Pigmento Branco: Fusões e aquisições agitam mercado do pigmento branco enquanto os preços sobem

Química e Derivados, Tintas e revestimentos: Fusões e aquisições agitam mercado do pigmento branco enquanto os preços sobem

Pigmento Branco: O mercado mundial de dióxido de titânio (TiO2) está entrando em nova fase, dessa vez com preços em elevação, como já se percebe desde meados do ano passado. Há um novo equilíbrio de forças, tanto entre regiões produtoras, quanto nas grandes empresas globais, aumentando a concentração de negócios.

Ao longo dos últimos 20 anos, a produção do principal pigmento branco e agente opacificante alternou ciclos de alta e de baixa rentabilidade. Nos anos 1990, várias companhias foram vendidas ou se fundiram, especialmente na Europa, onde a produção era mais antiga e mais dispersa em fábricas de pequeno porte. Depois da entrada de grande volume de excedentes de origem chinesa no mercado global, a partir de 2000, ficou claro que ainda havia espaço para mais movimentos de concentração empresarial.

Química e Derivados, Marino: indústrias venderam estoques e adiaram manutenção
Marino: indústrias venderam estoques e adiaram manutenção

Até abril de 2016, os preços internacionais do TiO2 permaneceram em prolongada baixa, retirando os lucros e a capacidade de atrair investidores para construir novas instalações.

Como resultado, fábricas menos competitivas foram fechadas a cada ano, reduzindo a capacidade de atender à demanda. Agora, o ciclo se inverte. O preço médio do pigmento no Brasil já se aproxima de US$ 2.700/t, no começo de maio, mas já há aumentos anunciados para os próximos meses.

“A Cristal já anunciou aumento de US$ 200 por tonelada para a América do Sul, a partir de primeiro de junho”, informou Marino. Da mesma forma, a Chemours aplicou aumento de US$ 200/t desde março deste ano.

A Huntsman divulgou nota oficial informando elevação de US$ 250/t para a América Latina, a partir de 1º de julho, somando-se ao aumento de US$ 250/t já aplicado desde abril. Marino salienta que a elevação de preços registrada no Brasil entre o primeiro trimestre de 2016 e o de 2017 foi significativa em dólares, mas o fortalecimento do real (variação cambial) absorveu parte desse impacto. “Em reais, o aumento foi pequeno”, considerou.

O pico de preços mundiais foi observado em 2012, chegando a US$ 4 mil/t. “Isso resultou da queda de produção e de investimentos nas fábricas provocada pela retração da demanda após a crise financeira de 2008 e 2009”, explicou Ciro de Mattos Marino, diretor de negócios da Cristal (antiga Millenium), a segunda maior produtora mundial de dióxido de titânio.

A resposta do mercado ao aumento de custos foi reduzir o consumo do pigmento, seja pelo uso crescente de extensores ou pela sua substituição nas diversas formulações às quais se integra.

“Houve uma destruição de mercado, pois quando os preços voltaram a um patamar normal, verificou-se que o consumo não voltou ao que era antes registrado”, comentou. Ele não acredita, por isso, que os preços voltem ao patamar alcançado em 2012, embora apontem o início de uma fase de alta.

Marino salienta que a indústria global, quando se vê imersa em uma fase de preços muito baixos, desova seus estoques estratégicos, corta verbas para expansão de negócios e também para a manutenção das linhas produtivas. O resultado óbvio, geralmente verificado após sete a oito meses, é a ocorrência de falhas de equipamentos críticos que provocam a paralisação de atividades até a sua correção.

“O setor todo reage assim, por isso, há uma sensível redução da confiabilidade nas fábricas ao redor do mundo”, comentou.

Há algumas décadas, o balanço entre oferta e demanda global no mercado de TiO2 se mantém muito apertado. A entrada de novas capacidades na China foi correspondia pelo fechamento de similares no próprio país ou em outras regiões. Houve aumento de oferta, porém abaixo do índice mundial de crescimento da economia, ou seja, o suprimento está apertado.

A situação se agravou, segundo Marino, pelo aumento da preocupação da China com aspectos relacionados ao meio ambiente. Fábricas com baixo padrão de cuidados ambientais foram fechadas pelo governo chinês. Além disso, como a produção do pigmento é grande consumidora de água e eletricidade, dois insumos escassos naquele país, foram impostas restrições oficiais à sua operação.

Em resumo: a oferta chinesa ficou abaixo do projetado há alguns anos.

É preciso lembrar que a demanda pelo pigmento apresenta uma clara sazonalidade, marcada pelo verão no Hemisfério Norte. “É a chamada painting season, de junho a setembro, quando as pessoas compram muita tinta para pintar suas casas nos Estados Unidos e na Europa, principalmente”, disse. “Isso também acontece no Brasil durante o nosso verão, no quarto trimestre, como em todos os países do Hemisfério Sul – a Austrália é um mercado importante.”

Dessa forma, o primeiro trimestre de cada ano é o único em que a produção global supera a demanda, permitindo a formação de estoques para suprir o mercado durante o resto do ano. “Porém, dadas as dificuldades financeiras advindas do longo período de preços baixos, as indústrias venderam seus estoques e não conseguiram formá-los novamente”, apontou Marino.

Por isso, os preços do TiO2 iniciaram uma escalada desde abril de 2016.

Com base nos dados globais e na sua experiência de mais de três décadas no setor, Marino entende que a capacidade de produção será capaz de suprir a demanda global. “É possível atender à demanda real, mas não dá para suportar a demanda que nasce da insegurança das cadeias produtivas a jusante”, explicou.

Com medo de uma possível escassez ou de um provável aumento de preços durante o ano, é normal que os consumidores desse produto busquem se proteger formando estoques elevados, embora isso lhes consuma o capital de giro. Essa elevação de compras não guarda relação direta com as vendas dos produtos transformados ao final da cadeia produtiva, ou seja, tintas, plásticos, borracha e papéis, entre outros segmentos.

Marino aponta que as vendas no primeiro trimestre de 2017 foram 50% maiores que as do mesmo período do ano anterior, embora a economia nacional ainda não tenha se recuperado da crise dos últimos três anos, ou seja, os clientes estão antecipando compras. Ele estima a demanda de total de 2016 em menos de 150 mil t/ano no Brasil, bem abaixo do registrado em anos anteriores.

O reflexo da crise econômica pode ser avaliado pelo comportamento das importações do pigmento (ver tabela). A produção nacional, da Cristal, com fábrica em Camaçari-BA para 60 mil t/ano (capacidade nominal), atende a aproximadamente um terço do mercado brasileiro do insumo. O produtor local obteve aumento de vendas de 8% em 2016, apesar da crise, ou até por causa dela. “Nesse período conturbado, as empresas não tem visibilidade suficiente para planejar suas operações e realizar importações com segurança”, comentou Marino. Como o tempo entre colocar o pedido na Ásia e receber o produto já desembaraçado é muito alto, entre 90 e 120 dias, sem contar a variação cambial, o risco da operação é elevado e chega a comprometer o capital de giro, problema sério em um país com juros tão elevados.

Como houve retração no consumo de tintas e plásticos, os volumes antes importados caíram, a ponto de não justificar a importação de lotes mínimos. Todos esses fatores somados fizeram aumentar a procura pelo suprimento nacional.

Marino informa que, em 2015 e 2016, houve sensível retração das indústrias de tintas e de plásticos, os maiores consumidores locais do insumo.

“Os plásticos sofreram muito com a queda de atividade do setor automobilístico e também da indústria de eletroeletrônicos, especialmente a da chamada linha branca”, afirmou. Nas tintas, houve retração nos segmentos de pintura de imóveis novos e nas tintas para automóveis novos, mas a pintura de edificações existentes foi menos afetada, assim como a repintura automotiva. “A nossa produção local está mais voltada para tintas decorativas imobiliárias e para primers e tintas de repintura automotiva, além dos plásticos, então não chegamos a sofrer tanto, a importação supre a pintura OEM”, explicou. Ele também apontou o bom desempenho do setor calçadista nacional, especialmente nas sandálias de borracha.

Com o objetivo de suprir adequadamente os seus clientes brasileiros, a Cristal começou neste ano a pedir que eles elaborem uma programação de compras firme para os produtos nacionais (para 30 dias) e importados (60 dias, mínimo).

Atualmente, a fábrica da Bahia se concentra na fabricação do RKV2, muito usado nos plásticos. Segundo Marino, esse tipo tem elevada durabilidade, mas deve evoluir para aprimorar a brancura (cor). “A produção precisa equilibrar durabilidade, opacidade e cor no ponto desejado pelos compradores”, comentou.

No atual cenário, a indústria tende a reduzir o número de tipos oferecidos para poder ampliar as campanhas de produção e reduzir custos. “Em 2012, fazíamos dois grades para plásticos, o RFKD e o 242, mas, ouvindo os clientes, preferimos aumentar o volume e reduzir custos concentrando a produção no 242”, lembrou Marino. “Agora não temos como reduzir o portfólio, que já é enxuto.” Ele salientou que a Cristal importa vários grades de suas outras fábricas espalhadas pelo mundo, inclusive grades obtidos pelo processo cloreto (a fábrica baiana opera pela via sulfato).

Química e Derivados, Importações e preços de TiO2 voltam a crescer

A meta da companhia é rodar a fábrica brasileira com a máxima capacidade disponível, descontando as paradas de manutenção. “Operamos três linhas de fabricação, uma delas está parada apenas em maio para reparos e atualização, mas não há previsão de outras paradas até dezembro”, informou. A redução de frequência de navios para o Brasil, resultado da crise econômica, prejudicou a Cristal por representar atrasos na importação de resíduos metalúrgicos (slag), usados como matéria-prima.

Dentro do plano de negócios da companhia, a compra de um fabricante chinês há alguns anos representava a possiblidade de trazer semiacabados para Camaçari. Isso permitiria ampliar a oferta local de produtos finais. “A unidade chinesa não registra excedentes exportáveis, infelizmente”, disse.

A unidade baiana é alimentada por minas próprias, na Paraíba, com capacidade para suportar a atividade pelos próximos cinco anos. “Estamos estudando alternativas de suprimento futuro de ilmenita ou de outros recursos”, explicou Marino.

A extinção de alíquotas favorecidas para uma cota determinada de importação de TiO2, em dezembro de 2015, não revelou grandes mudanças. “A alíquota de 2% era restrita a uma cota de 100 mil t/ano, mas só isso só aumentava a disponibilidade de produtos, pela redução do custo tributário, mas afetava pouco o preço; o mercado fica mais transparente com a alíquota de 12% igual para todos os importadores”, afirmou.

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