Indústria têxtil procura acelerar mudanças

Concorrência desleal com importados prejudica indústria que procura acelerar mudanças

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças.” A frase do professor Leon C. Megginson, da Universidade da Louisiana, proferida em 1963, permanece atual para os empresários da indústria Têxtil e de Confecção – T&C, que devem ser mais resilientes e assertivos, diante de um cenário de constante incerteza.

Sendo a 5ª maior do mundo, a indústria têxtil e de confecção (T&C) brasileira emprega 1,36 milhão de trabalhadores e é uma das poucas a manter no País todos os elos da sua cadeia de produção, da fiação ao vestuário. Tendo superado várias crises econômicas em sua longa trajetória, precisará testar, mais uma vez, sua capacidade de se reinventar para seguir novos caminhos no mercado globalizado.

No balanço anual, feito pelo diretor- superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Fernando Valente Pimentel, além dos resultados “de um 2023 difícil”, foi apresentada uma pesquisa sobre as perspectivas do setor para 2024 e ações para o cumprimento da Agenda 2030, que só será possível depois de superados os gargalos que afetam a competitividade.

As expectativas da economia, a partir da posse do atual governo, no ano passado, não se confirmaram para a indústria do setor T&C. Embora alguns indicadores tenham sido positivos, como a inflação que fechou dentro da meta de 4,62% e a taxa de juros que baixou de 12,25% para 11,75%, com leve aumento da massa salarial, isso não foi suficiente para impulsionar o consumo das famílias em bens como vestuário e calçados.

As vendas do varejo físico durante a semana do Natal – a mais esperada pelos comerciantes – registraram queda de 1,4% em comparação com 2022, segundo pesquisa da Serasa Experian. Além disso, a avalanche de roupas importadas e vendidas nas plataformas de e-commerce desequilibrou a concorrência com o varejo nacional.

O resultado foi que, segundo a entidade, o segmento de vestuário teve um déficit de 8,3% na produção em 2023, em relação ao ano anterior, as importações de peças cresceram 27%, enquanto a exportação de têxteis e confecções diminuiu 11,3%.

O crescimento das importações de roupas afetou o desempenho da produção têxtil que não caiu, mas também não cresceu. O IPCA do vestuário cresceu 2,20% e o Índice de Preço ao Produtor Têxtil (IPP) recuou 6,7% entre janeiro e outubro de 2023, enquanto o IPP do vestuário cresceu 7,54% no mesmo período. (veja tabela).

Têxtil: Indústria procura acelerar mudanças ©QD Foto: iStockPhoto
Pimentel: agenda climática é prioridade no setor

“O ano de 2023 não foi fácil; tivemos indicadores negativos na produção de vestuário e no consumo de têxteis, vestuário e calçados. Para 2024, nossa expectativa não é exuberante, mantemos um otimismo bem cauteloso, dependendo das medidas que venham a ser tomadas. Por exemplo, a reoneração da folha de pagamentos (uma queda de braço entre Legislativo e Executivo, este querendo retomar a partir de abril a cobrança da Contribuição Patronal Previdenciária de 17 setores produtivos, com escalonamento de alíquotas até 2027, quando deve voltar a 20%) é prejudicial ao setor, pois onera o produtor local e desonera o internacional, isso não tem nexo. Nosso crescimento não será muito diferente do crescimento estimado do PIB que é da ordem de 1,5%. Seja como for, se crescermos nessa faixa, estaremos sobre uma base que caiu, entre têxtil e confecção, 4,2% em 2023. Vamos trabalhar para aumentar também nossas exportações, seja pelos métodos convencionais, ou pelas pequenas encomendas. Em suma, temos que andar rápido em nossas
agendas, e observar a questão dos fenômenos climáticos, que é uma realidade inclusive no Brasil”, disse Fernando Pimentel.

Desarranjo

A situação ruim de mercado, como avaliou o Instituto IEMI – Inteligência de Mercado, começou na pandemia, uma vez que a turbulência gerada pelos períodos de lockdown desarranjou as cadeias de fornecimento em todo o mundo.

O economista Marcelo V. Prado, diretor do IEMI (veja entrevista adiante), responsável pelo estudo, analisa: “estamos voltando à normalidade, com a estabilização de preços e custos de produção, depois de tantos sobressaltos vividos à época da pandemia (2020-21). Essa estabilização e o próprio desempenho do PIB devem oferecer um padrão de crescimento de 2% a 3% para o setor têxtil no Brasil, enquanto o enxugamento do crédito ao longo de 2023 tem desestimulado os investimentos. Entendo que a Reforma Tributária aprovada pelo Congresso, recentemente, por uma série de razões, inclusive pelo seu tempo de implantação, não deverá trazer mudanças significativas na competitividade do setor têxtil, nem na economia brasileira como um todo, ao menos nos próximos anos. No momento, estamos a assistir um governo que promove aumentos de gastos, déficits públicos enormes, tendo como grande foco de sua política pública, o aumento de impostos”.

Prado reconhece que houve avanços nos últimos anos ao destacar a nova composição da matriz energética brasileira com o crescimento da participação da energia eólica e fotovoltaica, o uso cada vez mais amplo de biomassa e outros resíduos ambientalmente sustentáveis pelas indústrias, como alternativa aos combustíveis fósseis (na geração de calor), entre outros, mas afirma que o Custo Brasil ainda é um empecilho para a competitividade internacional.

“No caso da cadeia têxtil, a evolução da produtividade na agricultura do algodão é um fator que tem fortalecido o desenvolvimento das indústrias têxteis e confeccionistas que trabalham com esse tipo de matéria-prima. Em 2023, o Brasil se manteve na posição de segundo maior exportador global de algodão, com embarque de 1,618 milhão de toneladas ao exterior. Por outro lado, registrou um grande crescimento nas importações de vestuário, que chegaram a US$ 1,9 bilhões. Precisamos de um ambiente de produção mais favorável à indústria. O conceito brasileiro de tributos precisará mudar.”

Segundo ele, as tarifas de impostos precisam ser concentradas no consumo (no varejo) e na renda, e não na produção, na mão de obra e nos investimentos. “O Brasil tem uma indústria competitiva e capaz, mas, infelizmente, é prejudicado pelas distorções tributárias, que a Reforma Tributária precisará ser aperfeiçoada para poder corrigir. Diante do cenário de consumo que estamos vivendo, as estimativas para 2024 apontam para um crescimento moderado, algo em torno de 2,6% para as manufaturas têxteis em geral (fios, fibras, tecidos); 2% para produção de artigos têxteis para o lar; e 2,5% para o vestuário em geral”, prognosticou.

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SUMÁRIO DE DESEMPENHO SETOR TÊXTIL E CONFECÇÃO

Indústria têxtil: Termômetro

A enquete promovida pela Abit com um total de 101 empresas da cadeia têxtil sobre “Expectativas para os Negócios em 2024”, revela um quadro de incertezas e pouco otimismo. Para 75% dos respondentes, um dos principais temores do setor é a falta de isonomia dos produtos importados vendidos nas plataformas internacionais, em relação aos nacionais, sobre os quais incidem impostos. Os fabricantes locais também exigem que os importados tenham padronagem, design e atributos de sustentabilidade que são exigidos no mercado brasileiro. A concorrência desleal, segundo eles, prejudica muito a cadeia têxtil brasileira, uma vez que o vestuário representa 60% do que produz a indústria do setor.

Na pesquisa, as empresas também apontaram como dificuldades a escassez de pessoas qualificadas para trabalhar na produção. Os empresários dizem que o país precisa melhorar a educação e ampliar a abrangência do ensino técnico para aumentar a produtividade no Brasil. No que se refere ao emprego, 32% das empresas deverão aumentar o quadro de funcionários em 2024, contra 68% que não pretendem ampliar vagas. Só 37% das empresas pretendem adquirir máquinas e equipamentos para suas fábricas em 2024, enquanto 54% não pretendem ampliar unidades de produção no Brasil.

No topo das prioridades do setor está a redução do Custo Brasil. A despeito da queda da taxa de juros e do crescimento da massa salarial, aumentou a incerteza dos empresários em relação às obrigações fiscais e questões trabalhistas. Apenas 7% dos respondentes se mostraram satisfeitos com a Reforma Tributária do Governo Lula; 67% desaprovaram e 26% não souberam ou quiseram se manifestar. A Abit ainda espera a conclusão do Acordo Mercosul-União Europeia, mas a eleição de um governo de hostil à ideia na Argentina parece ter esfriado o ânimo de que as negociações nesse campo possam avançar.

Agenda

O 8º Congresso Internacional Abit 2023, realizado em Florianópolis-SC, em 8 e 9 de novembro, elegeu a descarbonização e a colaboração entre empresas como pilares prioritários do setor para o momento atual e os próximos anos.

“Temos a Agenda Têxtil de 2030 e saímos com uma proposta dos associados da Abit que, nos próximos três anos, pelo menos 50% têm que estar na jornada de descarbonização”, explica o diretor Fernando Pimentel, acrescentando que em 2023, a Abit e AVBTEX (Associação Brasileira do Varejo Têxtil), com o Senai Cetiqt, organizaram-se para promover uma mensuração sobre os efeitos de gases de efeito estufa e discutir soluções para reduzir as emissões na cadeia da moda.

“No Congresso da Abit, uma das empresas participantes que está bastante avançada nas discussões da agenda climática na indústria têxtil propôs aos demais a formação de uma liga para intensificar essa agenda e produzir um inventário com metas de redução de emissões. A Abit apoia essa iniciativa. Já temos um guia orientativo com trabalho de apoio do Senai para mensurar e ajudar as empresas nessa tarefa. A liga terá prosseguimento em 2024”, ressaltou Pimentel.

A movimentação da indústria do setor T&C em direção à descarbonização é resultado da pressão cada vez maior de organismos internacionais para redução dos efeitos das emissões de gases gerados pela produção têxtil.

Em 2019, a Quantis, empresa global, especializada em consultoria e análises químicas, apontou que preparação de fios e o tingimento respondem por quase dois terços das emissões geradas durante a fabricação de uma peça de vestuário. O diretor da Abit esclarece que em relação aos 10 países que mais emitem gás de efeito estufa, o Brasil se encontra em sétimo lugar, com 12 vezes menos emissões que a China, a primeira do ranking.

“Se fizermos um recorte limitado aos processos industriais de todos os setores, encontraremos um percentual de mais ou menos 2,33% das emissões totais do país, ou seja, ainda que não se possa comprovar efetivamente a redução do setor nacional em números, é possível inferir que as atividades industriais não são o maior desafio da redução de emissões brasileiras, salvo em alguns setores específicos, que não é o têxtil. Isso não quer dizer que não tenhamos de trabalhar para encontrar formas de reduzir e até mesmo zerar essas emissões em nossas atividades, até mesmo por meio de compensação.”

Fernando Pimentel reforça que as empresas precisam trabalhar nesse levantamento. “Cada empresa, em nível global, precisa implementar metas de redução. É um compromisso para todos os setores, não só da moda e do têxtil. É uma agenda público/privada que envolve tecnologia e mercado, porém é um desafio para o nosso setor atingir as metas em pouco menos de seis anos (até 2030), uma vez que as empresas, em geral, estão no processo inicial de trabalho nesse assunto.”

O diretor acrescenta que no Brasil está sendo construída, em nível de governo, uma transição ecológica junto com o Ministério da Fazenda, incluindo o novo Plano de Industrialização lançado em janeiro, em Brasília, com a Agenda Têxtil 2030. “Isso engloba descarbonização, matérias-primas renováveis, rastreabilidade, economia circular, indústria 4.0, redução do uso de insumos, combate às mudanças climáticas e questões relacionadas ao trabalho, envolvendo ambientes seguros e respeitosos. Agora, não podemos abraçar todos os objetivos ao mesmo tempo. Cada setor tem as suas vulnerabilidades e, portanto, deve ter prioridades conforme suas capacidades e necessidades”, defendeu.

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EXPECTATIVAS PARA OS NEGÓCIOS EM 2024

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Produtos químicos na indústria têxtil

A indústria química desempenha um papel significativo na produção têxtil e cada vez mais deve trabalhar de forma integrada para fornecer soluções que permitam às empresas reduzir o impacto ambiental ao longo da cadeia produtiva. Para Pimentel, isso deve ser feito de forma coordenada.

“A indústria química nacional é grande e a evolução na oferta de insumos tem sido significativa, mas temos a Agenda da Sustentabilidade, com desafios e oportunidades para avançar na questão da eficiência dos processos. Não há como isolar os elos da cadeia têxtil. Cada produto químico precisa ser testado no processo industrial, sua performance precisa ser metrificada, sua durabilidade e seu comportamento no uso também, portanto existe uma série de pré-requisitos que tornam a parceria entre as duas indústrias importante”, salientou.

Ele cita pesquisas científicas voltadas para oferecer alternativas sustentáveis para a indústria têxtil, como o biocorante azul desenvolvido no Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras por meio de rota biológica (por um micro-organismo engenheirado geneticamente) e que está caminhando para produção em escala. Também menciona empresas químicas, como a Fratelli Ricci, que lançou a linha Biodye de corantes têxteis naturais, de origem vegetal e biodegradável, com a pegada de carbono reduzida em comparação aos corantes convencionais; e a AVCO Chemicals que trabalha com dois corantes na linha de algodão – índigo e preto sulfuroso. O índigo tem baixo teor de anilina e alto rendimento colorístico e o preto sulfuroso é pré-reduzido e biodegradável, com redutores à base de açúcar e baixo teor de sulfeto, proporcionando processo de tingimento ecológico.

“A preocupação dos produtores químicos deve ser, primeiro, não gerar resíduos e efluentes, mas como isso é impossível por hora, temos que focar em gerar o menos possível e o que for gerado deve ser amigável ao meio ambiente. As empresas do setor químico em geral são grandes companhias nacionais e internacionais e estão de acordo com os mesmos propósitos, até porque os processos de certificação norteiam os pilares da Global Fashion Agenda de menor uso de insumos e oferta de produtos renováveis e biodegradáveis”, acrescenta o diretor da Abit.

Em relação à nova geração de materiais poliméricos renováveis, Pimentel considera que ainda está longe a substituição completa das matérias-primas derivadas do petróleo na produção têxtil, mas vislumbra um caminho positivo nessa direção.

“A produção agrícola nacional torna o cenário brasileiro mais fértil para a indústria que utiliza seus resíduos como matéria-prima abundante e de baixo custo. Acho que o Brasil está bem-posicionado para aproveitar essa agenda dos biopolímeros em vários setores industriais, mas seu custo ainda é mais alto do que o dos polímeros convencionais; no entanto, à medida que a demanda cresce, tende a reduzir esse custo. É necessário que incentivos tributários sejam concedidos para esses novos produtos, assim como fazem os países desenvolvidos, para acelerar a transformação na cadeia produtiva”, recomendou.

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Reunião da diretoria da Abit no encerramento de 2023 revelou pouco otimismo dos empresários

Desafios

Em 2023, foi previsto o fim da isenção de impostos para compras até US$ 50 realizadas pelas plataformas de compras on-line no Brasil, uma das principais reivindicações da indústria e do varejo de vestuário. O governo decidiu pela cobrança do ICMS nas compras até este valor, porém não incluiu o imposto de importação, nem PIS, Cofins e IPI.

De acordo com Pimentel, o justo seria adotar a isonomia tributária com a indústria brasileira. “É absurdo um governo que está buscando receita permitir que esse tipo de encomenda – que deve chegar, ao todo, a mais de US$ 10 bilhões, incluindo produtos têxteis – tenha isenção tributária! Um estudo do IDV, Instituto para Desenvolvimento do Varejo, mostra que a carga tributária efetiva média é da ordem de 85% na indústria brasileira. Com o devido pagamento de impostos por parte das plataformas, poderíamos ter um aumento de cerca de 30% da demanda por produtos fabricados no Brasil. Se isso acontecesse, poderíamos adicionar cerca de 12 mil postos formais diretos de trabalho na indústria de vestuário e de 20 mil postos no comércio de artigos de vestuário e complementos”, finaliza.

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