Tintas e revestimentos: Torres eólicas e máquinas agrícolas estimulam vendas de anticorrosivas

Química e Derivados, Parque eólico de Paracuru-CE
Parque eólico de Paracuru-CE

Por ter demanda em praticamente todos os segmentos produtivos ou de infraestrutura, o mercado de tintas anticorrosivas tem uma proteção natural a momentos mais críticos da economia. Se determinados setores não vão muito bem, como é o caso agora por exemplo da indústria de bens de capital, a petroquímica ou o mercado de óleo e gás, aplicações necessárias das tintas protetivas em outras atividades econômicas compensam as possíveis perdas.

Atualmente essa compensação vem principalmente do mercado de energia e da indústria de máquinas e equipamentos agrícolas, segundo avaliação de Luiz André Ortiz, diretor da Renner Coatings. No primeiro caso, o principal destaque é a realização de vários leilões de energia eólica nos últimos anos, com a consequente construção de parques de geração no Sul e Nordeste, e a previsão de que até 2022 a base instalada dessa energia renovável represente 17,4 mil MW, ou 9,5% da matriz do país, contra os atuais 1,5%. “Esse setor sem dúvida entrou em um círculo virtuoso”, disse Ortiz.

Conforme o diretor da Renner, empresa de capital nacional que disputa com grandes grupos globais os fornecimentos nessa área, a demanda no setor vem das pinturas das torres eólicas de concreto e metálicas dos turboaerogeradores (as pás são de fibras especiais), cujos fabricantes exigem garantia de proteção à corrosão superiores a 20 anos. Não custa lembrar que boa parte dos parques eólicos se encontra em regiões litorâneas, o que faz a preocupação com a ação altamente corrosiva da maresia ganhar ainda mais força.

A pintura das torres é feita pelos próprios fabricantes, empresas estrangeiras que se instalam próximas aos locais onde foram ou serão erguidos os parques eólicos. Segundo Ortiz, de forma geral, as torres de concreto, construídas em módulos, são revestidas com sistemas de poliuretano, com primer selador para corrigir a rugosidade, seguido de manta especial e com acabamento em PU, que garante além da proteção à corrosão uma grande estabilidade à luz. Já as torres metálicas recebem primer de epóxi e acabamento em PU.

Muito porque os fabricantes de torres são estrangeiros, vários deles de países como Espanha e Alemanha, onde há restrições aos componentes orgânicos voláteis (VOC) contidos em solventes das tintas, as tecnologias empregadas têm sido na maior parte das vezes base água e com alto teor de sólidos. No caso da Renner Coatings, segundo revelou seu diretor, os desenvolvimentos próprios das tintas produzidas em sua fábrica de Curitiba, específicos para essas aplicações, foram submetidos a homologações nas matrizes dos fabricantes das torres, empresas como a alemã Wobben e a argentina Impsa.

Conseguidas as homologações das principais fabricantes, mercado que aliás  tende  a ter mais competidores, a Renner vem fornecendo bastante para essas empresas. “As torres precisam por lei ser fabricadas com pelo menos 65% de conteúdo nacional”, disse. “E não há economia na proteção anticorrosiva dos sistemas, assim como em toda a tecnologia envolvida, porque a manutenção dos aerogeradores é muito cara e eles evitam ao máximo paradas”, completou.

Química e Derivados, Loyola: primer epóxi em pó em pulverizadores
Loyola: primer epóxi em pó em pulverizadores

Em pó – O outro exemplo de mercado com consumo interessante de tintas anticorrosivas é o de máquinas e implementos agrícolas, pelo motivo óbvio de que a agricultura tem segurado as contas públicas com o bom desempenho das safras. Tem essa percepção do mercado o gerente de pesquisa e desenvolvimento da divisão PowderCoatings da Akzo Nobel, Hector Loyola.

Para confirmar sua visão, Loyola cita fornecimento recente para a fabricante de máquinas e implementos agrícolas Stara, de Não-Me-Toque, no Rio Grande do Sul,  para quem a Akzo fechou contrato de fornecimento de primer rico em zinco em pó, para proteção anticorrosiva de pulverizadores de defensivos agrícolas, produtos altamente corrosivos ao metal do equipamento.

Segundo Loyola, o revestimento é feito em um sistema inovador da Stara, o único pulverizador autopropelido do mundo, que não precisa de trator ou outro equipamento para puxá-lo sobre a plantação. “E foi justamente por causa da inovação, que passou a ter resposta grande no mercado nacional e internacional, que foi necessário aumentar a proteção anticorrosiva para suportar as distâncias na exportação e os diferentes ambientes e intempéries”, disse. Para o leste europeu, por exemplo, aonde o pulverizador está sendo muito exportado, além dos defensivos os fertilizantes também são aplicados na forma líquida pelo mesmo equipamento, o que aumenta ainda mais o potencial corrosivo.

Para proteger melhor o equipamento, a Akzo Nobel, atendendo a um pedido da Stara, trouxe da subsidiária francesa o PZ790, sistema de tratamento de superfície rico em zinco. Depois de ensaios e acompanhamento do desempenho da aplicação, em fevereiro de 2013 a Stara autorizou a importação do produto e passou a utilizar aproximadamente 3 t/mês do primer, em todas as máquinas que trabalham em condições suscetíveis à corrosão. “Isso reduziu a quase zero a incidência”, afirmou Loyola. Em ensaios em câmara em condições extremas, com névoa salina, a tecnologia apresentou aumento de resistência à corrosão em mais de oito vezes, em até 3 a 4 mil horas de teste salt spray. O top coating de PU utilizado é em pó também.

Química e Derivados, Richter não sentiu desacelaração na indústria e está confiante
Richter não sentiu desacelaração na indústria e está confiante

Revestimento único – Na avaliação de alguns competidores, o mercado de tintas anticorrosivas, mesmo com a leve desaceleração do setor de petróleo, com muitas obras atrasadas, também teve nos últimos anos um bom impacto das obras da Copa do Mundo, para revestimentos das estruturas metálicas e de concreto dos estádios. E essa avaliação positiva vai até mais longe, no caso diretor-superintendente da Weg Tintas, Reinaldo Richter. Para ele, nem mesmo nas vendas para o setor industrial a empresa catarinense sentiu baixa.

“O mercado se mantém estável. Setores como química e petroquímico, offshore, de estruturas metálicas, açúcar e álcool, agroindústria, siderurgia, mineração, de transmissão e distribuição de energia e até mesmo de máquinas e equipamentos estão distribuindo bem as vendas”, disse Richter. Embora não divulgue números de desempenho da empresa, a boa distribuição citada por ele deve garantir a manutenção de crescimento anual acima de dois dígitos. Uma prova da confiança no mercado é o investimento previsto de R$ 52 milhões em 2014 em inovação, ampliação e modernização de máquinas e equipamentos na fábrica de tintas da empresa de Jaraguá do Sul-SC.

Essa confiança se traduz também na expansão de uso de tecnologias mais avançadas, como sistemas com revestimentos únicos (primer-acabamento juntos na demão), como por exemplo tinta à base de poliureia. “Temos o produto no nosso portfólio desde 2010, mas as novas tecnologias sempre levam um tempo maior para emplacarem no mercado, até mesmo porque este muitas vezes remete a normas em que estes produtos não são referenciados”, disse. Segundo ele, a tecnologia oferece um ganho substancial de produtividade ao substituir esquemas de pintura compostos por primer e acabamento. “Alguns clientes já optaram por ele e capitalizaram os ganhos”, completou.

As poliureias, segundo a apostila técnica da Shervin-Willliams, são consideradas revestimentos e não tintas, pois são de espessuras altas, chegando algumas a ter de 1 mm até 6 mm. Segundo a apostila, elas são muito elásticas (até 425 %) e resistentes (até 3.000 psi). A poliureia é produzida pela reação de uma amina com isocianato alifático (IPDI) ou aromático (MDI), apresenta alta capacidade de elongação e resistência à tração. Produz revestimentos de cura rápida, 100% sólidos (sem VOC).

Química e Derivados, Gnecco: tendência é o uso de revestimento único
Gnecco: tendência é o uso de revestimento único

Aliás, também acredita muito na expansão de uso de tintas anticorrosivas de revestimento único o gerente de treinamento técnico da Sherwin-Williams, Celso Gnecco, responsável pela elaboração da apostila e profissional com larga experiência na área. “É a grande tendência do mercado, por causa da redução de horas de trabalho, sua secagem rápida e a capacidade de conseguir a mesma proteção e espessura no revestimento”, explicou. “Com uma ou duas demãos é possível chegar ao mesmo desempenho dos sistemas convencionais com primer de epóxi, tinta intermediária e acabamento de PU ou epóxi”, disse. Segundo ele, a empresa tem feito vários treinamentos e divulgações em empresas de engenharia para difundir a tecnologia.

Gnecco cita o caso da tinta Cor-Cote HT da SW que em uma demão apenas consegue atingir a espessura de até 250 µm, em aplicação vertical, sem escorrer. Com base na resina epóxi novolac e catalisador de amina, com pigmentos lamelares, a tinta consegue suportar ambientes altamente agressivos, como ácido sulfúrico, e tem secagem rápida. A tecnologia atende recentes exigências da Petrobras e de setores como de mineração, siderúrgica e de papel e celulose também demandam a alta resistência dessas tintas.

Segundo Gnecco, as tintas epóxi novolac são curadas com poliamina e projetadas para resistir às piores condições industriais. Elas contam com maior resistência química a ácidos, bases e solventes orgânicos, imersão em produtos corrosivos (em maiores concentrações e temperaturas) e ainda resistências mecânicas, pois suportam calor em temperaturas maiores do que as tintas convencionais e ao desgaste por abrasão, pois têm maior dureza. “Quando reforçadas com pigmentos lamelares como o óxido de ferro micáceo ou com cargas cerâmicas ou fibra/flocos de vidro, sua capacidade de resistir à agressividade do ambiente e proteger contra a corrosão é muito melhorada”, disse. De acordo com ele, a forma de aplicação do epóxi novolac pode variar de pistolas convencionais, para tintas com teores de sólidos por volume de 75% a 90%, até pistolas “plural component”, para tintas com sólidos por volume de 100% (sem solventes).

Química e Derivados, Pulverizador: proteção a defensivos e fertilizantes líquidos
Pulverizador: proteção a defensivos e fertilizantes líquidos

Tripé – Na opinião de Gnecco, o desenvolvimento da tecnologia de revestimento único e secagem ultrarrápida, porém, demanda melhorias de preparação de superfície e de métodos de aplicação, que começam a ficar disponíveis no Brasil. “É um tripé: a tinta, o jateamento com abrasivos especiais e a aplicação com pistolas que fazem a reação da tinta na hora, por causa de sua cura rápida”, disse. Complementa essa necessidade o hidrojateamento, para manutenção, usado para remoção da tinta antiga, já que aí não há necessidade de preparar o perfil de rugosidade da superfície. “Mas aí usamos tinta com tolerância à superfície molhada, as do tipo damp tolerant”, complementou.

E o tratamento de superfície antes da pintura, de acordo com Gnecco, hoje atende perfis de rugosidade máximos de 100 µm, principalmente para seguir normas da Petrobras, o que faz as tintas precisarem ter melhor desempenho, com melhor adesão, ao mesmo tempo em que os jateamentos.

Apesar de ainda haver ilegalidades na área de tratamento de superfície, com empresas que ainda usam jateamento de areia, Gnecco ressalta que há muitas empresas sérias na área, com tecnologias baseadas em abrasivos como bauxita sinterizada, óxido de alumínio, escória de cobre, rocha basálticas. “O teor de sílica desses abrasivos é muito baixo e não corre risco de criar silicose nos operadores. E também tem outra coisa, esses produtos têm sílica combinada, que não é perigosa como a sílica livre presente na areia”, disse.

OAP – Um outro exemplo de tecnologia que a Sherwin-Williams pode oferecer para melhorar os revestimentos anticorrosivos são as tintas que utilizam um pigmento especial, o OAP, opticamente ativado, pelo qual é possível verificar com aparelho de luz ultravioleta as falhas nas demãos durante a aplicação. Recentemente, a própria Petrobras, ao precisar acelerar a construção de um equipamento submerso na China que seguiria para a Bacia de Campos, mudou o revestimento convencional para uma tinta de secagem rápida epóxi Fast Clad ER (edge retentive, retenção nas bordas) da SW e que conta com o pigmento OAP (Optical Active Pigment).

“O inspetor acompanha a pintura com o aparelho e visualiza as falhas, determinando os pontos onde serão necessárias novas demãos”, afirmou Gnecco. O procedimento faz com que o ensaio de checagem final da obra, feita com um detector elétrico, dificilmente encontre algum defeito. A tinta Fast Clad, segundo Gnecco, é indicada para revestimentos internos de tanques e que fiquem mergulhadas no mar.

Também a Weg, segundo Richter, percebe maior interesse por sua tinta à base de epóxi polissiloxano, bicomponente, de alto sólidos Wegpoxi Weather. “Elas já são uma realidade nos mercados europeu e norte-americano e fazem parte de normas internacionais, o que facilita a aceitação no Brasil”, disse. Da mesma forma, o diretor nota o crescimento nas vendas das epóxi novolac, com flocos de vidro, nos setor químico e petroquímico.

Uma outra tecnologia que Celso Gnecco, da Sherwin Williams, chama a atenção como promissora são os poliuretanos poliaspártico, cujo desempenho é próximo das aplicações e características das tintas poliuretânicas alifáticas bicomponentes, por serem usadas como acabamento devido a sua natureza de não-amarelamento e resistência a luz. “As poliaspárticas podem ser formuladas com sólidos muito altos (70-100%) e aplicadas em espessuras altas, de até 250 micrometros de espessura seca em uma única demão”, disse.

As poliaspárticas conseguem gerar tintas de baixo ou quase zero VOC, onde o éster poliaspártico é o componente principal do co-reagente para reação com o poliisocianato. Além disso, a reatividade do éster poliaspártico permite a formulação de tintas de  cura rápida. “As características mais marcantes das tintas são a economia, a alta espessura, baixa temperatura de cura, e resistências à abrasão e à corrosão”, disse Gnecco.  Segundo ele, o nome poliaspártico foi utilizado para diferenciá-lo de poliureias e poliuretanos. “Mas as poliaspárticas são muito diferentes em propriedades de aplicação e de desempenho das poliureias convencionais, já que permitem ao formulador controlar a taxa de reação e de cura, com tempo de mistura dos componentes (pot life) que pode variar de 5 minutos a 2 horas.

Química e Derivados, A unidade da Renner em Curitiba passará por investimento
A unidade da Renner em Curitiba passará por investimento

Retomada – Na demanda por mais tecnologia os mercados de petroquímica, óleo e gás são fundamentais. E a depender da expectativa dos fornecedores as vendas para esses setores tendem a crescer, mesmo que no momento tenham sofrido impactos principalmente por causa do desempenho conturbado da Petrobras. Na opinião do diretor da Renner Coatings, Luiz André Ortiz, apesar de os investimentos, por exemplo em polos petroquímicos estarem em stand-by, a expectativa é que eles respondam por mais de 60% dos investimentos dos próximos cinco anos. “É uma questão de tempo, daqui a pouco o Comperj, as refinarias Premium I e II, retomam os pedidos e aí os aplicadores e empresas de engenharia começarão a comprar muita tinta anticorrosiva”, disse.

Para Ortiz, junto com a energia eólica o setor de óleo e gás, mais o naval, serão as pérolas do setor de anticorrosivas dos próximos anos. Foi por essa constatação, aliás, que a Renner firmou em 2013 acordo tecnológico com a japonesa Chugoku, uma das líderes mundiais em fornecimento de tintas para o mercado de óleo e gás, off-shore e marítimo. “Eles dominam a tecnologia, principalmente em produtos de primeira geração, base água, de alto-sólidos, primer-acabamento dois em um, sem solventes e isentos de metais pesados”, disse. O acordo resulta principalmente em tintas produzidas na fábrica de Curitiba.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.