Tintas e revestimentos: Produtores investem em inovação

Produtores globais de TiO2 investem em inovação e redução de custos

O mercado brasileiro de dióxido de titânio recebeu a notícia no dia 12 de agosto. A Resolução nº 63 da Câmara de Comércio Exterior (Camex) confirmou a redução de 12% para 2% da alíquota do imposto de importação do insumo, confirmando decisão da Comissão de Comércio do Mercosul, aprovada no final de julho.

Com isso, durante um ano a contar da publicação da medida, os importadores de TiO2 terão garantido o acesso a fontes internacionais com baixa tributação.

O pleito da redução tarifária foi encabeçado pela Associação Brasileira da Indústria de Tintas e Vernizes (Abrafati), que justifica a iniciativa pelo fato de o único fabricante local do pigmento e agente opacificante dispor de uma capacidade anual de produção de 60 mil toneladas, muito abaixo do consumo nacional, avaliado em 180 mil t/ano, somadas as demandas dos setores de tintas, plásticos, papéis, entre outros.

Embora esse pleito seja renovado a cada ano – a duração do alívio do tributo dura apenas doze meses cada vez que é concedido –, a demora na sua concessão se explica pela necessidade de aprovar a medida em conjunto com os países parceiros do Mercosul, muito embora nenhum deles conte com produção própria do pigmento.

A Resolução, porém, estabeleceu um regime quadrimestral de 40 t para disciplinar a entrada do produto, até completar a cota de 120 mil t estabelecida para o ano. Além disso, é preciso considerar que os produtos de origem mexicana gozam de benefício especial, sendo taxados com 50% de redução em relação às demais origens. Dessa forma, o titânio mexicano recolherá apenas 1% a título de imposto de importação durante a vigência da Resolução nº 63.

A subsidiária local da Cristal, empresa internacional com sede na Arábia Saudita, é a única produtora de dióxido de titânio do Brasil, instalada em Camaçari-BA, com mineração própria e integração total do processo.

Química e Derivados, Marino: governo terá trabalho para administrar importações
Marino: governo terá trabalho para administrar importações

“A redução da proteção tarifária põe em risco a atividade, porque quem modifica sua formulação para usar outro pigmento pode não querer investir para se readaptar ao produto nacional”, afirmou Ciro de Matos Marino, diretor comercial e de marketing da Cristal na América do Sul.

Embora seja a mesma unidade produtora nascida nos anos 1970 com o nome de Tibrás, ela vem sendo atualizada tecnologicamente até hoje, adotando padrões ambientais e de segurança muito elevados, tanto dentro do grupo empresarial quanto entre todas as indústrias do ramo. “Somos benchmarking em padrão de segurança no grupo, e nossa mina de ilmenita, na Paraíba, tem indicadores de acidentes ainda mais baixos que os da fábrica”, salientou Marino.

O diretor da Cristal para a região avalia como complexa a aplicação da Resolução 63 da Camex. “Administrar essa cota vai dar um trabalho enorme para o governo, com pouco resultado”, criticou. Ele reconhece que sua capacidade de produção não consegue suprir a demanda local, mas teme que a entrada de produtos a preços aviltados prejudique o fluxo de investimentos na produção.

Marino salientou que os países que possuem excedentes exportáveis de TiO2 são poucos, geralmente vinculados ao grupo dos G-8 (as oito maiores economias do mundo), aos Brics, além de Malásia e Singapura. “Nenhum país dá alíquota zero para a importação de dióxido de titânio, a média mundial fica em torno de 7%, a Europa taxa em 6,5%, a Malásia, em 15%”, comparou. Ele disse que seria possível aceitar uma alíquota intermediária para a importação do pigmento, acabando com esses regimes especiais que precisam ser revistos a cada ano, sem que isso prejudicasse demais a produção local, já onerada pelo alto custo da energia e pelo câmbio. “Lembre-se que o México possui a vantagem de pagar a metade da tarifa, portanto não poderíamos ficar muito longe de uma alíquota bruta de 7% a 9% sem prejudicar a indústria local”, comentou.

Marino salienta que o TiO2 é um produto estratégico, que resulta de um processo industrial complexo, cujo domínio é importante para o país, além de representar uma fonte importante de empregos qualificados, tanto na mina quanto na operação fabril. Como ressaltou, é muito difícil indicar contratipos perfeitos para cada grade do produto. “Na mesma companhia, produtos similares de fábricas diferentes são muito parecidos, mas nunca idênticos”, comentou. Daí a necessidade de adaptar as formulações quando se muda a fonte de TiO2.

Marino questiona o interesse dos fabricantes de tintas na redução das alíquotas de importação. “O titânio é cada vez menos relevante dentro da estrutura de custos das tintas”, afirmou. “Até 1999, uma tinta premium feita no Brasil levava 20% de TiO2, hoje não passa de 15%, enquanto as tintas standard contêm 7% a 8% e as econômicas, menos de 5%.”

A redução da dosagem do pigmento foi acompanhada pelo uso crescente de cargas e extensores. Movimento similar vem sendo feito na indústria do plástico, com a adição de carbonatos. “O grande problema é que o titânio consegue dar opacidade com baixa absorção de óleo, ou seja, não afeta as propriedades dos polímeros das tintas e dos plásticos, por isso é tão difícil substituí-lo”, explicou.

Mercado frio – As vendas de dióxido de titânio acompanham o desempenho dos negócios dos produtos industrializados em geral. Como a fabricação da chamada linha branca dos eletrodomésticos (geladeiras, fogões e outros), assim como a de automóveis e também a construção civil estão passando por retração durante 2014, as vendas de TiO2 sofrem solidariamente.

Camila Pecerini, chefe de produto para a América Latina da área de Inorganic Materials da Evonik, aponta que o consumo de dióxido de titânio sofreu os efeitos da queda da atividade econômica no Brasil, principalmente no segundo trimestre de 2014.

Química e Derivados, Camila: Kronos manteve o ritmo de desenvolvimento de grades
Camila: Kronos manteve o ritmo de desenvolvimento de grades

“Ao mesmo tempo, verifica-se a retomada do crescimento no mercado externo, especialmente norte-americano, que afeta os negócios da empresa e do país de forma geral, num efeito multiplicador”, avaliou.

“Embora a demanda esteja abaixo do desejável, há melhores expectativas para o segundo semestre do ano.”

Camila justifica a previsão de melhoria dos negócios pela sazonalidade típica desse mercado e pela retomada da atividade produtiva geral do país após o término da Copa do Mundo. “Acreditamos que a recuperação dos mercados externos deve se manter, apesar de lenta e, no Brasil, setores como a construção civil deverão registrar crescimento em níveis maiores do que nos primeiros seis meses do ano, estimulando o consumo de tintas imobiliárias”, afirmou. A companhia representa no país os produtos da Kronos, que produz grades usuais e também especialidades para vários segmentos industriais.

“As vendas até agosto estão abaixo das registradas em 2013”, afirmou Marino. Ele atribui o desempenho fraco a uma combinação de fatores, começando pela realização da Copa do Mundo de Futebol, que parou o país, provocando a atual desova de estoques e produtos acabados, com o encolhimento da oferta de crédito aos consumidores, acompanhado pela elevação dos juros. Adicionem-se a esse caldeirão as incertezas políticas e econômicas típicas de uma eleição majoritária, além da ameaça de escassez de água e eletricidade. “Há um forte pessimismo no ar, isso é muito ruim para os negócios”, lamentou Marino.

Mesmo com essas circunstâncias, a demanda pelo insumo no país deve crescer por volta de 1% neste ano. “A venda cresce porque o mercado brasileiro de tintas está investindo em qualidade, seguindo o programa da Abrafati, que se tornou norma oficial e é exigido pelos agentes financeiros nos projetos imobiliários”, avaliou. Apesar disso, ele entende que a norma oficial deveria ser ainda mais rigorosa, pois hoje é inferior ao que se exige das tintas imobiliárias de outros países da região.

Marino aponta mercados em crescimento dentro da América do Sul. Peru, Colômbia e Chile são exemplos de economias bem resolvidas, nas quais a demanda por TiO2 deve crescer de 4% a 5% ainda neste ano. “O México não está indo tão bem, mas está melhor que o Brasil e está se preparando para crescer mais nos próximos anos”, disse.

De certa forma, a demora na aprovação da redução da alíquota do imposto de importação – era esperada para março, mas só saiu em agosto – ajudou a subsdiária da Cristal. “Com a expectativa de redução de alíquotas, a cadeia de consumo consumiu seus estoques de TiO2 no primeiro quadrimestre e foi obrigada a comprar mais depois”, avaliou. Mesmo assim, os clientes brasileiros ainda possuem um estoque considerável em seu poder.

Apesar disso, o preço do insumo não obteve melhora significativa, desde o pico de US$ 4 mil/t, verificado em 2011, fruto de um momento de desorganização do mercado, gestado depois da crise de 2009. Segundo Marino, o mercado internacional girou em torno de US$ 2.800 a US$ 2.900/t durante 2013, sem grandes flutuações. “Pode cair agora, acompanhando a redução geral dos custos neste ano”, afirmou. No entanto, essa queda de custos não se verificou no Brasil, onde eletricidade, nafta e óleo combustível estão caros e com tendência de elevação. A taxa de câmbio também é desfavorável à produção local. O diretor acredita que os custos mundiais de produção estão retornando aos patamares de 2007 e isso deve acabar acontecendo no Brasil também, embora com algum atraso.

A produção chinesa começa a acompanhar os padrões mundiais, de custos, inclusive. “Aquelas pequenas e pouco eficientes fábricas de TiO2 da China estão sendo fechadas, mas a oferta chinesa do pigmento está subindo porque eles estão inaugurando unidades de produção com escala mundial, mas com custos de produção parecidos com os dos concorrentes ocidentais”, afirmou. Isso inclui respeitar padrões internacionais de respeito ao meio ambiente. Segundo Marino, o tratamento adequado dos efluentes de uma fábrica de dióxido de titânio representa US$ 300/t produzida, uma diferença nada desprezível.

“A América do Sul é a bola da vez para a Cristal”, afirmou Marino. Depois de passar anos em atitude defensiva contra o aumento das importações, a companhia resolveu agir de forma mais proativa. Neste ano, a empresa está ampliando sua equipe local e produz estudos sobre a adaptação da unidade de Camaçari para ampliar a capacidade e iniciar a produção de produtos especiais, muito requisitados pela indústria de tintas. “A planta já faz revestimentos orgânicos e inorgânicos e micronização, mas pode ir além”, comentou.

A capacidade de produção pode aumentar com algumas adaptações. Atualmente, ela vai a 60 mil t/ano, embora a previsão para este ano fique abaixo de 50 mil t. O gargalo da unidade está nos calcinadores, etapa do processo com elevado consumo de energia, muito cara por aqui. As etapas de acabamento tem capacidade ociosa. “Podemos trazer produtos na fase intermediária, calcinados, para aproveitar a disponibilidade de equipamentos à jusante”, afirmou. Mas a empresa também estuda o desengargalamento radical da unidade.

A planta de Camaçari opera com ilmenita e slag, uma forma de reduzir o consumo de água e de ácido sulfúrico, gerando menos efluentes e resíduos (sulfato de ferro). O slag é obtido pelo processamento da ilmenita em fornos especiais, nos quais se obtém ferro gusa na parte inferior da panela e um slag sobrenadante, com 84% a 85% de dióxido de titânio. “A Cristal está inaugurando um grande slagger na Arábia Saudita e poderá nos abastecer com folga”, afirmou Marino. O objetivo principal do slagger é a produção de tubos e de trocadores de calor para unidades de dessalinização de água.

A fábrica instalada nos Estados Unidos também supre com o pigmento a América do Sul, região com maior potencial de crescimento. A diferença da unidade baiana está no fato de ser uma das poucas do mundo no processo sulfato. A fábrica da França, com idêntica tecnologia, foi convertida para a fabricação de grades especiais, em especial os de tamanho nanométrico de partículas. “Eles fazem um rutilo por via sulfato”, explicou.

Além dos mercados tradicionais – tintas, plásticos, papéis especiais para laminados –, o dióxido de titânio possui outros usos importantes, mais valiosos, a exemplo da produção de cosméticos (é um filtro solar inorgânico, por exemplo) e medicamentos. “Estamos iniciando um trabalho missionário para desenvolver aplicações de especialidades”, informou Marino. É o caso da fabricação de telhas cerâmicas que se tornam autolimpantes com a aplicação superficial de uma dispersão coloidal de TiO2 nanoparticulado, da linha CristalACTiV.

Como explicou, as nanopartículas do pigmento aderem à superfície das telhas e catalisam a decomposição fotoquímica (com a radiação ultravioleta do sol ou de luzes artificiais) de moléculas orgânicas constituintes da poluição atmosférica, como resíduos de hidrocarbonetos. Também transforma os óxidos nitrogenados (NOx) em nitratos. As partículas sólidas resultantes da decomposição podem ser coletadas. Com isso, as telhas ficam sempre limpas, mesmo quando expostas ao ambiente de uma cidade como São Paulo.

Essa dispersão pode ser aplicada sobre qualquer superfície, vidros, inclusive, formando uma película fina e transparente, com caráter hidrofílico. Testes realizados pela Cristal indicam que o produto é eficaz mesmo dentro de túneis de rodovias ou garagens subterrâneas com baixa iluminação. “É um produto novo, com efeitos estéticos e ambientais importantes para as grandes cidades”, comentou.

Camila, da Evonik, salienta que a sua representada Kronos mantém o ritmo de pesquisa e desenvolvimento de grades e componentes, oferecendo mais benefícios aos clientes. “Oferecemos também insumos que permitem fabricar produtos finais menos agressivos ao meio ambiente, a exemplo de tintas à base de água, sem perder a qualidade do produto final quanto ao brilho, possibilidade de dispersão e resistência a intempéries”, comentou.

Como novidades para a indústria de tintas, Camila mencionou o Kronos 2190, um rutilo, produzido pelo processo sulfato, com excelente poder de cobertura, sendo muito utilizado em tintas decorativas para interiores. Também o Kronos 2310, outro rutilo, porém obtido pela via cloreto, tem excelente poder de cobertura, alvura e resistência a intemperismo, com largo emprego em tintas decorativas para exteriores, tintas industriais e automotivas. Por sua vez, o Kronos 2360 pode ser usado de maneira universal, ou seja, para todos os tipos de tintas (tanto base solvente quanto base água). “Este produto apresenta a mais alta resistência a intempéries, alta opacidade e poder de cobertura, além de ter ótima dispersabilidade que permite obter tintas de alto brilho”, observou. O Kronos 2315 promove excelente resistência a intempéries em combinação com alto poder de cobertura e opacidade, além de alto brilho. Trata-se de um pigmento especial de alto desempenho, para tintas de aplicação para exteriores. O Kronos 2064 apresenta baixa abrasividade, é um excelente insumo para tintas de impressão por flexografia e gravura, além de ser um pigmento universal para uso em tintas industriais, caracterizado pelo alto poder de cobertura e opacidade e permitir um alto brilho quando usado em tintas base água ou base solvente.

As indicações para uso em plásticos, segundo Camila, incluem o Kronos 2220, pigmento que satisfaz às mais exigentes necessidades do mercado, proporcionando boa dispersão, propriedades ópticas e resistência a intempéries. Tem ótimo desempenho, em especial, para PVC em aplicações exteriores (como perfis de janelas). O pigmento Kronos 2233 foi desenvolvido especialmente para policarbonato, pois sua composição reduz ao mínimo a degradação do polímero. De fácil dispersão, impede possíveis defeitos causados durante o processo de injeção e garante alto brilho. Por sua vez, o Kronos 2450 é um pigmento universal, com boas fluidez e dispersão, excelente poder de tingimento e intenso subtom azulado. Pode ser incorporado em várias resinas, desde poliestireno e polímeros de engenharia às poliolefinas.

A chefe de produto da Evonik aponta vários outros usos para o pigmento. “O dióxido de titânio é um pigmento que pode ser utilizado em alimentos, cosméticos, fármacos e outros, mas essas aplicações ainda são pequenas em termos comparativos com tintas, revestimentos e plásticos, muito embora essas indústrias constituam um mercado importante no Brasil e no mundo, representando boas oportunidades de negócios”, considerou.

Ela apontou como exemplo o Kronos 1171, um pigmento anatase aprovado para ser usado em alimentos, cosméticos, fármacos e outros, atendendo às regulamentações da União Européia, Farmacopeia Europeia, FDA, Farmacopeia Americana, Food and Agriculture Organization (FAO), World Health Organization (WHO) e várias outras.

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