Tratamento de Água

Substitutos do cloro ganham espaço no saneamento – Meio ambiente

Marcelo Furtado
14 de janeiro de 2019
    -(reset)+

    Química e Derivados, Operada pela Aegea, a ETE de Búzios aplica UV para a desinfecção

    Operada pela Aegea, a ETE de Búzios aplica UV para a desinfecção

    Mercado até agora dominado pelo cloro, a desinfecção e oxidação de água e efluentes recebe aos poucos alternativas químicas para o cotidiano operacional das empresas de saneamento. Sempre limitados pela necessidade legal de se manter um residual mínimo de cloro ou dióxido de cloro na rede de distribuição, o que é compreensível em razão dos riscos de contaminação no percurso e no local do consumo, os operadores testam e usam em escala real soluções alternativas em determinadas etapas dos tratamentos.

    Há aplicações e uso de oxidantes diferentes nos dois segmentos: no tratamento de água e no de esgotos. No primeiro caso, ocorre por exemplo na fase de pré-oxidação, quando a água a ser tratada pelas empresas é captada em reservatórios e rios, e também no controle de algas em represas, sobretudo durante períodos em que a formação é mais recorrente. Já em esgoto, há emprego de outros oxidantes em desinfecção final, antes de descarte em corpos d´água e também em outras funções, como controle de odores.

    Isso é feito pela Companhia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo, a Sabesp, maior estatal de saneamento do país. De acordo com o químico da Sabesp, Mercedino Carneiro Filho, a companhia utiliza peróxido de hidrogênio para controle de algas nos reservatórios da Região Metropolitana de São Paulo e como pré-oxidantes em várias estações de tratamento de água, além de utilizá-lo também para controle de odor em interceptores de esgoto.

    Segundo Mercedino, a aplicação mais importante do peróxido de hidrogênio, como pré-oxidante em ETAs, tem a ver com o controle de tri-halometanos, substâncias tóxicas formadas pela ação do cloro em águas muito contaminadas com compostos orgânicos derivados da decomposição das algas verdes (ácidos húmicos e fúlvicos). Os THMs – compostos orgânicos derivados do metano, nos quais sua molécula tem três de seus quatro átomos de hidrogênio substituídos por elementos halógenos (como o cloro, bromo e iodo) – são reconhecidos pela ciência como cancerígenos. O mais comum deles, o clorofórmio, foi correlacionado em várias pesquisas com carcinomas da bexiga e do intestino baixo. Os outros THMs mais presentes são o bromofórmio e o iodofórmio.

    Ainda de acordo com o químico, quando há ocorrências de alterações na qualidade da água bruta, com aumento de substâncias precursoras de THM, o processo de tratamento é reavaliado e o cloro na etapa de pré-cloração pode ser substituído para permitir esse controle. Além do peróxido de hidrogênio, a literatura técnica indica que o ozônio, o dióxido de cloro e as cloroaminas evitam a formação. Bom ressaltar que os THMs chegam ao consumidor quando o cloro livre mantém contato com os precursores por um longo período.

    Para a também química da Sabesp, Helena Marcia Cruz, a superintendência de pesquisa e inovação da companhia desenvolveu estudos para que de forma preventiva seja possível detectar substâncias com potencial de formação de THMs e assim se antecipar aos eventos e otimizar o tratamento. Como resultado dos estudos, explica Helena, a Sabesp está adquirindo espectrofotômetro para análise de matriz de emissão/excitação de fluorescência (EEM) e absorbância para realização de estudo de tratabilidade em águas brutas de diferentes procedências para detecção de substâncias com potencial de formação de THM.

    Além da ação para controle de THMs na pré-oxidação, é possível também combatê-los, segundo pesquisas em andamento, com o uso de carvão ativado, que pode remover boa parte dessas substâncias, em específico, o clorofórmio. Também sistemas de coagulação e de pó absorvente podem ser aplicados.

    Na Sabesp, segundo Mercedino, faz parte da rotina de trabalho da área a busca por novos processos químicos. Com relação ao cloro, são pesquisados tanto oxidantes alternativos como novas formas de obtenção, por exemplo com os geradores de hipoloclorito in situ para mitigar riscos ambientais associados ao cloro líquido. Alternativas como peróxido de hidrogênio, cloro orgânico, hipocloritos de sódio e cálcio, dióxido de cloro, ácido peracético, ozônio, radiação ultravioleta e permanganato de potássio são testadas isoladamente ou combinadas em processos de oxidação avançada (POA).

    Porém, na atualidade, os processos de oxidação e desinfecção mais utilizados na Sabesp são os cloros orgânicos (dicloroisocianurato de sódio e ácido tricloroisocianúrico), em diversos sistemas de distribuição de água, predominantemente proveniente de poços profundos, e na desinfecção de efluentes em sistemas de tratamentos de esgotos. O dióxido de cloro em desinfecção de efluentes em ETEs, como a Lavapés, em São José dos Campos-SP. E, é claro, o hipoclorito de sódio, em sistemas de tratamento de água de pequeno porte, e o cloro líquido em ETAs de médio e grande ponte. Segundo Mercedino, o sistema de geração de hipoclorito in situ, após fases de pesquisas e testes em escala real, está em processo de elaboração de termo de referência como alternativa ao cloro líquido.



    Recomendamos também:








    0 Comentários


    Seja o primeiro a comentar!


    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *