Tintas e revestimentos: Repintura mantém vendas com inovações para reduzir custos e tempo dos reparos

Química e Derivados, Ensaio de aplicação no laboratório da Axalta, em Guarulhos
Ensaio de aplicação no laboratório da Axalta, em Guarulhos

O mercado das tintas para repintura automotiva mostram uma dinâmica muito diferente e menos sujeita às agruras da atual crise da economia nacional do que as tintas vendidas para as montadoras (linhas OEM). Afinal, menos viável a compra de um carro novo, maior a importância do cuidado com o atual, seja para mantê-lo em melhores condições de uso, seja para revendê-lo e comprar um modelo um pouco mais recente, talvez, um seminovo, segmento cujas vendas explodiram nos últimos meses (ver box).

Embora também sofra algum impacto conjuntural, a indústria de tintas para repintura consegue manter sua trajetória de atendimento das demandas a ela impostas já há algum tempo. Uma delas é o desenvolvimento de produtos capazes de agilizar os procedimentos e reduzir os custos, aumentando a produtividade e a rentabilidade de todo o processo de repintura. Outra, a contínua busca por primers, base coats e vernizes ambientalmente amigáveis que hoje fundamenta a ampliação da fatia de mercado ocupada pelas tintas de base aquosa.

Química e Derivados, Karina: futuro da repintura está nas tintas de base água
Karina: futuro da repintura está nas tintas de base água

Em regiões como Europa e Estados Unidos, a base água já predomina entre as tintas para repintura, mas no Brasil – onde ainda não existe legislação referente a emissão de compostos orgânicos voláteis (VOC) na repintura automotiva –, as tintas com solventes ainda respondem por algo entre 80% e 90% da movimentação desse mercado, estima Karina Monaco, gerente de marketing da Glasurit (marca de repintura da Basf, que nesse mercado atua também com a marca Salcomix).

Diversos outros fatores contribuem para ser ainda restrito o uso, no Brasil, de tintas de repintura base água. Entre eles, Karina cita a inexistência de um universo maior de oficinas e profissionais qualificados para lidar com essa tecnologia, que exige investimento em novos equipamentos (como os chamados ventures, destinados à secagem); por isso, ao menos por enquanto, a tecnologia base água se limita principalmente às grandes oficinas e às concessionárias.

Karina considera inexorável o avanço dessa categoria de produtos, tanto por serem eles ambientalmente mais saudáveis, quanto por seus requisitos de desempenho e eficácia, como a maior facilidade de retoques e de acerto de cores, e o melhor rendimento, que possibilita a aplicação de menos demãos. “Embora seu preço seja hoje algo entre 15% e 20% superior, relativamente à base solvente, crescerá o uso da base água”, prevê a profissional da Glasurit, marca premium da Basf no mercado da tintas automotivas, cuja Linha 90 é composta por produtos base água (essa mesma marca inclui ainda as linhas 55 e 20, ambas com produtos à base de solventes).

Rodolfo Rodrigues, analista de marketing e produto da PPG, até qualifica a evolução dos produtos à base de água como “o principal avanço” da tecnologia de repintura. Na PPG, ele prossegue, esse avanço se materializa na linha de tintas base água Envirobase High Performance, já em sua quarta geração.

Paralelamente ao trabalho com a base água, a PPG também busca desenvolvimentos com outros benefícios – como a redução dos tempos dos processos e o aumento da produtividade –, quando agrega a seu portfolio produtos como o primer DP4000 Self Levelling e o verniz DC2000. O primeiro, conta Rodrigues, elimina a necessidade de lixamento de peças novas antes da aplicação, e pode ser aplicado sobre camadas ainda úmidas, enquanto o verniz DC2000, além de atender às normas de emissão de VOC vigentes na Europa e América do Norte, seca em apenas 30 minutos “Ambos são altos sólidos”, ele ressalta.

Menos tempo é mais negócio – Produtos capazes de agilizar o processo de repintura não são buscados apenas pela PPG, mas constituem foco de praticamente todos os principais fabricantes de tintas para repintura. Assim, é possível notar esse apelo também nos endurecedores, primers e vernizes componentes da Linha Fast, um dos atuais destaques do portfolio da Sherwin-Williams. “Temos o primer P30, com uma versão que permite a secagem ao ar livre em apenas 20 minutos; após esse tempo, o veículo já pode ser lixado para receber a base; primers tradicionais exigem secagem entre 3 a 4 horas”, especifica André Cruz, diretor de desenvolvimento de produtos dessa empresa.

Química e Derivados, Produtos da Sherwin-Williams buscam acelerar as operações
Produtos da Sherwin-Williams buscam acelerar as operações

Tal produto, ele ressalva, atende os reparos menores, pois superfícies maiores ainda exigem primers cujo tempo de secagem seja maior (como a versão tradicional do próprio P30). “Mas desenvolvemos também um verniz, HPC 115, que ao ar livre seca em uma 1,5 hora”, diz o profissional da Sherwin-Williams. “Combinando o P30 com secagem acelerada e o HPC 115, em cerca de quatro horas pode-se realizar todo o reparo de uma pintura”, ele acrescenta.

Rapidez é característica hoje agregada também aos produtos desenvolvidos pela Axalta, enfatiza Marcus Vinícius Lima, diretor da área de repintura dessa empresa. Tal qualidade, justifica Lima, é diretamente demandada pelas oficinas e demais operações dedicadas à repintura: “Elas têm hoje custos fixos muito elevados, e para diluí-los requerem produtos mais produtivos, que lhes permita trabalhar com mais carros em um mesmo período de tempo”.

Para atender a essa demanda, a Axalta trabalha em duas frente: a primeira, a integração de novos primers e vernizes a suas linhas de produtos para repintura Chroma e Standox. “Entre eles, há um verniz da linha Standox que seca em 30 minutos, quando o normal é duas horas”, especifica Lima. Na segunda, atua diretamente nos base coats: “temos um sistema de tintas base água – marca Standoblue –, cuja produtividade é algo entre 30% e 40% superior à das demais tintas base água hoje existentes”, acrescenta.

Com o sistema Standoblue, observa Lima, a Axalta segue as duas principais diretrizes do atual processo de desenvolvimento de produtos de repintura: a maior produtividade, e a sustentabilidade ambiental. “Não posso revelar números, mas posso dizer que os produtos base água já compõem negócio bastante significativo para a empresa”, afirma.

Química e Derivados, Richter: acerto final é mais fácil com primer colorido
Richter: acerto final é mais fácil com primer colorido

E o poder de incrementar a produtividade como principal diferencial atual dos produtos para repintura é ressaltado também por Reinaldo Richter, diretor-superintendente da Weg Tintas, que nesse mercado atua com a marca Stardur, oriundo da empresa de mesmo nome, adquirida há cerca de três anos pelo grupo empresarial, e com a própria marca Weg Tintas, que vem sendo fortalecida no mercado da repintura. De acordo com Richter, a Weg Tintas hoje satisfaz esse anseio por processos mais rápidos com produtos como o primer Starperfection Wet e a massa a base d’água para polimentos convencionais e/ou especiais Starperferction 3 em 1 (ambos lançados em 2013).

O primeiro desses dois produtos é utilizado como primer de enchimento ou no sistema úmido/úmido, que reduz o intervalo entre as demãos e é formulado em cinco cores (branco, preto, vermelho, azul e amarelo), misturáveis entre si. “Isso faz com que o tom do primer se aproxime da cor do acabamento final, atingindo mais rapidamente a cor e a cobertura final, reduzindo seu consumo e gerando maior economia no processo”, argumenta Richter. “Já a Starperferction Massa de Polir 3 em 1 pode ser utilizada como massa abrasiva para corte, massa pré-lustro e também para brilho e acabamento final, gerando economia na utilização de apenas um produto em três aplicações diferentes”, complementa.

Química e Derivados, Linha Stardur (da Weg) inclui massas, primers e acabamentos
Linha Stardur (da Weg) inclui massas, primers e acabamentos

Saem uns, entram outros – A evolução tecnológica dos produtos para repintura parece já ter quase eliminado desse mercado os produtos mais tradicionais, como as bases feitas de laca nitrocelulose. A Glasurit, conta Karina, ainda mantém esse gênero de produto em seu portfolio, mas eles são atualmente demandados basicamente para outras aplicações, como a pintura de manequins. A repintura de veículos se mantém quase exclusivamente com as tintas poliéster no segmento dos veículos leves e de passeio, e com os esmaltes de poliuretano, empregados no trabalho com veículos pesados, como ônibus, caminhões e implementos agrícolas.

O poliéster se tornou a base hegemônica das tintas para repintura por apresentar, entre outras vantagens, grande versatilidade na confecção de cores (inclusive com efeitos). “Por sua vez, o poliuretano é mais empregado em aplicações nas quais a resistência é mais relevante que o acabamento”, compara Karina.

Cruz, da Sherwin-Williams, observa que também os esmaltes sintéticos – além da laca nitrocelulose – quase não são mais usados na repintura automotiva. A empresa mantém essas duas alternativas em sua linha, até porque eles são utilizados em outros mercados que não a repintura. Nesta, a empresa atua principalmente com tintas de poliéster e esmaltes poliuretânicos.

Nos seus produtos para repintura de base água, a Sherwin-Williams utiliza a linha AWX, presente no Brasil há cerca de sete anos. “Ela tem produtos cujos preços são competitivos com os de base solvente de concorrentes”, afirma Cruz. “A Sherwin-Williams também buscou desenvolver produtos base água em que a diferença de aplicação fosse a menor possível em relação aos produtos convencionais, por exemplo, no quesito tempo de secagem, que tende a ser maior nos produtos base água”, acrescenta Cruz.

Richter, da Weg Tintas, lembra que qualquer desenvolvimento potencialmente menos nocivo ao meio ambiente constitui tendência nesse mercado. Iss inclui não apenas a base água, mas também formulações com altas concentrações de sólidos, como os primers, vernizes e bases poliéster de alta performance mantidas pela Weg Tintas em sua linha Starperfection.

Entre os produtos mais recentemente agregados ao portfolio oferecido por sua empresa para a repintura, Richter cita, além do Starperfection Wet Primer, a Starcar Massa Poliéster Light: “É um produto com alto poder de enchimento, menor porosidade em comparação com as massas poliésteres convencionais, e secagem rápida”, descreve.

Oportunidades e possibilidades – Equipamentos destinados a conferir melhor desempenho aos serviços de repintura, refinando a ação das máquinas tintométricas, também se consolidam de maneira cada dia mais sólida na oferta das indústrias setor. Entre eles, destacam-se atualmente os espectrofotômetros, capazes de identificar mais rapidamente as informações referentes a cores e texturas. A Axalta, por exemplo, está colocando no mercado brasileiro um espectrofotômetro denominado Acquire EFX. “Diferentemente de outros, ele lê também os efeitos, como os perolizados e os metalizados”, afirma Lima.

Já a PPG disponibiliza atualmente o espectrofotômetro Rapid Match. Equipamentos desse gênero, argumenta Rodrigues, são hoje fundamentais para quem trabalha com repintura automotiva. “Quem atua nesse mercado sabe que uma grande oportunidade de melhoria está no tempo investido no acerto da cor”, justifica.

A PPG, complementa Rodrigues, hoje olha mais atentamente para o mercado dedicado à personalização de veículos, que, embora ainda pequeno, tem no Brasil quantidade crescente de oficinas especializadas e adeptos. “Para esse segmento, a PPG também oferece tintas específicas, cujas composições têm pigmentos de efeito especial, ou são aplicadas no sistema tricoat (três camadas), sendo uma base, uma camada intermediária com efeito e um verniz”, relata. “Ainda para customização, a PPG conta em sua linha com os vernizes Semibrilho D8117 (acetinado) e o Fosco D8115, alternativas ao envelopamento de veículos, deixando o carro com o mesmo aspecto visual”, complementa.

Também atenta ao potencial da personalização, a marca Glasurit mantém uma parceria com a conhecida oficina de customização de veículos Batistinha Garage, da qual recentemente resultou uma linha com dez cores exclusivas. A Glasurit, em abril último, colocou no mercado novos primers e vernizes com menores teores de VOC.

De acordo com Karina, embora a Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas) inicialmente estimasse que o mercado brasileiro de tintas para repintura registraria este ano um crescimento situado entre 4% e 5% sobre 2014, esse índice será menor: algo entre 2% e 3%. Segundo ela, “o mercado está difícil especialmente no segmento das concessionárias, que consome produtos de maior valor agregado”.

Mas a Axalta, afirma Lima, está este ano registrando desempenho bastante interessante no mercado brasileiro de repintura: “Posso garantir que estamos crescendo acima de dois dígitos”, disse. A Axalta, ele lembra, segue inclusive investindo nesse mercado, para o qual neste mês de agosto reinaugura seu Centro de Repintura Automotiva, uma estrutura de qualificação e treinamento mantida em sua fábrica de Guarulhos-SP, que conta agora com equipamentos mais modernos e espaços ampliados e reestruturados.

Rogério Melo, integrante da Comissão de Repintura Automotiva do Sitivesp (Sindicato da Indústria de Tintas e Vernizes do Estado de São Paulo), divide esse mercado em dois segmentos: um deles, composto pelas seguradoras (que geralmente recorrem a oficinas maiores ou a concessionárias); e o outro, pelos proprietários dos automóveis. No primeiro, especifica Melo, os negócios enfrentam alguma retração, pois na atual cojuntura de economia pouco ativa, exceto em caso de danos mais graves, muitos proprietários preferem, em vez de pagar a franquia necessária à liberação dos recursos do seguro, deixar os veículos sem reparo, ou buscarem eles próprios quem o faça.

Já o segmento composto pelos proprietários dos veículos, ressalta Melo, também como reflexo da atual conjuntura econômica na qual é mais difícil a compra de um carro novo, mantém sua movimentação. Combinando então essas duas vertentes, ele calcula: “O mercado de tintas automotivas não deve este ano apresentar crescimento, mas também não terá queda”.

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