Soda cáustica: Flutuações de oferta e de câmbio mexem com preços

Química e Derivados - Montanhas de sal darão origem ao cloro e à soda de uso industrial
Montanhas de sal darão origem ao cloro e à soda de uso industrial

Álcalis – Soda cáustica – Flutuações de oferta e de câmbio mexem com preços, mas demanda perde força

Conhecidos desde a antiguidade, os álcalis ainda são largamente utilizados em todo o mundo em operações diversas, em especial na neutralização de meios ácidos. Pela amplitude de seu uso, o consumo de alguns desses produtos é considerado indicador de desenvolvimento econômico de um país, caso da soda cáustica, por exemplo.

O termo álcali é muito abrangente, mas podem ser destacadas algumas substâncias químicas em razão de seu volume de comercialização mundial. A soda cáustica (NaOH), a potassa cáustica (KOH) e a barrilha (Na2CO3) se enquadram nesse critério.

O hidróxido de sódio, mais conhecido como soda cáustica, é o principal componente do grupo, com capacidade produtiva instalada no mundo de 93,7 milhões de toneladas em 2019, segundo a consultoria Global Data. Antes do aparecimento do novo coronavírus, essa consultoria apontou 41 projetos de investimento no mundo, principalmente na Ásia, que elevariam o potencial produtivo para 98,6 milhões de t até 2023.

Química e Derivados - segmentação do consumo da produção nacional - jan/dez/2019
segmentação do consumo da produção nacional – jan/dez/2019

No Brasil, a capacidade instalada de produção de soda, próxima de 1,6 milhão de t/ano, registrou queda na taxa de utilização em 2019, chegando a 56%, muito abaixo dos 72% ocupados em 2018. A paralisação da unidade de cloro-soda da Braskem em Alagoas, iniciada em maio de 2019, explica essa variação. A Braskem deve retomar em maio de 2020 a operação, usando sal adquirido de terceiros, pois assinou acordo com o Ministério Público para desativar a mineração local.

A fonte industrial desse hidróxido é a eletrólise do cloreto de sódio. Quem determina a taxa de ocupação é a demanda por cloro, gás tóxico de difícil estocagem. Quando a produção de PVC, maior consumidora de cloro, e também a de químicos, como óxido de propeno e isocianatos, é elevada, as eletrólises rodam a plena carga, aumentando a oferta de soda.

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No entanto, o mercado brasileiro de soda supera a capacidade instalada, exigindo importações, que foram ampliadas em 2019 para compensar a parada da unidade alagoana, uma das maiores do país. No ano passado, importadores buscaram soda nos Estados Unidos, China e Polônia, entre outros, para manter abastecidos os mercados consumidores.

Química e Derivados - Penna: demanda por soda já estava baixa no ano passado
Penna: demanda por soda já estava baixa no ano passado

“Curiosamente, a demanda por soda cáustica em 2019 caiu muito no Brasil nos segmentos consumidores mais relevantes, como papel e celulose, químicos e alumínio, sem que a parada de Alagoas causasse elevação local de preços, também baixos no exterior”, comentou Martim Afonso Penna, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor).

Com o avanço da Covid-19 na China, Europa e América do Norte, houve retração industrial e redução da oferta de soda, puxando o preço para cima em escala global. “As primeiras cargas que puxei em maio vieram com até 60% de aumento de preço”, comentou Marcelo Silva, diretor da Basequímica, de Ribeirão Preto-SP, importante revendedora de soda cáustica da Unipar e da Olin (comprou os negócios mundiais de soda-cloro da Dow). “No ano passado, a parada da Braskem de Alagoas provocou uma instabilidade de preços, logo controlada com importações, aliás, o preço da soda permaneceu baixo nos últimos dois anos.”

André Castro, diretor da distribuidora Morais de Castro, com sede em Salvador-BA, confirma o aumento das cotações, adicionando outro fator. “A desvalorização acentuada do real frente ao dólar também impacta o preço dos produtos importados”, salientou. Ele informou que a região Nordeste não registrou problemas de abastecimento mesmo com a parada alagoana. “A Braskem deve retomar em breve a operação de cloro-soda em Alagoas, mas vai fechar, simultaneamente, a eletrólise com células de amálgama de mercúrio de Camaçari-BA, uma unidade pequena, para 70 mil t/ano de cloro, mas que também está equipada para produzir hipoclorito, o que não é o caso de Alagoas”, explicou.

Química e Derivados - Castro: dólar mais caro gerou forte impacto nas cotações
Castro: dólar mais caro gerou forte impacto nas cotações

A região conta com outros fornecedores do insumo, muito usado como desinfetante e no tratamento de água, em Pernambuco, Ceará, Maranhão e, também, no Espírito Santo.

Castro comentou que a soda já teve papel mais destacado no faturamento da distribuidora, embora ainda seja importante para o negócio. “É um produto estratégico, como ele é usado por muitos segmentos industriais, ajuda a abrir portas para outros itens do portfólio; em geral, a venda de soda exige lidar com grandes volumes, temos estrutura logística para isso, conseguimos otimizar os fretes e reduzir custos para os clientes”, afirmou.

Química e Derivados - Silva: mercado caminha para um novo ponto de equilíbrio
Silva: mercado caminha para um novo ponto de equilíbrio

Luiz Carlos Silva, gerente estratégico de produto da Brenntag na América Latina, entende que o mercado caminha para um novo equilíbrio. “Com a recente desaceleração da economia mundial, a demanda de insumos químicos pela indústria da construção civil, automobilística, de poliuretanos, entre outras, tem diminuído significativamente, o que leva a reduzir a produção de soda. Por outro lado o mercado consumidor de soda, principalmente alumínio e papel e celulose, também dependem da atividade econômica, sendo que o alumínio está sendo bastante impactado nesse momento, com menor demanda. Por enquanto os pratos dessa balança estão se equilibrando, mas tudo depende de quando a atividade industrial voltará a crescer”, comentou. Como a importação do álcali pelo Brasil é elevada, Silva prevê que, caso a atividade industrial não se recupere, poderá haver um desequilíbrio no mercado, pressionando os preços.

A importação de soda é feita na forma líquida. A operação com formas sólidas, como as escamas, é restrita a poucos usuários. “O custo para desidratar a soda e depois reidratá-la no destino é muito alto, não compensa a diferença do frete”, explica Martim Afonso Penna, da Abiclor.

Silva, da Basequímica, confirma a preferência dos clientes pela soda líquida. “A diluição da soda em escamas é uma operação complicada, exige ter instalações adequadas, além disso, manipular sacaria é diferente de lidar com granel líquido”, considerou. Em geral, quem procura soda em escamas são consumidores até 8 a 10 t/mês situados em locais muito distantes, interessados em reduzir a conta do transporte. “Nos últimos 25 anos, a demanda está se dirigindo para a forma líquida”, salientou.

André Castro aponta outro tipo de cliente interessado em soda na forma sólida. “Há processos que são realizados na forma sólida, não usam soda líquida”, considerou. A Morais de Castro se abastece com soda em escamas da Carbocloro ou mediante importação.

A parada de Alagoas provocou uma reação abrupta de mercado, como observa o gerente da Brenntag, mas de curta duração. “Os fabricantes de soda cáustica e os distribuidores reagiram rapidamente e em tempo bastante curto, entre 50 e 60 dias, o fornecimento de soda foi regularizado, com estrutura logística adequada naquele momento”, comentou.

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A Brenntag com armazéns e pontos de faturamento em todo o país, atendendo a todos os segmentos consumidores de soda cáustica. A distribuidora comprou no ano passado a Quimisa, empresa com forte presença na região Sul, reforçando estrategicamente a sua posição de mercado.

As importações de soda cresceram significativamente em 2019, influenciando o mercado de outros álcalis. “A própria Braskem passou a importar soda para suprir seus clientes depois da parada de Alagoas, além disso, o preço internacional muito baixo levou alguns processos industriais a substituir, quando possível, o uso de barrilha pela soda”, avaliou Pedro Nelson Almeida, vice-presidente de operações da Manuchar.

Mesmo assim, ele não vê problemas de abastecimento desses produtos. “Parece-nos que a oferta mundial está bastante equilibrada até o momento, tanto de soda como de barrilha, pois não percebemos nenhuma dificuldade nos embarques que tínhamos programado junto aos nossos fornecedores”, informou.

Efeito global – As oscilações do mercado de soda cáustica precisam ser observadas em âmbito global. “O preço da soda está subindo no mundo, mas é preciso salientar que essas cotações estavam próximas da faixa mínima histórica, de US$ 200/t, em dezembro”, disse Maurício Russomano, presidente da Unipar e, desde 8 de maio, presidente da Abiclor e da Clorosur, além de assumir o Sinálcalis em 15 de maio. “As restrições decorrentes da Covid-19 provocaram queda da atividade produtiva e da oferta de soda em todo o mundo, por isso o preço subiu.”

Química e Derivados - Russomano: cuidados sanitários mantêm indústrias em operação
Russomano: cuidados sanitários mantêm indústrias em operação

Como informou, as cotações internacionais da soda giram entre US$ 300 e US$ 350 por tonelada, ainda muito distantes dos picos históricos de preços do setor. “Estamos voltando aos preços médios históricos, mas é preciso ver como ficará a atividade industrial e o consumo de produtos finais quando sairmos dessa crise sanitária”, salientou.

A indústria de cloro-soda, considerada atividade essencial, manteve a produção ininterrupta, garantindo o suprimento de produtos para tratamento de água e sanitização. “O setor adotou todas as medidas de higiene segurança recomendadas para evitar o contágio de seus colaboradores, inclusive com a oferta de transporte exclusivo para que o pessoal da operação não usasse o sistema público”, comentou.

Russomano também explicou que algumas empresas associadas da Abiclor produzem cloro para outros fins que não a fabricação de PVC. Essas companhias seguem operando bem e colocando soda no mercado. “As produtoras de cloro-soda integradas ao PVC estão formando estoques da resina, mantendo a produção de soda”, disse. “As indústrias do setor também estão participando do combate ao coronavírus mediante a doação de volumes significativos de hipoclorito para hospitais, municípios e instituições de interesse público em todo o país.”

O desafio para a indústria nacional é ganhar competitividade em relação aos concorrentes internacionais. A capacidade instalada de soda-cloro no Brasil é baixa e está estagnada há anos. “O câmbio nos afeta na importação da matéria-prima, o sal; pagamos de três a cinco vezes mais caro pela eletricidade; e temos uma infraestrutura logística muito menos eficiente do que a de outros países, ou seja, vencer o desafio de investir para adicionar capacidades produtivas não depende apenas das empresas do setor”, ressaltou.

Grande consumidora de eletricidade, a indústria de soda-cloro tem especial preocupação com o insumo. Martim Afonso Penna considera que há no Brasil oferta desse tipo de energia em qualidade e quantidade suficiente, porém os preços cobrados da indústria são muito elevados. “Uma forma de reduzir esse custo seria adotar a figura do consumidor livre de energia também para o gás natural, com isso, ficaria mais viável investir na geração termelétrica”, salientou. A Abiclor participa do Fórum Nacional do Gás Natural, que discute soluções para o melhor aproveitamento dessa fonte energética.

Química e Derivados - IMPORTAÇÃO CRESCEU EM 2019
IMPORTAÇÃO CRESCEU EM 2019

Outro desafio para o setor é a atualização tecnológica. Como signatário da Convenção de Minamata, o Brasil se comprometeu a desativar todas as linhas de produção eletrolíticas que operam com amálgama de mercúrio até 2025. “É um prazo fatal, nenhuma célula de mercúrio poderá funcionar a partir desse ano, e o Brasil usa esse tipo de tecnologia em 14% de sua capacidade produtiva”, explicou.

A tecnologia não é o problema, as células de membrana têm sido preferidas para essa substituição. A grande dificuldade é o investimento necessário para tanto. “O setor busca recursos, existe uma linha internacional de financiamento para eliminar as células de mercúrio”, disse.

A Unipar usa a tecnologia de amálgama de mercúrio em uma de suas linhas de produção, em Cubatão-SP. “Faremos essa substituição até 2025, o timing será dado pela evolução da demanda, mas isso vai comprimir nosso caixa, com certeza”, afirmou Russomano.

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