Setor têxtil: Plataforma integra indústria ao varejo

– Setor têxtil: Acompanhando de perto há 30 anos a cadeia têxtil brasileira, desde a produção, varejo, consumo e comportamento, o Instituto IEMI – Inteligência de Mercado, dirigido, por Marcelo V. Prado, desenvolveu uma plataforma de compartilhamento de dados que será oferecida aos afiliados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções – Abit.

A ferramenta on-line tem como objetivo a integração entre indústria e varejo, para promover melhor identificação das oportunidades do mercado e maior assertividade nas estratégias comerciais, contribuindo para a melhoria de performance das empresas do setor.

Como analisa o contraste entre a queda nas vendas das lojas físicas e o incremento nas plataformas digitais?

Marcelo Prado: Nos últimos cinco anos, o e-commerce cresceu mais de 70% ao ano, contra 2% a 3% das lojas físicas, impulsionado principalmente pela pandemia de Covid, em 2020/21. No vestuário, em particular, as compras on-line, que antes representavam 4% das vendas do setor, saltaram para 9% do total. As vendas diretas ao consumidor, tanto no modelo omnichannel adotado pelos varejistas, que integra suas lojas físicas e virtuais, quanto nas plataformas de marketplace já vinham se desenvolvendo no Brasil, mas tiveram um boom expressivo durante o período de fechamento do comércio por causa da crise sanitária, e acabou se consolidando no mercado brasileiro de bens de consumo.

O fator novo nessa equação, e extremamente negativo para as indústrias e o varejo local, mas que elevou as vendas de roupas e artigos têxteis pela internet, foi a massiva comercialização de produtos importados de baixo custo nas plataformas, diretamente aos consumidores, aproveitando-se da portaria que estabelecia alíquota zero do imposto de importação sobre compras internacionais até US$ 50 dólares – o que acabou gerando uma competição desleal tanto para o e-commerce local quanto para as lojas físicas brasileiras, além de ameaçar a cadeia produtiva nacional.

Com o encerramento da isenção de impostos para compras internacionais nestas plataformas, haverá mais equilíbrio?

Prado: A isenção antes era apenas para remessas entre pessoas físicas, mas a regra atual permite também a venda de pessoa jurídica para consumidores diretos (B2C) para as plataformas internacionais que aderiram ao plano de conformidade da Receita Federal.

Com relação ao equilíbrio de preços entre produto importado e produto feito no Brasil, a paridade talvez não aconteça porque a vantagem competitiva do vestuário produzido na China e em outros países da Ásia é muito grande. Os fabricantes dispõem de incentivos tributários, subsídios para investimentos e estímulos cambiais promovidos pelos governos, visando justamente a exportação, além da baixa regulamentação e normas exigidas dos fabricantes.

No Brasil, as empresas do setor saíram da pandemia endividadas, pois tomaram crédito para manterem suas operações durante a crise e ainda enfrentam uma carga de impostos pesada. Soma-se a isso, a queda no consumo das famílias, provocada pelo baixo crescimento da renda média, do endividamento elevado e da alta da inflação que impactaram o desempenho do varejo em 2022 e 2023. O número de peças produzidas de vestuário em 2023 ficou 16% abaixo do volume produzido em 2019 e hoje está limitado à capacidade de endividamento das famílias e à concorrência com os importados.

Setor Têxtil: Qual o principal objetivo da plataforma ABIT.IEMI.io, lançada em 2023?

Têxtil: Plataforma integra indústria ao varejo ©QD Foto: iStockPhoto
Marcelo V. Prado do Instituto IEMI

Prado: Trata-se de uma ação conjunta em favor dos associados da Abit. O IEMI produz um amplo banco de dados, na forma de catálogo impresso, sobre a indústria, varejo, consumo e comportamento há mais de 30 anos.

Essas informações agora serão disponibilizadas on-line, de maneira organizada, acessível e customizada, ou seja, por nichos de mercado.

Essa plataforma vai orientar como a empresa pode se posicionar melhor em cada região com seu produto, verificar seu público-alvo, comparar preços e dados econômicos. Além disso, teremos na plataforma uma gama de estudos prontos que poderão ser acessados pelos assinantes, sobre o seu mercado. É uma ferramenta para que as empresas possam escolher os melhores caminhos para o seu negócio especificamente.

Setor têxtil: Como vê a contribuição da indústria química para a sustentabilidade dos têxteis?

Prado: Sem a química, não existe produto têxtil. No passado, a indústria química teve um momento em que seu foco se concentrava no desenvolvimento de insumos que trouxessem atributos aos tecidos e roupas, ainda sem um conhecimento maior quanto aos seus impactos nos processos de produção, beneficiamento e descarte. Hoje, a nova química traz soluções que vão além, tanto na agregação de atributos relevantes ao produto, mas também na proteção do meio ambiente. Dessa forma, o setor têxtil depende muito da parceria e da inovação da indústria química para o seu próprio desenvolvimento.

A sustentabilidade, além de todo o seu propósito em relação a cuidar do meio ambiente e da saúde das pessoas, deve ser analisada, também, como um conjunto de ações que contribuem para a redução de custos e aumento da produtividade; gerando redução no consumo de água e energia, reaproveitando materiais, facilitando a destinação de resíduos, através do aumento da sua biodegradabilidade, entre outros. Hoje, entre 20% e 25% dos têxteis são tecnicamente possíveis de serem reciclados e reaproveitados.

No futuro, a indústria terá que rever a produção de tecidos com misturas de fibras – por exemplo, algodão com elastano – pois isso dificulta a sua reciclagem, sugerindo que novas soluções precisarão ser desenvolvidas para melhorar os percentuais de reaproveitamento, sem perder atributos que estão presentes nos artigos têxteis e que tanto atraem os seus consumidores.

A inovação e a oferta de novos produtos químicos para o setor é uma questão estratégica, entretanto, a indústria nacional necessitará de apoio de políticas públicas que sejam capazes de fomentar a pesquisa e implantação das inovações desejadas pelo mercado.

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