Sistemas tintométricos reduzem custos na cadeia produtiva

E conquistam novos mercados: Tintas e revestimentos

As vantagens logísticas associadas a uma oferta maior de cores estão acelerando o uso do sistema tintométrico no Brasil.

Este sistema também é conhecido como tintas tingidas.

A demanda por máquinas cresceu significativamente na pandemia por conta dos puxadinhos residenciais.

Estes são construídos nas bordas das grandes cidades, facilitados pelo auxílio emergencial.

O modelo de negócio também foi impulsionado pela necessidade dos fabricantes de tintas usarem-no para a produção de suas próprias pastas pigmentadas, buscando reduzir custos operacionais, principalmente com energia e compra de matérias-primas.

Sistemas tintométricos reduzem custos na cadeia produtiva e conquistam novos mercados ©QD Foto: Divulgação
Mario Fernando de Souza, diretor comercial da Galstaff Multiresine

“Imagine uma mesma pasta que possa ser utilizada em um sistema alquídico, epóxi, acrílico e vinílico etc. De fato, essa sinergia proporciona muita facilidade e economia de tempo e redução de custo para as empresas. Por todos esses aspectos, a maior parte da indústria está aderindo a este sistema. Isto repercute no crescimento da demanda e o negócio acaba se tornando uma tendência em termos de fabricação própria das pastas pigmentadas”, explica Mario Fernando de Souza, diretor comercial da Galstaff Multiresine, fornecedora de pastas e resinas.

Durante a crise sanitária os negócios ligados à produção e venda de tintas ou de cores, como também é conhecido, deram um salto, elevando o ritmo da evolução que estava em curso.

“A demanda por máquinas mais que dobrou nos últimos dois anos, puxada principalmente pelas vendas em lojas de bairro, motivadas pelas facilidades do sistema tintométrico”, avalia Vanessa Vitória, gerente de marketing da Vitória & Companhia.

O aquecimento representou “um legado positivo da pandemia”, diz a gerente da Vitória & Cia., representante exclusiva da Fluid Management, empresa norte-americana com mais de 70% de market share global de mix machines.

Ao comparar o desempenho do setor no Brasil com o global, ela disse que, atualmente, pouco mais de 25% do mercado brasileiro aderiu à essa modalidade.

Nos Estados Unidos e na Europa o percentual supera 90%.

A alavancagem do tintométrico repercutiu também na produção de tintas voltadas a segmentos específicos de consumo.

“Registramos um crescimento bastante significativo em tintas arquitetônicas por conta do investimento das famílias em pequenas reformas. Esse movimento ocorreu tanto na classe média, com o home office, como na baixa renda”, afirmou Marcio Grossmann, diretor-presidente da PPG América do Sul.

O aumento também foi registrado na linha branca e marrom, puxado pela expansão do consumo de eletrodomésticos, acrescentou.

Nos pontos de vendas, há uma clara vantagem dos sistemas tintométricos, em termos de logística e estoque, pois o controle da armazenagem ocorre somente nos volumes das bases e dos colorantes.

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Milton Yoshio Uehara, responsável técnico da Heubach América Latina

“Esse tipo de gestão difere do das tintas tradicionais prontas, nas quais o monitoramento do estoque varia de acordo com cada cor do catálogo e do histórico de vendas por cor”, observa Milton Yoshio Uehara, responsável técnico da Heubach América Latina, que adquiriu, recentemente, a divisão de pigmentos da Clariant.

Embora os sistemas tintométricos estejam presentes na ampla maioria dos home centers e das revendas especializadas em tintas, ainda é possível ampliar sua penetração, avalia Luiz Cornacchioni, presidente-executivo da Abrafati – Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas.

A expansão pode ocorrer tanto por meio da implantação de máquinas adicionais nas mesmas lojas como naquelas que ainda não as possuem, complementa o dirigente setorial.

Há espaço para crescimento também nos estabelecimentos que revendem materiais de construção e acabamento em geral (incluindo tintas).

Nesses pontos de venda, o número de equipamentos é relativamente baixo, o que reforça a tendência de aumento, no médio e longo prazos, segundo comentou.

A situação é similar no segmento de tintas de repintura automotiva, representado por pequenas concessionárias e oficinas, nas quais o sistema tintométrico ainda não chegou.

Sistemas tintométricos reduzem custos na cadeia produtiva e conquistam novos mercados ©QD Foto: Divulgação
Pintura automotiva também conta com sistemas tintométricos ©QD Foto: Divulgação/PPG – Bernardo Coelho

Já nas oficinas maiores existe um número significativo desses equipamentos em funcionamento, observa Cornacchioni.

Mais uma oportunidade de expansão se encontra entre as empresas de tintas decorativas que ainda não fazem parte desse mercado, lembra Diogo Lima da Silva, coordenador técnico da Colormix Especialidades.

Além de ampla possibilidade de cores, o sistema tintométrico permite que as especificações desejadas pelos clientes fiquem prontas em cerca de dez minutos, observa.

O total das vendas de tintas de revestimento (imobiliárias, de repintura automotiva, automotivas originais e as utilizadas pelas mais variadas indústrias) equivale a 0,2% do PIB brasileiro, segundo a Abrafati.

No período de 2020 a 2021, a indústria de tintas registrou um crescimento da ordem de 5% ao ano. Hoje o Brasil ocupa a quinta posição no ranking mundial dos produtores de tintas de revestimento, atrás dos Estados Unidos, China, Índia e Alemanha.

Estratégia comercial – Inovação, diversidade e atendimento estão entre os principais fundamentos da estratégia de venda dos fornecedores de máquinas para o sistema tintométrico.

O portfólio também leva em conta as necessidades técnicas de cada comprador, bem como a conformidade entre o uso e as especificações do equipamento adquirido.

O propósito é garantir tanto a boa performance da máquina como a fidelização do cliente, inclusive por região do planeta.

Com foco na linha de tintas imobiliárias e de olho em países emergentes, como o Brasil, a Fluid lançou, em 2013, seu carro-chefe, a dosadora X-Smart, automática e modular, com 16 reservatórios (de 2,3 litros cada) e capaz de facilitar a correção rápida de erros mediante reservatórios “estepes”, sem perda de corantes, informa Vanessa Vitória.

Em 2017, a tecnologia evoluiu para o modelo X-Protint, com reservatórios de 4,5 l para os corantes de maior demanda, e mais que dobrou a velocidade de dosagem, passando de 210 ml/min para de 500 ml/min, ou seja, de 75 galões/dia para mais de 150 galões/dia.

Com o upgrade, cerca de 150 mil unidades já foram comercializadas em todo o mundo, representando 80% do volume total de vendas da Fluid, seguidas por misturadores e dosadoras da linha Accutinter, acrescenta.

A IM Group, que fabrica seus sistemas em unidades localizadas na Itália, Alemanha, China e Estados Unidos, destaca-se na América Latina com a venda de quatro modelos básicos de máquinas tintométricas feitos sob medida, conforme as necessidades de cada cliente, como informa o gerente de vendas Fernando Itaziki.

Um deles (P32/48/72/96) é considerado top de linha, destinado a consumo médio/alto, sendo totalmente flexível e configurável.

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Fernando Itaziki gerente de vendas da IM Group

“A série P é a linha de equipamentos mais avançada da Inkmaker (subsidiária da IM Group), com possibilidade de automação completa do sistema. Ela é conhecida pelas denominações P32, P48, P72 ou P96, onde o número representa a quantidade máxima de válvulas de dosagem de alta precisão que o equipamento comporta. Por exemplo, o P96 pode ser equipado com 96 válvulas, no máximo”, esclarece Itaziki.

Em termos de volume, mais de 90% dos equipamentos comercializados na região correspondem aos chamados modelos mais básicos/médios.

Porém, com relação ao faturamento, os sistemas da série P ultrapassam 25% do valor total, por serem mais completos e, normalmente, com muitas opções integradas, diz Itaziki.

“Estamos presentes em segmentos como tintas, embalagens, químicos, têxtil, cerâmica, cosméticos entre outros. Fornecemos solução completa, desde um equipamento de dosagem simples até uma automação em conformidade com todo o processo produtivo do cliente”, afirma Itaziki.

A empresa também desenvolve softwares que permitem integrar o sistema de dosagem com outras ferramentas de gestão do cliente.

O custo dos serviços prestados é estimado em aproximadamente 15% a 20% do valor do equipamento, incluindo o software de gestão da máquina.

Na Vitória & Cia., a assistência técnica é multimarcas e mais voltada para revisões periódicas em equipamentos concorrentes instalados em plantas de clientes, principalmente para calibração.

Os cuidados com as máquinas Fluid equivalem a menos de 5% do volume de serviços, com destaque para instalações.

O bom desempenho operacional é fruto da alta performance da linha X-Series, informa Vanessa.

Fabricantes pegam a onda – Revestimentos funcionais, produtos mais amigáveis e soluções alinhadas com avanços tecnológicos de determinados setores vêm definindo as novas tendências na produção de tintas.

As mudanças coincidem, de certa forma, com a chamada democratização do sistema tintométrico.

Ou seja, tingir ainda mais o mercado ao disponibilizar maior oferta de cores, buscando satisfazer aos mais variados públicos e gostos diferenciados.

Ao traduzir, na prática, esse movimento a Iquine – terceira maior produtora nacional de tintas – vem atuando em duas frentes, como resumiu o gerente de relacionamento técnico do grupo, Jorge Holanda.

De um lado, ampliar cada vez mais a instalação de máquinas no Brasil, de olho nos segmentos de arquitetura e decoração.

Holanda justifica que ambos são os mais familiarizados com o uso do sistema que a empresa denomina Icores.

“O equipamento facilita uma grande variedade de produtos e quantidade de cores, com acabamentos e um preço justo para os clientes”, afirma o gerente.

Em outra frente, manter o foco em seu carro-chefe, o esmalte “Topa Tudo a Base de Água” (100%), com mais de cinco mil opções de cores.

É uma tinta versátil, disponível nos acabamentos alto-brilho, acetinado e fosco, podendo ser aplicada a diversos tipos de superfícies como metais ferrosos, alumínio, galvanizados, alvenaria, madeira e PVC. A secagem ao toque ocorre em 30 minutos e a definitiva em 5 horas, segundo Holanda.

A PPG América do Sul lançou globalmente uma tinta antimicrobiana contendo uma tecnologia capaz de matar 99,9% de bactérias e vírus da superfície pintada.

O poder de proteção superficial inclui a eliminação de organismos danosos ao ser humano, como o novo coronavírus da Covid-19, em apenas duas horas, informa Marcio Grossmann, diretor-presidente.

A novidade é disponível na forma de tinta pronta.

Aplicações marítimas visam impedir incrustações, porém sem usar microbicidas potentes.

Ao facilitar a criação de uma superfície extremamente lisa, essa linha de produtos reduz a resistência à fricção do casco de navios, diminui o consumo de combustível e as consequentes as emissões de CO2 e SO2.

Essas tintas também são aplicadas sobre superfícies expostas às intempéries, a exemplo de torres de energia eólica, pisos e estruturas de plataformas de petróleo, podendo ser produzida por sistemas tintométricos específicos.

Na área de revestimentos, a empresa oferece uma tinta pronta usada em baterias de carros elétricos, que proporciona isolamento térmico.

O produto também evita a dispersão do calor gerado pelo equipamento durante o funcionamento do veículo, garantindo maior segurança e conforto aos usuários.

Ainda com foco na indústria automotiva, destaca-se o sistema MoonWalk, um misturador de tintas de alta tecnologia, voltado para repintura.

O segmento responde por cerca de um quarto dos negócios da companhia, tanto em vendas como em volume, segundo Grossmann.

Ele acrescentou que a empresa vem crescendo acima da média do setor e que deverá investir US$ 2,7 milhões este ano, em ampliação e modernização de fábricas.

Desafios do sistema – Mesmo com os avanços e boas perspectivas de crescimento, muitos desafios ainda terão que ser enfrentados para que o sistema tintométrico se consolide no Brasil.

Dentre eles, destacam-se a capacitação profissional, incluindo pintores e balconistas de lojas.

Há também barreiras culturais sustentadas pela acomodação de alguns empreendedores, ainda adeptos do modelo tradicional de negócio.

Na maioria das vezes, controladores de empreendimentos antigos resistem a montar lojas modernas e atrativas ao consumo de cores, repetindo a máxima de que “sempre foi feito daquela maneira”, diz Vanessa Vitória, da Vitória & Companhia.

Em sua opinião, a profissionalização reduziu a resistência dos pintores, mas as lojas ainda terão que se modernizar, em termos tecnológicos, e treinar melhor os vendedores.

Sistemas tintométricos reduzem custos na cadeia produtiva e conquistam novos mercados ©QD Foto: Divulgação
Vanessa Vitória, gerente de marketing da Vitória & Companhia

“Muitas vezes, os balconistas têm medo de operar os equipamentos, pois os erros de dosagem podem ser descontados de seus salários. A negociação com os clientes também leva mais tempo, motivando-os a ofertar tinta do ready mix, para agilizar a venda. Tecnologias muito antigas de sistemas, que demandam constantes manutenções e muitas paradas, também desestimulam a venda de cores e fazem o lojista repensar sua estratégia de divulgação do sistema tintométrico”, afirma.

A estrutura e disponibilidade de equipamentos para moagem também deixam a desejar, segundo Mario Fernando de Souza, da Galstaff Multiresine.

O quadro é semelhante no que diz respeito à mão-de-obra específica para o desenvolvimento das pastas pigmentadas, mais especificamente para a indústria de tintas, acrescenta.

“As vantagens técnicas e os ganhos produtivos que se obtém com um equipamento automático são conhecidos por todos. O maior desafio é conseguir adivinhar o momento certo de investir no equipamento”, afirma o gerente de vendas da IM Group, Fernando Itaziki, ao se referir à conjuntura econômica e política do país.

Diogo Lima da Silva, coordenador técnico da Colormix Especialidades, concorda com Itaziki. “Como grande parte dos produtos que utilizamos tem produção fora do Brasil, temos, igualmente, grandes desafios no que diz respeito às variações cambiais. Há também gargalos logísticos e internos como portos, transporte etc.”

“No que se refere à venda de tintas, os principais desafios para a maior alavancagem estão ligados ao aumento da renda média, o que vale para a venda direta de tintas e de produtos pintados”, observa Luiz Cornacchioni, presidente-executivo da Abrafati.

Outro fator, segundo ele, “é o crescimento do valor percebido das tintas e da pintura, que é mais forte para as tintas imobiliárias”.

O sistema tintométrico é particularmente afetado nesse caso pelo impacto dos custos operacionais bem como sua repercussão na venda, diz Milton Yoshio Uehara, responsável técnico da Heubach América Latina. Ele argumenta que grande parte do consumo de tintas decorativas é de qualidade econômica e standard.

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