Tecnologia ambiental – Recuperação energética: Projetos vão gerar energia do lixo doméstico brasileiro

Operação demanda boa coleta seletiva

A combinação entre as tecnologias, sempre com foco na reciclagem, seja elamecânica, energética e, no futuro, química, é o melhor dos mundos para gerenciar o lixo. Essa é a opinião de Miguel Bahiense, o presidente da Plastivida, o Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos, entidade que representa a cadeia do plástico.

Química e Derivados, Bahiense: recuperação energética aumenta a reciclagem mecânica
Bahiense: recuperação energética aumenta a reciclagem mecânica

Para Bahiense, para complementar esse mundo ideal é necessário estabelecer um programa de coleta seletiva de fato, não o improvisado, e informal, que ocorre no Brasil, sob a dependência voluntária, louvável e de cunho de subsistência promovida pelos catadores espalhados país afora. Para se ter uma ideia da dimensão do trabalho de boa parte da população que faz da reciclagem um meio de vida, o nível de reciclagem pós-consumo do Brasil é de 22%, quase o mesmo patamar do europeu, de 24%, de perfil institucional e profissionalizado. O Brasil só perde para o velho continente quando se computa a reciclagem energética, inexistente por aqui e que eleva o patamar médio europeu de reciclagem pós-consumo para 40%.

“Na Europa existe lei de coleta seletiva e isso leva as cidades a encontrarem alternativas para a reciclagem. Como nem todo material plástico serve para reciclagem mecânica, sobretudo os termofixos, os contaminados e os agregados com outros materiais, a reciclagem energética é a única solução”, explicou o presidente da Plastivida. É nesse sentido que o executivo alerta para a necessidade de o Brasil estar preparado para a provável nova realidade. “Onde há reciclagem energética, que depende da coleta seletiva, há maior reciclagem mecânica”, disse.

Bahiense chama a atenção também para o fato de que a coleta seletiva organizada aumentaria a quantidade de plásticos reciclados mecanicamente. Embalagens hoje direcionadas para aterros, por estarem contaminadas com os produtos acondicionados, poderiam ser destinadas corretamente, lavadas, descontaminadas, e, assim, novamente transformadas. “Uma coleta correta direciona apenas os materiais impossíveis de serem reaproveitados. Isso é o que ocorre no mundo”, disse.

Consciente da necessidade de difundir a recuperação energética, a Plastivida constituiu um grupo de trabalho para estudar a tecnologia e, principalmente, sua viabilização econômica. Nesse sentido, é de conhecimento da entidade a necessidade de garantia de resíduos com poder calorífico para tornar factível economicamente a tecnologia.

Ao se falar em custos, aliás, uma saída muito utilizada na Europa para tornar a reciclagem energética mais atrativa é agregar às usinas o fornecimento de vapor para indústrias, hospitais e demais consumidores do insumo. Isso porque a eficiência de transformação energética do vapor, com a queima do lixo, é muito maior do que a demonstrada para gerar energia elétrica. Enquanto a eficiência de transformação para eletricidade é de uma média de 25%, em vapor esse percentual sobe para 80%. “O melhor para uma URE é ter um consumidor de vapor a menos de 1,5 km da sede”, explicou o gerente de projetos especiais da Cetesb, Milton Norio. Não por menos, Mauá (com o polo petroquímico) e Mogi das Cruzes (com papeleiras da região), e até mesmo Barueri (com a Sabesp), estudam incluir o fornecimento de vapor para esses grandes possíveis clientes vizinhos.

Mas o passo que Miguel Bahiense considera o mais urgente para viabilizar a reciclagem energética no Brasil é mesmo a coleta seletiva. E nesse ponto ele tem uma esperança: a Política Nacional de Resíduos Sólidos contempla a necessidade de os municípios contarem com eficientes programas na área. A questão, para ele, na verdade, ultrapassa o nível de urgência, tendo em vista que somente 8% das cidades contam com algum tipo de coleta seletiva e mesmo assim a maior parte delas de forma ineficiente.

Química e Derivados, Del Bel: PNRS autorizou waste-to-energy sem criar conflito
Del Bel: PNRS autorizou waste-to-energy sem criar conflito

Sem concorrência – Outro dirigente de associação que tece elogios à PNRS é Diógenes Del Bel, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre). Para ele, um dos principais méritos foi a política ter sido neutra em relação às tecnologias, sem restringir processos, mas estabelecendo critérios e padrões para cada tecnologia de destinação. No caso da incineração, seu uso ficou condicionado à geração de energia, o que em resumo liberou o waste-to-energy no Brasil.

Del Bel também conta como “bola dentro” da política a priorização de etapas hierárquicas de gerenciamento do lixo, que respeitam a pirâmide de não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e, por fim, a disposição final (aterros). “Isso orienta e garante a boa elaboração dos planos de gestão municipais que as cidades precisam elaborar. Elas não podem mais dizer que estão no escuro”, disse. E dentro da hierarquia a reciclagem energética está incluída como tecnologia de tratamento adequada, não podendo ser mais questionada à luz da lei. “E também é um equívoco considerá-la uma concorrente da reciclagem mecânica: o próprio plano priorizou a reciclagem antes dos tratamentos. Não a colocou como uma tecnologia adversária, o que de fato não é”, concluiu Del Bel.

Página anterior 1 2 3 4

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios