Solventes: Luta pelos negócios com oxigenados

Mercado retraído acirra luta pelos negócios com oxigenados

As vendas de solventes hidrocarbonetos no Brasil sofreram uma redução de mais de 4% em volume na comparação do primeiro quadrimestre de 2014 com igual período do ano anterior, em volume, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em seu relatório mais recente.

Dados dos volumes produzidos pelas refinarias nacionais indicam uma redução de quase 10% entre os meses de maio e junho deste ano em relação aos mesmos meses de 2013.

Os números são compatíveis com o desempenho da atividade industrial do Brasil neste ano, trágico como a derrota da seleção brasileira para a da Alemanha por 7×1, no Mineirão, em Belo Horizonte-MG, na semifinal da Copa do Mundo.

O PIB industrial (geral) deste ano acumulou uma redução de 2,9% nos primeiros seis meses do ano, como atesta o IBGE. O comportamento da demanda por solventes – insumos usados em vários setores produtivos, do agronegócio aos automóveis – serve como um termômetro da economia nacional.

O desempenho dos solventes sintéticos também acusa depressão. Nesse caso, a pressão das importações provoca os fabricantes nacionais ao combate em clara situação de desvantagem: enquanto os concorrentes internacionais se valem de gás natural de baixo custo, a produção local precisa digerir os derivados de nafta cara, temperados pelo famigerado custo Brasil.

Química e Derivados, Coelho: fabricantes locais adotaram postura agressiva
Coelho: fabricantes locais adotaram postura agressiva

“A economia fraca afeta as vendas de solventes hidrocarbonetos e de oxigenados, e o problema não está na oferta, mas na demanda que não reage”, comentou André Coelho, gerente de suprimentos e produtos da quantiQ, maior distribuidora de produtos químicos do país, subsidiária da Braskem.

A companhia oferece os hidrocarbonetos produzidos por refinarias de petróleo e centrais petroquímicas nacionais, em geral para clientes industriais, a exemplo dos produtores de tintas e adesivos, bem como solventes oxigenados importados, consumidos por segmentos mais próximos ao mercado de consumo final, como flexografia e embalagem. Ambas as linhas apontam retração. “Já sabíamos que seria um ano desafiador, mas esperávamos um comportamento melhor da construção civil e da indústria automotiva”, avaliou. Coelho se apressa em informar que a quantiQ, como um todo, está conseguindo aumentar suas vendas neste ano, atuando em outros segmentos de mercado mais ativos, caso das atividades vinculadas ao agronegócio, por exemplo.

Responsável pelo contato com as distribuídas internacionais de solventes, Coelho verifica que o mercado global desses produtos está bem suprido e com preços estáveis. “O mercado local está desalinhado, os fabricantes nacionais adotaram uma postura muito agressiva de preços para enfrentar a entrada de novos atores no mercado”, comentou, citando os casos da acetona e do isopropanol.

Em relação ao abastecimento do mercado, Coelho vê um equilíbrio de oferta e demanda muito sólido, que não será afetado pelas paradas programadas de centrais petroquímicas deste ano. Isso se explica mais pela tibieza da demanda interna. Tanto que tem havido exportações de solventes.

Química e Derivados,Gabriel: demanda americana eleva preço dos aromáticos
Gabriel: demanda americana eleva preço dos aromáticos

“O mercado norte-americano está puxando mais aromáticos para aditivar combustíveis durante a driving season”, explicou Rodrigo Gabriel, diretor de desenvolvimento da Carbono Química.

Historicamente, a demanda por combustíveis automotivos aumenta entre maio e setembro e os aromáticos atuam como melhoradores de octanagem. “E, como eles estão direcionando a petroquímica para o gás natural, o suprimento interno de aromáticos está mais curto e isso puxou para cima as cotações do mercado global desses itens”. Porém é um fenômeno localizado, tanto geograficamente quanto no portfólio dos solventes, pois os alifáticos não foram afetados.

Especialista nesse mercado, Gabriel classifica como heterogêneo o comportamento comercial dos solventes neste ano. “Há uma briga forte nos oxigenados, em especial no acetato de etila, os demais produtos da linha estão normais, houve um ataque dos importados no butilglicol, mas o produtor local reagiu, apenas o etilglicol está com muitas variações, causadas por importações pontuais”, comentou.

No campo dos solventes hidrocarbonetos, as posições de mercado não sofreram alterações. “Houve um aumento de preços dos aromáticos em junho e julho e entrou um pouco de xileno de fora, nada muito relevante”, afirmou Gabriel. Fora a elevação sazonal da demanda americana por aromáticos, ele não vê mudanças no cenário global desses solventes. “Os fabricantes brasileiros tendem a acompanhar as variações dos preços internacionais, por isso o tolueno ficou mais caro, apesar de a demanda estar fraca neste ano”, comentou. Ele apontou que os preços atuais são semelhantes aos verificados no final de 2013, antes de sofrerem uma queda no começo deste ano. Limitados ao mercado interno, os alifáticos estão com preços estáveis.

Do ponto de vista dos suprimentos, o diretor da Carbono informa que a situação é normal em todos os produtos, exceto no caso do solvente para borracha, que a Petrobras deixou de produzir há cinco meses quando aperfeiçoou a produção de hexano. “Era um produto antigo que está sendo substituído por rafinados supridos pela Braskem, com desempenho idêntico, embora um pouco mais caros”, comentou.

Rodrigo Gabriel classificou a demanda atual como morna, avançando por espasmos. “Um mês a procura sobre, no outro cai”, disse. Nesse cenário, os clientes tendem a se concentrar em manter a produção com custos ainda menores, sem ter vontade para introduzir modificações. “A venda de blends com melhor desempenho técnico e ambiental, por exemplo, ficou mais lenta”, informou. Além disso, os pedidos estão sendo mais fracionados e para entrega imediata, pois os compradores não querem manter estoques.

A retração da demanda tornou mais agressiva a disputa pelo mercado, pressionando a rentabilidade dos distribuidores. “As margens estavam maiores no primeiro trimestre do que no terceiro”, disse.

A substituição de aromáticos tende a perder velocidade com o fraco desempenho da atividade industrial no Brasil.

Química e Derivados, Maranho: momento não favorece a substituição do tolueno
Maranho: momento não favorece a substituição do tolueno

“Já temos projetos em andamento para substituir o tolueno, por exemplo, mas a diferença de preço com as alternativas mais ecológicas dificulta a sua expansão em momentos de baixa, como o atual”, afirmou Luiz Maranho, gerente de titnas, adesivos e construção civil da quantiQ.

Detentora de um portfólio extenso de insumos solventes, entre eles os hidrocarbonetos alifáticos e os produtos sintéticos, ambos oferecidos para substituir aromáticos, a distribuidora atua fortemente no desenvolvimento de soluções para seus clientes.

Maranho observa que a produção de tintas automotivas para pintura original (aplicada pelas montadoras) está ainda em queda, enquanto as tintas para repintura (aplicadas nas oficinas) seguem estáveis, beneficiadas pela indisciplina dos motoristas brasileiros.

No campo dos adesivos, ele recomenda olhar para cada segmento de mercado atendido. “O setor de embalagens, por exemplo, acusa a retração do consumo das famílias”, afirmou. “Oferecemos a eles alternativas aos aromáticos que apresentam menor custo em uso.” Nesse caso, observa-se o impacto da introdução da alternativa em todas as fases da operação.

“O tolueno tem um desempenho técnico difícil de superar nos adesivos”, reconhece. Como informou, existem solventes oxigenados capazes de substituí-lo, porém seu custo nem sempre é aceito pelos clientes.

Em um ambiente tão árido, o setor agroquímico surge como um oásis. “Os produtos para a agricultura ainda usam muito os aromáticos em suas formulações, preferindo o AB9 ao xileno, mas já há uma tendência para consumir mais éster metílico e criar formulações de base aquosa”, comentou Maranho.

“O setor agro segue muito bem, com um bom consumo de hexano, para extração de óleos, AB9 e xileno”, confirmou Gabriel, da Carbono. “O problema é que, com o mercado em crise, todo mundo corre para a mesma direção e a concorrência aumenta.”

Reação nacional – Maior produtora nacional de solventes oxigenados, a Rhodia (empresa do grupo Solvay) adotou uma postura mais agressiva para enfrentar as importações de produtos concorrentes.

Química e Derivados, Janeiro: excelência operacional ajuda a ampliar competitividade
Janeiro: excelência operacional ajuda a ampliar competitividade

“A Rhodia/Solvay está presente no Brasil há mais de 90 anos, temos produção local estabelecida e vamos defender nossa posição de mercado, pois entendemos que algumas importações estão sendo feitas em condições anormais”, afirmou Viler Janeiro, diretor global de solventes da Solvay Coatis, unidade mundial de negócios dirigida a partir do Brasil.

Ele informou que 70% da produção local de solventes da companhia se destina ao abastecimento do mercado interno e apenas 30% segue ao exterior.

Na sua avaliação, a disponibilidade maior de gás natural no mercado norte-americano pouco explica essas importações. “Está entrando produto vindo dos Estados Unidos, mas também da Europa e da América Latina, regiões que não têm shale gas”, disse.

Janeiro também aponta uma retração na demanda nacional por solventes, variando sua intensidade conforme o setor de aplicação. Assim, a fabricação de tintas automotivas sofre mais do que a de embalagens flexíveis para alimentos. “Na média, a queda de demanda ficou entre 5% e 10%”, informou.

Na sua avaliação, há dois problemas básicos no setor: a tibieza atual da demanda e as condições estruturais da economia brasileira, que conspiram contra a competitividade da produção local de solventes e de outros itens. “O grande diferencial de preços com os solventes que estão sendo importados não é nem a matéria-prima, mas o custo da energia, da logística e da mão de obra local”, ressaltou. Além disso, ele considera que a moeda nacional, o real, está sobrevalorizada em relação ao dólar. Ou seja, a cotação de R$ 2,25/US$ prejudica o desempenho de toda a indústria, sendo previsível e desejável uma desvalorização para o futuro próximo.

Química e Derivados, Solventes: Mercado retraído acirra luta pelos negócios com oxigenados - Tabela
Clique p/ ampliar

Em Paulínia-SP, a Coatis mantém a produção de solventes em duas vertentes principais: dos derivados de cumeno (cadeia do fenol e da acetona) e dos produtos derivados de etanol (acéticos). Embora o impacto das circunstâncias seja semelhante nos dois grupos, Janeiro observa que a cadeia produtiva do cumeno, por ser mais longa, é a mais afetada por esses componentes externos de custos.

Além disso, o etanol está com preços deprimidos, por conta do mercado de combustíveis seguir travado por decisão governamental. “As reduções dos preços dos nossos produtos são justificadas pela variação dos preços das matérias primas”, afirmou o diretor.

“Procuramos exportar para compensar a queda na demanda interna, mas nossos principais clientes regionais, a Argentina e a Venezuela, estão em situação ainda pior”, considerou.

A solução encontrada pela companhia consiste em reforçar seu programa interno de excelência operacional, tanto nas linhas de produção quanto nas atividades logísticas. “Esses projetos nos permitem reduzir custos, sem prejuízo da segurança e da qualidade, eles fazem parte da estratégia global da companhia”, comentou.

Janeiro entende que o quadro atual é passageiro, por isso não afeta o plano de investimentos da companhia, alicerçado em prazos longos. “Apesar do elevado custo para se investir no Brasil, estamos nos preparando para iniciar em 2016 a produção de n-butanol de fonte renovável, em parceria com a GranBio”, salientou. Esse n-butanol permitirá aumentar a produção local de acetato de butila, solvente muito procurado pelos produtores de tintas automotivas. A companhia já oferece a linha Augeo de solventes derivados de glicerina de biodiesel, com melhor desempenho ambiental.

Química e Derivados, Solventes: Mercado retraído acirra luta pelos negócios com oxigenados - Tabela
Clique p/ ampliar

O diretor da Coatis explicou que o grupo empresarial só seleciona projetos de inovação que sejam mais amigáveis e competitivos economicamente. “O prêmio que o mercado paga por um produto ambientalmente correto não é muito grande”, afirmou.

A substituição do tolueno, produto perigoso à saúde dos trabalhadores, por insumos menos agressivos é um movimento global que abre espaço para os solventes oxigenados. “Cada país tem suas leis para lidar com esse tema, mas se percebe claramente uma tendência mundial de restringir o uso do tolueno”, afirmou.

A avaliação do mercado global de solventes precisa considerar a situação de cada produto. Segundo janeiro, a acetona, por exemplo, é um caso atípico, pois é um coproduto da obtenção de fenol, sendo este o principal item da cadeia. “Isso impõe uma alta volatilidade nos preços da acetona e impacta seu mercado”, explicou. Atualmente, o mundo opera com baixa ocupação de capacidades de produção de fenol e acetona, mas existem unidades de grande escala prestes a entrar em operação na Ásia.

No caso do acetato de etila, a capacidade produtiva mundial supera a demanda global, mas há poucas unidades para entrar em produção. A Solvay/Rhodia fez um acordo com a Sipchem (Saudi Arabian Petrochemicals), para fornecer tecnologia brasileira e etanol para a planta de 100 mil t/ano que foi inaugurada na cidade de Jubail, em maio de 2013. “Com parte desse acetato de etila, somado ao excedente de Paulínia, teremos melhores condições de suprir o mercado europeu”, comentou.

Quanto à recuperação do mercado nacional, Janeiro não espera nenhum movimento interessante até o segundo semestre de 2015. “2014 foi um ano atípico para a economia nacional e o primeiro semestre de 2015 deverá ser consumido para ajustes macroeconômicos que não favorecem imediatamente a retomada da atividade industrial”, prognosticou.

Semelhante visão tem Gabriel, da Carbono Química. “Não dá para saber ainda quão profundos serão os ajustes a serem feitos em 2015, talvez seja possível termos uma recuperação no segundo semestre”, considerou.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.