Tintas – Consumidor pinta mais e faz setor mudar

Crescimento do It Yourself faz indústria de tintas caprichar nas informações impressas nas latas e formular produtos de aplicação fácil

Química e Derivados: Tintas: Consumidor precisa ser orientado para escolher a tinta certa para cada aplicação.
Consumidor precisa ser orientado para escolher a tinta certa para cada aplicação.

O consumo brasileiro de tintas acompanhará a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, estimada ao redor de 4%. O segmento voltado para a construção civil, também denominado de tintas imobiliárias ou decorativas, foi responsável pela recuperação de demanda verificada durante 1999, embora com notável redução do valor médio da produção, evidenciando o predomínio da chamada segunda linha no mix de vendas. Cabe mencionar a influência da desvalorização cambial sobre os resultados do setor, cujo faturamento no ano passado totalizou US$ 1,69 bilhão, contra US$ 1,98 bilhão em 1998. Estatísticas do Sindicato da Indústria de Tintas e Vernizes do Estado de São Paulo (Sitivesp) mostram que só as linhas decorativas e as aplicadas em sistemas gráficos (impressão) registraram aumento de demanda em 1999 quando comparados os volumes vendidos com os de 1997, ano de melhor desempenho setorial.

Os mais de 175 milhões de galões de tintas decorativas vendidos no Brasil no ano passado trouxeram inovações, tanto nas formulações, quanto nas embalagens e no uso de canais diferenciados de vendas.

A chave para entender as transformações pelas quais passa o segmento decorativo consiste no fato de o usuário final estar assumindo, cada vez mais, a tarefa da compra da tinta. Trata-se de um passo intermediário ao do it yourself (ou bricolagem) americano, que também vai ganhando adeptos no Brasil. “Enquanto tivermos desemprego alto no País, sempre vai haver oferta de pintores de parede a preço baixo”, comentou Paulo Roberto Moreira, diretor comercial da Sherwin-Williams do Brasil. “A conseqüência disso é a baixa qualificação desse tipo de profissional.”

Tanto no caso da bricolagem, como no dos pintores sazonais, cabe à indústria de tintas atuar em duas frentes: melhorar a qualidade de informações sobre a aplicação e o desempenho do produto, na lata e no ponto de vendas, e, ao mesmo tempo, elaborar formulações de aplicação simples, que evitem diluições complicadas e, quando possível, dispensem preparo meticuloso do substrato. “A tinta precisa ser à prova de leigo”, advertiu Moreira.

“É preciso orientar o consumidor a escolher a tinta mais adequada para a aplicação”, disse o gerente de marketing para tintas imobiliárias da Basf, Miguel Bruno. Segundo informou, há muita confusão no mercado por causa do hábito brasileiro de identificar a tinta pela resina com a qual é feita. “Na América Latina as tintas se dividem em linhas para interior e para exterior, enquanto por aqui se fala em acrílicas e vinílicas”, comentou. Os consumidores e a maioria dos pintores não conseguem relacionar a família química com o melhor uso, incorrendo em erros que comprometem a proteção do substrato ou a durabilidade da pintura.

De forma genérica, Bruno aponta as características principais das famílias. As acrílicas formam películas mais flexíveis e resistentes, sendo recomendadas para uso na parte externa das construções. Já as vinílicas apresentam aplicação mais fácil, com melhor acabamento e cobertura de imperfeições de superfície, sendo indicadas para as áreas interiores. As resinas acrílicas e as vinílicas podem ser modificadas com a introdução de outros polímeros. Dessa forma podem ser obtidas, por exemplo, as linhas estireno-acrílicas ou vinil-acrílicas, cujos usos variam principalmente em função da situação econômica do cliente. “Falar nisso apenas aumenta a confusão na cabeça do comprador”, afirmou o gerente.

Química e Derivados: Tintas: Consumo de tintasNos últimos cinco anos, as linhas acrílicas desbancaram as vinílicas nas vendas de tintas imobiliárias, assumindo pequena dianteira. “Em dois anos a situação deve se estabilizar, com os acrílicos dominando de 65% a 70% do mercado decorativo”, informou. Essa conquista foi obtida por causa da imagem criada em torno da resina, associada à alta qualidade e durabilidade, características que hoje não são garantidas em todos os casos. Basta verificar a faixa de preços praticados no comércio varejista, oscilando desde R$ 40 até R$ 150 por lata de 18 litros.

“O acrílico como argumento de venda está perdendo força pela existência de tintas ditas acrílicas com desempenho inferior ao das vinílicas”, avaliou Moreira, da Sherwin-Williams. A empresa foi pioneira na linha acrílica no Brasil, tendo lançado produto com a resina em 1974, época em que o monômero era muito caro e a tecnologia de fabricação envolvia segredos inexpugnáveis, como o da emulsão, que a empresa desenvolveu sozinha. “Hoje acrílico é commodity, vários fabricantes de tintas entraram nessa área, com diferentes graus de qualidade e preço”, disse.

A análise de Moreira traça um paralelo entre a composição da tinta e o poder aquisitivo da população. Depois de 1994, com a queda da inflação houve uma transferência de renda para camadas mais pobres, provocando aumento na demanda de tintas até chegar ao apogeu em 1997. A partir daí, verificou-se forte erosão no poder de compra dos assalariados, que passaram a preferir as linhas mais econômicas de tintas. “O usuário sempre espera dos acrílicos uma qualidade superior, mas não a encontra nos produtos mais baratos”, criticou.

Segundo Moreira, a resina acrílica consiste no último esforço de marketing de tintas com base na matéria-prima. “Não há nenhuma resina sendo desenvolvida para isso no mundo”, comentou. “O trabalho agora vai se concentrar nas necessidades do consumidor”. “Existem polímeros ainda mais avançados, como as resinas acrílicas siliconizadas, já em uso na Europa”, informou o diretor-técnico da Sherwin-Williams do Brasil, Luís Manuel Mota. “Mas elas custam pelo menos três vezes mais caro que as acrílicas convencionais, preço que não se justificaria no mercado doméstico.”

Química e Derivados: Tintas: Moreira formulações específicas crescem.
Moreira formulações específicas crescem.

Qualidade sob controle – A insatisfação do consumidor com as tintas pode ser evitada por iniciativas recentes para a garantia da qualidade dos produtos. Dentro do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) desenvolve normas técnicas e padrões qualitativos para o setor. “Neste ano ficam prontas as normas para testes e ensaios para tintas”, comentou Mota. Com base nessas normas serão elaborados os padrões de qualidade.

Segundo o diretor-técnico, também a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) está pedindo aos fabricantes de tintas que elaborem fichas com informações sobre componentes perigosos eventualmente presentes nas formulações, atendendo às exigências da legislação ambiental.

Já a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) atua junto ao setor para padronizar o texto aposto nas latas de tintas, oferecendo informações básicas sobre rendimento, composição, indicações de uso e orientação para emergências. “Até o Ministério Público nos pede padrões oficiais para usá-los em casos de intoxicação de pessoas”, disse Mota. Ele destacou os esforços empreendidos pela Rohm and Haas no sentido de demonstrar a importância do uso de insumos de qualidade para se obter pinturas mais duráveis.

Miguel Bruno, da Basf, considera importante desenvolver uma classificação padronizada das tintas, de modo a orientar melhor o comprador pouco afeito aos detalhes das formulações. “Hoje em dia o cliente diferencia a qualidade das linhas pelo preço”, disse. Para ele, as tintas deveriam deixar claras as suas aplicações (interior ou exterior; madeira, metal ou alvenaria) e o que se espera delas em termos de rendimento (área coberta), número necessário de demãos, durabilidade e resistência à lavagem, por exemplo. “Esses dados, impressos nas latas, seriam garantidos pelos fabricantes”, explicou. No caso das tintas Basf, essa classificação e informação já foram adotadas.

Química e Derivados: Tintas: Mota setor cria normas e padrões de qualidade.
Mota setor cria normas e padrões de qualidade.

Estratégias de atuação – Desde a abertura comercial do Brasil, em 1990, ficou mais fácil o acesso a insumos avançados a custos relativamente baixos. Com a crise asiática do final dos anos 90, o mercado de produtos químicos entrou em fase de redução de preços. “Com esses movimentos, as tintas de segunda linha melhoraram a qualidade sem elevar os preços”, comentou o diretor-presidente do Sitivesp Roberto Ferraioulo. Pelos mesmos motivos, também os processos produtivos foram aprimorados em todos os níveis, tornando o setor mais competitivo. Quanto à transferência tecnológica, ele destaca a chegada de grandes fabricantes mundiais ao mercado local, tanto de tintas como de bens duráveis, que exigem fornecimento de qualidade compatível com a do exterior.

“Não existe um gap tecnológico entre Brasil e Europa ou Estados Unidos”, afirmou Luís Mota, da Sherwin-Williams. “Existem diferenças de mercado que determinam a disponibilidade de uma ou outra linha de produtos.” Como exemplo ele citou uma tinta decorativa de alta qualidade para exteriores, lançada pela empresa há alguns anos, que oferecia durabilidade para 20 anos. O produto não encontrou demanda capaz de justificar sua manutenção em linha e só é fabricado sob encomenda.

Atualmente, o mercado opera com três níveis distintos de produtos: econômicos, intermediários e de alta qualidade (ou premium). Em cada faixa há várias opções, oferta considerada excessiva por Moreira. “Hoje temos linha com diferenças de preço de dez em dez reais, por lata de 18 litros”, disse. “Ainda vai haver uma reestruturação de mercado, com a mortalidade de marcas e a concentração nas linhas de melhor desempenho comercial”.

Para a Sherwin-Williams, terceira colocada no ranking da linha imobiliária, com 15% de participação, o carro-chefe de vendas continua sendo a linha de acrílicos de alta qualidade. Nos últimos anos, a empresa internacional comprou vários fabricantes locais, como Tintas Globo, Colorgin e Lazzuril, a título de estratégia de crescimento institucional. Com isso foi possível desenvolver uma segunda linha de produtos, situada na faixa intermediária, além de ingressar em nichos de mercado, que aparentam constituir importante mercado para o futuro. É o caso da linha Novacor, iniciada pela Tintas Globo, voltada para a pintura de pisos, segmento no qual mantém posição de destaque.

Mesmo nos produtos de topo de linha a atuação por nichos de mercado é consistente. Recentemente a empresa lançou a linha Metalatex banheiros e cozinhas, indicada para aplicação nesses ambientes, onde o teor de umidade é elevado, criando condições propícias ao desenvolvimento de colônias de fungos. “Reforçamos a aditivação, principalmente com microbicidas, colocamos aroma especial, que ressalta o aspecto limpeza, e desenvolvemos cores diferenciadas, mas na lata nem destacamos que se trata de formulação acrílica”, comentou Moreira. Para o diretor comercial, essas linhas de aplicação específica tendem a ganhar mercado rapidamente e é fundamental lançá-las antes da concorrência.

Moreira e Mota concordam que as marcas de segunda linha apresentaram melhora na qualidade, mas ainda ficam longe do desempenho das mais caras. “Marcas de PVA de primeira linha duram pelo menos cinco anos, enquanto a segunda linha não passa de três”, disse Moreira. Mota destaca a importância da tinta como elemento protetivo. “A segunda linha forma películas mais porosas do que as de primeira, por isso protege menos a parede contra a umidade, por exemplo”, disse.

A diferença fundamental entre as linhas reside na quantidade de resinas, pigmentos e aditivos colocados na formulação. “A segunda linha usa mais carga mineral e espessantes para economizar nos itens mais caros”, explicou. A Sherwin-Williams lançou sua segunda linha para atender uma demanda de mercado surgida após o Plano Real e, com isso, bloquear o crescimento de concorrentes. “A concorrência hoje em dia não está restrita a outros fabricantes, mas inclui revestimentos alternativos, como papel de parede ou azulejos”, explicou.

“Quem compra marcas econômicas não usava nada ou aplicava cal nas paredes”, comentou Miguel Bruno, da Basf. Para ele, o consumidor atual de tintas é mais exigente em serviços e em informação, além de usar mais cores, item favorecido pela introdução dos sistemas tintométricos, que permitem economia na cadeia produtiva além de oferecer excelente reprodutibilidade de cores e tonalidades. “Antes o consumidor tinha poucas alternativas e preferia o branco por ser mais fácil encontrar cor igual no caso de retoques”, disse Bruno. Afastada essa preocupação, a ordem entre decoradores e arquitetos é investir em combinações inovadoras.

Para satisfazer a necessidade de informações dos usuários, ou mesmo sua curiosidade, a Basf investe na promoção de palestras e cursos em home centers, lojas de grande porte e na Casa Suvinil. Interessados podem também obter instruções de preparo de superfícies, seleção da tinta e pintura pelo telefone do serviço de atendimento ao cliente (SAC) ou na Internet, onde encontrará respostas aos problemas mais freqüentes com tintas imobiliárias. “O processo de transferência de tecnologia em larga escala é lento, mas traz bons resultados”, avaliou.

Química e Derivados: Tintas: Bruno tintas texturadas chegam à linha intermediária.
Bruno tintas texturadas chegam à linha intermediária.

A Basf investiu no lançamento de linha ultra-sofisticada de tintas (Suvinil Gold) há alguns anos, direcionada para aplicações nobres, nas quais se pretendam resultados artísticos. “Nossa abordagem foi diferente da tinta durável, visamos um conceito mais sofisticado”, disse Bruno. Embora as vendas dessa linha tenham ficado aquém das expectativas de lançamento, ela permanece sendo produzida normalmente, contando com 256 cores e está disponível no sistema tintométrico da empresa (denominado SelfColor).

Além da variedade de cores – a linha Suvinil conta com 2.016 –, a Basf identificou outra demanda específica em tintas decorativas: as texturas. Lançando mão de diferentes granulometrias de sólidos dispersos, a empresa consegue obter diferentes efeitos, a partir da reflexão diferenciada da luz, tornando ambientes mais aconchegantes, ou ainda, permitir pinturas especiais, feitas com esponjas, escovas ou rolos. O sistema tintométrico da empresa passou a apresentar, há dois meses, duas famílias de tintas texturadas com 256 cores.

“Temos linhas texturadas inclusive na faixa econômica”, disse Bruno. Nesse caso, porém, a diferença de preço entre a primeira e a segunda linha é de 25%, no máximo. Nas linhas convencionais a diferença chega a 40%.

Alternativas econômicas – O custo dos insumos para a fabricação de tintas está em fase de elevação, tanto pela recuperação do mercado asiático quanto pela onda de aumento do petróleo e derivados. “Os solventes subiram quase 100% nos últimos meses”, disse Ferraioulo. No entanto, as tintas estão com preços contidos, pela impossibilidade de repassar custos ao consumidor final, que acabaria adiando a compra do material.

Líder no segmento imobiliário, com aproximadamente 40% das vendas em valor, a Basf verificou redução no preço médio de tintas durante 1999, justificada pela depreciação do real. “Não foi possível repassar o aumento de custos das matérias-primas importadas, cotadas em dólar”, afirmou Bruno, para quem o preço do galão de tintas continua, em média, abaixo dos valores praticados em 1997, quando cotados em moeda forte. “É preciso atualizar o preço das tintas agora”, comentou Bruno, apontando aumento acumulado de 35% no preço dos solventes orgânicos apenas em 2000. Além disso, com o reaquecimento do mercado mundial de produtos químicos, materiais importantes como o estireno e o dióxido de titânio ficaram mais caros.

Cor na medida – O uso de sistemas tintométricos (mix machines), nos pontos de venda é crescente, ampliando a oferta de cores e reduzindo custos na cadeia. “Esses sistemas estavam restritos aos grandes fabricantes de tintas, mas está havendo uma generalização, permitindo que médios e até pequenos produtores de tintas ofereçam esse serviço”, comentou Ferraioulo, do Sitivesp. Na opinião do dirigente, o mercado avalia a possibilidade de os lojistas comprarem os equipamentos de dosagem e mistura de concentrados de cor, sem vincular-se com cláusula de exclusividade com fornecedores de tintas-base. “A mix machine deve ser vista como ferramenta do trabalho do lojista, que precisa vender a tinta que o cliente quer comprar”, afirmou.

Há obstáculos de natureza tecnológica e financeira para a concretização dessa idéia. “Para o sistema tintométrico funcionar bem, é preciso existir uma perfeita compatibilidade entre a tinta-base e o colorante, que são desenvolvidos em conjunto”, explicou Alfred Sichermann, gerente-geral da Tikkurila do Brasil, que divide o mercado local de concentrados de cor com a Creannova (Degussa-Hüls). “Se a base não for compatível com o colorante fica impossível reproduzir a cor desejada pelo cliente.”

Do ponto de vista financeiro, é preciso destacar que os principais pontos de venda para tintas ainda são as lojas especializadas, com quase 55% do faturamento, segundo estimativa da Sherwin-Williams, seguidas pelas lojas de materiais de construção (35%). “Em geral, esses grupos são constituídos por empresas pouco capitalizadas, incapazes de assumir o investimento num sistema automatizado”, reconhece Ferraioulo, que informa existir perto de 33 mil pontos de venda de tinta ativos no Brasil. Sem capital para comprar as máquinas, os empresários do comércio fecham acordos com fabricantes de tintas, que exigem a contrapartida da exclusividade no uso do sistema, vendido ou cedido em comodato.

Já houve casos de descumprimento da cláusula de fidelidade nesse tipo de contrato, com punições variando entre a extinção do vínculo, com a retirada da máquina, e a aplicação de multas e pedidos de indenização. “A pirataria chegou ao ponto de um pequeno fabricante copiar a formulação da tinta-base de um grande para poder usar o sistema tintométrico criado por este”, criticou Sichermann. Embora afirme que esse tipo de ocorrência seja raro, ele informou o desenvolvimento de estudos para dotar as máquinas de sensores capazes de identificar as latas do fabricante original, impedindo o uso com embalagens de terceiros. Para ele, é muito fácil para o fornecedor saber se o equipamento está sendo indevidamente usado. “O consumo de colorante é proporcional ao de tinta-base, se há diferença entre eles é porque está havendo desvio”, disse.

A Tikkurila lançou seu sistema para a linha imobiliária em 1992, em conjunto com fabricantes de tintas, e verifica crescimento constante ano após ano, sendo adotado por grandes e médios clientes, embora muito concentrados na primeira linha de tintas. “Os produtores da segunda linha, em geral pequenos, e também os lojistas de pequeno porte querem contar com suas mix machines”, comentou. Para atender a essa demanda, a Tikkurila está montando um sistema econômico, com equipamentos mais simples e escala de cores reduzida. “Já temos o projeto de um sistema para 25% das opções de um sistema grande”, informou Sichermann. “Os pequenos fabricantes já podem entrar nesse mercado.”

O desenvolvimento contou com a participação da Corob, parceira da Tikkurila na parte mecânica das mix machines, que desenvolveu equipamentos robustos e menos custosos. Por parte da fornecedora dos concentrados de cor, o trabalho consistiu na formulação de produtos mais econômicos, dispensando cores que exigissem custosos pigmentos especiais. Com isso, foi possível reduzir o investimento inicial de US$ 20 mil (sistema automático de grande porte, incluindo o misturador/batedor) para a faixa de US$ 9 mil a US$ 10 mil, igualmente automático e com o misturador/batedor.

Segundo Sichermann, a chegada dos sistemas para a segunda linha representa aumento da sua competitividade, pela possibilidade de oferecer nova gama de cores – já solicitadas inclusive pelos compradores de menor poder aquisitivo – e também pelo ganho de produtividade e economia alcançados. Atualmente, o pequeno fabricante opta por produzir bateladas grandes, com pouca variação de cor, de modo a manter alta a ocupação das linhas. No entanto, com a moda de combinar diferentes tons e cores entre paredes, teto e detalhes, existe uma demanda por pequenos lotes de tinta colorida, cuja fabricação é inviável para esse tipo de produtor, que dispensa esses pedidos. “O mix machine vai resolver esse problema, porque o fabricante vai produzir apenas as bases, em alto volume, e conseguirá ampliar a produção, sem investir em novas capacidades”, explicou.

O crescimento dos sistemas tintométricos é comprovado pela Basf. “As vendas nos sistemas tintométricos cresceram 40% ao ano em volume nos últimos 3 a 4 anos”, confirmou Bruno. Ele salientou a importância da exclusividade do uso com bases feitas pela empresa, embora as máquinas sejam vendidas aos comerciantes. “Os sistemas são calibrados para funcionar com a nossa linha”, disse. Para isso, cada uma das mais de duas mil cores foram testadas com as diferentes bases, em diferentes tonalidades e efeitos. Esse processo, somado ao custo do desenvolvimento de cartelas de cor, introdução de tecnologia, treinamento e marketing, significou elevado investimento para a empresa.

“Nem a nossa segunda linha pode ser usada nos nossos sistemas tintométricos, restritos à linha Suvinil”, comentou Bruno. Segundo informou, a segunda linha é feita em lotes grandes e em reduzido número de cores, permitindo reduções de custo mais significativas.

Na Sherwin-Williams, os sistemas tintométricos já representam 10% do faturamento de todas linhas de tintas, porcentual que tende a crescer. “Os grandes centros de consumo já estão ocupados, com mais de 5 mil máquinas instaladas”, disse Paulo Moreira. “O desafio agora é levar esse conceito para todo o País.” O grande obstáculo consiste no elevado investimento inicial para a adoção do sistema.

A tendência observada por Moreira é a redução no número de marcas trabalhadas nos pontos de venda, com a concentração em poucos fabricantes e linhas, de modo a ganhar volume para justificar a instalação de sistemas tintométricos. “O giro de capital do ponto de venda precisa ser suficiente para bancar o investimento”, comentou, ressaltando o interesse por equipamentos mais econômicos.

Ponto de venda importante – Embora as lojas especializadas e as de materiais de construção em geral ainda respondam pelo grosso das vendas de tintas, todos os entrevistados destacaram o crescimento das vendas nos home centers, os grandes magazines dedicados à venda de produtos para casas, que já detêm quase 15% das vendas do setor, segundo estimativa da Sherwin- Williams. Ainda incipiente (por volta de 1% do total), as vendas de tintas em supermercados é fenômeno recente que desperta expectativas. Ao mesmo tempo as vendas pela Internet não são representativas.

“A Internet é uma ferramenta poderosa para transmitir informações, tanto para os pontos de venda quanto para os usuários, mas ainda é insuficiente para negociações”, constatou Roberto Ferraioulo. Na sua opinião, para o fabricante de tintas é preciso ter ligação estreita e pessoal com os fornecedores de matérias-primas e insumos fundamentais ao setor, como as resinas e os principais pigmentos. Isso se justifica pela necessidade de trocar conhecimento técnico e, muito importante, garantir suprimento nas fases de escassez. “Não há estoques garantidos em lugar nenhum do mundo”, disse o dirigente. Nos materiais menos críticos é possível usar a rede para compras, sem maiores dificuldades.

Já no relacionamento entre fabricantes e pontos de venda, Ferraioulo ainda não identificou movimentos para adoção de meios eletrônicos. “O mercado está altamente competitivo, cada lojista recebe uma dezena de vendedores de tintas por dia, com preços variados e negociáveis”, comentou. Essa política agressiva de vendas é feita melhor pessoalmente.

Ferraioulo considera a venda de tintas em supermercados um processo em fase de maturação. De forma geral, esse ponto de vendas tem recebido produtos de baixo valor, situação que pode ser revista a partir de algumas iniciativas inovadoras.

A Sherwin-Williams iniciou no Brasil uma seqüência da operação que já desenvolve há anos nos Estados Unidos em parceria com a rede Wal-Mart. “Nós formulamos e produzimos os produtos da marca Colorplace, dedicada às lojas Wal-Mart”, disse o diretor Paulo Moreira. Pelo acordo entre as empresas, a rede de supermercados optou por oferecer tintas das categorias premium e intermediária para seus clientes, formando um mix com vantagens em preço e qualidade. “A rede é quem trabalha a marca, absorvendo o custo de marketing que teria de ser feito por nós”, comentou. Essa política de marca dedicada ainda é muito pouco desenvolvida no Brasil, mas pode crescer a longo prazo, segundo o diretor.

A venda nos supermercados deve considerar fatores diferentes. A começar pela embalagem, que precisa usar uma linguagem mais acessível ao consumidor, dando prioridade para a aplicação da tinta e seu rendimento. “As embalagens também precisam ser fáceis de carregar e de passar pelos caixas”, informou.

Química e Derivados: Tintas: Setor emprega menosEsmalte sofre – O mercado de tintas com base solvente, indicadas para revestimento de metais e madeira, está estável, com tendência de queda de demanda para os próximos anos. Segundo estimativa da Basf, essa linha de produtos, da qual é a segunda fornecedora nacional, representa apenas 16% a 17% do volume total de tintas do segmento imobiliário. Miguel Bruno aponta como fatores responsáveis por retração de demanda o crescente uso de esquadrias feitas de alumínio ou de outros materiais pré-pintados na indústria, que usa tintas de outras famílias (por exemplo tinta em pó, epóxi ou poliéster). Além disso, já há formulações com base em polímeros acrílicos que podem ser aplicados nas portas com bons resultados.

Apesar disso, a Basf está lançando os esmaltes Toque de Seda, para complementar os produtos base água (para paredes) da linha, iniciada no ano passado. “Estamos lançando esmaltes com cores que combinam com as da linha para alvenaria”, explicou Bruno.

Segundo informou, há produtos diferenciados para esse tipo de aplicação, a exemplo de tintas solúveis em água, já usadas em alguns países, mas cujo custo inibe a venda no Brasil, que também apresenta uma certa resistência à mudança de tecnologia. “O conceito de esmalte está bem fixado junto aos usuários”, afirmou, ressaltando a possibilidade de alterações culturais nesse mercado. Além disso, há projetos específicos para a redução do cheiro dessas tintas, usando novos solventes desodorizados. “O cheiro do solvente em evaporação sai em dois ou três dias, já o dos ingredientes voláteis do látex permanece por mais de 30 dias”, informou. Importante notar que, no primeiro caso, o odor é mais potente.

Posição setorial – Apesar dos resultados alentadores de 1999 e as perspectivas para 2000, o setor de tintas apresenta elevada capacidade ociosa e mantém processo constante de redução de pessoal. “O setor se preparou para atender a uma demanda maior, em especial de bens duráveis, mas também da construção civil, que ainda apresenta um déficit habitacional de 7 milhões a 10 milhões de residências”, avaliou Roberto Ferraioulo. A verificação da ociosidade pode ser inferida pelo fato de ser rara a adoção do regime de três turnos na indústria. “A produção nacional de tintas pode crescer de 33% a 50% sem grandes investimentos”, calculou.

O corte de empregos é justificado pelo processo de atualização tecnológica empreendido desde o início dos anos 90, com uso intensivo de sistemas automatizados. “Hoje em dia não existe mais o enlatamento manual, por exemplo”, afirmou. Além disso, as linhas produtivas foram redesenhadas, de modo a ampliar a produtividade. De outro modo, os novos métodos organizacionais e os custos trabalhistas levaram à terceirização de atividades secundárias, como vigilância, limpeza e até manutenção. O processo foi agravado pelas fusões e aquisições de companhias, que eliminaram postos de trabalho em duplicidade na área administrativa.

Embora a produtividade do pessoal tenha sido multiplicada, ainda é preciso, segundo o dirigente setorial, manter programas de qualificação de pessoal, como forma de elevar a qualidade e o volume da produção. “Os sistemas de produção modernos exigem operadores com pelo menos o 2° grau completo”, disse. No entanto, não houve aumento correspondente do ponto de vista da remuneração do pessoal, fato em parte atribuído à desindexação salarial, admitido como alimentador da inflação. “O que vai aumentar o salário é o aumento da demanda, que vai intensificar a procura por pessoal qualificado no setor”, disse, esperançoso quanto aos investimentos na área de construção civil, atividade que consome produtos locais, dispensando importação, e que favorece as camadas mais baixas da população.

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