Tintas e revestimentos – Espessantes: Respeito ao consumidor e ao ambiente impulsiona o uso de agentes reológicos

Química e Derivados, Tintas e revestimentos - Espessantes: Respeito ao consumidor e ao ambiente impulsiona o uso de agentes reológicos

Química e Derivados, Braidott: poliéster concorre com o uso dos uretânicos
Braidott: poliéster concorre com o uso dos uretânicos

Em qualquer mercado, é de se esperar que os produtos evoluam em qualidade e eficácia, além de oferecer ganhos em sustentabilidade. No caso das tintas, isso significaria, entre outras coisas, oferecer produtos cada dia mais facilmente aplicáveis, de maior durabilidade e capazes de cumprir melhor sua tarefa de proteger as superfícies, gerando menor volume de perdas e com o mínimo possível de impactos nos usuários e no meio ambiente.

Os espessantes (também conhecidos como agentes reológicos), são fundamentais nesse processo evolutivo. Afinal, são responsáveis por algumas das principais características das tintas, começando pela aparência na embalagem e chegando até à resistência pós-pintura, passando pelas várias etapas da aplicação. Essas características definem o posicionamento desses produtos como de maior ou menor valor agregado. E devem, atualmente, aliar às suas funcionalidades o respeito aos preceitos ambientais, eliminando das fórmulas os componentes mais agressivos à vida.

Diversas tecnologias mantêm-se, em escala crescente ou minguante, posicionadas como alternativas de espessantes. Algumas anteriormente muito usadas – caso dos produtos derivados de celulose –, parecem hoje relegadas a outros segmentos da indústria de revestimentos e coberturas, como as massas e texturas. Perderam espaço para os espessantes acrílicos, atualmente a opção preferencial para alterar a reologia das tintas fabricadas no Brasil. E, agora, há a perspectiva de expansão dos uretânicos, produzidos à base de PU (poliuretano), que juntamente com os acrílicos do gênero HASE compõem o conjunto dos chamados ‘espessantes associativos’.

Química e Derivados, Coatex: A fábrica de Araçariguama-SP produz espessantes HASE
Coatex: A fábrica de Araçariguama-SP produz espessantes HASE

Opção mais nova de reologia de tintas, os uretânicos são por enquanto utilizados principalmente no segmento dos produtos de maior valorm pois seu custo é ainda elevado. São porém apontados – e não apenas por seus fornecedores -, como aptos a atenderem às demandas atualmente colocadas no processo de desenvolvimento das tintas mais modernas.

Com eles pode-se, por exemplo, produzir as tintas designadas como ‘one coating’, para as quais basta uma única aplicação. “Já uma realidade em outros países, esse tipo de tinta exige um espessante uretânico high shear, ou medium shear”, detalha Marlon Braidott, consultor técnico de serviços na Basf (referindo-se, respectivamente, a espessantes com alta ou média resistência a cizalhamento).

Celdia Lizardo, especialista em tecnologias de aplicação da área de coating da Dow para América Latina, explica que o fato de serem ao mesmo tempo miscíveis e insolúveis em água permite aos produtos uretânicos conferirem muito maior resistência às tintas. “Por enquanto eles realmente são mais utilizados em produtos premium, mas mesmo as tintas standard e até algumas econômicas começam a utilizá-lo para obter algum diferencial de desempenho”, observa a profissional da Dow (empresa que além dos uretânicos, oferece para o mercado de tintas seus espessantes acrílicos e celulósicos).

Química e Derivados, Medeiros: fábrica de Araçariguama-SP produz espessantes HASE
Medeiros: fábrica de Araçariguama-SP produz espessantes HASE

Graças a essa maior resistência, as tintas fortaleceram sua competitividade como opção de revestimento, relata Pedro Medeiros, gerente geral para América Latina da Coatex (unidade de modificadores reológicos do grupo Arkema). Voltaram, por exemplo, a ser utilizadas para o revestimento externo de edifícios, tarefa da qual haviam sido deslocadas por alternativas como argamassa mais cerâmica. “Com o PU, as construtoras podem exigir um tempo mínimo de vida útil da tinta significativamente maior, pois ele tende a construir um filme melhor, e a resistência tem associação direta com a construção do filme”, justifica Medeiros.

Segundo ele, os espessantes poliuretânicos estão possibilitando o surgimento de uma nova categoria de produtos: as tintas anunciadas como ‘super premium’, cujas características de qualidade são superiores àquelas exigidas pela Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas), para qualificar um produto como premium. Por enquanto, essa categoria é trabalhada de maneira informal por alguns fabricantes de tintas, “e ela exige poliuretano”, ressalta o profissional da Coatex.

Custos e concorrência – Espessantes uretânicos ainda não têm fabricação no Brasil, dependendo de importação, o que torna ainda mais complexa sua já desfavorável competitividade no quesito preço; deve-se, porém, considerar que, como acontece com qualquer tecnologia mais recente, seu custo deve se reduzir na proporção dos ganhos de escala de produção. Além disso, “mesmo no Brasil, onde o mercado ainda é muito dirigido por preço, com o aumento do custo da mão de obra, as empresas buscam trabalhar com produtos de maior durabilidade, e isso favorece esse gênero de espessantes, que permitem a produção de tintas mais resistentes química e fisicamente”, argumenta Catarina Garbim, representante técnica e comercial da Tego (unidade de produtos para coatings da Evonik).

No mercado da reologia de tintas, a Tego atua com espessantes uretânicos, comercializados com a marca Viscoplus. E, segundo Catarina, embora permitam aplicação da tinta sem escorrimento ou respingo, os produtos à base de PU têm como efeito colateral um pequeno impacto na viscosidade: “essa característica pode ser até interessante, pois permite manter a mesma quantidade de pigmentos e cargas da fórmula original da tinta, que, dependendo da concentração, pode conferir viscosidade muito elevada ao produto”, ressalva.

Outros produtos, além dos uretânicos, disputam hoje o mercado da reologia das tintas de maior qualidade e maior valor agregado. A Ashland, por exemplo, atua nesse segmento com espessantes à base de PAPE (poliacetal poliéteres). “Formulados com uma tecnologia diferenciada, eles conferem propriedades específicas à formulação, e são utilizados principalmente no segmento de tintas premium e esmaltes aquosos”, relata Hamilton Oliveira, gerente de vendas dessa empresa (que além dos espessantes sintéticos, comercializados com a marca Aquaflow, disponibiliza também espessantes celulósicos, com a marca Natrosol).

Por sua vez, a Basf começou a trabalhar mais recentemente, no mercado brasileiro, sua linha de espessantes à base de poliéter, cuja marca é Rheovis PE (os acrílicos HASE e os uretânicos dessa empresa são, respectivamente, designados como Rheovis e Rheovis PU). “A linha dos poliéteres tem características muito semelhantes às dos espessantes uretânicos e, assim como esses, conferem ao sistema excelente nivelamento, brilho e redução de respingos durante a aplicação”, destaca Braidott.

Química e Derivados, Reichhold - A fábrica de Mogi das Cruzes: soluções completas
Reichhold – A fábrica de Mogi das Cruzes: soluções completas

Opção preferencial – Embora esteja prevista a expansão do emprego dos uretânicos – bem como de opções como o PAPE e o poliéster –, a indústria nacional atualmente utiliza em escala amplamente majoritária os espessantes acrílicos como agentes de reologia de tintas (ao menos das imobiliárias, pois no segmento industrial há uso mais intenso de PU (ver box). Empresas como Dow e Basf, entre outras, fabricam espessantes acrílicos no Brasil, e essa última inaugurará no próximo ano, em Camaçari-BA, uma planta para produção do ácido acrílico (insumo fundamental desses produtos).

No início deste ano, o conjunto de fabricantes brasileiros de espessantes acrílicos foi reforçado pela presença da Coatex, que passou a produzi-los em Araçariguama-SP. Dotados da marca Rheotech, os espessantes acrílicos dessa empresa aqui são produzidos apenas na versão HASE, que abrange os espessantes hidrofobicamente modificados (há também a versão ASE, mais antiga). “Acrílicos HASE conseguem poder de espessamento muito maior; no início havia uma diferença mais acentuada de preços entre eles e os ASE, mas essa disparidade diminuiu sensivelmente, e os tinteiros hoje buscam preferencialmente os HASE”, justifica Medeiros.

Química e Derivados, Oliveira e a fábrica de Mogi das Cruzes: soluções completas
Oliveira e a fábrica de Mogi das Cruzes: soluções completas

A Reichhold produz espessantes acrílicos – sempre aniônicos –, em sua fábrica de Mogi das Cruzes-SP. No mercado nacional de reologia, a atuação dessa empresa privilegia o produto Arolon 21-404: “Otimizamos esse produto de modo a atender diversas necessidades”, diz André Luiz de Oliveira, gerente de desenvolvimento de mercado e assistência técnica da Reichhold do Brasil.

O Arolon 21-404 destina-se principalmente às massas (PVA e acrílicas), especialmente em base água. “Mas algumas formulações do segmento de serigrafia sobre tecido (silk screen) podem fazer uso de suas propriedades espessantes”, acrescenta Oliveira. Para ele, “os espessantes acrílicos têm presença garantida no mercado de tintas porque seu uso é muito fácil, muito mais simples que o dos uretânicos, por exemplo”.

Na Dow, a linha de acrílicos é comercializada com a marca Primal (enquanto Acrysol denomina os uretânicos da companhia) e inclui o produto AP 50, indicado para as tintas de menor preço. “Ele confere viscosidade com ótima relação entre custo e benefício”, diz Celdia.

O antigo com o novo – Opção mais tradicional para modificar a reologia de tintas, os agentes derivados de celulose têm emprego hoje restrito basicamente ao segmento das massas, texturas e produtos afins. Em tintas, pesam desfavoravelmente contra eles a elevada capacidade de proliferação de microrganismos e o fato de serem apresentados na forma de pós, e não de líquidos, cuja aplicação é mais simples.

Assim, embora tenha em seu portfolio espessantes celulósicos, a Dow oferece a tecnologia dos acrílicos também para esse campo, e há cerca de três meses lançou dois integrantes de linha Primal, HT 400 e HT 700, especificamente desenvolvidos para massas e texturas. “Para os usuários finais, eles possibilitam obter produtos com textura mais cremosa, de aplicação fácil e passíveis de trabalhos mais elaborados; para os fabricantes, reduzem o tempo de produção e o consumo de energia, e permitem o envase mais rápido”, destaca Celdia.

Em contrapartida, a Denver Especialidades Químicas, unidade do grupo Formitex, que em outras operações produz também espessantes acrílicos e composições entre eles e uretânicos, hoje disponibiliza um agente celulósico posicionado especificamente para tintas econômicas e standard (denominado Induskol T 26044).

Noemi Sakamoto, gerente de vendas e marketing da Denver Especialidades, reconhece: os celulósicos são hoje empregados basicamente em outros gêneros de revestimentos que não tintas. “Em muitas formulações de massas corridas e texturas, sua tixotropia é apreciada por conceder aos produtos um aspecto mais consistente, dito ‘aspecto de pudim’, que diminui sob agitação”, ela especifica.

Mas, se quase não mais contêm produtos celulósicos, em sua reologia as tintas parecem ainda assegurar algum espaço à opção também tradicional dos minerais. Alguns fornecedores disputam esse mercado apenas com esse gênero de espessantes (ver box), disponíveis também no portfolio da Basf, que comercializa argilas minerais com a marca Attagel. “Minerais são usados até em alguns produtos premium, para evitar sedimentação e sinérese (formação de uma lâmina d’água na parte superior de uma tinta embalada), ajudando a manter os sólidos em suspensão”, justifica Braidott.

Segundo ele, a indústria de tintas trabalha muito com blends de espessantes: “Pode ser, por exemplo, uma mistura que combine a resistência do PU com a dos acrílicos. Ou então, uma combinação de PU high shear e PU low shear, que além da resistência confere as características de espessamento e viscosidade”, exemplificou.

Química e Derivados, Catarina: uretânicos conferem maior durabilidade às pinturas
Catarina: uretânicos conferem maior durabilidade às pinturas

Preocupações ambientais – Melhor atender às exigências colocadas pelas crescentes preocupações com o meio ambiente é premissa também considerada no atual processo de concepção das novas tintas; e, consequentemente, também dos projetos de desenvolvimentos dos agentes reológicos que lhes conferem várias de suas principais características.

Nessa vertente do desenvolvimento de tintas ambientalmente menos nocivas, uma das mais marcantes tendências é o privilégio agora concedido aos produtos com baixos teores de VOC, muitas vezes isentos de solventes, e qualificados como APEO free (ou livres de alquilfenóis etoxilados, que nas formulações de espessantes atuam como surfactantes, mas enfrentam crescente rejeição).

Na Ashland, destaca, a gerente técnica Natália Lopes, todas as versões mais recentes de espessantes associativos são APEO free e sem solventes. No mercado, ela pondera, ainda predominam os agentes reológicos com algum solvente ou com alquilfenóis etoxilados em sua formulação, mesmo que em baixas quantidades. Porém, com a evolução das regulamentações e os próprios projetos da indústria de tintas, avançam os produtos mais ecológicos. “Solventes não têm presença muito grande nos espessantes, e, com um balanceamento adequado podem ser substituídos por água. Já o alquilfenol etoxilado pode ser substituído por surfactantes ambientalmente amigáveis”, destaca Natália.

Também na linha Tego os espessantes são isentos de solventes e de APEO. “São isentos ainda de estanho, que pode ser utilizado na fabricação de PU mas não aparece em nossos produtos”, complementa Catarina.

E na Coatex, diz Medeiros, tanto os espessantes à base de PU quanto os acrílicos não trazem nem solventes, nem alquilfenol etoxilado, nem metais pesados. No Brasil, além de sua linha Rheotech, essa empresa produz os espessantes acrílicos da marca Baricryl – proveniente da compra, em 2012, da empresa Resicryl –, cujos produtos não são APEO free e têm índices superiores de VOC. “A médio e longo prazo, pensamos em manter somente nossa linha Rheotch, que, devido ao porte de seus clientes, já vende mais que a Baricryl, cuja quantidade de clientes é porém maior”, relata Medeiros.

E tanto na Basf quanto na Dow os espesantes mais recentes são também isentos de solventes e de APEO. Além disso, essas empresas já disponibilizam outras categorias de produtos, passíveis de utilização em tintas, provenientes de bases vegetais. “Temos antiespumantes e coalescentes, respectivamente, com as marcas Foamaster e Loxanol à base de óleos vegetais”, especifica Braidott.

A Dow, diz Celdia, disponibiliza uma linha de surfactantes adequada para tintas, denominada EcoSurf, também proveniente de fontes vegetais. “E para melhor atender os preceitos da sustentabilidade, também trabalhamos para reduzir cada dia mais os índices de monômeros livres de nossos produtos”, acrescenta.

Química e Derivados, Celdia: acrílicos deslocam os celulósicos também nas massas
Celdia: acrílicos deslocam os celulósicos também nas massas

Conjuntura difícil – As atuais agruras da economia nacional – especificamente de sua indústria – obviamente impactaram negativamente os negócios dos fornecedores de agentes de reologia de tintas, e os relatos de seus desempenhos comerciais no decorrer deste ano, se não contêm apenas lamentos, também não exibem nenhum entusiasmo.

Na Reichhold, os negócios com espessantes “acompanham o crescimento do mercado de tintas”, diz André de Oliveira. “O Brasil está em um ano de economia incerta, mas o consumo dos espessantes de nossa linha tem se mantido estável”, ele observa.

Com presença forte no mercado de resinas, a Reichhod, ressalta André de Oliveira, com seus espessantes e também com emulsões, pode oferecer à indústria do setor um pacote completo de soluções. “Muitos clientes querem soluções completas, que entre outras coisas lhes garantam maior compatibilidade entre os vários componentes de suas fórmulas”, afirma.

A Dow, enfatiza Celdia, busca transformar as atuais dificuldades da economia nacional em oportunidades, mediante lançamentos como os dois acrílicos destinados ao segmento de massas e texturas, ou dois novos componentes de sua linha Acrysol, de uretânicos: o RM-400 e o RM-995, ambos dedicados às bases de tingimento que ganham cores nos pontos de venda de tintas. “Existem queixas de variação da viscosidade dessas tintas tingidas nos pontos de venda conforme mudam as cores, isso tem a ver com os corantes, cuja mistura com as bases é estabilizada por esses novos produtos”, ressalta.

O Acrsyol RM-400, especifica Celdia, é indicado para uso com emulsões dos tipos vinil/acrílica e vinil/veova, enquanto o Acrysol RM-995 possui melhor sinergia quando combinado com tintas que contenham emulsões estireno-acrílicas ou acrílicas puras.

E, para Medeiros, da Coatex, há no mercado brasileiro potencial para expansão dos negócios com espessantes associativos. Primeiramente, porque eles podem ocupar algum espaço ainda destinado aos produtos celulósicos. “Além disso, à medida que cresce o poder aquisitivo da população, aumenta o consumo de produtos de maior qualidade”, pondera.

Neste segundo semestre, relata Hamilton Oliveira, da Ashland, o mercado nacional de espessantes vem apresentando alguma recuperação. “Mas, comparativamente a 2013, o fechamento do ano deve apresentar baixos índices de crescimento”, prevê.

Espessantes, crê o profissional da Ashland, terão papel cada dia mais relevante na formulação de tintas: “Os fabricantes buscam produtos com melhor performance e características como melhor nivelamento, menos respingamento, capazes de proporcionar melhor cobertura e aceitar altas taxas de diluição: todas essas exigências geram a necessidade de pacotes reológicos mais adequados”, finaliza.

Um Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.