Têxtil: A dinâmica do mercado de algodão

Júlio Cézar Busato, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), falou com a reportagem sobre o mercado do algodão e as causas da alta de preços.

A que se deve a alta elevada do algodão no mercado internacional?

Júlio Cézar Busato: Os preços são formados na Bolsa de Nova York conforme oferta e demanda. Antes da pandemia, o consumo mundial de algodão era de 25 milhões de toneladas/ano.

Em razão da crise global, gerada pela Covid-19, o consumo caiu para 22 milhões de t e os preços desabaram, chegando a US$ 0,48 por libra-peso, bem abaixo dos custos de produção.

Hoje, a demanda estimada é de 27,5 milhões de t e o preço internacional está em torno de US$ 1,20 por libra-peso, mas cerca de 80% da safra que estamos plantando agora já foi comercializada na forma de contratos para entrega futura, na faixa de US$ 0,80 a US$ 0,85 pagos ao produtor, ou seja, as indústrias têxteis que se anteciparam e fizeram contratos vão pagar o preço estipulado no contrato na retirada do algodão a partir de junho.

Têxtil - A dinâmica do mercado de algodão ©QD Foto: iStockPhoto
Júlio Cézar Busato, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa)

Este tipo de negócio só se tornou possível pela credibilidade que os cotonicultores brasileiros adquiriram ao longo do tempo junto ao mercado, por cumprirem com seus contratos mesmo quando os preços do algodão sobem.

Quem for buscar no mercado agora certamente vai pagar um preço maior do que aqueles que possuem contratos.

Qual a razão dos preços estarem tão altos no mercado interno?

Júlio Cézar Busato: Os cotonicultores brasileiros abastecem 100% da indústria têxtil nacional, cujo consumo está estabilizado em cerca de 700 mil t/ano.

Com o crescimento da produção, os produtores são obrigados a buscar outros mercados e fechar contratos com antecedência.

A safra brasileira 21/22, por exemplo, começa a ser disponibilizada a partir de junho e 80% já foi vendida em contratos, tanto para o mercado interno quanto para exportação.

Entendo a preocupação dos fabricantes têxteis, mas é preciso se programar para fechar os contratos com antecedência e garantir o fornecimento de matéria-prima, já que o algodão brasileiro é o mais barato que existe para a indústria têxtil local.

É curioso, mas durante a pandemia, especialmente em 2021, as pessoas descobriram ou redescobriram que a fibra do algodão é confortável, biodegradável e está em consonância com a sustentabilidade.

O mundo voltou a consumir mais algodão para além da capacidade de produção e isso, claro, impacta nos preços.

Além disso, a China, segundo maior produtor mundial, está com sua produção reduzida por diversos fatores internos. Só para se ter uma ideia, a China produz 5,6 milhões de t de algodão/ano e consome 8 milhões de t, logo, precisa importar 2,4 milhões de t todos os anos e o Brasil, por ter excedentes, é o segundo maior fornecedor.

Qual a previsão do setor para 2022?

Júlio Cézar Busato: O Brasil, que é o quarto maior produtor mundial e segundo maior exportador e teve uma safra recorde em 2019/20 de 3 milhões de t de pluma.

A safra 20/21 caiu para 2,3 milhões de t devido à redução de 17% na área plantada provocada pela baixa cotação no momento de plantio.

Com preços melhores, retomamos a área plantada na safra 21/22, que deverá alcançar 1,547 milhão de hectares, um aumento de 13,5% com relação ao ciclo anterior.

Com a recuperação da área, projetamos um crescimento de 16,5% na produção de pluma, que deve ultrapassar 2,71 milhões de t. A safra 21/22 está bem, pois já havíamos comprado os insumos necessários para o seu cultivo antes do aumento do preço.

Já para safra 2022/2023, espera-se outro cenário, pois o custo dos insumos aumentou muito: a ureia, que custava US$ 500/t foi para US$ 1 mil; o cloreto de potássio, de US$ 400 para US$ 1.200/t, os defensivos agrícolas subiram, em média, 20%.

Esses preços com certeza vão impactar nos custos de produção da próxima safra, uma vez que 90% dos insumos utilizados na lavoura são importados e possuem sua cotação em dólar.

Se a área mundial plantada com a cultura do algodão for reduzida, o preço da pluma poderá aumentar ainda mais.

Enfim, para o ano de 2022 estamos avaliando os preços dos insumos agrícolas.

Achamos que eles vão recuar, independentemente de questões conjunturais (eleições), porque o agricultor tende a reduzir a compra e usar menos fertilizantes, usando a poupança que temos em nossos solos.

Para a indústria têxtil brasileira, a mensagem é que não faltará matéria-prima, já que devemos produzir cerca de 2,7 milhões de t para um consumo interno previsto de 780 mil t.

Texto: Marcia Mariano

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