Tecnologia ambiental – Recuperação energética: Projetos vão gerar energia do lixo doméstico brasileiro

Na Europa, para chegar ao nível exigido de remoção do material orgânico do lixo, e assim não gerar as grandes quantidades do nocivo metano e de chorume nos aterros, são utilizados tratamentos de digestão anaeróbica, para descer ao patamar de 18%. Há ainda a opção de gaseificação por plasma ou tecnologia temporal (deixar o material exposto por um tempo em condições controladas). Ou seja, há muito trabalho para atender à legislação, o que torna cada vez mais o aterro uma tecnologia limitada, nos países desenvolvidos, à destinação de material inerte, como a própria cinza dos incineradores de waste-to-energy.

O outro aspecto com potencial de ampliar o número de usinas de recuperação energética é o seguro considerado muito alto para operação de aterros. Essas centrais trabalham com prazos predeterminados de operação, que, ao fim deles, precisam ser continuados para monitoramento por mais muitos anos – o dobro ou mais do que o período em que recebeu o lixo da cidade. A experiência brasileira mostra que, ao serem fechados, aos poucos os responsáveis pelo aterro abandonam o monitoramento do local e muitas vezes apenas colocam um gramado em cima das células e tentam repassar o terreno, e sua responsabilidade, para as prefeituras. Daí o surgimento futuro de problemas de vazamento de metano em áreas residenciais, comerciais e os vários sinistros decorrentes. Isto é: o aterro é um passivo transferido para o futuro, ao contrário da recuperação energética, que devidamente controlada, como todas as instalações do mundo comprovam, resolve a questão na hora.

Mais reciclagem – As unidades de recuperação energética do lixo doméstico e a experiência nos países desenvolvidos são a prova, pois incentivam a reciclagem de materiais. Isso por vários motivos. E o primeiro deles é o fato de a central condicionar sua operação a um cuidado grande com a entrada de materiais dentro do forno, para garantir sua melhor operação. Além disso, para a concepção do projeto, é necessário incluir um programa de coleta seletiva, para separar o que pode ser reciclado mecanicamente e o que deve ser privilegiado como combustível da URE.

Essa constatação é comprovada por números divulgados pela Comunidade Europeia (Eurostat) todos os anos (ver QD-522, junho de 2012, pág.34). Em 2011, a Dinamarca recuperou energeticamente quase 60% do seu lixo e reciclou quase 40% de materiais, com apenas um pequeno percentual seguindo para aterros. A Alemanha incinerou 40% e recuperou 60% de materiais; a Suíça transformou em energia 50% do lixo, cerca de 1% foi para aterro, e o restante foi reciclado. E por aí vai, com a “coincidência” de que quanto mais rico e desenvolvido industrialmente o país, mais foi utilizada a reciclagem energética e mais se reciclou materiais.

Para o gerente da Cetesb, Milton Norio, a tecnologia waste-to-energy precisa fazer segregações para manter a operação em um nível ótimo de produtividade. Metais, por exemplo, devem ser evitados ao máximo, por serem “roubadores” de calor do processo térmico e por poderem servir como catalisadores na formação de dioxinas, que ainda são formadas com produtos com presença de cloro, como domissanitários e PVCs, ambos também desaconselháveis na caldeira.

Outro produto não recomendável é o vidro, que em temperaturas elevadas são fundidos e podem aderir no forno, prejudicando sua eficiência. Mas nos casos dos vidros e dos metais, além de boa parte deles ser antes coletada por recicladores (formais e informais), as usinas tradicionalmente têm facilidade para segregá-los. É normal no caso dos metais haver nas esteiras anteriores ao forno sistemas captadores magnéticos que retêm os metais ferrosos e até os não-ferrosos (por meio de indutores magnéticos).

O resíduo doméstico brasileiro tem baixo poder calorífico, de cerca de 1.500 kcal/kg de lixo, contra 2.200 kcal/kg do europeu. Isso muito em razão da alta umidade do lixo nacional e por causa da menor quantidade de embalagens com poder calorífico, que são importantes para o bom funcionamento da operação. O mundo ideal, e o que mais ocorre nas usinas do mundo, é o resíduo orgânico com embalagens contaminadas plásticas, madeira, de papelão e borrachas, com maior poder calorífico, ser a fonte de alimentação das caldeiras.

E esse cenário, de novo, não vai significar a diminuição da reciclagem. Isso porque mesmo sem a reciclagem energética as embalagens contaminadas, com exceção das latas de alumínio, não têm serventia para a reciclagem mecânica, sendo hoje destinadas em aterros. As garrafas PET, vidros e as latinhas de alumínio continuarão a ser recicladas, mesmo com as UREs em operação. Por um motivo simples: elas têm valor, são coletadas antes de chegar aos aterros, representando em média 0,5% (alumínio) e 0,67% (PET) do total do lixo brasileiro. Isso sem falar que até esses percentuais poderão ser facilmente separados nas centrais de recuperação energética. Daí o motivo de as usinas europeias não diminuírem a reciclagem mecânica na Europa, pelo contrário.

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