Têxtil: Cadeia integrada permite disputar mercados

Perspectivas 2023 - Cadeia produtiva integrada permite disputar mercados, mas teme turbulências

A incerteza parece resumir o sentimento geral da indústria têxtil e de confecção no Brasil – setor que faturou R$ 193,6 bilhões no ano passado, reúne 24 mil empresas e 1,2 milhão de empregados diretos – após as primeiras medidas econômicas anunciadas pelo recém-inaugurado governo Lula, agora em terceiro mandato.

Entre as principais preocupações dos empresários estão o novo pacote de ajuste fiscal, a perspectiva de aumento das taxas de juros, o câmbio e a previsão de baixo crescimento da economia brasileira em 2023.

Responsabilidade fiscal, controle da dívida pública e redução de impostos foram os itens de destaque do documento enviado pela Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção, ao lado da CNI – Confederação Nacional da Indústria, aos então candidatos à Presidência da República, antes do pleito realizado em outubro de 2022.

Após o encerramento das eleições, que elegeram o candidato do PT, houve um período de transição no qual os empresários ficaram animados com a possibilidade do cumprimento de algumas promessas feitas pelo novo governo, entre elas, a retomada da industrialização brasileira, o apoio à inovação tecnológica e à sustentabilidade, além da oferta de financiamento com juros razoáveis.

O setor também viu com bons olhos a recriação do MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que chegou a ser oferecido ao empresário têxtil Josué Gomes da Silva que o recusou, ficando a pasta para o Vice-Presidente da República, Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo, que tem boa aceitação junto ao empresariado.

Porém, as dúvidas quanto à condução da política econômica pelo Ministro da Fazenda Fernando Haddad, aliadas a fatores condicionantes como a desaceleração da economia global, aperto monetário, expansão fiscal e pressão nas cadeias de suprimentos, tornaram os industriais mais cautelosos quanto a investimentos e empregos em 2023.

Ainda é cedo para conclusões, mas o que se observa no setor produtivo é uma clara inquietação quanto ao futuro do ambiente de negócios no Brasil.

Potencial – O Brasil possui uma cadeia de abastecimento integrada e, embora não seja autossuficiente em tudo, tem capacidade de atender a demanda local, que pode ser expandida.

O valor dos ativos da cadeia têxtil é estimado em aproximadamente R$ 400 bilhões. Isso dá ao país uma condição vantajosa para atuar não só no mercado internacional como também condições de competir com os produtos importados.

Além disso, o Brasil tem um megamercado que consome não só roupas em geral, mas também itens nas áreas de móveis e decoração, cama, mesa e banho, calçados, artigos de limpeza e higiene, colchões e tecidos técnicos, incluindo os não-tecidos.

É um setor de grande capilaridade, com concentração maior de fábricas nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

Têxtil: Cadeia integrada permite disputar mercados ©QD Foto: iStockPhoto

Balanço de 2022 – A criação de 7,6 mil postos de trabalho no período de doze meses encerrado em outubro, foi o destaque do balanço do setor Textil/Confecção, elaborado pelo então presidente da Abit, o economista Fernando Pimentel, (o empresário Ricardo Steinbruch, presidente do Conselho de Administração da Vicunha Têxtil, foi eleito para presidir a entidade durante o triênio 2023-2025).

Os dados, que têm como base o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foram divulgados no dia 13 de dezembro.

Fernando Pimentel, que agora ocupa o cargo de diretor-superintendente da Abit, disse que a indústria têxtil e de confecção seguiu fortemente pressionada em 2022 pela majoração nos preços dos insumos.

Segundo ele, entre janeiro e outubro, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) registrou incrementos de 8,3% para as indústrias têxteis e 14,8% para as confecções.

No acumulado de 12 meses (de outubro de 2021 a outubro de 2022), a inflação para os produtores dos dois segmentos foi de, respectivamente, 12,6% e 16,2%.

“Por outro lado, seguimos gerando emprego; pode parecer um contrassenso, mas em algumas regiões temos encontrado muita dificuldade para a contratação de pessoas”, comentou, acrescentando:

“Somados, os dados de 2021 e 2022 dão um resultado de quase 76 mil vagas criadas. O número representa um saldo positivo de quase 30 mil vagas na comparação com o biênio anterior, quando quase 47 mil postos de trabalho foram fechados”.

Apesar da criação de novos empregos, o diretor ressaltou que 2022 foi um ano bastante difícil, pois o setor amargou números negativos depois de ter crescido bem no segundo semestre de 2020 e em 2021.

“A questão dos custos de produção foi além da capacidade das empresas de suportá-los, devido à dificuldade de repassá-los para o varejo. O preço do algodão, que nos últimos anos tem apresentado elevação, baixou, porém ainda está mais caro que no período pré-pandemia (2018/2019). Houve problemas com os fretes marítimos que chegaram a US$ 18 mil por container de 20 pés. Atualmente, os preços voltaram a patamares próximos de US$ 1.200 a US$ 2 mil. Tivemos problemas também com todas as matérias-primas importadas, com corte de suprimentos por conta de lockdowns na Ásia e da guerra (Rússia/Ucrânia), enfim, tudo isso somado trouxe para a indústria um peso muito grande. Várias empresas tiveram que ajustar seu nível de produção ao nível de demanda, em função do próprio ajuste de estoque feito pelo varejo.”

De acordo com o balanço da Abit, a indústria têxtil e de confecção fechou o ano com uma retração de 7,5% na produção física.

Em valores, porém, o faturamento avançou de R$ 190,3 bilhões em 2021 para R$ 193,6 bilhões em 2022, impulsionado pela inflação.

Segundo sondagem da CNI, a produção industrial (geral) diminuiu nos meses de outubro e novembro.

Essa perda de dinamismo se deve à política de altas taxas de juros para conter a inflação, uma vez que o Copom manteve a taxa Selic em 13,75%.

“Até meados do ano de 2022, a situação era de otimismo, mas a partir de outubro começou a desaceleração”, confirma Fernando Pimentel, destacando que a utilização da capacidade instalada está em 71%, bem abaixo das performances de 2020 e 2021.

A sondagem industrial da CNI também aponta que os industriais estão pessimistas quanto a compra de matérias-primas, insumos e contratação de funcionários.

O levantamento foi feito entre 1 e 10 de dezembro com 1.684 empresários.

Investimentos e mercado – Segundo a FGV (Fundação Getúlio Vargas), a indústria de transformação representa 11,3% do PIB brasileiro (em 2021) e responde por 29,5% da arrecadação tributária brasileira, enquanto os serviços representam 24% do PIB e respondem por 12% da arrecadação.

Para os industriais, esse dado mostra que o setor é o mais tributado da economia brasileira e isso afeta a competitividade do País em relação a outros países e ao seu próprio mercado interno.

Além disso, questões conjunturais como a volatilidade da taxa de câmbio também contaminam o ambiente de negócios.

“Por conta das incertezas internas e mundiais, a volatilidade é perversa no âmbito dos investimentos, porque uma boa parte dos bens de capital vem de fora, são máquinas, equipamentos e insumos importados. Quando se tem o câmbio muito depreciado, você empobrece o país. No nosso entendimento, para manter o nível de investimento adequado, a taxa de equilíbrio para o câmbio deveria ser hoje em torno de R$ 4,50”, afirmou Pimentel.

Para 2023, as projeções do mercado, entretanto, apontam o dólar entre R$ 4,75 a R$ 6,00, ficando a média em torno de R$ 5,27.

Fernando Pimentel disse que o setor precisa investir de R$ 10 bilhões a 12 bilhões por ano para se manter competitivo.

“Atualmente, há investimentos na troca de maquinário, na agenda da sustentabilidade, na flexibilidade para ajuste de demanda e na economia energética. O aumento do investimento direto na produção depende da perspectiva de crescimento da economia nacional e da capacidade de exportar mais, ou seja, uma perspectiva de investimentos se dá a partir do crescimento do consumo, porém, o varejo revisou suas projeções para baixo, a partir do segundo semestre de 2022.”, ressalta.

O diretor-superintendente da Abit acredita que para 2023, o PIB deve crescer na faixa de 1,6%, ou seja, longe dos 2,7% ou 2,8% previstos para 2022, o que teoricamente desacelerará os projetos de expansão das empresas.

Ao mesmo tempo, Pimentel aponta que a inusitada temporada fria nos últimos dois meses do ano fez com que as coleções de primavera/ verão fossem substituídas por vendas dos estoques de inverno pelos varejistas.

“O varejo deveria ampliar as vendas em 2,2% em 2022. Entretanto, este resultado veio perdendo força ao longo do ano. Dentre os fatores que contribuíram para essa retração estão a elevação das taxas de juros, o endividamento do consumidor, as questões eleitorais que tomaram conta do País em outubro; a Copa do Mundo, realizada em novembro, e a influência do clima. A despeito desse cenário, o varejo deverá fechar 2022 em campo positivo, em grande medida porque a base de comparação (2021) foi prejudicada, principalmente no primeiro semestre, pelos novos lockdowns derivados da pandemia de Covid-19”.

Segundo ele, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que as vendas natalinas atingiram R$ 65 bilhões em 2022, sendo que a parcela de vestuário, calçados e acessórios deve ter girar em torno dos R$ 22 bilhões.

No que se refere às exportações, o diretor da Abit se mostra otimista com novas oportunidade que possam surgir, pois no acumulado dos últimos 12 meses o setor têxtil/confecção registrou crescimento de 1,8% em volume.

Desafios da cadeia de valor – Em um longo artigo publicado pelo site www.fibre2fashion.com, sob o título “Factors that will Impact the Textile Value Chain in 2023”, a autora Elizabeth Miller alerta ser fundamental que os players da indústria têxtil entendam que diversos fatores estão mudando a cadeia de valor. Trecho:

“A indústria têxtil desempenha um papel importante nos recursos que o mundo usa. Por exemplo: são necessários 22.500 litros de água para cultivar um quilo de algodão cru; a lixiviação de corantes químicos nas águas subterrâneas pode contaminar a água potável por anos; e a produção de moda compreende até 10% das emissões líquidas de dióxido de carbono da humanidade. Uma das maneiras pelas quais os fabricantes estão maximizando seu impacto positivo é abrindo suas cadeias de suprimentos para incluir materiais reciclados e reutilizados.”

Esta preocupação também tem delineado as ações promovidas pela Abit no Brasil, visando a sustentabilidade da indústria têxtil/confecção nacional, bem como sua maior inserção no mercado global.

“O mercado internacional de têxteis é da ordem de US$ 800 bilhões. Nossas vendas externas estão mais concentradas na América Latina. Já as importações vêm na maior parte da Ásia e dos EUA (especialmente têxteis técnicos); além de Argentina, Coréia e Vietnam. Há um movimento no mercado mundial de comprar de bases (países) mais próximas. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos importam por ano US$ 129 bi de têxteis e confecções. Se conseguíssemos deslocar 10% desse montante para fornecedores da América Latina seria excelente”.

Porém, Fernando Pimentel faz uma ressalva:

“O mundo terá quase 10 bilhões de pessoas em 2050. O grande desafio será como atender as necessidades de vestimenta da sociedade sem agredir o meio ambiente e de uma forma sustentável e reciclável.”

O diretor da Abit encerrou a apresentação informando que o ano de 2022 terminou com indicadores negativos, não só em relação aos números propriamente ditos, mas também em relação ao termômetro do empresariado quanto aos rumos da economia.

“Para 2023, ano cheio de interrogações, estamos prevendo crescimento do nosso setor um pouco abaixo do PIB, com as vendas internas paralelas com a produção. Deve haver algum crescimento nas importações, mas isso vai depender de como será a nova política econômica. Por outro lado, as exportações devem apresentar certa estabilidade e a geração de empregos poderá ser mais afetada, por conta das incertezas. Portanto, o novo cenário, à luz do que estamos sentindo junto às empresas, carece de maior nitidez.”

Texto: Marcia Mariano

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