Surfactantes: Blends e oleoquímica ampliam opções para formuladores

Química e Derivados, Surfactantes: Blends e oleoquímica ampliam opções para formuladores
Para um mercado movido a novidades como o de cosméticos, cujo desempenho sempre em crescimento está intimamente ligado à capacidade dos fabricantes de ofertar diferenciais suficientes em seus produtos para atrair a atenção dos consumidores nas prateleiras dos supermercados e lojas do ramo, os departamentos de pesquisa e desenvolvimento dos fornecedores de matérias-primas têm papel de destaque. Ao se trazer para tal perspectiva o segmento de surfactantes, ou tensoativos, essa realidade é ainda mais válida.

Moléculas com uma extremidade solúvel em óleo e outra na água, principalmente empregadas em produtos para o cabelo, acrescentando a xampus e condicionadores as propriedades de brilho, maciez e penteabilidade, tornando gorduras e sujeiras dispersíveis na água, pequenas modificações nas suas formulações fazem grande diferença no produto final. Assim como fazem no desenvolvimento de produtos para a pele, o segmento conhecido como skincare, no qual os surfactantes cada vez são mais usados para constituir emulsões estáveis de óleo e água, melhorando a aplicação de cremes e loções e garantindo a cobertura da superfície e um melhor espalhamento em protetores solares, por exemplo.

A demanda por novidades leva os fornecedores de surfactantes a investir pesado na pesquisa de novos grades com funções mais sofisticadas, e a se empenhar em oferecer insumos de fontes renováveis, uma tendência irreversível no mercado de cosméticos. Além disso, costumam se envolver na produção de seus clientes, por meio de seus P&Ds dedicados a formular cosméticos com as melhores combinações possíveis de serem atingidas com seus insumos.

Química e Derivados, Lopes: investimento em pesquisa aproveitará sinergia entre tensoativos
Lopes: investimento em pesquisa aproveitará sinergia entre tensoativos

Desenvolvimentos – Na principal produtora de tensoativos do país, a Oxiteno, esse cenário encontra fidelidade em todos os aspectos. Para começar, recentemente a empresa reestruturou seu centro de pesquisa e desenvolvimento da área, contratando para dirigi-lo um profissional oriundo do setor de cosméticos. “Queremos ter conhecimento maior da aplicação, por necessidade comercial e também para direcionar nossos próprios desenvolvimentos”, afirmou o gerente global de home e personal care, Maurício Lopes. Segundo ele, é muito provável que esse reforço no desenvolvimento aproveite melhor o grande portfólio de tensoativos da empresa, gerando novos blends com diversas combinações entre eles. “Há a possibilidade muito grande de aumentar o desempenho e as aplicações com as misturas em estudo”, disse Lopes.

A pretensão da Oxiteno é aumentar sua participação com tensoativos no mercado de cosméticos, considerado estratégico, em comparação com o mercado de limpeza. Hoje a divisão é praticamente meio a meio, muito por causa da boa penetração dos surfactantes da empresa nas formulações para cabelo. Daí o atual foco em participar mais do segmento de produtos para pele para crescer em cosméticos, também considerado nicho mais rentável e afeito a novidades. “É aí onde queremos apostar mais nossas fichas, com a apresentação de novos produtos com grande foco na sustentabilidade, uma grande demanda do skincare”, afirmou Lopes.

Nessa toada, durante o ano a Oxiteno está trabalhando com grades novos que têm entre suas várias funcionalidades a aplicação em produtos para a pele. Da linha de ésteres emolientes de origem renovável Oxismooth, o grade CP é um isocaprilcaprilato derivado de ácidos graxos do óleo de palmiste (PKO) com a propriedade principal de conferir alta “espalhabilidade” e sensorial seco para cremes, loções, protetores solares e xampus. Da mesma linha, o isoamilestearato, além de dar melhor espalhamento aos cremes, confere sensorial (toque) mais rico em oleosidade.

A linha Oxismooth conta com diferentes tamanhos de cadeias graxas, incluindo uma intermediária de isoamilcocoato, que pode ser usada de 0,5% (em cremes de pós-barba) até 30% em óleos corporais, para várias especificações. Além da base em PKO importado da Malásia (100 mil t/ano) e processado na fábrica de Camaçari-BA, há também na composição da linha o uso de derivados da cana-de-açúcar.

Lauril renovável – Outra novidade em processo inicial de comercialização é o tensoativo aniônico Alkopon NS Eco 92, um lauril-éter sulfato de sódio de fonte renovável produzido na fábrica da Oxiteno em Montevidéu, no Uruguai, cujo lauril da fórmula é derivado do óleo de palma. Um diferencial importante é ter alto conteúdo de substância ativa, disposto em flocos, com no mínimo 92% de sólidos, ao contrário das soluções convencionais a 28%. Isso significa, além da praticidade de aplicação em produtos sólidos como sabonetes ou pastas dentais e outros cremes, grande economia de energia, dispensável para secá-lo caso fosse líquido.

Também com alta explosão de espuma em sabonetes, o que dá melhor sensação de limpeza, por ser em flocos diminui o pó suspenso no ar, facilitando sua manipulação. Apesar de sólido, o LESS renovável pode ser empregado em formulações de xampus, espumas de barbear e cremes. Mas sua aplicação mais indicada seria para sabonetes em barras e pastas de dentes. “No exterior, ele é muito usado em cremes dentais, mercado que estamos desenvolvendo no Brasil”, disse Lopes.

Outro grade em desenvolvimento comercial lançado recentemente é o Alkont EL 3645, derivado do açúcar de milho e de ácido graxo de PKO. Com função espessante em cremes, protetores solares, xampus, sabonetes líquidos, trata-se de tensoativo não-iônico éster etoxilado multifuncional. “Ele melhora a reologia da cremosidade, com absorção ao toque seco e é ideal para produtos infantis para a face e o corpo, pois não irrita os olhos e é livre de conservantes”, afirmou o gerente global. Além disso, o Alkont também encontra uso em produtos para higiene íntima, por não apresentar irritabilidade dérmica, sensibilização ou alergia. A inovação apresenta ainda diferencial para emulsões cosméticas, por ser adequado para formulações a frio e compatível com formulações a quente.

Segundo Maurício Lopes, hoje a Oxiteno é a segunda maior produtora global, em volume, de tensoativos etoxilados, com quatro fábricas no Brasil (Bahia e São Paulo), e outras no exterior: Uruguai, Venezuela, três no México e uma nos Estados Unidos. Perdendo nessa área apenas para a Basf (que comprou a Cognis), o negócio de home and personal care é o maior negócio globalmente do grupo, representando de 25% a 30% da empresa, sob crescimento de 14% em volume nos últimos anos.

Para cumprir a estratégia de aumentar sua fatia no mercado de cosméticos, atendendo à demanda do setor por produtos sustentáveis, é plano da Oxiteno em dois anos ter 100% do ácido de palmiste (PKO), utilizado em sua fábrica, certificado pela RSPO (Roundtable on Sustainable Palm Oil). Já associada à RSPO, a empresa quer garantir que seu PKO seja oriundo apenas de plantações com manejo sustentável. De forma geral, hoje de 20% a 25% das matérias-primas utilizadas pela empresa são de fontes renováveis.

Do carité – A tendência de encontrar alternativas mais sustentáveis para tensoativos também faz parte do cotidiano de outra empresa brasileira, com produção própria, a Polytechno, de Guarulhos-SP. Segundo o gerente de pesquisa e desenvolvimento, Fabricio Sousa, há um crescente uso de linha de derivados da manteiga de carité, cuja base é importada da empresa sueca AAK. Denominada Lipex, a linha contempla tensoativos catiônicos, cosurfactantes e um anfótero.

Química e Derivados, Sousa: aposta em surfactantes com base na manteiga de carité
Sousa: aposta em surfactantes com base na manteiga de carité

Os tensoativos catiônicos são dispostos em dois grades: Lipex Shea Q50 e Lipex Shea Q. O primeiro é obtido por processo inovador que garante propriedades condicionantes antiestáticas, atuando em formulações cosméticas como emulsificante dos componentes graxos. “Ele melhora a penteabilidade, o brilho e a textura dos cabelos”, disse Sousa. Além disso, pode ser aplicado na elaboração de condicionadores e máscaras para tratamento capilar, combatendo a carga estática. Conta como vantagem ainda sua irritabilidade inferior em comparação com tensoativos catiônicos tradicionais.

Outro produto de destaque da linha é o Lipex Shea Betaina, um tensoativo anfótero com propriedades emolientes antiestáticas. Assim como os demais tensoativos anfóteros, ele é recomendado para xampus e sabonetes líquidos, sugerindo-se a associação com tensoativos aniônicos para melhorar as características espumógenas, viscosidade, penteabilidade e condicionamento. “Ele também reduz potencial irritante de outros componentes presentes nas formulações”, completou Sousa.

A parceria com a sueca AAK garante a obtenção de uma matéria-prima de alta qualidade, importante para a síntese de surfactantes eficientes, condição fundamental quando se trata de insumos vegetais. As sementes da planta seguem padrões de manejo sustentável em Burkina Fasso, na África, de onde são transportadas para a fábrica sueca. Lá a manteiga é extraída e o processamento segue padrão rigoroso para evitar a destruição dos compostos bioativos naturais, os insaponificáveis. “É dessa manteiga cuidadosamente produzida que fabricamos a nossa linha”, disse Sousa. Segundo ele, alguns desses produtos são exportados para a própria AAK, que os revende para países da Ásia, Europa e Estados Unidos.

As linhas de surfactantes da Polytechno são obtidas pelo processamento de óleos integrais que preservam a integridade dos principais componentes ativos (insaponificáveis) do produto acabado, com tecnologia 100% nacional. Além do carité, há surfactantes derivados do babaçu, da oliva e, em alguns casos, com a sinergia de dois ou mais óleos, é possível obter produtos exclusivos, segundo Fabricio Sousa.

“Com a tecnologia dos oleoquímicos, somos capazes de desenvolver famílias inteiras de produtos, que incluem betaínas, quaternários de amônio e cosurfactantes”, afirmou o gerente. A produção em Guarulhos atinge a marca de 5 mil t/ano de surfactantes. A Polytechno produz além dos surfactantes vários outros produtos para os mercados de cosmético e de higiene pessoal, como alcanolamidas, sulfosuccinatos e ésteres. Dos tensoativos, fornece ainda bases prontas para cosméticos.

Sem óleo de palma – Uma tendência muito específica do mercado de insumos para a indústria farmacêutica que atingiu o segmento de surfactantes tem a ver com a preocupação ambiental com a exploração insustentável das plantações de palma na Ásia, principal região do mundo no cultivo e na extração do óleo do fruto da palma (dendê).

Depois que há alguns anos entidades ambientalistas denunciaram que as plantações de palmeiras em países como Malásia e Tailândia estavam devastando as florestas tropicais, muitas empresas e consumidores, principalmente da Europa, passaram a evitar o uso de ácidos graxos provenientes do óleo de palma. No mercado de fornecedores de cosméticos isso provocou duas ondas: ou o abandono dessas matérias-primas com a substituição por outros óleos vegetais ou a exigência em comprar apenas de produtores certificados pelo RSPO, que comprovam o manejo sustentável. Nessa última opção, vale lembrar o fato de a Oxiteno ter se comprometido a comprar PKO apenas de empresas certificadas em um prazo de dois anos.

Um exemplo de empresa que resolveu optar por evitar as matérias-primas originárias da palma é a Beraca Ingredients, que, além de produtora de vários insumos cosméticos oriundos da extração de óleos amazônicos, também representa fabricantes internacionais que seguem rotas vegetais. No caso específico de surfactantes, isentos de óleos de palma, a empresa trabalha com a alemã Dr. Straetmans.

Entre a extensa linha de insumos da empresa alemã, recentemente a Beraca passou a divulgar no Brasil surfactantes multifuncionais Dermofeel sem óleo de palma e que deem preferência a óleos de ocorrência próxima à fábrica.

Química e Derivados, Alexandra aproveita demanda por produtos isentos de óleo de palma
Alexandra aproveita demanda por produtos isentos de óleo de palma

O Easymuls é um polyglyceril, obtido da esterificação de ácido graxo do óleo de girassol. Trata-se de emulsionante natural para formulações de baixa viscosidade, como loções, protetores solares, lenços umedecidos e sprays. Segundo Alexandra Branden, da assistência técnica da Beraca, tem como grande vantagem o fato de ser biocompatível com a membrana celular da pele (manto hidrolípico). “Além disso, incorpora até 30% de fase oleosa e pode ser processado a frio, o que economiza energia para o formulador”, explicou Alexandra.

Outro destaque em surfactante isento de óleo de palma é o Symbiomuls GC, um blend que envolve o Glyceryl Stearate Citrate, o Glyceryl Caprilate e o álcool cetoestearílico. Trata-se de emulsionante multifuncional que também tem função de melhorar a ação antimicrobiana, em razão do caprilato presente na mistura. Ele tem faixa de viscosidade ampla, podendo atender aplicações tanto em lenços e cremes leves até cremes mais viscosos para uso noturno ou manteigas.

Embora Alexandra reconheça que a Beraca ainda use óleo de palma em algumas formulações, a tendência de busca de alternativas em matérias-primas oriundas de outros óleos é muito forte. Isso tanto por causa da resistência ambientalista contra os produtores de óleo de palma sem manejo sustentável como pelas possibilidades técnicas e comerciais que o uso de óleos exóticos traz para o setor de cosméticos. “Os consumidores são muito abertos a novidades e são muito atraídos pelos produtos de origem vegetal. E quanto mais exótico, melhor”, disse.

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