Segurança – Aspectos de Segurança na Cimentação de Poços de Petróleo

Texto: Jan Fernandes Aslan

Química e Derivados, Segurança: Aspectos de Segurança na Cimentação de Poços de PetróleoOs riscos relacionados à segurança das operações devem ser analisados por cada equipe responsável, desde a fase conceitual do projeto até a sua execução. Esta prática, uma vez negligenciada, pode dar origem a acidentes como o da sonda Deepwater Horizon, no prospecto de Macondo, onde a explosão da plataforma resultou no derramamento no mar de mais de 4 milhões de barris de petróleo e na perda das vidas de 11 funcionários.

Blowouts (como o ocorrido em Macondo) são eventos de fluxo descontrolado de fluidos da formação para a superfície devido a alguma falha no sistema de controle da pressão no poço. Segundo a Mineral Management Service (MMS), agência americana equivalente à ANP no Brasil, durante o período entre 1992 e 2006, o principal fator que contribuiu para blowouts na porção offshore americana foi a cimentação (18 em 54 blowouts reportados).

A cimentação em poços de petróleo é basicamente a colocação de pasta de cimento numa porção do poço com o objetivo de isolar hidraulicamente diferentes zonas de interesse que foram deixadas expostas durante a sua perfuração. A importância do isolamento dessas zonas, além da produção seletiva de hidrocarboneto na profundidade de interesse, é compor com ele um sistema de barreiras de segurança, em conformidade com a Portaria da ANP N° 25, sendo um dos elementos de integridade do poço.

As falhas na cimentação, se não forem identificadas ou controladas, podem dar origem a acidentes que provocam danos pessoais, materiais, ambientais e financeiros. Além de prejudicar a imagem das empresas envolvidas.

Química e Derivados, Segurança: Aspectos de Segurança na Cimentação de Poços de PetróleoA mitigação dos riscos na cimentação de poços trata essencialmente do seguimento das boas práticas aplicáveis para cada tipo de operação e da compreensão e utilização de técnicas para combater a migração de gás que é considerado um cenário de risco mais elevado devido às dificuldades de detecção de um influxo.

Cimentando um Poço de Petróleo

Depois de perfurada a fase do poço (Gráfico 1), tubos de revestimento de aço carbono são enroscados e descidos com sua base posicionada próxima da profundidade final da perfuração (Gráfico 2).

Gráfico 1 e 2

Depois de posicionado o revestimento no fundo do poço, é iniciada a circulação do fluido de perfuração por meio das bombas da sonda. A base do revestimento (sapata) possui válvulas que permitem a passagem do fluido de perfuração do interior do revestimento para o espaço anular do poço, mas fecham a passagem quando o bombeio é interrompido.

Após o fim da circulação, inicia-se o bombeio de colchão espaçador e pasta de cimento pelo interior do revestimento. Um tampão de borracha instalado no topo do revestimento é usado para separar a pasta de cimento do fluido de perfuração. Este tampão é empurrado pelo fluido de deslocamento com uma vazão programada (f). O final da cimentação (Gráfico 3) é alcançado quando o tampão de borracha topa no colar flutuante, impedindo a continuidade do fluxo. Dessa forma, o cimento empurrado pelo tampão de borracha fica posicionado dentro do revestimento, entre o colar flutuante e a sapata, e no espaço anular entre o poço e o revestimento até uma altura necessária para cobrir as zonas de interesse. Colar flutuante é um equipamento colocado entre tubos de revestimento aproximadamente 50 metros acima da base do revestimento, possuindo o mesmo sistema de válvulas da sapata. O funcionamento destas válvulas é muito importante ao final da operação de cimentação, quando fluidos mais densos no anular do poço têm a tendência de retornar para o interior do revestimento devido ao diferencial de pressão (Tubo em U). Estas válvulas não permitem tal retorno, mantendo a pasta na posição projetada.

Química e Derivados, Segurança: Aspectos de Segurança na Cimentação de Poços de PetróleoGráfico 3

O êxito da cimentação é alcançado quando cimento íntegro é posicionado em toda a circunferência do anular, impedindo qualquer comunicação entre as zonas que se deseja isolar. Para evitar falhas na cimentação, que podem dar origem à comunicação de fluidos entre zonas e influxo para a superfície (blowout), serão apresentadas práticas estabelecidas pela indústria para minimização destes riscos.

Práticas Recomendadas para Cimentação

Antes da Operação de Cimentação

O sucesso da cimentação tem relação direta com as operações que  a antecedem. Durante a perfuração da fase, um poço bem calibrado e um fluido de perfuração com um controle de filtrado bem ajustado são muito importantes para a cimentação. Um poço descalibrado e com grandes arrombamentos torna a operação mais sujeita a riscos, uma vez que há maior área anular a ser coberta com o cimento. Por sua vez, um fluido de perfuração com altos valores de filtração pode formar rebocos espessos na parede da formação, criando zonas de baixa mobilidade e difícil remoção.Antes da descida do revestimento no poço, é importante tratar e prevenir qualquer perda de fluido de perfuração devido à fragilidade da formação. Do contrário, durante a cimentação, haverá sérios riscos da pasta de cimento se perder na mesma região do fluido, comprometendo o êxito da operação.

Outro aspecto importante é a diminuição da reologia do fluido (condicionamento) para a descida do revestimento e cimentação. Um fluido de perfuração menos viscoso tem menores perdas de carga e será mais facilmente removido e substituído pela pasta de cimento no anular.

Antes do bombeio dos fluidos de cimentação (colchões e pasta de cimento) para o poço, é necessária a circulação do fluido de perfuração (bombeio contínuo do fluido dos tanques da sonda para o interior do revestimento, retornando pelo anular até chegar novamente aos tanques da sonda), com a finalidade de verificar qualquer obstrução no circuito da circulação que possa atrapalhar a cimentação. Para a melhor eficiência na circulação do poço, são utilizados simuladores computacionais que verificam a melhor vazão e o tempo de circulação. Quanto maior a vazão, mais rápido seria o condicionamento do fluido e o resfriamento do poço. No entanto, uma perda de carga excessiva provocada pela alta vazão poderia induzir a uma perda de circulação por fratura da formação. Com dados de pressão de fratura da formação, de geometria do poço e propriedades do fluido de perfuração, os simuladores permitem prever a melhor vazão de circulação sem induzir fraturas no poço (Gráfico 4).

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Gráfico 4 – Simulador indica risco de fratura da formação a partir de 5000 metros – ECD maior que a pressão de fratura a partir desta profundidade.

O resfriamento do poço é de suma importância para que a pasta de cimento tenha menores concentrações de retardadores na sua formulação e possa desenvolver resistência o mais rápido possível para o prosseguimento das operações.

Durante a Operação de Cimentação

Será apresentado a seguir um conjunto de técnicas para auxiliar a colocação da pasta de cimento no anular de forma íntegra, com pouca contaminação e sem canalização. Nem toda operação de cimentação terá necessidade de aplicar todas essas técnicas. Os objetivos da cimentação e os recursos necessários governarão sua utilização.

Centralização

De maneira geral, os fluxos tendem a se desenvolver preferencialmente por trajetórias de menor resistência. Essa tendência faz com que haja mais fluxo nas geometrias maiores do que nas menores. Com isso, a região mais estreita do anular pode não apresentar completa remoção de lama (nome vulgar do fluido de perfuração), o que provocaria uma canalização nesta região. Isto ocorre principalmente quando o revestimento está mal centralizado em relação ao poço (Gráfico 5).

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Gráfico 5 – Secção transversal do poço

Para evitar essa ocorrência, são instalados centralizadores na coluna do revestimento. Centralizadores são equipamentos que auxiliam na centralização do tubo de revestimento em relação ao poço.

Uso de Colchões Lavadores e Espaçadores

Pastas de cimento são usualmente incompatíveis com fluidos de perfuração. Por este motivo, colchões são bombeados entre a pasta e o fluido de perfuração. Esses colchões devem ter compatibilidade reológica tanto com a pasta de cimento quanto com o fluido. Quando há incompatibilidade entre esses fluidos, uma interface contaminada e de alta viscosidade se forma, podendo causar canalização no cimento. Além disso, altas pressões de fricção podem se desenvolver durante a operação e uma obstrução do anular pode se formar.

Além de evitar o contato entre a pasta e o fluido, os colchões têm outras atribuições: ter hierarquia de densidade e reologia para assegurar uma boa remoção de fluido e ter aditivos que limpem as superfícies sólidas (formação e revestimento) e as deixem molháveis à água quando o fluido de perfuração utilizado for de base oleosa ou sintética.

Movimentação do revestimento

Movimentar o revestimento com rotação e reciprocação durante a cimentação são recomendados fortemente por vários autores na literatura. Tem como maior benefício aumentar o volume de lama móvel, fazendo com que os resultados de cimentação sejam ainda melhores quando utilizados.

Infelizmente é pouco prático movimentar colunas de revestimento em poços com cabeça de poço submarina. Algumas colunas (liners) podem ser movimentadas, no entanto, são práticas operacionais arriscadas que normalmente levam o responsável pela operação a não realizá-las.

Vazão de deslocamento

Outro fator importante para obtenção de isolamentos é a velocidade dos colchões e da pasta de cimento no anular e a vazão no deslocamento que governa estas velocidades. Em testes de campo e em simuladores de grande porte, têm-se observado que as melhores eficiências de remoção da lama são alcançadas quando a pasta de cimento é deslocada em altas vazões, independente do tipo de regime de fluxo. A melhor eficiência de deslocamento é obtida em fluxo turbulento, mas nem sempre é possível atingi-lo, pois isso pode requerer vazões muito altas e perdas de carga que causem perdas de circulação.

Mesmo quando não é possível estar em regime turbulento, deve-se procurar empregar a maior vazão possível, considerando as limitações impostas pela resistência à fratura das formações. Vazões baixas geralmente provocam canalizações e devem ser evitadas.

Os projetos de cimentação devem obrigatoriamente utilizar um simulador de pressões. O projetista pode selecionar uma vazão que seja suficientemente alta, de modo a promover boa remoção do fluido, ao mesmo tempo que fraturas da formação sejam evitadas. Caso se tenha uma formação com baixo gradiente de fratura e a simulação apresente fratura da formação, é possível utilizar outros recursos, como bombeio de colchões lavadores com densidades inferiores à frente da pasta de cimento, onde também deve ser observado se a pressão dinâmica e estática da operação não fique abaixo da pressão de poros sob o risco de influxo.

Utilização de Tampões de Fundo e Topo

São equipamentos utilizados para separar os colchões do fluido de perfuração e as pastas de cimento do fluido de perfuração durante o deslocamento.

Os tampões de fundo têm a função de separar o fluido de perfuração no interior do revestimento dos colchões, minimizando a contaminação; e também raspar a película de fluido de perfuração aderida nas paredes internas do revestimento.

Quanto aos tampões de topo, estes têm a função de separar a pasta de cimento do fluido usado para o deslocamento, evitando a contaminação da pasta; e também indicar o final do deslocamento quando se assentar sobre o colar flutuante, impedindo a continuidade do fluxo.

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Gráfico 6 – Sequência de liberação de tampão de fundo e de topo.

As práticas recomendadas pela indústria, representada pelo American Petroleum Institute (API), foram elaboradas após vários anos de observação dos resultados das operações. A importância da operação deverá determinar o seguimento de cada uma das boas práticas apresentadas. Para uma operação que requeira isolamentos críticos, em cenários desafiadores, como intervalos de gás, poços HPHT (High Pressure High Temperature) e em janelas operacionais estreitas (curva de pressão de poros próxima à curva de pressão de fratura), devem ser utilizadas todas as técnicas e cuidados operacionais possíveis para o êxito do trabalho. A correção de uma falha de cimentação deve ser evitada ao máximo porque normalmente é uma operação difícil e muito onerosa, podendo não alcançar o resultado desejado.

Migração de Gás com Origem na Cimentação

A migração de gás na cimentação é um dos problemas de maior relevância na indústria do petróleo. Pesquisas têm auxiliado a determinar como o fluxo de gás se inicia e como vários aditivos ou propriedades da pasta controlam o fluxo. Migração de gás ou influxo de gás no anular são termos usados para definir a entrada de gás no anular do revestimento cimentado ou do poço. Esse fenômeno ocorre quando a pressão hidrostática no anular cai ao ponto de ficar igual ou menor que a pressão de poros na zona de gás.

Devido à solubilidade do gás no fluido de perfuração, o influxo de gás é mais difícil de ser identificado, principalmente nos fluidos de base orgânica. O gás se comporta como um líquido até atingir o ponto de bolha e somente a partir deste ponto começa a haver liberação de gás no anular. Em números, significa dizer que 1 barril de gás a 10.000 psi, numa situação de fundo de poço com fluido de base orgânica, corresponde a 350 barris quando alcançar a superfície.

O estado físico do processo de endurecimento do cimento, desde a pasta líquida durante a colocação, passando pelo gel permeável durante o período crítico de hidratação até finalmente o sólido impermeável após a cura, torna conveniente definir o processo de migração de gás em três categorias: Imediata, Curto Prazo e Longo Prazo.

A Imediata, que acontece durante a colocação da pasta de cimento, entre o início da operação de cimentação e o final da colocação que normalmente ocorre na batida do tampão de topo. Durante este período o gás pode migrar devido à menor pressão hidrostática de fluidos em relação à pressão de poros na zona de gás. Prevenir a migração de gás neste estágio é basicamente matéria de controle de poço, assim como é praticado durante a perfuração.

A principal diferença entre o controle do poço durante a perfuração e durante a cimentação é a diferença de densidades do fluido de perfuração, do colchão lavador, do colchão espaçador e da(s) pasta(s) de cimento. A pressão hidrostática exercida frente à formação não é constante durante a execução da operação de cimentação. Se a pressão hidrostática no anular cair abaixo da pressão de formação do gás, em qualquer tempo, este pode ser liberado, diminuindo mais ainda a pressão hidrostática no anular, tornando-se assim um processo irreversível.

Consequentemente, o planejamento de uma operação de cimentação deve fazer uso dos simuladores hidráulicos para assegurar que as pressões dinâmicas e a pressão hidrostática mínima se manterão entre as pressões de poros e de fratura durante toda a operação de cimentação.

A segunda categoria, classificada como de Curto Prazo ou Pós Colocação, ocorre entre o fim da operação primária e o endurecimento do cimento. Este período se compreende entre alguns minutos até alguns dias após o final da operação.

A migração de gás que ocorre neste período é talvez a mais complexa de se compreender, difícil de prever ou prevenir. Por esta razão, muitos trabalhos na indústria se concentram nela.

A ocorrência de migração de gás neste estágio se deve ao decaimento da pressão no anular, que pode ser atribuído a uma combinação de diversos fatores, incluindo perda de filtrado da pasta para a formação, desenvolvimento de força gel e retração química do cimento durante a hidratação (Gráfico 7). O espaço para o gás entrar no anular durante este estágio pode ser criado pela perda de filtrado, água livre, retração química e porosidade da pasta.

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Gráfico 7 – período de hidratação

A força gel estática (SGS – Static Gel Strength) é um dos muitos fatores que contribuem para o decaimento da pressão no anular. Como a pasta gelificada começa se autossustentar, isso a faz perder a capacidade de transmitir pressão hidrostática. Um método de avaliar o impacto do desenvolvimento da força gel no influxo de fluido no poço é calcular a Força Gel Estática Crítica (CSGS – Critical Static Gel Strength) e então medir o Período Crítico de Hidratação ou tempo de transição (CGSP – Critical Gel Strength Period).

CSGS é definido como o gel estático que a pasta alcança, resultando no decaimento da pressão hidrostática no ponto em que se equilibra com a pressão de poros. O CSGS é calculado pela fórmula:

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Já o CGSP é definido como o tempo necessário para a pasta progredir da força gel estática crítica até a força gel de 500 lbf/100 ft2. Dados de laboratório mostraram que valores em torno de 500 lbf/100 ft2 indicam uma situação em que existe muito baixa probabilidade de influxo de fluido durante a hidratação do cimento.

O aparelho SGSA (Static Gel Strength Analyzer) é capaz de medir o desenvolvimento da força gel num determinado período de tempo. A partir do cálculo do CSGS da fórmula acima, mede-se o tempo que a pasta consome para alcançar a força gel de 500 lbf/100 ft2 a partir do valor de CSGS calculado.

Segundo a norma API 65 – Isolating Potential Flow Zones During Well Construction, o tempo máximo do período crítico de hidratação (CGSP) é de 45 minutos, no entanto têm se buscado tempos inferiores a 30 minutos. A força gel estática pode ser controlada com o uso de aditivos especiais desenhados para diminuir o CGSP.

A terceira categoria é classificada como migração de Longo Prazo, que tem início após algumas horas do final da operação de cimentação, podendo ocorrer após dias, meses e anos. A indústria tem cada vez mais demonstrado interesse em entender, prever e prevenir a migração de longo prazo devido à preocupação ambiental quanto ao vazamento de gás em poços abandonados.

O principal meio que conduz à migração de gás de longo prazo é a formação de caminhos para o gás após o cimento ter endurecido, que são principalmente canais de fluidos, canais de água livre, fraturas ou fissuras no cimento causado por elevadas pressões do revestimento contra a formação.

Técnicas de Combate à Migração de Gás na Cimentação

A remoção do fluido de perfuração, como parte das boas práticas de cimentação, é considerada como ponto chave e primário para evitar a migração de gás em um poço. Todas as técnicas para remoção do fluido devem ser empregadas, e, na impossibilidade de aplicação de alguma delas, deve ser feita uma análise de riscos. A seguir, serão apresentados métodos para prevenir ou controlar a migração de gás.

Pressurização do Espaço Anular

A aplicação de pressão no topo do anular após o deslocamento da pasta de cimento aumenta a pressão de overbalance em frente a uma zona de gás. Como resultado, a força gel estática necessária para permitir a invasão de gás é elevada, retardando ou mesmo impedindo a invasão de gás. Deve-se ter muito cuidado para não induzir a fratura da formação. A prática mais recomendada, em caso de liner, é a circulação depois da retirada da ferramenta de assentamento acima do topo do liner.

Redução de Altura de Cimento

Com a redução da altura da coluna de cimento acima da zona de gás, obtém-se uma melhora no valor da força gel estática crítica. No entanto, esta altura não deve ser inferior a 200 metros acima do topo da zona de gás, para não afetar o isolamento, conforme recomendado pela norma API RP 65 parte 2.

Uso de Pastas com Tempos de Bombeabilidade Diferentes

Permite que a pasta de cimento em frente às zonas de gás adquira resistência suficiente para evitar a entrada de gás, enquanto a pasta posicionada acima ainda possibilita a transmissão de pressão hidrostática através da coluna de cimento.

Utilização de Colchões Adensados

O bombeio de colchões de fluido ou espaçadores de maiores densidades à frente da pasta de cimento maximiza a pressão overbalance e consequentemente eleva o valor da força gel estática crítica, reduzindo as chances de invasão de gás no poço.

Pastas para Controle de Filtrado para Gás e Água Livre Zero

A pasta deve ter um filtrado controlado, em torno de 50 mL/30 min, pois caso contrário pode ser responsável pelo decréscimo na pressão do anular devido ao decréscimo na altura da coluna hidrostática pela redução do volume de pasta. A perda do filtrado também cria espaço com a matriz do cimento onde o gás pode se alojar.

Uma pasta de cimento formulada para ficar posicionada em frente a uma zona de gás não deve possuir água livre. Em poços inclinados ou horizontais, a água livre pode coalescer e formar um canal contínuo na parte alta do poço (Gráfico 8), podendo o gás migrar por este caminho.

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Gráfico 8 – formação de canal de água livre

Pasta de Cimento com Tempo de Transição Curto – Pode ser projetada para ter um menor tempo de transição. O tempo máximo sugerido pela API 65-2 é de 45 minutos, no entanto, tempos inferiores a 30 minutos são desejáveis.

Pastas com Baixa Permeabilidade

Durante o período da redução da pressão hidrostática, a permeabilidade na matriz do cimento em processo de hidratação pode chegar a valores maiores que 300 mD. Isto faz com que o gás possa migrar através da estrutura poral que está sendo formada, com alto potencial de percolação do gás pelos canais que interligam os poros. Uma pasta convencional depois de curada pode apresentar valores de permeabilidade inferiores a 0,1 mD. Alguns métodos podem ser aplicados para reduzir a permeabilidade da matriz do cimento durante a transição líquido-sólido. A maneira mais fácil de reduzir a permeabilidade do cimento é aumentando a densidade da pasta e consequentemente a relação cimento-água. A incorporação de sólidos finos na água de mistura (microssílica e látex) também tem sido apresentada como método eficaz na diminuição da permeabilidade do cimento. Pastas preparadas a partir de blends possuem distribuição de partículas de diferentes tamanhos reduzindo a porosidade e a permeabilidade.

Pastas de Cimento Flexível

As pastas flexíveis reduzem o potencial de fratura na bainha de cimento induzida por tensão que levam à migração de gás a longo prazo. O risco de fratura está relacionado com a resistência a tensão, mudanças na temperatura e pressão no poço, tensões tectônicas, fluência ou movimentação da formação. As pastas  mais indicadas são aquelas que possuem alta resistência à tensão e baixo módulo de Young. Tais pastas são obtidas pela adição de polímeros elastoméricos como o látex. Pastas espumadas também apresentam menor módulo de Young do que pastas tradicionais.

Pastas de Cimento Expansível

Quando cimento Portland reage com água, o sistema sofre uma redução de volume líquido, uma vez que o volume dos produtos da reação de hidratação do cimento é menor do que o dos reagentes. Apesar do decréscimo no volume absoluto, o efeito nas dimensões externas do cimento ou, o volume bulk, permanece o mesmo ou aumenta levemente. Isso se deve ao aumento da porosidade interna do sistema. Mesmo assim, pastas de cimento durante o desenvolvimento da resistência compressiva começam a experimentar o efeito chamado “contração bulk” (bulk shrinkage) de tal forma que cria a possibilidade da formação de microanular entre a formação e o cimento. Segundo alguns autores, essa condição pode deixar gás escapar para a superfície. Para compensar o efeito da contração, pastas de cimento podem ser formuladas para expandir, após serem posicionadas no anular. Pasta de cimento com alta concentração de cloreto de sódio tem considerável efeito expansivo devido a uma pressão interna exercida pela cristalização dos sais nos poros do cimento.

Considerações Finais

A cimentação tem um importante papel na construção de poços. Um determinado trecho do poço ao ser perfurado deve ser isolado com material isolante e impermeável (cimento) para não permitir a comunicação entre diferentes fases do poço, ou entre formações permeáveis com diferentes fluidos ou gradientes de pressões, sob o risco de haver problemas durante a perfuração e a produção do poço. É também responsabilidade da cimentação o provimento de isolamento hidráulico das formações permeáveis com a superfície. A ausência deste tipo de isolamento pode fazer com que óleo alcance o leito marinho ou a superfície terrestre contaminando o meio ambiente. Um conjunto de falhas operacionais associadas a uma falha de isolamento hidráulico com a superfície também pode ocasionar acidentes catastróficos, como no poço de Macondo.

Um projeto de cimentação ou um programa operacional deve sempre considerar todos os riscos, principalmente quanto à segurança, utilizando as boas práticas e técnicas adequadas preconizadas pela indústria através das normas estabelecidas.

Glossário

Água livre – É o volume percentual da fase sobrenadante em relação ao volume de pasta em um corpo de prova em repouso ou inclinado.

Blend – É a mistura homogênea de cimento com quaisquer componentes sólidos.

Colar flutuante – Acessório instalado na coluna de revestimento com o objetivo de identificar a conclusão do trabalho com a batida do tampão de topo. Atua também como uma segunda válvula de retenção

Colchão espaçador – É o fluido, geralmente viscoso e de peso específico programável, cujo objetivo é formar uma barreira entre a pasta de cimento e o fluido de perfuração, além de auxiliar na remoção do fluido de perfuração e melhorar a aderência cimento-formação e cimento-revestimento.

Colchão lavador – É o fluido deslocado à frente da pasta de cimento durante a operação de cimentação de poços com a função de remover o fluido de perfuração e melhorar a aderência cimento-formação e cimento-revestimento. Não são adensados com sólidos insolúveis em água.

ECD – Equivalent Circulating Density – Densidade equivalente de circulação é a densidade equivalente à pressão (em lb/gal) exercida contra a formação, considerando a circulação do fluido de perfuração e sua força de fricção, numa determinada profundidade.

Fluidos de perfuração – São fluidos utilizados durante a perfuração de poços de petróleo que possuem algumas funções básicas, como manter as pressões da formação controladas, carrear os cascalhos até a superfície, manter a estabilidade mecânica do poço, entre outros.

Liner – É uma coluna de revestimento que cobre todo ou parte do poço aberto, cujo topo é ancorado no revestimento anterior, não se estendendo até a superfície/cabeça do poço.

Pasta de cimento – É a mistura de cimento ou de mistura cimentante (blend), água doce e/ou do mar e aditivos, com a finalidade de obtenção de propriedades físicas e químicas, destinadas à operação de cimentação em poços petrolíferos.

Pressão de Fratura – É a pressão que, exercida sobre a formação, provoca sua fratura.

Pressão de overbalance ou sobrepressão – É a resultante da diferença entre a pressão hidrostática sobre a formação e a pressão de poros.

Pressão de poros – É a pressão de um fluido dentro do espaço poroso da formação.

Sapata – Acessório colocado na extremidade inferior de uma coluna de revestimento cuja finalidade primordial consiste em guiar a descida da coluna de revestimento no poço. Possui válvula de retenção que evita o retorno do cimento no final do trabalho.

Tempo de bombeabilidade – É o tempo requerido para que a pasta de cimento atinja 50 UC (unidade de consistência) nas condições de ensaio de laboratório. Durante este tempo a pasta se mantém bombeável.

Referências

ROCHA, José Marcelo Silva. Estudo da migração de gases em pastas de cimento para uso em poços de petróleo. Rio de Janeiro, 2010. Dissertação (Mestrado em Ciências da Tecnologia de Processos Químicos e Bioquímicos). Escola de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2010.

Nelson, Erik B.; Guillot, Dominique. Well Cementing. Second Edition. Sugar Lands: Schlumberger, 2006.

Lepeleire, Rubens De; Santos, Paulo Sérgio Batista. Obtenção de Isolamentos Hidráulicos. Macaé, 2005. (Apostila Interna da Gerência de Serviços de Perfuração do Setor de Revestimento e Cimentação – SERCIM – Petrobras).

AMERICAN PETROLEUM INSTITUTE. API RP65-2: API Recommended Practice 65 part 2. Isolating Potential Flow Zones During Well Construction. Second Edition, Washington, DC, 2010.

Campos, Gilson; Simão, Cristina Aiex; Conceição, Antonio Carlos Farias. Curso Básico Sobre Cimentação Primária. Novembro de 2002. (Apostila de Cursos Internos da Petrobras)

Química e Derivados, Segurança: Aspectos de Segurança na Cimentação de Poços de Petróleo
Jan Fernandes Aslan

O AUTOR

Jan Fernandes Aslan é graduado em Engenharia Química pela Universidade Federal Fluminense, com pós graduação em Engenharia de Petróleo pela Universidade Estadual do Norte Fluminense, tendo experiência profissional de por cinco anos na Halliburton Serviços como Engenheiro de Fluidos. Trabalha desde 2007 na Petrobras, tendo atuado em operações de campo no revestimento e cimentação de poços, e atualmente desenvolve projetos de cimentação.

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