Solventes pedem regulamentação para reorganizar setor

Liberalização da atividade facilitou a fraude na gasolina e merece revisão, preocupação ambiental superou excessos iniciais e trouxe avanços

O mercado de solventes industriais acerta o passo em várias contramarchas.

Tanto no campo administrativo quanto no aspecto ambiental, foram cometidos vários exageros, durante a década de 1990, a exigir ajustes estratégicos para evitar reflexos na competitividade de vários ramos de atividades, nos quais os solventes apresentam importância decisiva, desde a limpeza e decapagem de superfícies metálicas até na fabricação de tintas.

O setor aguarda a conclusão dos novos regulamentos oficiais sobre a distribuição de solventes no Brasil, prevista para os próximos meses.

Na ressaca dos movimentos de liberalização da economia, no período pós-constituinte de 1988, o País mantinha um sistema de distribuição excessivamente controlado, burocrático.

Valiam cotas prefixadas para número restrito de empresas, classificadas como grandes consumidores (indústrias de tintas, por exemplo) ou distribuidores/revendedores.

Esse pequeno rol tinha exclusividade na retirada de produtos da Petrobrás e das centrais petroquímicas, ainda hoje fontes primárias de hidrocarbonetos solventes.

Delas se exigia manter bases de estocagem e sistemas de transporte qualificados, recebendo, em contrapartida, a possibilidade de auferir ganhos significativos.

Nessa época, eram freqüentes as acusações de formação de cartel e manipulação de preços. Também circulavam informações de empresas extintas que mantinham ativo apenas o registro junto ao Conselho Nacional de Petróleo para retirar a cota de solventes e depois revendê-la a terceiros.

Ante o interesse de vários grupos em participar desse negócio e o desejo dos consumidores de garantir oferta firme de solventes hidrocarbonetos com preços baixos, a regulamentação oficial foi cancelada, passando-se a exigir registros simplificados das empresas compradoras, eliminando o regime de cotas.

O efeito dessa revisão não foi de todo elogiável. “Não houve desregulamentação, houve avacalhação mesmo”, criticou um antigo distribuidor do setor.

Em parte, o relaxamento das exigências burocráticas facilitou a vida de todos os elos da cadeia, das fontes produtoras até os consumidores finais.

Porém, nenhum órgão oficial conservou controles mínimos dos solventes a partir do momento da retirada dos produtos da origem. Prova disso foi o crescimento vertiginoso das reclamações de incorporação de solventes à gasolina automotiva, praticada por empresas inidôneas.

Esse tipo de ilicitude motivou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) a elaborar novas regras para a venda de solventes hidrocarbonetos.

“Desde 1998, o mercado de solventes passou a atuar em sistema de cotas estabelecido pela ANP, ao qual todas as distribuidoras se submetem com o objetivo de inibir o uso indevido como combustíveis”, explicou Pedro Caldas Pereira, gerente de produtos especiais da BR Distribuidora. Por ser líder na distribuição de derivados de petróleo, a empresa sofre diretamente os reflexos das práticas irregulares da venda de combustíveis.

Para complementar as normas da ANP, a empresa criou o programa De Olho no Combustível, garantido a qualidade e certificando os postos de gasolina da rede.

“A partir de dezembro de 2001, os solventes receberão um marcador químico nas bases das fontes produtoras para identificar no ponto de venda a adulteração de combustíveis”, informou Pereira. A norma instituiu, a princípio, marcador único para todos os produtores de solventes.

Segundo o gerente da BR, no futuro cada produtor poderá ter seu próprio marcador, facilitando a fiscalização. “Essas medidas são necessárias para que o mercado de combustíveis e de solventes volte a operar com tranqüilidade”, justificou.

Do ponto de vista ambiental, a postura radical contra a liberação de compostos orgânicos voláteis (VOC) para a atmosfera foi abrandada, retirando-se da discussão boa parte do “emocionalismo”, substituído por argumentos racionais, mais eficazes para o controle da poluição.

Até os solventes clorados, apontados como vilões principais contra a camada de ozônio, passaram por um processo de depuração, com a eliminação de produtos como o tetracloreto de carbono e o 1,1,1-tricloroetano, e já recuperam espaço em algumas aplicações industriais.

A pressão ambientalista produziu melhoras notáveis nos processos produtivos, estimulando o uso racional e comedido de solventes. Dessa forma, em vários grandes usuários de solventes, práticas de manuseio e aplicação desses produtos foram aprimoradas, reduzindo perdas e também a contaminação do ambiente de trabalho, muito prejudicial à saúde dos trabalhadores. Também iniciativas para a reciclagem qualificada e o reuso de solventes apresentam-se em franco desenvolvimento.

Com vasto campo para aplicações, os solventes industriais podem ser divididos em três grandes grupos: hidrocarbonetos (subdivididos em aromáticos e alifáticos), sintéticos (cetônicos, ésteres, éteres, álcoois e glicóis), e clorados.

Importante salientar o crescimento recente do uso de sistemas solventes (misturas) formulados especificamente para cada aplicação em substituição aos produtos puros.

Química e Derivados: Solventes: Chamma - cresce demanda por alifáticos mais puros.
Chamma – cresce demanda por alifáticos mais puros.

“O ritmo de crescimento do mercado total de solventes acompanha a evolução do PIB industrial do Brasil”, avaliou João Miguel Chamma, gerente nacional de vendas da Ipiranga Comercial Química (ICQ).

Alguns produtos crescem um pouco mais, mas isso é compensado pela redução do consumo de outros mercados.

“A pintura de peças de madeira de geometria simples migrou quase totalmente para tintas curáveis por ultravioleta, isentas de solventes”, exemplificou.

Ele acredita na longa permanência dos solventes na atividade industrial, com especificações mais precisas. Os hidrocarbonetos tendem a apresentar margens de lucro estreitas, enquanto os sintéticos seguem dependendo das flutuações freqüentes do mercado mundial.

Melhores hidrocarbonetos – Grupo mais conhecido de solventes, responsável pela maior parte das vendas no País, os hidrocarbonetos sofreram forte pressão ambiental que favoreceu o uso de produtos alifáticos em detrimento dos aromáticos.

Química e Derivados: Solventes: Abreu - meta de eliminar solventes orgânicos acabou superada.
Abreu – meta de eliminar solventes orgânicos acabou superada.

“Questões ambientais e toxicológicas tiraram mercado dos aromáticos e exigiram alifáticos mais puros, isentos de enxofre e de contaminações com aromáticos”, afirmou Carlos Fernado Abreu, diretor de marketing da Bandeirante Química, tradicional distribuidora de solventes.

“É evidente o crescimento da demanda por alifáticos mais hidrogenados e isentos de aromáticos”, concordou Chamma, da ICQ. Ele explicou que o maior mercado para os hidrocarbonetos se situa nos setores de tintas e resinas, demandantes por alifáticos de qualidade superior, sem cheiro, nem cor.

Além disso, ele identifica demanda firme para especialidades, como os alifáticos produzidos pela Refinaria Ipiranga dentro de faixas precisas de destilação, a exemplo de heptanas, naftas para extração de ceras e para adesivos. O grosso da demanda se refere às commodities, com especificações menos rígidas.

A BR Distribuidora avalia em 60 mil m³/mês o volume dos principais solventes hidrocarbonetos controlados pela ANP, com predomínio da aguarrás e do tolueno, cada um representando 25% do total, seguidos pelo xileno (24%) e hexano (14%).

“A Petrobrás responde por praticamente toda aguarrás e hexano produzidos no Brasil, além de 25% do tolueno e do xileno”, avaliou Pereira. O restante da oferta dos aromáticos tem origem nas centrais petroquímicas.

“O preço desse grupo de solventes é reajustado mensalmente pela Petrobrás, considerando a cotação internacional nos pontos mundiais de referência e as variações cambiais”, comentou o gerente de produtos especiais.

“Atualmente a tendência é de redução de preços, por causa das baixas cotações internacionais e da baixa do dólar frente ao real.”

Essa baixa não deve ser muito significativa, segundo avalia João Miguel Chamma, da ICQ. “A alta do dólar não havia sido inteiramente repassada para a cadeia de consumo”, informou.

O grupo dos hidrocarbonetos, na sua avaliação, apresenta bom equilíbrio entre oferta e demanda de produtos, com uma pequena sobra. Por isso, o mercado é estável.

Como exemplo, ele citou o caso do hexano, consumido quase todo na extração de óleos vegetais, com fácil recuperação e reciclo posterior.

O cicloexano teve grande momento de mercado há dois anos, quando as destilarias de álcool no Brasil o adotaram como substituto do benzeno (que não é considerado legalmente como solvente, mas insumo de processo) como rompedor da mistura azeotrópica álcool/água, indispensável para a produção de álcool mais puro (96º GL). “As vendas de ciclohexano, produzido pela Unipar e Nitrocarbono, se estabilizaram em 7 mil t/ano”, informou.

Como os segmentos consumidores relatam incrementos contínuos de produção, tornam-se patentes as mudanças empreendidas para redução de perdas e até substituição desses solventes. “O setor de tintas, por exemplo, há dez anos iniciou uma forte reestruturação, posicionando-se em favor das linhas de altos sólidos [ou baixo teor de solventes], pós, base água e cura por radiação UV”, comentou Chamma.

“Esse processo foi feito até 1999, tendo se estabilizado nos dois últimos anos.”

Ele salientou que as linhas de base aquosa usam solventes sintéticos no lugar dos convencionais. Nos adesivos, o gerente da ICQ verificou a evolução das linhas de hot melt e PSA (pressure sensitive adhesives), reduzindo o consumo de tolueno. Mesmo assim, Chama não acredita no banimento total do grupo, nem mesmo nas tintas, pois há fórmulas que não podem evitar seu uso.

“Nos adesivos, ainda não há formulações totalmente isentas de tolueno, e os xilenos têm mercado cativo na produção de agroquímicos”, disse.

“Não existe mais uma tendência firme para a eliminação total dos hidrocarbonetos, como havia há alguns anos”, comentou Abreu, da Bandeirante Química.

“Mas o solvente precisa ser melhor trabalhado.” Na sua avaliação, a indústria de tintas buscou melhor relação custo/desempenho para seus produtos, recorrendo a resinas mais sofisticadas, que requerem formulações tecnicamente mais avançadas.

“Os solventes precisam acompanhar a necessidade dos clientes, tanto em desempenho, quanto em proteção ambiental e toxicológica, banindo aromáticos e oferecendo alifáticos cada vez mais puros.” O avanço das formulações favorece também o uso de sistemas solventes (misturas sob medida), em lugar dos produtos isolados.

Pelas informações de Abreu, a “bola da vez” é o tolueno, alvo cada vez mais freqüente de substituições. O maior problema desse solvente hidrocarboneto é de saúde ocupacional, pois é farta a apresentação de casos de dependência química desenvolvida por trabalhadores que tiveram contato com o aromático.

“Os preços do tolueno estão caindo significativamente”, informou. “Para 2003, ao que tudo indica, será a vez do xileno sofrer o mesmo processo.”

Em 1998, a BR Distribuidora lançou a linha Solbrax ECO de solventes especiais, caracterizada por apresentar baixa toxicidade, baixo odor e grande segurança de manuseio, de forma a complementar a linha de produtos convencionais.

A linha dita ecológica é composta por seis itens, voltados principalmente para lavagem a seco, antiespumantes, desengraxanes, tintas e vernizes, com boa aceitação de mercado. “Em 2001, a linha Solbrax ECO apresentou crescimento de vendas de 90% em relação ao ano anterior”, relatou Pereira.

“Os sistemas que vêm sendo apresentados como substitutos para os solventes devem continuar apresentando pequena participação de mercado nos próximos anos, por causa dos custos envolvidos”, afirmou, salientando, porém, que empresa estuda a possibilidade de oferecer produtos também para esses segmentos.

Sintéticos oportunos – O ataque ao grupo dos hidrocarbonetos trouxe benefício imediato para os solventes sintéticos, cuja demanda registra crescimento há cinco anos consecutivos. A longo prazo, porém, a imagem ambiental não é de todo favorável.

Química e Derivados: Solventes: Castanho - sistemas com oxigenados substituem os aromáticos.
Castanho – sistemas com oxigenados substituem os aromáticos.

“A população, em geral, vê os solventes como se fossem uma coisa só, e com imagem negativa”, lamentou Alexandre Castanho, gerente de negócios da Rhodia para papel, pintura e materiais de construção (divisão PPMC) na América Latina.

Estudos de mercado indicam que os solventes oxigenados já superam em vendas os hidrocarbonetos nos Estados Unidos e na Europa.

“Na América Latina, os grupos têm participação quase igual de mercado”, afirmou. Segundo Castanho, a agência de proteção ambiental americana (EPA) aceita e recomenda o uso de solventes oxigenados.

Com o tempo, e a adoção de leis ambientais mais restritivas, alguns ésteres e cetônicos também serão eliminados. “Por isso, a Rhodia investe na pesquisa e desenvolvimento de novas moléculas e nos seus processos produtivos”, explicou.

A empresa mantém pesquisas permanentes sobre novos solventes e, segundo ele, já conta com vários projetos em fase de avaliação e seleção.

A Rhodia produz ésteres (acetatos de butila e de etila), cetônicos (acetona, diacetona álcool e metilisobutilcetona), éteres glicólicos (hexilenoglicol) e álcoois (isopropanol). “Combinados, esses produtos formam sistemas que substituem os aromáticos”, comentou.

Há dez anos, a Rhodia começou a produzir blends de solventes, lançando a linha Rhodiasolv. Com o desenvolvimento do software Solsys, que relaciona simultaneamente o poder de solvência e a taxa de evaporação de cada item, a empresa passou a formular sistemas mais precisos, culminando com o lançamento do MEK+ (chamado MEK plus), em 1993.

“O MEK é o mais poluente dos solventes cetônicos, provocando a formação de ozônio em baixa camada atmosférica, mas pode ser substituído, com vantagens, pelo MEK+”, disse Castanho. Ele estima que o MEK+ tenha tomado quase 25% do mercado do MEK, cujas vendas também são disputadas pelo acetato de etila, principalmente nas tintas de impressão (gráficas).

Atualmente, a empresa incentiva seus distribuidores a identificar necessidades de clientes em sistemas solventes e formulá-los, contando com produtos e suporte técnico da Rhodia. “Não há conflito com a rede de distribuição, mas atuação complementar”, comentou Castanho. Não seria viável para a companhia produzir lotes muito pequenos desses produtos, que podem ser ofertados pelos distribuidores.

“Sistema solvente não é tíner”, frisou o gerente de negócios. O conceito de sistema está ligado a resolver um problema de alguma atividade industrial. Como exemplo, Castanho citou o caso da Embraer que usava um solvente na fabricação das aeronaves que lhes conferia mau cheiro.

“Desenvolvemos um sistema para eles que substituiu o solvente anterior, eliminando o cheiro desagradável”, explicou. A rigor, tíner é toda a mistura de dois ou mais solventes. Usualmente, a denominação se refere a formulações solventes usadas para tarefas de limpeza de peças, equipamentos e instalações, embora também possa identificar diluentes.

Por sistema solvente se pretende especificar a mistura pelo fato de ter sido formulada para determinado cliente ou aplicação.

“Os solventes sintéticos são muito bons, porém caros, motivo pelo qual é preciso usá-los diluídos em outros produtos”, explicou Carlos Abreu, da Bandeirante Química. Para isso, é preciso contar com linha ampla de opções, com produtos leves, médios e pesados (classificação feita a partir do ponto de destilação).

Nesse grupo, começa a se intensificar a pressão contra o etilglicol, principalmente nos Estados Unidos. “A Dow já anunciou que vai deixar de trabalhar com esse produto”, disse Abreu, que considera o solvente muito eficiente, respondendo por boa parte dos negócios no Brasil.

Melhor futuro tem a linha do butilglicol, produto considerado amigável ao meio ambiente. Na linha dos ésteres, ele confirma a disputa entre o acetato de etila com o MEK em muitas aplicações, além do bom desempenho dos negócios com o acetato de butila. “O butila é bem aceito pelas montadoras de veículos e pelo setor de embalagem, apresentando demanda crescente”, comentou.

A ICQ reforça sua atuação nos sintéticos, contando com fornecimentos competitivos de cetônicos da Sasol (África do Sul), além do isopropanol e do MIBK da Sol (Argentina). “Trazemos um pouco de ésteres da Eastman, mas a produção nacional é muito forte nas linhas de etila e butila”, informou Chamma.

As variações bruscas das taxas de câmbio prejudicaram as operações de comércio exterior neste ano, por gerar desequilíbrios. “No mundo, o preço dos solventes está caindo, mesmo em dólar”, avaliou. Ao mesmo tempo, o gerente da ICQ considera que os fabricantes locais de solventes devem buscar negócios de longo prazo no exterior, abrindo campo para a entrada de alternativas importadas.

O sítio de Paulínia-SP responde pelo fornecimento mundial de solventes sintéticos da Rhodia mundial. “Exportação, para nós, é atividade obrigatória, temos contratos de fornecimento para vários países, nos quais contamos com distribuidores”, comentou Castanho.

“Não se trata de venda de excedentes, mas de uma estratégia mundial.” A Rhodia mantém capacidade para 130 mil t/ano de ésteres, a terceira maior unidade produtora do mundo, além de 70 mil t/ano de cetônicos puros. “A linha de cetônicos roda a plena carga, enquanto a de ésteres apresenta ocupação de média a alta”, disse.

Castanho avalia o mercado mundial de sintéticos como vendedor, dada a existência de fábricas novas para atender uma demanda frouxa, principalmente com a retração da economia americana. “Há 200 mil t/ano de capacidade excedente de ésteres apenas na Europa”, afirmou.

Já os cetônicos passam por um período de equilíbrio entre oferta e demanda, embora tenha havido abundância de acetona no Golfo do México no final de 2000 e início de 2001. “Os preços já voltaram ao normal”, informou. A tendência dos oxigenados é de prosseguir na substituição dos aromáticos durante 2002, embora os preços não devam apresentar melhoria, por causa da situação econômica mundial.

Sistemas deslancham – A Bandeirante Química apostou no crescimento de demanda pelos sistemas solventes, contando com o apoio da Rhodia e da Dow, esta com linha de produtos incrementada pela absorção do portfólio da Union Carbide.

“Há uma clara evolução de negócios com sistemas, bem acima da venda dos solventes isolados”, afirmou Abreu. Os fabricantes de embalagens e de autopeças são os segmentos consumidores mais ativos, pela facilidade operacional e pelo retorno econômico da opção.

Com isso, a venda de sistemas da distribuidora cresceu de 1,5 milhão de litros por mês, em 1999, para 2,2 milhões de litros/mês, em 2000. Para ele, o Brasil conta com a vantagem de ter ampla oferta de álcool etílico (anidro) para a formulação de sistemas muito competitivos.

“Os usuários estão cada vez mais se dedicando exclusivamente para seus processos principais e comercialização de produtos, deixando de se preocupar com atividades acessórias, como a mistura de solventes”, explicou Chamma, da ICQ. Por isso, a venda de formulações está em alta, já representando de 10% a 12% da venda de solventes isolados (sem contar a produção de tíneres). “No estágio atual, estamos substituindo as formulações que os clientes já produziam, mas temos capacidade técnica e operacional para propor novas alternativas de solvência”, disse.

“Os sistemas solventes já estão conquistando novos mercados, como a indústria de couros”, afirmou Castanho, da Rhodia. Partindo do mesmo conceito técnico da linha Rhodiasolv, a empresa desenvolveu o Rhodiaeco, linha de solventes ecológicos.

O primeiro produto desenvolvido nesse conceito consiste em veículo para insumos curtentes, capaz de eliminar produtos como ácido sulfúrico no tratamento primário das peles. “O uso do ácido exige etapa posterior de neutralização com álcali, gerando um resíduo que precisa ser tratado e disposto”, explicou Castanho.

Além da redução de custos, o uso do Rhodiaeco permite reduzir até 17 horas o tempo de curtimento. “Trata-se de projeto mundial, que começou pela região Brasil”, afirmou. A linha combina correntes cetônicas e ésteres, sendo protegida por patentes mundiais. Dentro de um ano, a empresa espera ver crescimento explosivo de negócios.

Clorados recuperam clientes – A pressão ambientalista atingiu em cheio o ramo de solventes clorados, provocando o banimento de alguns itens, mas maculando a imagem de todos a partir de 1993.

Passados alguns anos, os exageros foram depurados e os clientes voltaram a consumir as linhas cloradas remanescentes.

Química e Derivados: Solventes: Pimentel - baixo consumo de energia devolve mercado aos clorados.
Pimentel – baixo consumo de energia devolve mercado aos clorados.

“Apesar de todas as dificuldades conjunturais, verificamos incremento da demanda de 4% em 2001, em relação a 2000”, informou Luiz Pimentel, gerente de marketing para solventes clorados da Dow para a América Latina.

A empresa vai investir US$ 600 mil, em 2001 e 2002, na manutenção e melhoria de processo da fábrica de solventes instalada no Distrito Industrial de Aratu, na Bahia, além dos US$ 100 mil aplicados nos dois últimos anos em comunicação, sistema de entrega, treinamento de distribuidores e usuários.

O protocolo de Montreal, instituído em 1987, indicou a eliminação da produção e do uso de dois solventes clorados: o 1,1,1-tricloroetano e o tetracloreto de carbono, comprovadamente agressivos à camada de ozônio. Os países desenvolvidos já haviam proibido a produção, mas os países em desenvolvimento poderiam continuar a produzi-los até 2010.

“A Dow decidiu fechar todas as suas fábricas de 1,1,1-tricloroetano em 1994, uma das quais ficava em Aratu”, disse Pimentel. No caso do tetracloreto de carbono, a fábrica então existente em Aratu também produzia percloroetileno. “Essa unidade foi a primeira do mundo a operar apenas com o percloroetileno, evitando produzir o tetracloreto de carbono, que não mais teria demanda.”

Da linha de clorados, o Brasil consome basicamente tricloroetileno, cloreto de metileno e percloroetileno, em aplicações diversas, da extração de princípios ativos antibióticos à lavagem a seco de tecidos, passando pelo tratamento de superfícies metálicas e plásticas.

“A produção local responde por quase 30% da demanda interna, sendo os 70% restantes importados dos Estados Unidos e da Europa”, explicou. Em Aratu, a Dow fabrica percloroetileno para todo o mercado latino-americano.

Pimentel relata que a principal preocupação das agências governamentais de todo o mundo ligadas à saúde ocupacional e meio ambiente estão voltadas para estabelecer normas para o uso adequado de solventes clorados, bem como de todos os produtos químicos.

“Isso se reflete em normas para redução de emissões, procedimentos para manuseio seguro e melhores formas de descarte de resíduos”, comentou. Essas providências impactam o mercado de solventes, na medida que equipamentos mais modernos reduzem significativamente as emissões de solventes para o ambiente (perdas), baixando a demanda.

O gerente de markting admite que os reflexos ambientais prejudicaram as vendas a partir de 1993. “Muitos usuários buscaram alternativas para os solventes clorados antes de entender o que realmente estava acontecendo”, afirmou Pimentel.

Como exemplo, ele citou o caso dos grandes investimentos empreendidos por empresas de tratamento de superfícies para adotar o desengraxe alcalino, cujo desempenho é inferior. “Isso está em franco processo de reversão no Brasil”, comentou. Em parte, a crise de energia favoreceu o retorno aos clorados. O processo alcalino consiste em imersão das peças em banho aquecido de água com sais e hidróxidos.

“A demanda energética para esquentar a água é cinco vezes maior que a requerida pelos solventes clorados”, comentou. Além disso, os solventes clorados dão origem a peças secas, enquanto o tratamento alcalino ainda exige etapa posterior de secagem em estufas, outro ponto consumidor de energia.

No futuro, o tratamento alcalino terá de conviver com outro problema: a falta de água, tarifada a valores mais altos, acompanhada de restrições mais severas para descarte de resíduos.

Também na lavagem a seco, a demanda de solventes cresceu 20% por causa da crise elétrica. “As pessoas deixaram de lavar roupa em casa, transferindo o consumo para as lavanderias, muitas com geradores próprios e todas isentas de corte de fornecimento de energia”, verificou Pimentel.

Uma das maiores vantagens econômicas dos solventes clorados é a possibilidade de reciclar totalmente o produto em processos como tratamento de superfícies e lavagem de tecidos. “Isso nos dá uma enorme vantagem econômica sobre os processos alternativos, além da baixa geração de resíduos”, disse.

Alinhada com os preceitos do programa de Atuação Responsável, a Dow selecionou rede de distribuidores capacitados, além de instruir usuários finais sobre o uso correto de produtos. No final de 2000, a companhia lançou sistema para distribuição de solventes clorados em circuito fechado.

Trata-se de recipiente reutilizável de aço inoxidável montado sobre carrinho, facilitando o deslocamento. Um sistema de bomba, mangueiras e válvulas específicas se incumbe de alimentar as máquinas das lavanderias. Com isso, foram eliminados os vazamentos e riscos de derramamentos antes existentes.

“Esses recipientes podem ser usados durante anos, acabando com o problema do descarte de tambores”, comentou. A Dow também estabeleceu parcerias com fabricantes de equipamentos e empresas de reciclagem de solventes para incentivar o descarte correto de seus produtos.

Reciclagem segura – Faltam estatísticas confiáveis sobre a dimensão do mercado de solventes reciclados no Brasil.

Apesar de as normas ambientais e a adoção de sistemas de qualidade ambiental, aliadas à maior conscientização dos usuários, indicarem claramente o caminho da reciclagem tecnologicamente avançada, empresas ligadas à atividade registram estabilidade no envio de solventes usados para recuperação.

Química e Derivados: Solventes: De Maria - unidade de Boituva recicla 400 t-mês de solventes sujos.
De Maria – unidade de Boituva recicla 400 t-mês de solventes sujos.

“De três anos para cá, houve até redução no volume enviado para nós”, disse Carlos Roberto De Maria, diretor-comercial da Speichim Brasil, subsdiária do grupo francês Tredi, que comprou a operação antes mantida pela Adesol. “A preocupação ambiental e razões econômicas devem reverter essa situação”, espera.

A Adesol, nome formado pelas primeiras sílabas de adesivos e solventes, iniciou atividades em 1972, às margens da Rodovia Anchieta, em São Paulo, destilando cloreto de metileno usado, recuperando-o.

A instalação foi logo depois transferida para o sítio de Ribeirão Pires-SP, onde depois passaram a ser fabricados polímeros para tratamento de água, negócio que se tornou o mais relevante da companhia, com 90% do faturamento, culminando com a venda, em agosto de 1999, para a francesa Suez. A negociação limitou-se à unidade de Ribeirão Pires e às marcas dos produtos para água da Adesol.

A empresa nacional continuou ativa na recuperação de solventes, atividade transferida para unidade construída especialmente para isso em 1990, na pequena Boituva-SP, onde processa em média 400 t/mês de produtos sujos, nas oito unidades de beneficiamento (destilação) multiuso, embora especializadas por grupos de produtos. “Dependendo do que a gente processa, a capacidade aumenta bastante”, explicou De Maria.

Em março de 2000, o grupo francês Tredi, com faturamento mundial da ordem de 170 milhões de euros em negócios ligados à descontaminação de áreas, monitoramento ambiental e recuperação de materiais, iniciou negociações com a Adesol, por meio da subsidiária Speichim (Sprecialité Industrielle Chimique).

O processo terminou em setembro de 2001, com o grupo francês adquirindo 60% do capital da Adesol, sendo os restantes 40% divididos entre os acionistas remanescentes, entre os quais o próprio De Maria. No Brasil, a Tredi também atua com incineração de resíduos industriais, tendo se associado à Bayer para operar o incinerador construído pela empresa de origem alemã em Belford Roxo-RJ, agora sob denominação Tribel.

Em Boituva são recuperados solventes clorados e demais solventes (hidrocarbonetos e sintéticos) aprovados pela legislação ambiental brasileira. “Não atuamos nem com produtos proibidos, nem com os de alta toxicidade, aos quais recomendamos incineração em instalações adequadas”, disse De Maria, embora admita ter capacidade técnica para lidar com estes, não o fazendo por razões econômicas.

Os principais clientes da empresa se situam em empresas metalúrgicas, gráficas e indústrias químicas, enviando quantidades de solventes a partir de dois tambores de 200 litros. Cada tambor recebido é analisado e selecionado, identificando o solvente e os contaminantes.

“Com isso, conseguimos formar lotes homogêneos, que passarão por neutralização e decantação, para separar sólidos, sendo enfim enviados para destilação”, explicou o diretor-comercial. O tempo de residência nas colunas varia conforme o produto, grau de contaminação e a pureza desejada do recuperado. Esses fatores determinam o custo da operação.

“Se a contaminação é muito alta, pode não valer a pena destilar, e o material é enviado para incineradores ou fornos de cimento, junto com os resíduos de processo”, afirmou. A Speichim pode atuar como prestadora de serviços, reciclando produtos para clientes e cobrando pelo serviço, ou comprando solvente sujo, recuperando-o, e vendendo solventes separados ou formulações de tíneres para limpeza industrial, geralmente fabricados quando a purificação total do produto é difícil.

“Quando se consegue purificar com facilidade, o solvente é devolvido para o cliente”, afirmou. O preço pago pelo solvente sujo varia conforme o volume, tipo e grau de contaminação.

“Pode até não valer nada, ser lixo mesmo, e, nesse caso, cobramos para retirar o solvente e dar a ele a destinação mais adequada.”

A companhia também produz sistemas solventes para diluição de resinas, mas, nesse caso, revende solventes virgens. Em qualquer situação, De Maria se recusa a participar de leilões de solvente sujo, por entender que isso reduz as margens da operação, comprometendo a qualidade do serviço.

“Acaba sendo um risco ambiental, que poderia ser evitado”, comentou, reconhecendo apenas dois ou três concorrentes no mercado capazes de atuar com o mesmo grau de qualidade.

O diretor da Speichim Brasil aponta alguns entraves para o desenvolvimento da reciclagem de solventes. Um deles é a destinação inadequada de resíduos solventes, seja pelo descarte irregular ou pelo envio a empresas incapacitadas para a recuperação.

Muitas vezes, o próprio usuário de solventes opera instalações cativas de destilação, para reciclo. “Isso eleva o risco ambiental e ocupacional do cliente e nem sempre é feito com a melhor tecnologia”, criticou De Maria. Nesse caso há um problema adicional. Segundo o diretor, essas unidades cativas não são licenciadas isoladamente junto ao órgão de fiscalização ambiental, mas em conjunto com as linhas principais, atendendo a requisitos menos intensos dos que são exigidos da Speichim.

“É uma concorrência desigual, porque nós passamos por vistorias feitas sob normas rígidas”, comentou. Há outro fator para a redução da oferta de resíduos solventes. “As empresas estão usando melhor os produtos, reduzindo o volume de perdas”, admitiu.

A Speichim está preparada para buscar resíduos em todo o País, encarregando-se dos procedimentos legais para acondicionamento e transporte, conforme as leis de cada Estado por onde passará a carga. O Estado de São Paulo concentra 80% dos negócios.

Segundo De Maria, há acordos informais com Dow, Rhodia e suas redes de distribuidores para indicar clientes com problemas de descarte ou reciclagem de solventes. Também os órgãos ambientais estaduais indicam clientes potenciais.

Na linha dos solventes clorados, o percloroetileno, tricloroetano e o cloreto de metileno são os produtos mais freqüentes. Já nos inflamáveis, sobressaem os tíneres, álcoois, aromáticos e ésteres. Para os próximos dois anos, a empresa vai investir US$ 200 mil em benfeitorias voltadas para proteção ambiental e também em equipamentos para operar processos contínuos.

João Miguel Chamma, da ICQ, reconhece o crescimento da recuperação de solventes principalmente na fabricação de fitas adesivas e de solventes de lavagem na indústria de tintas, apontando como exemplos de empresas capacitadas a Speichim (Adesol), Reac e Solventex.

O grupo mantém a Ipiranga Serviços Ambientais (ISA) que, entre outras atividades, pode identificar resíduos, monitorar tratamento e disposição final certificada. “Nesses casos, a ISA acompanha o trabalho de recuperação de solventes feito em instalações de terceiros”, disse Chamma.

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