Têxtil – Brasil atrai produtores mundiais do setor – Perspectivas 2020

Química e Derivados - Têxtil - Brasil atrai produtores mundiais do setor - Perspectivas 2020

Lineu Jorge Frayha, CEO da Indorama Ventures Fibras Brasil Ltda., assumiu em janeiro de 2020 a presidência do Conselho de Administração da Abrafas – Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas, entidade que representa 13 das maiores indústrias do mundo do setor, que mantém operações no Brasil.

Nascido em Poços de Caldas-MG, graduou-se em engenharia mecânica pela Escola Politécnica da USP, em 1980, tendo concluído em 2000 o MBA Executivo Internacional da FEA-USP. Executivo experiente, iniciou a carreira como engenheiro de projetos senior na Engesa, em 1981, onde ficou até 1987. Depois consolidou-a em empresas do setor químico têxtil, como Celbrás, Rhodia-Ster e Rhodiaco. Em janeiro de 2009, assumiu o cargo de CEO da M&G Fibras Brasil, cargo que exerceu até a venda da empresa para a Indorama Ventures, em fevereiro de 2019. Desde então, é CEO da Indorama Ventures Fibras Brasil Ltda. Nesta entrevista, Lineu Frayha conta como anda o mercado brasileira de fibras químicas que, nos últimos dois anos, passou por transformações com a reestruturação de empresas e a chegada de players globais ao País. Confira:

Química e Derivados - Lineu Jorge Frayha, CEO da Indorama Ventures Fibras Brasil Ltda
Lineu Jorge Frayha, CEO da Indorama Ventures Fibras Brasil Ltda

QD: Como o setor de fibras químicas se comportou em 2019, no que se refere ao crescimento da produção, importações e exportações?

Lineu Frayha: Ainda que não tenhamos os números fechados de 2019, sabemos que nossas associadas ficaram com números próximos aos de 2018. Estimamos um faturamento da ordem de US$ 750 milhões, cerca de 2,6% menor que 2018. O volume de vendas estimado deverá atingir a casa das 240 mil t, também próximo do que foi vendido no ano anterior. As importações tiveram queda de 4,5% em valor, no entanto as exportações apresentaram forte redução de 23,1%, ainda que não representem parte significativa do faturamento das empresas do setor.

QD: Com as recentes mudanças no setor de fibras, como a compra da M&G Polímeros, maior fabricante de resinas PET da América Latina, pela tailandesa Indorama Ventures, além da venda da Lycra para o grupo chinês Shandong Ruyi, que adotou o nome The Lycra Company, e da venda da Petroquímica Suape (era da Petrobrás) para o grupo mexicano Alpek, o Brasil já pode se considerar autossuficiente no fornecimento de fibras sintéticas?

Lineu Frayha: A vinda desses grandes produtores mundiais indica que o Brasil ainda é um mercado atraente. Esses conglomerados costumam pensar mais a longo prazo em relação aos seus investimentos, não se atendo aos percalços pelos quais passa nossa economia. Em razão disso é grande a expectativa de que possam contribuir significativamente para melhoria da oferta de fibras químicas no Brasil.

QD: Que desafios terão, já que o Brasil também mudou de gestão e acena para uma economia aberta?

Lineu Frayha: É importante que o país consiga fazer as reformas urgentes para melhoria da competitividade dos que aqui se aventuram a produzir. São empresas acostumadas a trabalhar com concorrência acirrada, desde que os custos de produção sejam comparáveis. Ameaças de reduções tarifárias unilaterais sobre importados, como se tem veiculado na mídia, em nada ajudam. O Brasil ainda está longe de se tornar autossuficiente no fornecimento das matérias-primas químicas, mas segue sendo importante provedor da cadeia têxtil brasileira, assim como da América Latina. Dependendo de como se comportarão doravante os principais fatores de competitividade, tais como incidência de tributos, custos de energia e logística, nos quais há um vasto campo para que as reformas aconteçam e proporcionem as importantes e necessárias melhorias nas condições de competitividade da indústria brasileira, os novos players globais que se instalaram recentemente no Brasil, em conjunto com os que já aqui estavam, dispõem de recursos técnicos e econômicos para alavancar a produção nacional, de forma a nos tornarmos cada vez mais próximos da autossuficiência.

QD: Quais as fibras têxteis que o Brasil produz e quais ainda precisa importar?

Lineu Frayha: O Brasil é importante produtor das principais fibras têxteis, como o poliéster, poliamida, elastano e acetato. Lamentavelmente, deixamos de fabricar as fibras acrílicas e a viscose, que dependem de fornecimento externo, agora.

QD: Com o anuncio da Lenzing de que irá inaugurar uma fábrica no Brasil em parceria com a Duratex há expectativa de que se volte a produzir fibras celulósicas no país? O consumo de fibras celulósicas tem crescido no mercado brasileiro?

Lineu Frayha: Estamos acompanhando as tratativas para desenvolvimento de nova planta no Brasil e torcendo para que se viabilize. Há um consumo aparente expressivo de fios de viscose, em torno de 80.000 t no mercado brasileiro e investimentos nesse setor seriam muito bem-vindos. A produção local de celulose solúvel, com custos compatíveis ao do mercado internacional, indica que o caminho está correto e as análises econômicas se confirmam. Os investimentos são muito expressivos para uma nova planta no Brasil e o país precisa antes proporcionar as condições de competitividade para justificar as decisões de investir por aqui.

QD: Segundo a Abiquim, em 2019, o volume importado de produtos químicos pelo Brasil superou 47 milhões de toneladas? Deste total quanto foi destinado à produção de fibras têxteis?

Lineu Frayha: Dentro da matriz de fabricação de produtos químicos, sob a tutela da Abiquim, as fibras artificiais e sintéticas representam pouco mais de 1%. Mesmo assim, o volume de importações das fibras químicas em 2019 foi da ordem de 590 mil t, representando desembolsos em torno de US$ 1.080 milhões. Como se vê, são volumes expressivos para o setor industrial têxtil brasileiro, sempre ameaçado pela conjuntura internacional. Há preocupações quanto às disputas comerciais entre os EUA e a China, com o Brasil podendo se tornar o desaguadouro das mercadorias que não conseguirem entrar no mercado norte-americano.

QD: Qual o impacto da alta do dólar para os negócios da indústria de fibras e qual as inciativas do setor no que se refere à sustentabilidade, visando o Acordo Mercosul/ União Europeia e outros acordos bilaterais?

Lineu Frayha: Temas que demandariam um simpósio! As oscilações do dólar não são boas para ninguém. Para cima ou para baixo, não ajudam nas negociações com nossos fornecedores ou clientes. A Abrafas segue atenta ao que vem ocorrendo nesse mundo que cada vez mais demanda por produtos sustentáveis, acompanhando as principais iniciativas existentes em relação ao ciclo de vida dos produtos, aos processos de reciclagem, etc, a ponto de fazer parte do portfólio de ações no planejamento estratégico da entidade. O acordo com a União Europeia foi assinado e o setor têxtil foi muito elogiado durante as negociações por conta das iniciativas feitas junto à contraparte europeia. É um acordo que deve beneficiar a ambas as partes e esperamos que seja incorporado pelos membros da UE o quanto antes.

QD: Quais seus planos de gestão para a Abrafas e suas expectativas para 2020/21?

Lineu Frayha: Nosso grande desafio para os próximos dois anos é como contribuir na discussão junto ao Governo Federal, no sentido de demonstrar a necessidade premente de melhorar as condições de competitividade da indústria nacional, tão castigada nos últimos anos pelos tão conhecidos fatores que compõem o chamado Custo Brasil. Qualquer discussão sobre rebaixamento tarifário, ainda mais de forma unilateral, é totalmente inapropriada pelo grau de incerteza que gera, uma vez que esta ação, sem atuar antes em causas básicas de não competitividade da indústria, condenaria o país a uma desindustrialização ainda mais acentuada. Esta é uma questão central, não somente para a manutenção das atividades das nossas associadas no país, mas principalmente para criar as condições da volta dos investimentos e aumento da produção, tão necessários ao Brasil de hoje.

Texto: Marcia Mariano

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