Têxtil: Mais expectativas do que visão clara

Perspectivas 2023 - Mais expectativas do que visão clara

O diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel, enviou à Revista Química & Derivados, suas impressões a respeito do novo panorama de mercado, a partir da posse do Governo Lula em janeiro.

Qual a expectativa do setor uma vez que houve mudanças no modelo da política econômica no novo governo? Quais pontos positivos e negativos o senhor destacaria?

Pimentel: O novo governo tomou posse (há 20 dias) e ainda não apresentou as linhas mestras da sua política econômica. Evidentemente, o mercado está esperando isso.

Temos desafios na área fiscal, temos questões da retomada da indústria brasileira, a agenda da sustentabilidade, inserção do Brasil no mundo com a conclusão dos acordos com a União Europeia/Mercosul; e a integração do próprio Bloco Regional do Mercosul.

Tudo isso foi discutido no âmbito do encontro da Coalização Empresarial Brasil Argentina, aqui em Buenos Aires. Não há ainda um cenário claro e pacificado da agenda do novo governo.

Temos informações, falas, etc., mas nenhuma estrutura foi mostrada para lidar com questões importantes, como reforma tributária – que é crítica para a indústria que paga muito mais impostos que outros setores.

Então, nossa expectativa é que temos que trabalhar com a visão construtiva de colaboração e cooperação, levando as demandas da nossa indústria junto com outros setores industriais, através da CNI.

Têxtil: Mais expectativas do que visão clara ©QD Foto: iStockPhoto
Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit

A elevação das taxas de juros e o aumento da inflação afetam os planos de investimentos das indústrias têxteis brasileiras. Diante disso, qual é a meta de crescimento do setor para 2023?

Pimentel: Quanto às taxas de juros, elas já estavam elevadas. A inflação diminuiu, mas ainda está acima da meta. No caso da indústria têxtil e de confecção, a inflação do nosso setor, no âmbito do varejo, foi a maior de 2022.

O fato é que investimentos necessitam de previsibilidade que, por enquanto, não temos ainda.

Além de previsibilidade de política econômica, temos que ter juros compatíveis com a taxa de retorno dos negócios e os juros estão muito altos, o que inviabiliza os investimentos na economia real. Isso obviamente faz com que as indústrias operem com freio de mão puxado, realizando apenas investimentos fundamentais e necessários que tragam retorno no curto prazo, já que a visão de longo prazo ainda não está bem delineada.

Diante deste cenário, e olhando às projeções de crescimento em 2023, o setor está com a mesma expectativa de crescimento do PIB, em torno de 1,6%; podendo ser maior dependendo da evolução das linhas macroeconômicas que forem anunciadas no momento certo das reformas.

É importante observar que o Congresso Nacional volta a funcionar para valer em março, quando devemos ter negociações entre o Poder Executivo e o Legislativo.

A nossa atuação, como entidade, é sempre pensar no bem do País e do nosso setor.

A geração de empregos, que foi positiva em 2022, poderá se reduzir ou as empresas deverão se esforçar para manter os postos de trabalho em 2023?

Pimentel: A geração de empregos foi positiva em 2021 e em 2022, mas para 2023, diante de um cenário econômico mais restrito, teremos uma redução no número de vagas formais que geraremos. Estamos estimando algo em torno de 2 mil vagas formais no âmbito do Caged.

A desaceleração da economia mundial e o enfraquecimento da demanda em 2023 ameaçam os exportadores têxteis ou o grande mercado interno é suficiente para manutenção dos negócios?

Pimentel: Com relação ao mercado mundial, há uma grande interrogação. Acredita-se que boa parte das economias ou vão entrar em recessão ou vão ter um crescimento muito baixo, exceto a China, e essa questão afeta, sem dúvida, o apetite dos compradores internacionais, apesar de o mercado interno ter sido o grande foco da indústria brasileira.

Todavia, o setor exportou mais de US$ 1,1 bilhão de dólares no ano passado, o que representa R$ 5,5 bilhões, uma parcela de 3% a 4% do faturamento da indústria como um todo. Importante ressaltar que alguns segmentos da nossa indústria tem uma participação importante das suas receitas no âmbito do mercado mundial.

Temos um projeto muito importante com a Apex, muito exitoso há mais de 20 anos, que mobiliza as empresas têxteis e de confecção a internacionalizarem suas relações comerciais.

Todavia, o mundo está refratário ao crescimento, com dificuldade de consumo nos países desenvolvidos e isso causa, obviamente, mais dificuldades de venda dos produtos brasileiros no exterior.

Além disso, causa preocupação os eventuais desvios de comércio, vindos de mercados que reduziram seu tamanho, como o norte-americano e europeu e, com isso, podem provocar sérios danos à indústria brasileira.

Pode antecipar algumas inciativas para estimular a competitividade da indústria em 2023?

Pimentel: Quanto às inciativas de competitividade, nós estamos focados na indústria 4.0, na qualificação e capacitação, no desenvolvimento dos mercados, na digitalização das empresas, na formação e melhoria técnica dos profissionais e toda a agenda que envolve geração de valor por meio da economia circular, do combate ao desmatamento, da redução do uso de insumos e da ampliação no uso de matérias-primas renováveis e amigáveis à natureza.

É uma agenda que não é só nossa, mas do mundo, e na qual já estamos trabalhando há algum tempo.

Texto: Marcia Mariano

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