Têxtil – investimentos produtivos com tecnologias inovadoras

Química e Derivados, Indústria estuda investimentos produtivos com incorporação de tecnologias inovadoras - Têxtil
Têxtil – Apostando na perspectiva de crescimento de 2,2% da economia brasileira, após três anos da maior recessão vivida pelo Brasil, a expectativa do setor têxtil e de confecções para 2018 é crescer 4% na produção têxtil e 2,5% na produção de vestuário. Essa projeção revela um otimismo moderado da indústria diante de um cenário ainda incerto.

Apesar da lenta recuperação econômica, iniciada com a efetivação do governo de Michel Temer no segundo semestre de 2016, o fato é que o Brasil ainda não está livre da volatilidade do mercado. Mais uma vez, a questão política está no topo das preocupações dos empresários, afinal, 2018 – apontado pelo atual governo como “Ano da Retomada” – poderá desacelerar devido ao atraso da reforma da Previdência Social, tida como chave para o crescimento do país; sem contar o acirramento da disputa eleitoral de outubro, as paralisações por conta dos jogos da Copa do Mundo na Rússia, e os nove feriados nacionais e cinco pontos facultativos previstos no calendário oficial.

Todas estas varáveis foram consideradas pelo economista Fernando Valente Pimentel, atual presidente do Conselho de Administração da Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções, ao fazer um balanço do setor em 2017. Isso porque os têxteis, especialmente o vestuário, são considerados produtos básicos de consumo e, portanto, sensíveis aos solavancos da economia.

Química e Derivados, Pimentel: crescimento depende de transformações estruturais
Pimentel: crescimento depende de transformações estruturais

Logo no mês de janeiro, o primeiro sinal de alerta se acendeu: o Brasil teve sua nota de crédito rebaixada de BB para BB- pela agência internacional de risco Standard & Poor’s (S&P) justamente por causa do atraso na implementação das reformas que reduzam o risco fiscal do país, confirmando as preocupações de Pimentel.

“A rota de crescimento das empresas precisa encontrar respaldo no mercado a frente.”, sintetizou ao enumerar os riscos e oportunidades do setor para este ano decisivo. Por outro lado, Pimentel reconheceu que o varejo de vestuário tem registrado trajetória ascendente e apontou a recuperação do consumo das famílias, a queda das taxas de juros e o recuo acentuado da inflação como fatores positivos.

Crescimento físico da produção – Em 2017, a indústria do vestuário produziu 5,9 bilhões de peças, ou seja, 3,5% mais que em 2016. “Se o crescimento previsto do PIB de 2017 foi de 1,1%, esse aumento no nosso setor pode ser considerado relevante. Para 2018, a estimativa para o vestuário é de crescimento de 2,5%, atingindo 6 bilhões de peças, enquanto o têxtil (fios e tecidos), cujo volume de produção ficou em 1,77 milhões de toneladas em 2017 deve alcançar 1,84 milhões de toneladas em 2018, com aumento de 4%”, detalha Fernando Pimentel.

O dirigente também destaca que o faturamento do setor têxtil e confecção deve passar dos R$ 144 bilhões de reais, registrados o ano passado, para R$ 152 bilhões este ano, mostrando que os dois segmentos seguem em ligeira ascensão.

No que se refere ao algodão, principal matéria-prima da indústria têxtil brasileira, as previsões são otimistas. Segundo o presidente da Abit, há uma expectativa de boa safra 2017/2018. “A safra de algodão deve passar de 1,5 milhão de toneladas este ano.

Não teremos, do ponto de vista quantitativo, nenhum problema aparente de atendimento da demanda interna”, diz, acrescentando que o consumo industrial da fibra está estimado em 720 mil t, sendo o restante da produção (cerca de 50%), exportado.

Fernando Pimentel enfatizou que o algodão brasileiro já é classificado como “Better Cotton” pelo sistema Better Cotton Initiative – BCI (Iniciativa por um Algodão Melhor), desenvolvida por um grupo de grandes empresas internacionais e associações de produtores que propõem o cultivo do algodão em conformidade com boas práticas ambientais e sociais.

Uma das exigências para essa certificação, por exemplo, é a proibição de trabalho análogo à escravidão, trabalho infantil e segurança agrícola. Com essa classificação, o país tem acesso facilitado ao mercado global de algodão sustentável.

Câmbio e balança comercial – Mesmo destacando a competitividade do algodão brasileiro, Fernando Pimentel reconhece que há uma disputa mercadológica muito grande com as fibras químicas (artificiais e sintéticas), sobretudo com o poliéster. “O mundo consume cerca de 90 milhões de t de fibras/ano, o algodão representa 25 milhões e o poliéster mais de 50 milhões de t. Ambos atendem a 85% do consumo total de fibras têxteis no planeta”.

Indagado sobre a pressão dos custos de insumos e matérias-primas, sem os quais é impossível o beneficiamento têxtil, o presidente da Abit disse que com relação às fibras sintéticas, o preço varia conforme cotação internacional. “O preço do petróleo tem registrado quedas, enquanto o preço do algodão subiu em Nova York, devido à preocupação com a safra indiana, onde foi detectada a helicoverpa (lagarta que destrói lavouras de milho, soja e algodão).

Temos que monitorar constantemente o mundo para ter a dimensão de custos dos insumos e matérias-primas, cujos preços são dolarizados, e também os investimentos em tecnologia, porque 75% das máquinas e equipamentos comprados pela indústria são importados. Mas, se não houver soluço no câmbio em 2018, não vejo pressões fortes de custos nem pelo lado das taxas de juros, nem do custo do algodão e nem dos produtos da indústria química”.

Se, por um lado, a indústria nacional vem mostrando capacidade de reação no mercado interno, conseguindo sobreviver à fase mais aguda da crise, quando o tema é a balança comercial, os números continuam negativos. Enquanto as exportações totais (têxtil/confecção) devem crescer 5%, tanto em valores quanto em volume, as importações apontam para um crescimento de 10% em valores e 12% em quantidade e, por isso, continuam desequilibrando o saldo comercial.

Em 2017, a balança comercial do setor fechou com déficit de R$ 4,1 bilhões que deve chegar a R$ 4,6 bilhões em 2018. O grande concorrente da indústria têxtil nacional continua sendo a China, responsável pelo aumento das importações de vestuário. Só para comparação, em 2015 o Brasil importou 913 milhões de peças; em 2016 o número caiu para 568 milhões (-46,5%), no ano passado, cresceu 23% com a entrada de 920 milhões de peças e em 2018 deverá superar 1 bilhão, com crescimento de 10%.

Como justificar esse déficit? Fernando Pimentel esclarece: “A melhora do setor começou a se delinear no segundo semestre de 2016. Essa evolução se deu por alguns fatores: uma recuperação leve no consumo e uma forte substituição de importações. A partir de 2017 detectamos um aumento das importações pelo desdobramento da crise política (divulgação das denúncias contra o Presidente Michel Temer).

Diante da instabilidade, a indústria recuou, o comércio foi abastecido em parte com produtos importados e a economia voltou a respirar. Reconheço que não é uma recuperação forte, segura e homogênea, até porque perdemos quase 20% de produção entre 2015 e 2016”, salientou.

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Para Pimentel, a importação de peças confeccionadas, sobretudo vestuário, é preocupante porque, sendo o último elo da cadeia de produção, afeta todas as etapas anteriores, desde a agricultura até a indústria química e petroquímica, fornecedoras do setor. O dirigente também se queixa da concorrência predatória.

“Parte destas importações nós identificamos com muita suspeição de irregularidades e com preços muito aviltados, por exemplo, uma camiseta de malha entrando no país por 41 centavos de dólar a unidade, um quinto do preço praticado internamente. Isso é uma irregularidade que já denunciamos à Receita Federal. Chama atenção que 30% a 40% das importações que chegaram entre maio e outubro, se deram nessas condições e vieram da Ásia, principalmente da China”.

Mas se a importação aumentou, a exportação têxtil também não avançou, porém, o motivo é mais estrutural do que conjuntural. “O Brasil tem característica histórica de ser um país produtor/consumidor. Infelizmente, a manufatura no Brasil tem sido muito sacrificada ao longo dos últimos 20 anos”.

Pimentel acrescenta que a Abit mantém um programa exitoso com a agência governamental Apex. Hoje, segundo ele, cerca de 250 empresas são exportadoras e mais de 60% do que é exportado na área têxtil/confecção passa por esse programa. Entre os produtos exportados estão moda praia, moda íntima, fitness, malhas e jeanswear.

Investimentos e emprego – De acordo com o balanço divulgado pela Abit, os investimentos no setor têxtil e confecção poderão atingir R$ 2,25 bilhões em 2018, um incremento superior ao do ano passado, quando foram investidos R$ 1,9 bilhão.

“A indústria já está voltando a investir, comprando máquinas, não para expandir a produção, porque ainda existe ociosidade nas fábricas, mas para se atualizar, ganhar produtividade, qualidade e flexibilidade. As indústrias de fiação, tecelagem e acabamento são as mais intensivas de capital enquanto a confecção, embora esteja mudando de patamar, ainda é grande empregadora de mão de obra. Deste total de investimentos previstos, 2/3 serão para o têxtil”.

Com relação ao emprego, a perspectiva é criar 20 mil postos de trabalho em 2018, recuperando a capacidade do setor que historicamente emprega cerca de 1,4 milhão de pessoas no país. “A desgraça econômica ceifou empregos de uma forma absurda. Entre 2015 e 2016, foram perdidos 130 mil postos de trabalho.

Em 2017, porém, foram criados mais de 3.500 novos empregos no setor. É importante ressaltar que além da capilaridade regional (29 mil empresas formais em todo o País), 75% da mão de obra empregada na indústria têxtil e confecção é feminina. Do total de trabalhadores, mais de 50% possui 8 anos de estudo completos e 6% têm ensino superior”, revela.

Oportunidades – Segundo projeções da Abit, a adoção de novas tecnologias deverá dar impulso à cadeia produtiva. “Uma das questões fundamentais desse mercado é explorar as novas tecnologias para diminuir lead time – tempo entre o momento do pedido do cliente até a chegada do produto ao seu destino –, bem como ajustar os estoques para evitar compras desnecessárias.

É um movimento mundial que chega ao Brasil numa fase difícil, em que as empresas estão muito sacrificadas por dois anos e meio de recessão, mas nós estamos enxergando que esse crescimento ainda merecerá análises frequentes porque ninguém sabe como será a corrida eleitoral e suas consequências na economia”.

Fernando Pimentel também apontou as vendas online como tendência irreversível. “O e-comerce tem sido uma plataforma importante para a venda de produtos estandardizados. Na última Black Friday (grande promoção no comercio varejista), o setor têxtil/vestuário foi o segundo maior em número de pedidos. Nosso ticket médio está entre R$ 175,00 a R$ 180,00 enquanto os eletroeletrônicos, campeões de vendas, têm valores acima de R$ 600,00”.

O dirigente observa, porém, que até roupas mais elaboradas e personalizadas poderão num futuro próximo ser adquiridas pela internet. “Determinado tipo de vestuário ainda possui uma característica de experimentação física. Porém, com os novos softwares 3D, os avatares e os espelhos virtuais essa barreira será superada. Esse é o mundo em que vamos conviver, com seus riscos e oportunidades”.

Com relação ao cenário para 2018, o presidente da Abit vê a reforma trabalhista e os acordos internacionais como grande estímulo à retomada dos negócios. “A nova legislação trabalhista vem atender às necessidades de uma economia que está mudando.

Inclusive por conta disso, os empregos em nossa área estão exigindo novas qualificações”. Fernando Pimentel acrescentou que o Projeto Têxtil 2030, lançado pela Abit, tem como vetor principal atrair e reter talentos na indústria têxtil, que deve mudar de patamar em poucos anos.

Química e Derivados, Indústria estuda investimentos produtivos com incorporação de tecnologias inovadoras - Têxtil

Pimentel citou o Acordo Colômbia-Mercosul, que entrou em vigor no dia 20 de dezembro de 2017, como grande oportunidade para o Brasil, pois permitiu zerar as alíquotas do imposto de importação aplicadas a tecidos e vestuário.

O interesse da indústria brasileira no mercado colombiano, estimado em 40 milhões de consumidores, também é estimulado pelas relações de livre comércio entre Colômbia os Estados Unidos, o que poderá favorecer as exportações brasileiras.

Entre as metas no âmbito nacional, a Abit pretende apoiar projeto de lei para a padronização do vestuário e discutir a importação de produtos sujeitos à regulamentação técnica federal.

“Nós representamos em torno de 5% do PIB da indústria de transformação, 1% do PIB total e 10% do emprego industrial. Meu sentimento para 2018 é de confiança, mas com muita atenção e expectativa, pois teremos volatilidade por conta do calendário eleitoral.”

Texto: Marcia Mariano

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