Sustentabilidade, ESG e prevenção de resíduos – SINPROQUIM

Sustentabilidade e ESG (Environmental, Social, and Governance) são conceitos relacionados, mas distintos.

Estamos vivenciando o resultado de uma trajetória de desgastes ambientais, sociais e éticos que poderão devastar o planeta e que culminou especialmente na mudança climática, o que vêm causando tragédias de imensos impactos humanitários e econômicos.

Essa situação precisa ser contida e a responsabilidade é de todos: governos, organizações e sociedade.

Todos devem se envolver e não só prevenir novos desgastes, mas também recuperar o que for possível.

O desafio é imenso, mas é irreversível a necessidade de mudanças culturais e o reconhecimento de que propósitos pessoais e organizacionais precisam incluir objetivos e estratégias voltadas à sustentabilidade

Sustentabilidade e critérios ESG (Environmental, Social and Governance) não significam a mesma coisa, apesar de serem relacionados.

Sustentabilidade se refere à capacidade de manter algo no longo prazo, garantindo que os recursos sejam usados de forma responsável e que os impactos ambientais, sociais e econômicos sejam minimizados.

A sustentabilidade busca criar um equilíbrio entre as necessidades do presente e as possibilidades de futuro.

ESG, por sua vez, é um conjunto de critérios que as empresas usam para avaliar seu desempenho em três áreas principais: meio ambiente (Environmental), responsabilidade social (Social) e governança corporativa (Governance). ESG se refere às práticas que as empresas adotam para garantir que suas atividades sejam socialmente responsáveis, ambientalmente sustentáveis e eticamente corretas.

Enquanto a sustentabilidade é um conceito mais amplo e genérico, o ESG é mais específico e focado nas práticas corporativas das empresas.

A sustentabilidade é um objetivo que as empresas devem buscar, enquanto o ESG é uma ferramenta que as empresas podem usar para avaliar seu desempenho em relação aos seus próprios critérios

As empresas que adotam práticas sustentáveis e têm bom desempenho em relação aos critérios ESG tendem a ter uma vantagem competitiva no mercado e são mais propensas a atrair investidores e consumidores preocupados com essas questões.

Sustentabilidade, ESG e prevenção de resíduos - SINPROQUIM ©QD Foto: iStockPhoto
Luciana Oriqui é PhD em Engenharia Química, sócia-diretora da Circular Químicos, e assessora de Sustentabilidade do Sinproquim

A prevenção de resíduos está intimamente relacionada à sustentabilidade e aos critérios ESG, e é por isso que o Sindicato das Indústrias de Produtos Químicos para Fins Industriais e da Petroquímica no Estado de São Paulo (Sinproquim) se envolveu, apoiou pesquisas e o Movimento Menos Resíduo®, entendendo a relevância desse protagonismo para as indústrias químicas.

Em janeiro de 2023, o Sinproquim lançou o Manual de Diretrizes Sustentáveis para Prevenção de Resíduos de Produtos Químicos Industriais, que está disponível para download, de forma gratuita, no site do Sinproquim na internet.

Isso se deve à essencialidade de que as indústrias químicas intensifiquem processos, produtos e serviços sustentáveis, os internalizem e os tornem transparentes. Há que se considerar que as políticas e procedimentos preventivos de resíduos já vêm sendo amplamente praticados globalmente e que a harmonização e padronização de processos é essencial para a competitividade das indústrias químicas por vários motivos:

1. Aumento da credibilidade: quando uma organização adota práticas sustentáveis reconhecidas globalmente ela aumenta sua credibilidade perante consumidores, fornecedores, investidores e outros stakeholders. Isso pode levar a uma maior confiança e fidelidade dos clientes e investidores.

2. Melhoria da eficiência e produtividade: a harmonização de procedimentos de boas práticas globais de sustentabilidade pode ajudar a identificar oportunidades de melhoria na eficiência e produtividade, por meio da adoção de tecnologias mais eficientes em termos energéticos e redução de desperdício e resíduos.

3. Acesso a novos mercados e oportunidades de negócios: muitos governos e organizações privadas estão cada vez mais exigindo que as empresas adotem práticas sustentáveis em seus processos e produtos. Ao adotar práticas sustentáveis globalmente reconhecidas, uma organização pode ter acesso a novos mercados e oportunidades de negócios.

4. Redução de riscos: as organizações que adotam práticas sustentáveis estão em melhor posição para gerenciar riscos relacionados a questões ambientais e sociais, como regulamentações mais rígidas, escassez de recursos naturais e mudanças climáticas. Isso pode levar a uma redução de custos e a uma maior estabilidade financeira.

5. Aumento da inovação e criatividade: a adoção de boas práticas globais de sustentabilidade pode estimular a inovação e a criatividade dentro da organização, à medida que ela procura novas maneiras de reduzir o impacto ambiental e social de seus processos e produtos.

A prevenção é a primeira prática das políticas de hierarquização, uma vez que a melhor forma de gerenciar os resíduos é evitá-los ou minimizá-los desde o início do processo produtivo ou da atividade, antes mesmo de se tornarem um problema. A prevenção de resíduos é uma abordagem mais sustentável e eficiente, e deve ser prioritária às medidas de extensão dos prazos de validade e ampliação do ciclo de vida do produto, e do posterior gerenciamento ou tratamento dos resíduos gerados.

A Diretiva 2008/98/CE, na Europa, estabelece as cinco etapas sequenciais minimizadoras de geração de resíduos, que são:

1. Prevenção e redução;

2. Preparação para a reutilização;

3. Reciclagem;

4. Outros tipos de valorização e;

5. Eliminação.

O gerenciamento estratégico de estoques preventivo de resíduos pode colaborar com a mitigação de resíduos de várias formas, como por exemplo:

1. Evitando estoques excessivos: um gerenciamento adequado de estoques pode ajudar a evitar a acumulação de materiais desnecessários ou excessivos, o que pode levar ao desperdício e à geração de resíduos.

2. Identificando e corrigindo falhas no processo: o monitoramento dos estoques pode ajudar a identificar falhas no processo produtivo, como erros de produção ou problemas de qualidade, que possam estar gerando resíduos desnecessários. Essas falhas podem então ser corrigidas, evitando a geração de resíduos no futuro.

3. Selecionando fornecedores sustentáveis: ao gerenciar os estoques, as empresas podem escolher fornecedores que adotem práticas sustentáveis, como a redução do uso de embalagens e materiais desnecessários, e que sejam comprometidos com a prevenção de resíduos.

4. Promovendo a reutilização e reciclagem: um gerenciamento estratégico de estoques pode incluir o desenvolvimento de processos que promovam a reutilização de produtos e a reciclagem de resíduos gerados, reduzindo a quantidade de resíduos que acabam em aterros sanitários.

Os resultados obtidos com o gerenciamento de estoque preventivo de resíduos e a ampliação do ciclo de vida de um produto tendem a contribuir fortemente com os indicadores ESG (ambientais, sociais e de governança) reconhecidos pelo mercado e instituições financeiras, incluindo:

1. Redução do impacto ambiental: ao adotar práticas de gerenciamento de estoque preventivo de resíduos e ampliação do ciclo de vida de um produto, as empresas podem reduzir seu impacto ambiental e promover a sustentabilidade em suas operações. Isso pode ser um indicador ESG positivo, uma vez que as empresas são avaliadas com base em seu desempenho ambiental.

2. Maior eficiência operacional: o gerenciamento de estoque preventivo de resíduos e a ampliação do ciclo de vida de um produto podem melhorar a eficiência operacional das empresas, reduzindo custos e aumentando a produtividade. Isso pode ser um indicador ESG positivo, uma vez que as empresas são avaliadas com base em seu desempenho financeiro.

3. Adoção de práticas sustentáveis: ao adotar práticas sustentáveis em suas operações, as empresas podem demonstrar seu compromisso com a sustentabilidade e com as questões ESG em geral. Isso pode ser um indicador ESG positivo, uma vez que as empresas são avaliadas com base em sua governança corporativa e sua responsabilidade social.

4. Satisfação do cliente: ao ampliar o ciclo de vida de um produto e adotar práticas de gerenciamento de estoque preventivo de resíduos, as empresas podem aumentar a satisfação do cliente, oferecendo produtos de alta qualidade e sustentáveis. Isso pode ser um indicador ESG positivo, uma vez que as empresas são avaliadas com base em sua reputação e seu relacionamento com os clientes.

As boas práticas demonstram o compromisso da empresa com a sustentabilidade e a responsabilidade social.

No Manual lançado pelo Sinproquim, os procedimentos para a gestão de estoque preventivas de resíduos estão baseados nas boas práticas adotadas pelo Departamento de Defesa Americano (DoD, U.S. Departament of Defense), que adota inclusive extensões de validade de produtos, com metodologia embasada em análises técnicas, assim como proposto no Manual.

A Figura detalha a gestão de estoque preventiva de resíduos e nos quadros são apresentadas as fases de um gerenciamento de produtos, em que I e II representam as fases que mitigam resíduos, e III e IV os resultados possíveis de serem alcançados por uma boa gestão.

Sustentabilidade, ESG e prevenção de resíduos - SINPROQUIM ©QD Foto: iStockPhoto

Figura: Gestão de Estoque Preventiva de Resíduos

O propósito do Manual de Diretrizes Sustentáveis para Prevenção de Resíduos de Produtos Químicos Industriais, exclusivo para produtos químicos direcionados ao mercado industrial, ou Business to Business (B2B), é o de estabelecer procedimentos de Boas Práticas para Prevenção de Resíduos Químicos Industriais, contribuindo com o ecossistema e cadeia de valor sustentável que viabilizem a prevenção da geração de resíduos, estabelecendo conceitos e diretrizes que assegurem conformidade a extensões da validade de produtos químicos industriais, desde que seus parâmetros mínimos de qualidade e segurança estejam garantidos.

Resíduos e contaminações ambientais impulsionam crises climáticas e de biodiversidade, que, por sua vez, demandam por estratégias inclusivas e resilientes, que considerem uma cadeia de valor sustentável.

Os procedimentos hoje aplicados têm se mostrado ineficientes, gerando um enorme passivo ambiental, uma vez que expressivo número de produtos químicos industriais que ainda mantém suas especificações mínimas garantidas, mesmo que vencidos seus prazos de validade, vêm causando danos ambientais, por necessidade de descarte, gerando simultaneamente impactos negativos econômicos e sociais.

A ausência de segurança jurídica no Brasil para extensões de prazos de validade, práticas preventivas adotadas mundialmente para evitar a geração de resíduos, tem sido a principal causa dessa situação.

A viabilização da extensão da validade de produtos, etapa também preventiva, é prioritária nas determinações para Hierarquização de Resíduos e possibilita à indústria gerar efeitos positivos tanto sobre o meio ambiente como em seus custos de produção.

Na Europa, Ásia e Estados Unidos, a não ser em casos de produtos com determinadas especificidades, não há legislação impeditiva de extensão de validade de produtos químicos industriais, desde que o fabricante garanta a manutenção mínima de qualidade durante o novo prazo proposto (revalidação) ou o usuário o faça para uso imediato (retestes).

Um mesmo produto químico industrial pode ser utilizado em diversos e distintos processos e as demandas por garantias de qualidade podem divergir entre elas, sendo algumas mais críticas que outras. Ainda assim, é atribuído um único prazo ao produto, que deve atender todas as condições mais críticas. Como resultado, após o prazo estabelecido, o produto pode se manter em absoluta conformidade para determinados usos, e inapropriados para outros. A possibilidade de extensão do prazo inicialmente proposto mitigaria essa divergência.

Dentre os objetivos de desenvolvimento sustentável estabelecidos pelo Organização das Nações Unidas (ONU) em relação à Agenda 2030, merece especial destaque o ODS 12, sobre Consumo e Produção Responsáveis, que busca assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis, como medidas indispensáveis na redução da pegada ecológica sobre o meio ambiente. Dentre as metas do ODS 12, a 12.5 estabelece que, até 2030, seja reduzida substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reúso. As extensões seguras do prazo de validade de produtos químicos industriais são aderentes a políticas de prevenção e minimização de resíduos, em complementariedade aos redesenhos de processos, orientados a inovações e produção sustentável.

Texto: Luciana Oriqui

Luciana Oriqui é PhD em Engenharia Química, sócia-diretora da Circular Químicos, e assessora de Sustentabilidade do Sinproquim

A indústria química como chave para um futuro mais sustentável ©QD Foto: iStockPhoto

SINPROQUIM

O Sinproquim trabalha para elevar a competitividade da indústria química, incentivando a qualificação, a capacitação e o desenvolvimento tecnológico, sempre tendo como base a inovação, a sustentabilidade e a eficiência energética.

A busca e a construção de soluções estão na base de atuação do Sinproquim e são os objetivos centrais da entidade.

O Sinproquim defende o diálogo ético, transparente e responsável com todos os interlocutores da indústria química por entender que a ampliação do conhecimento público sobre as características e a importância do setor é o caminho para a construção do desenvolvimento econômico e social.

 

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.