Tensoativos: Consumo cresce, mas busca alternativas

alternativas mais eficientes e multifuncionais

Química e Derivados - Tensoativos - Consumo cresce, mas busca alternativas

Consumo cresce, mas busca alternativas mais eficientes e multifuncionais

Competitivo, o mercado de tensoativos impulsiona fabricantes e distribuidores a desenvolverem novas aplicações para seus produtos. Hoje, as tecnologias de destaque se voltam para o conceito da multifuncionalidade e da alta eficiência (melhoria de desempenho com menor dosagem). Além disso, a indústria também busca se diferenciar com formulações de baixo impacto ambiental para, dessa forma, agregar valor a este mercado que, cada vez mais, revela potencial para crescer.

Química e Derivados - Silva: clientes querem operar processos mais simples e ágeis
Silva: clientes querem operar processos mais simples e ágeis

De qualquer maneira, como reforça Luiz Antonio da Silva, especialista do negócio de Home Care da Basf, sejam sintéticos ou de origem renovável, os novos tensoativos devem propiciar processos mais ágeis e menos complexos de fabricação, além de garantir a performance de aplicação e, sobretudo, a segurança aos usuários finais e ao ambiente, com baixa toxicidade e irritabilidade, e ainda elevada biodegradabilidade.

As projeções para o mercado de tensoativos são de expansão. Segundo informações de consultorias especializadas, em âmbito mundial, o setor crescerá 2,6%, ao ano, até 2023. Em relação à indústria nacional, Silva projeta índices um pouco mais elevados. De acordo com ele, é esperado que o Brasil avance algo em torno de 3,5%, em volume, considerando 2020.

Ainda pensando no cenário brasileiro, Guilherme Condutta, especialista do mercado de Home Care da quantiQ, traz dados da Euromonitor, para 2022, alusivos especificamente aos segmentos de domissanitários e de cosméticos. Segundo ele, a expectativa de crescimento para o volume de consumo total de tensoativos nos dois setores estará em torno de 1,1%.

Química e Derivados - Andrea: ainda há muito espaço para crescer no agronegócio
Andrea: ainda há muito espaço para crescer no agronegócio

O mercado – Potencial a indústria tem. Andrea Soares, diretora de Marketing & Inovação da Oxiteno, divulga levantamento da IHS Markit, segundo o qual o consumo global de tensoativos chegou a quase 17 milhões de toneladas e foi avaliado em U$ 39,2 bilhões (dados referentes a 2018). Ela conta ainda que a companhia encerrou o ano passado sem crescimento no país. “Observamos estabilidade nas vendas de tensoativos no Brasil, pois ainda não houve uma recuperação total da economia”, afirma. Já na América do Norte, a empresa teve mais êxito e avançou. “Conseguimos alcançar um crescimento de quase dois dígitos no volume de tensoativos”, completa.

Para Condutta, a economia brasileira ainda caminha a passos curtos e está em processo lento de retomada. De modo geral, imagina-se que a população esteja buscando por menos produtos de bens de consumo ou talvez tenha passado a optar por itens mais baratos. Do ponto de vista do formulador, também há uma parcela ávida pela diminuição dos custos de produção ou até, em alguns momentos, pela redução do teor de ativos em seus desenvolvimentos. “Todos esses fatores acabam por impactar o consumo de tensoativos no mercado”, comenta. Até por isso, segundo ele, a indústria brasileira continua recorrendo a tensoativos já consolidados que entregam desempenho satisfatório e menores custos para as formulações.

No segmento de Home Care, conforme observa Silva, ainda predominam os tensoativos aniônicos tradicionais, enquanto em Personal Care já são empregadas tecnologias mais avançadas, devido às exigências maiores desse segmento quanto à irritabilidade e às questões regulatórias. Esse cenário, aliás, revela não só um avanço qualitativo como também quantitativo, pois conforme o próprio Silva diagnostica, Personal Care vai ser o segmento de maior crescimento em tensoativos, apesar de Home Care, hoje, ser o de maior consumo do insumo.

O mercado nacional tem suas peculiaridades. Cerca de 60% das vendas de tensoativos se destina à limpeza doméstica, enquanto 10%, para os segmentos de higiene pessoal e de cosméticos. Na avaliação de Condutta, os produtos mais sofisticados, ou seja, aqueles menos agressivos à pele e ao meio ambiente, os mais tecnológicos e os de fonte natural tendem a ser menos consumidos pela indústria. “A otimização dos custos de produção e a maior competitividade entre os concorrentes fazem com que esses tensoativos sejam inicialmente utilizados somente em produtos com posicionamento diferenciado”, afirma. Em outras palavras, esse tipo de aditivo hoje está mais direcionado a um consumo de nicho do que de massa.

Pensando nesse cenário, com o foco no mercado de produtos de limpeza, pode-se dizer que o baixo poder aquisitivo da população brasileira, em comparação às regiões desenvolvidas, acaba se traduzindo em uma diversidade reduzida de produtos à disposição dos consumidores, assim como em formulações com menor teor de ativos. No entanto, Andrea acredita que a indústria nacional não ignora as tendências mundiais e segue trabalhando em novos formatos, produtos concentrados e de melhor sensorial. “Tais tendências, como sistemas de alta concentração e detergência, exigem formulações mais sofisticadas e com o emprego de tensoativos mais complexos”, observa.

Em âmbito mundial, os tensoativos aniônicos respondem por 50% do mercado, enquanto os não iônicos correspondem a 40% – o restante se divide entre os catiônicos e anfóteros. No Brasil, a participação de aniônicos é um pouco maior; chega a cerca de 60%. Aliás, vale lembrar que esses tensoativos, conforme explica Andrea, possuem ampla utilização em função das suas características técnicas, como boa propriedade de limpeza, elevado poder espumante e alta detergência, além daquele que talvez seja um dos principais atrativos: o custo mais acessível.

Química e Derivados - Theodoropoulos: clientes pedem produtos com carbono renovável
Theodoropoulos: clientes pedem produtos com carbono renovável

Aplicações – Ainda sobre o mercado nacional, a maior parte dos tensoativos aniônicos incorpora as formulações de sabão em pó para roupas. Enquanto os tensoativos não iônicos apresentam maior demanda no segmento de detergente, e os catiônicos, em limpeza industrial e institucional. Georgios Theodoropoulos, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Home e Personal Care do Grupo Solvay na América Latina, acrescenta que os tensoativos catiônicos também têm relevante participação em aplicações para cabelos como condicionadores e cremes de tratamentos.

Os anfóteros, por sua vez, têm maior aplicação em segmentos de cuidados pessoais, sobretudo xampus. Menos agressivos, com maior estabilidade e menor irritabilidade nas formulações, eles são usados principalmente como cotensoativos em produtos de Home e Personal Care, sendo bastante empregados em produtos para o público infantil. “Os anfóteros e os não iônicos renováveis devem crescer em importância, principalmente em Personal Care”, vislumbra Silva.

Na Basf, aliás, os aniônicos ainda são os tensoativos de maior procura pelas indústrias do Brasil, sendo os anfóteros utilizados como secundários, a fim de suavizar seus efeitos. Formulações comercializadas na Ásia e na Europa já usam sistemas predominantemente anfotéricos e/ou contendo os não iônicos. Nesta linha, a empresa já possui soluções como os anfóteros derivados de aminoácidos e os não iônicos derivados de glucose (alquil poliglicosideos, ou APG). A saber: a Basf possui integração da cadeia na produção de anfóteros, principalmente das betaínas, em que as diaminas são muito utilizadas, sendo possível, assim, desenvolver ativos com propriedades diferenciadas para aplicações específicas.

Novos rumos – As principais rotas de produção de tensoativos aniônicos ainda fazem uso das matérias-primas de origem petroquímica. Mas a busca tecnológica por desenvolvimentos que utilizem matérias-primas de origem natural tem se destacado nos últimos anos. “É uma tendência que dificilmente vai retornar, principalmente devido a todo contexto global no que tange a sustentabilidade”, comenta Theodoropoulos.

A via biotecnológica tem sido muito estudada, buscando-se o desenvolvimento de tensoativos menos irritantes e biocompatíveis. Silva exemplifica esse movimento do setor com os bio-tensoativos, obtidos por rota biotecnológica, como é o caso dos sophorolipideos. “Estes novos materiais, além das propriedades comuns aos tensoativos, também possuem propriedade antibacterial”, afirma.

Aliás, o viés ecológico fomenta as expectativas da nova geração de consumidores. As tendências BeautyForward, pesquisa sobre os hábitos de compra feita anualmente pela Clariant para o segmento de cuidados pessoais, vão nesse sentido. Fato este que abre o mercado para formulações que não levam água (waterless) ou que são feitas com água reutilizada. Segundo Thiago Magalhães, gerente técnico de Personal Care para a América Latina da Clariant, esses produtos já começam a ser lançados em diversas categorias como ótima alternativa para atender aos consumidores conscientes a ajudar o planeta. Theodoropoulos reforça essa ideia: “temos observado demanda referente a novos formatos de produtos. É algo crescente que pode se intensificar ainda mais, principalmente para a redução do consumo e utilização de água em toda a cadeia produtiva”.

Química e Derivados - Magalhães: óleo de girasol supera os derivados de palma
Magalhães: óleo de girasol supera os derivados de palma

Ao ser questionada sobre o que considera tendência para o mercado de tensoativos, Andrea não titubeia e crava: o maior uso de produtos e matérias-primas com menor impacto ambiental e a busca por formulações mais concentradas e suaves. Vale mencionar que a Oxiteno conta com uma área de pesquisa e desenvolvimento, hoje, com 13% de seus funcionários focados em soluções que reduzam o impacto ambiental e, ao mesmo tempo, atendam às necessidades dos clientes da companhia. Criada em 1974, a Oxiteno foi a primeira a produzir óxido de eteno e derivados no Brasil e ocupa a posição de líder na produção de tensoativos e especialidades químicas nas Américas.

Indústria plural – Presentes em diferentes setores da indústria, os tensoativos incorporam formulações diversas para os mercados de cosméticos, higiene pessoal e de limpeza, seja ela doméstica, industrial ou institucional, além de agroquímicos, tintas e adesivos, entre outros. Também chamados de surfactantes, esses aditivos segundo a engenheira química Enilce Maurano Oetterer, são substâncias que, pela sua estrutura e propriedades, modificam a tensão superficial dos líquidos em que se encontram, interferindo na orientação da molécula de superfície e na interface dos sistemas de fases, atuando como agente facilitador nas formações de emulsões (Ver QD edição de dezembro de 2015).

Uma das principais empresas que abastece a indústria de Personal Care é a Oxiteno, cujo portfólio conta com quase 300 tensoativos. Entre os destaques da marca, figuram as linhas Oxismooth e Oxiflow. A primeira delas promove toque suave, alta espalhabilidade e poder emoliente à fomulação. De acordo com Andrea, foi desenvolvida para oferecer diferentes perfis sensoriais em aplicações como protetor solar (é capaz de solubilizar uma larga gama de protetores, contribuindo para melhor proteção da pele contra os raios UV), cremes, loções, desodorantes, produtos para bebês e homens, além de coloração e tratamentos para cabelos. “É uma plataforma de emolientes multifuncionais produzidos 100% a partir de recursos renováveis”, pontua.

Já a solução Oxiflow S 6800 pode ser usada em xampus, géis e espumas para banho, sabonetes líquidos, limpadores faciais e sabonetes íntimos, entre outras formulações. Para a fabricante, trata-se de uma excelente opção de modificador reológico, podendo até prover redução no consumo de energia devido à otimização do tempo de processamento.

Para o mercado de Coatings, a Oxiteno apresenta o Oximulsion 9000. Esse ingrediente permite o processamento de resinas, gerando emulsões tipo óleo em água, que são utilizadas em tintas para pintura de madeira, metal e alvenaria. “Essa linha de tensoativos possibilita converter a tecnologia de esmalte base água, por meio de um processo simples que garante as mesmas propriedades e qualidade do produto final, com significativa redução de impacto ambiental de insumos químicos, como odor, toxicidade e compostos orgânicos voláteis (VOC)”, explica Andrea.

Para o mercado de produtos de limpeza, a companhia oferece, por sua vez, a linha Oxizymes. Trata-se de uma tecnologia desenvolvida para o segmento de detergentes lava-roupas, fruto de uma parceria entre a Oxiteno e a Novozymes. Segundo Andrea, o produto entrega alto desempenho de limpeza com estabilidade enzimática, resultados superiores na remoção de manchas difíceis, além de ser menos agressivo para as mãos, tecidos e meio ambiente.

Sobre os lançamentos, Andrea destaca o Ultrasol TEX 6064, que é um tensoativo recomendado para aplicações que necessitam de alta detergência com baixa espuma, além de ser, de acordo com ela, mais competitivo do que outros produtos utilizados atualmente, e ter fonte natural. Por fim, na área de Crop Solutions, a novidade do ano passado foi o Surfom Mix, uma linha de soluções em componentes para formulações de defensivos, adjuvantes de calda e fertilizantes que conferem desde a estabilidade físico-química das formulações em suas emulsões, dispersões e outras variações, até os efeitos de melhor aproveitamento e eficácia dos ingredientes ativos, conforme Andrea explica.

A empresa tem expectativas positivas em relação ao segmento de agroquímicos. “Acreditamos que ainda há muito o que crescer e evoluir neste mercado”, diz Andrea; ela se baseou no crescimento de 2,4% do PIB do agronegócio, registrado entre janeiro e novembro de 2019 (dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada – Cepea).

Linhas com apelo sustentável hoje fomentam uma demanda em expansão. E as empresas sabem disso. Não por acaso, a Clariant destaca em seu portfólio a linha GlucoTain, cujo mote é a sua multifuncionalidade. Segundo a fabricante, o produto possibilita aos formuladores a diminuição da complexidade dos processos, uma vez que, com apenas um ingrediente, entrega aumento de espumação, sensorial destacado e viscosidade nas formulações com enxágue.

O perfil de biodegradabilidade da linha é um dos seus diferenciais. Para um litro de solução com 7% do GlucoTain, são necessários dez de água para que ocorra a neutralização no meio ambiente. “Outros tensoativos, na mesma situação, precisariam de uma quantidade muito maior de água para se neutralizarem”, compara Magalhães.

Derivado do óleo de semente de girassol, o GlucoTain Sense é uma novidade da linha. Alternativa ao óleo de palma, o aditivo é apresentado como um dos tensoativos mais suaves do mercado. “Ele foi a prova de que uma inovação é capaz de cobrir todas as três dimensões da sustentabilidade: pessoas, planeta e performance”, afirma Magalhães. Sem entrar em detalhes, ele se restringe a dizer que o produto tem tido aceitação muito positiva, uma vez que o mercado o reconhece como aditivo suave, multifuncional e sensorial. As aplicações vão de sabonetes líquidos e em barra a produtos capilares e limpadores faciais multifuncionais.

O Grupo Solvay, que no Brasil também atua com a marca Rhodia, possui tensoativos primários e secundários. Em seu extenso portfólio, duas novidades ficam por conta do Miracare Soft 313 e do Miracare Soft S-525, desenvolvimentos cuja proposta é a de formular produtos livres de sulfato e manter a percepção do consumidor quanto à espumação, à viscosidade e à limpeza.

A companhia destaca ainda o Mirataine CBS, uma sultaína, que segundo Theodoropoulos, é extremamente suave e possui irritabilidade muito menor do que os anfotéricos do mercado, sem comprometer a performance de limpeza ou espumação. Ele cita também o Geropon CG3S e o Mackanate EL como exemplos de tensoativos aniônicos mais suaves com boa performance de detergência e espumação. Com relação aos tensoativos anfotéricos, ele menciona os tipos mais tradicionais com a linha Mackam de betaínas, e os que proporcionam suavidade ainda maior que as betaínas, como o Mirataine CBS. “Esse produto também possui espumação mais elevada mesmo na presença de óleos e gorduras e remove com mais facilidade as sujidades e resíduos alimentícios, por exemplo, em formulações para lavar louças”, explica.

Na opinião do executivo, cada vez mais, os clientes buscam ingredientes que sejam 100% de origem vegetal e/ou com alto índice de carbono renovável. Para atender a esta demanda, a Solvay possui no portfólio os tensoativos aniônicos Mackol CAS 100 e Rhodapex EST 70NAT, sendo que este possui óxido de etileno verde, proveniente de cana-de-açúcar. Já no que se refere aos tensoativos não iônicos, o destaque é a linha Rhodasurf, composta por produtos com diferentes níveis de etoxilação de origem vegetal.

No ramo da distribuição, a quantiQ é uma das principais expoentes. Não por acaso, no final de 2018, a empresa anunciou parceria com a líder do setor, a Oxiteno. Entre as soluções do portfólio, Condutta cita os álcoois graxos etoxilados e/ou sulfatados e polisorbatos, além dos tensoativos suaves derivados de aminoácidos, destacando as linhas Amisoft (derivada do ácido glutâmico e de ácido graxo de coco) e Amilite G (derivada de glicina e de ácido graxos naturais). “Ao adicioná-las na formulação, o nosso cliente pode obter um produto mais suave, uma vez que a matéria-prima possui baixa toxicidade, biocompatibilidade e a característica de ser pouco irritante”, garante Condutta. Vale dizer que ambas são biodegradáveis e certificadas.

O executivo fala também sobre os planos para o futuro. Segundo ele, a companhia tem estudado o desenvolvimento de produtos que sejam misturas concentradas de tensoativos. A ideia é permitir aos manipuladores um processo de produção simplificado e customizado. “Esse tipo de produto pode ser adquirido por fabricantes de detergentes, limpadores de superfície, xampus e etc.”, exemplifica.

Opções de tensoativos aos formuladores não faltam e muito menos espaço para o mercado crescer no país. Para se ter uma ideia do seu potencial, vale dizer que o consumo per capita de tensoativos na América Latina é de cerca de três quilos por ano, enquanto em localidades mais desenvolvidas, esse número chega próximo a oito quilos por ano.

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