Tintas e revestimentos: Copa e eleições esquentam o clima dos negócios com pigmentos sustentáveis

Química e Derivados, Tintas e revestimentos: Copa e eleições esquentam o clima dos negócios com pigmentos sustentáveis
A copa do mundo de futebol está prestes a começar no Brasil, mas ainda há muitas superfícies para pintar, tanto nos estádios, quanto nos aeroportos, ambientes em frenética atividade para oferecer conforto aos visitantes. A realização desse tipo de evento – em 2016, será a Olimpíada do Rio – representa uma grande oportunidade para venda de tintas e, por consequência, de pigmentos.

Além de ter um motivo para aumentar as vendas, os pigmentos também estão em fase de mudanças. Os fabricantes de tintas, liderados pela Associação Brasileira de Tintas (Abrafati), voluntariamente, decidiram banir de todas as suas formulações o uso de metais pesados, entre eles o cromato de chumbo, responsável por atribuir as cores amarela e laranja, com alto brilho e grande durabilidade. A lei 11.762/2008 já determinara um limite de 0,06% em peso de chumbo nas tintas decorativas imobiliárias e infantis, tanto na forma de pigmentos quanto na de secantes, mas seu uso ainda é admitido legalmente em aplicações industriais.

Pigmento considerado barato pelo setor, ele representa um risco comprovado para a saúde dos trabalhadores, em especial os que precisam lixar as superfícies pintadas com essa substância. Além disso, o descarte incorreto de tintas e resíduos pode gerar um problema ambiental.

Do ponto de vista global, a transferência da fabricação europeia e norte-americana para a Ásia e a consolidação dos fabricantes tradicionais, a exemplo da compra dos negócios com pigmentos da Ciba pela Basf, permite uma revisão de alianças comerciais e de estratégias.

Química e Derivados, Peres: orgânicos substituem os metais pesados nas tintas
Peres: orgânicos substituem os metais pesados nas tintas

“Ano de eleição com copa do mundo puxa a venda dos pigmentos coloridos, mais usados nas tintas decorativas imobiliárias”, considerou Luís Carlos Peres, gerente de vendas para a América Latina da área de coatings da Clariant. Além do acabamento das instalações e residências, ele apontou um consumo sazonal típico do período dos jogos: o uso de tintas para as pinturas de ruas, como forma de expressão da arte popular. “Antigamente, em anos eleitorais, havia também um grande consumo de tintas para pintar muros com nomes de candidatos, uma demanda que caiu em desuso, principalmente em São Paulo.”

Peres observou que a realização da copa do mundo no primeiro semestre do ano contribuirá para equilibrar melhor as metades do exercício, historicamente com vendas maiores entre julho e dezembro. Mesmo sem contar com os dados consolidados do primeiro trimestre, ele informa que as tendências previstas para o início de 2014 estão se realizando.

“A previsão era de termos um ano muito bom para todos os segmentos de tintas, tanto na imobiliária quanto na automotiva e na industrial”, afirmou Peres. No entanto, embora se declare satisfeito até então, ele salienta que esses mercados dependem da estabilidade da economia mundial, da evolução dos juros e da cotação do dólar no Brasil, entre outros fatores. “Os pessimistas esperavam um crescimento de 1% a 2%, enquanto os otimistas falam em 3% a 4% nas vendas de tintas”, informou.

Análise semelhante faz Taíse Ayres Mendes, coordenadora de marketing da área de pigmentos inorgânicos da Lanxess para a América Latina. “Temos boas expectativas de crescimento de vendas para 2014”, comentou. Ela informou que os resultados de 2013 foram afetados pelas dificuldades econômicas globais e seus reflexos no Brasil. Apesar disso, ela informou que a companhia ampliou em 3% sua participação no mercado local no ano passado.

Química e Derivados, Taíse espera manter o avanço dos óxidos de ferro no mercado
Taíse espera manter o avanço dos óxidos de ferro no mercado

Nas linhas decorativas imobiliárias, Peres aponta uma evolução nas exigências dos consumidores das classes C e D, agora requisitando tintas de melhor qualidade. “Essa exigência barra o uso de pigmentos de baixa qualidade, forçando o mercado a evoluir”, avaliou. Como curiosidade, ele apontou que a região Nordeste do Brasil, assim como a América Latina, consome mais tintas coloridas do que as regiões Sul e Sudeste.

A elevação dos requisitos de qualidade é confirmada por Cristine Lopes de Camargo, gerente comercial da Colormix. “O mercado de pigmentos busca fornecedores que lhes garantam qualidade e reprodutibilidade, além de assistência na pré e pós venda”, informou. Com isso, os clientes estão mais atentos à procedência do pigmento e ao suporte que o fornecedor lhe oferece. As resistências químicas, solidez e características de dispersão também tem sido muito avaliadas, para não gerar retrabalho na elaboração da tinta, como salientou.

A Colormix possui grande participação nas vendas de pigmentos de efeito, contando com produtos da Eckart (Altana Group). “A busca por pigmentos de efeito é cada vez maior em todos os segmentos de tintas, pois agregam valor ao produto acabado”, comentou Cristine. A participação de mercado da Eckart é reforçada mediante um fluxo constante de inovações, com lançamentos em pigmentos metálicos (leafings, non leafings, cromados), pérolas sintéticas com diferentes cores (linha Symic) e pérolas de vidro com excelente brilho (linha Luxan).

Sem chumbo – Eliminado das tintas decorativas, o chumbo ainda resiste nas linhas automotivas e industriais, mas tende a ser banido destes segmentos também. “As tintas podem ser formuladas sem a necessidade de usar cádmio, chumbo ou cromo, pois os pigmentos orgânicos os substituem”, disse Peres. No caso das tintas automotivas, como as grandes fabricantes de tintas originais (OEM) já baniram os metais pesados, estes continuam sendo usados por pequenos fabricantes das linhas de repintura, exatamente na situação em que os danos à saúde laboral são mais evidentes.

Para conferir cores azuis, por exemplo, a Clariant indica as ftalocianinas, bem conhecidas dos formuladores de tintas. “Algumas famílias orgânicas apresentam uma variação de disponibilidade por temporada, às vezes faltam os violetas, às vezes outra cor”, comentou. Na virada de cada ano, as pressões de custos crescem, mas o mercado resiste aos aumentos de preços, considerou. “É melhor produzir aqui do que importar, temos mais flexibilidade e não precisamos esperar 60 dias para receber o material, como acontece com os importados”, disse.

Química e Derivados, Cristine: nova sede conta com estrutura ampla de atendimento
Cristine: nova sede conta com estrutura ampla de atendimento

Os pigmentos de óxido de ferro também se apresentam como alternativa para substituir o cromato de chumbo em tintas. “O óxido de ferro apresenta elevada resistência ao intemperismo e à luz, com alta estabilidade térmica, sendo inerte aos seres vivos”, explicou Tânia Regina Moreno, técnica de aplicação de pigmentos inorgânicos da Lanxess. “Apesar disso, ele não apresenta a mesma tonalidade e o mesmo brilho obtidos com os metais pesados, mas pode compor um fundo adequado para ser complementado por orgânicos, reduzindo a sua dosagem.”

Segundo Taíse Ayres Mendes, o segmento de tintas absorve mais de 30% das vendas da divisão no Brasil. “Desse percentual, quase 60% é direcionado para tintas decorativas imobiliárias”, afirmou. O maior consumidor dos pigmentos de óxido de ferro, não muito distante das tintas, é a coloração de concreto em construções.

Os óxidos de ferro apresentam cores que variam de amarelo a vermelho, obtidos em processos industriais adequados. No Brasil, a fábrica de Porto Feliz-SP se especializou nos pigmentos amarelos, exportando-os para outros países, enquanto importa os vermelhos de outras unidades fabris da companhia. A unidade nacional também produz alguns tipos pretos (com subtons amarelados a azulados) e marrons, dentro da linha Bayferrox.

Tânia Moreno comentou que os pigmentos de óxidos de ferro e de cromo são perfeitamente compatíveis com todos os orgânicos, permitindo compor com eles um resultado final adequado, com alta estabilidade. “Temos parceiros que produzem os orgânicos e eles fazem as misturas para suprir os clientes do segmento de tintas”, explicou.

Produção asiática – Embora defenda fabricação local, Peres aponta a Ásia como a atual “Meca” dos pigmentos, o lugar onde se fazem presentes todos os produtores mundiais relevantes. “Em setembro, a Clariant comprou a JMC, de Jaingsu (China), detentora de ampla linha de orgânicos de alto desempenho, com ênfase nos violetas, e reforçou sua presença na região”, informou. Ele salientou que essa fábrica atenderá o mercado asiático, sem afetar os negócios na América Latina, ao menos por enquanto.

A Lanxess constrói em Ningbo, China, uma fábrica para produzir 28 mil t/ano de óxido de ferro vermelho pelo processo Penniman, mediante investimento de 55 milhões de euros, para iniciar a produção em 2015. As unidades de produção na Alemanha e em Porto Feliz usam o processo Laux. “O processo Penniman gera um vermelho muito limpo, ou seja, puxando para o amarelo, enquanto o Laux dá um vermelho azulado, classificado como sujo”, explicou Tânia Moreno. Segundo explicou, os vermelhos limpos são os mais desejados pela indústria de tintas e seu uso é crescente no mundo, por isso a importância de contar com uma unidade Penniman na companhia.

Os amarelos fabricados no interior de São Paulo são originalmente ocres, bem fechados, com tonalidades que vão do esverdeado ao avermelhado. O pigmento Bayferrox 910 LOM (baixa absorção de óleo e micronizado) é o mais limpo da linha, segundo Tânia. “Essa é a demanda atual, ajudando a substituir outros pigmentos como cor de fundo”, explicou. Foi lançado na Abrafati 2013 e encontra boa procura no Brasil e no exterior, para onde vai cerca de 60% da produção de Porto Feliz.

Para atender a demanda por laranjas, a empresa oferece o Bayferrox 943, óxido especial amarelo avermelhado (de hidro-hematita), o único laranja do portfólio da Lanxess. “Além dele, pode se obter essa cor pela mistura de pigmentos vermelhos e amarelos”, explicou.

Além de serem mais resistentes que os orgânicos, os pigmentos de óxido de ferro não migram para a parte superior da película seca, onde poderiam sofrem lixiviação. “Todos os contaminantes que poderiam causar eflorescência são removidos no processo de produção por meio de lavagens e do controle operacional apurado”, explicou a especialista. Os vermelhos também resistem muito bem à umidade, sem alterar a cor.

A linha de pigmentos da Lanxess pode ser utilizada em todos os tipos de tintas, mesmo as curáveis sob alta temperatura. Os vermelhos Laux são estáveis até 600ºC. Além disso, a companhia oferece a linha Colortherm para aplicações mais exigentes em temperatura, porém elaborada com ferrita de zinco e óxido de manganês.

Química e Derivados, Tânia: linha de inorgânicos atende a todas as aplicações
Tânia: linha de inorgânicos atende a todas as aplicações

Sustentabilidade – Na indústria de tintas, os pigmentos são conhecidos pelo consumo de energia e de tempo na sua preparação. Alguns tipos podem ficar horas a fio na moagem para atingir a granulometria adequada, que lhe permitirá a máxima expressão da cor. Essa é a chamada etapa de “abertura” do pigmento. No esquema clássico de produção, os moinhos eram o gargalo das fábricas de tintas, limitando acréscimos de capacidade.

“As tintas decorativas usavam muito pigmento em pó, hoje ninguém quer mais isso”, disse Peres. “Quem mudou para produtos de fácil dispersão ou pré-dispersos, não volta mais.” A Clariant oferece aos seus clientes a linha ED (de easily dispersible), proporcionando a eles economia de tempo e de energia, ao dispensar a etapa da moagem. Segundo o gerente, a linha ED ainda precisa ser mais divulgada no Brasil, porque os fabricantes de tintas possuem moinhos e resistem a deixar de usá-los. “A alternativa mais sustentável para o setor são os produtos secos de fácil dispersão”, confirmou.

“As demandas atuais dos clientes quanto aos pigmentos podem ser resumidas em dispersão e umectação”, resumiu Tânia Moreno. Atualmente, os fabricantes de tintas fazem as suas dispersões ou as compram dos grandes dispersadores, categoria de cliente que está em fase de crescimento no Brasil. “Quando um cliente encontra problemas de dispersão, contactamos o laboratório da Alemanha para orientá-lo a resolver o problema”, disse.

A Lanxess entrega seus pigmentos na forma de pó, ou moídos ou micronizados. Os marrons nacionais da empresa, por exemplo, só são fornecidos micronizados. “Os óxidos de ferro apresentam dispersão muito mais fácil que a dos orgânicos, alguns tipos podem até mesmo dispensar a moagem”, disse Tânia. Em compensação, a forma moída é a preferida na América Latina. “Estamos colocando aos poucos o micronizado na região”, salientou.

Em outra abordagem de negócios, a Clariant reforçou sua atuação no fornecimento de concentrados de cor para sistemas tintométricos. Aliás, a companhia também passou a oferecer equipamentos para esses sistemas, desde a compra da fabricante italiana Italtinto. “Somos o único produtor totalmente verticalizado de pigmentos e colorantes, isso nos permite fazer alguns ajustes em todas as etapas do processo para alcançar o resultado desejado pelo cliente”, afirmou.

Com mais de 30 bases coloridas, a companhia consegue elaborar uma paleta com milhares de cores, conforme as necessidades de mercado. “Produzimos um conjunto de concentrados adequado às tintas de base fabricadas pelo cliente e o software do equipamento tintométrico gerencia a elaboração da cor desejada”, explicou. Alterações que venham a ser feitas nas tintas de base precisam ser informadas e avaliadas pela Clariant, para que o resultado final seja idêntico ao esperado.

Para evitar erros de manipulação, a Clariant entrega os concentrados aos clientes em embalagens com capacidade volumétrica adequada para colocação direta nos equipamentos.

Segundo Peres, a aceitação do sistema tintométrico fornecido pela Clariant foi grande em toda a América Latina, incluindo o Brasil. “Na região, o consumo de tintas feitas nas fábricas é de 80% e das preparadas nas lojas é de 20%, mas estas tendem a crescer”, considerou. “Na Europa, 80% das tintas são misturadas nas lojas e nos Estados Unidos essa participação chega a 90%.” Ele admite que as tintas coloridas custam mais caro, pela adição dos pigmentos, mas defende que os preços entre os produtos batidos nas lojas e os feitos em fábricas tende a se aproximar.

Atenta à evolução da demanda, a Clariant abriu em Frankfurt (Alemanha) seu centro de inovação, reunindo estudos de todas as áreas de negócio da companhia. “A ideia é pensar no futuro, olhar à frente, não só em pigmentos, mas de forma ampla para identificar necessidades e soluções”, finalizou.

A Colormix está se preparando para lançar, ainda em 2014, sua linha de dispersões pigmentárias base água, cuja fábrica está em fase final de construção, como informou Cristine Lopes Camargo. “Em março, mudamos para uma nova sede, com estrutura mais adequada para oferecermos suporte total aos clientes, com técnicos especializados nas diferentes aplicações e novos equipamentos de laboratório”, destacou.

Também neste ano, a Colormix firmou contrato para ser o braço comercial no Brasil da fabricante de dióxido de titânio Titanos. E está colhendo os frutos das parcerias anunciadas no ano passado, durante a exposição da Abrafati: a linha de pérolas naturais da Ruicheng, pigmentos orgânicos de alta performance da Synthesia, entre outros, que completam seu portfólio e ampliam seus negócios.

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