aumentar a capacidade de produção em 25%. Também aumentou as áreas de pesquisa, desenvolvimento e controle de qualidade. “Foi um planejamento estratégico para atender às necessidades dos nossos clientes com mais agilidade e rapidez”, explica Preto.

A AkzoNobel continua investindo “consistentemente”, nas palavras de Freitas, no desenvolvimento tecnológico, “focando em inovações que contribuam para a sustentabilidade dos negócios de seus clientes”.

Embora considere difícil falar abertamente em planos, por razões estratégicas, Campos diz que a Sherwin-Williams acompanha o crescimento orgânico do mercado nos últimos quatro anos e, agora, tem o compromisso de ampliar a sua participação no mercado. “Enxergamos que muitas das dificuldades passadas por este mercado estão sendo corrigidas e é chegada a hora de atuarmos mais agressivamente.”

O futuro das tintas em pó tem um brilho azul e não só pela ausência total de solventes e altos índices de rendimento e aproveitamento do material. “A especialização dos aplicadores e a conscientização da indústria em geral sobre as vantagens da pintura em pó tendem a aumentar cada vez mais a demanda por esses produtos e a sua consequente evolução”, prevê Richter.

Sanches lembra que as perspectivas são de crescimento em razão dos fortes investimentos da construção civil para a realização da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e da Olimpíada de 2016. “Várias estruturas metálicas poderão utilizar as tintas em pó de maior durabilidade aos raios UV.” Também se atribui o boom à política governamental de aumento do consumo interno, que acaba afetando vários produtos que utilizam as tintas em pó, como os eletrodomésticos.

Cohen é otimista a longo prazo. “A mentalidade vai mudar. O Brasil ainda vai acabar consumindo as especialidades. Haverá mais opções para os clientes. Novas tecnologias virão e a tendência será oferecer produtos de maior valor agregado.”

No ambiente global, a estratégia da Protech é continuar adquirindo empresas para reduzir a capacidade instalada. “Em algum momento, o mercado de tintas em pó tem que reagir e o cliente irá pagar um preço justo”, vaticina o executivo de origem venezuelana.

Campos resume sua expectativa em uma frase: o fato da tinta em pó ser extremamente amigável ao meio ambiente pode dar um bom indicativo do futuro. Freitas acredita em uma “ampliação significativa” da utilização das tintas em pó.
Preto não é tão otimista e joga suas fichas em um mercado “crescente e difícil”, pois não vê tendência de aumento da lucratividade: “A capacidade produtiva está acima do consumo.” A saída, para ele, depende da elevação do consumo.

Superioridade – A Frisokar/Cerantola do Brasil, empresa do ramo moveleiro (cadeiras, longarinas, poltronas etc), utiliza pintura a pó há mais de dez anos. O engenheiro químico João Paulo Benati comenta que a qualidade e a durabilidade “são muito superiores” em relação às tintas convencionais. Isso porque não há perdas, pois todo o processo de aplicação é feito em cabines fechadas, com exaustores, e o excedente retorna para o reservatório de tinta onde é fluidizado e volta a ser aplicado. Além disso, o processo é inofensivo ao meio ambiente e ao aplicador, por ser isento de solventes.

A Frisokar utiliza essas tintas no acabamento de texturas e microtexturas. Essa aplicação é feita, por exemplo, na estrutura e nos componentes metálicos de cadeiras.

 

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