Saneamento – Tecnologia melhora tratamento nas estações

As membranas destinadas a processos como ultrafiltração e osmose reversa parecem definitivamente fadadas a ampliar sua presença no mercado nacional de saneamento. E seu crescente uso se justifica pela combinação entre a queda de seus preços e a percepção dos inúmeros benefícios embutidos nessa tecnologia.

Química e Derivados, Marcelo Morgado, Sabesp, membranas para potabilizar esgotos
Morgado: Sabesp vai usar MBR em ETE de Campos do Jordão

Uma dessas vantagens:

“Qualquer que seja a qualidade na entrada, a membrana mantém estável a qualidade do líquido na saída”, especifica Giuliano Dragone, diretor do sindicato interestadual das concessionárias privadas de serviços públicos de água e esgoto e diretor técnico operacional da concessionária CAB Ambiental. Isso, é claro, se a água de entrada for devidamente condicionada para entrar nas sensíveis membranas, por meio de um pré-tratamento físico e/ou químico.

Além disso, membranas abrem novas possibilidades: por exemplo, na potabilização de água salobra proveniente de poços. Unidades com membranas de osmose reversa já são utilizadas para essa finalidade em algumas regiões do nordeste brasileiro, mas em regiões litorâneas da Europa tal tecnologia serve para ampliar a oferta de água potável nas temporadas turísticas, quando a população dessas localidades cresce acentuadamente (são montadas estações de tratamento de água ativadas somente nessas ocasiões). “Essa é uma opção economicamente mais interessante do que construir uma grande ETA, que teria muita capacidade ociosa fora dos períodos de pico da população”, argumenta Dragone.

Instaladas em ETEs, “membranas podem gerar água já pronta para reúso em finalidades não potáveis”, lembra Marcelo Morgado, assessor de meio ambiente da Sabesp. Em países como Cingapura e Namíbia, ele detalha, membranas já são empregadas até mesmo para potabilizar a água proveniente de esgotos.

A Sabesp já trabalha em sua primeira ETE com membranas (no caso, com a tecnologia MBR – membrane bio-reactor –, que integra micro e ultrafiltração a tratamento biológico.). Com vazão de 213 litros por segundo, ela deve entrar em operação em 2012, na cidade paulista de Campos do Jordão.

Estudo de materiais – Haverá membranas também no projeto Aquapolo, desenvolvido em sociedade entre a Sabesp e a Foz do Brasil para levar água de reúso para as indústrias do polo petroquímico de Capuava, na Grande São Paulo. Essa água – inicialmente 650, e depois mil litros por segundo – começa a ser fornecida em 2012, e será conduzida por meio de uma adutora de 17 quilômetros.

A água de reúso inicialmente passará por membranas de ultrafiltração e será posteriormente submetida a membranas de osmose reversa, capazes de extrair, por pressão, a alta condutividade e padrões sólidos, a amônia e outros elementos impróprios para a utilização industrial do insumo. “As empresas do polo de Capuava especificaram qual a qualidade da água necessária às suas atividades”, conta Newton Azevedo, da Foz do Brasil.

Na ETE construída pela Sabesp em Campos do Jordão as membranas de ultrafiltração serão instaladas após o tanque de aeração, mas no Aquapolo serão inseridas em cassetes em um reator satélite, situado ao lado de um novo tanque de aeração da ETE ABC, de onde provirão os esgotos geradores da água de reúso (em ambos os casos, serão utilizadas membranas de fibra oca).

Química e Derivados, Tabela, Mapa das concessões privadasOutras tecnologias – E a Sabesp, afirma Marcelo Morgado, hoje pesquisa também a possibilidade de utilização de novos materiais e modalidades mais modernas de realização de suas obras. Assim, o trecho até a arrebentação do terceiro emissário do município paulista de Praia Grande foi escavado por um equipamento similar ao tatuzão utilizado em obras do metrô, evitando incômodos aos banhistas da cidade litorânea. “Também estamos adotando aeradores tipo cachoeira para melhorar o desempenho de lagoas, e estudando poços de visita rotomoldados de PEAD (polietileno de alta densidade): eles chegam já prontos aos locais das obras, em vez de serem ali concretados e montados”, destaca Morgado.

No ano passado, a Sabesp firmou um convênio com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para aportar, nos próximos cinco anos, R$ 50 milhões em sete linhas de pesquisa de tecnologias relacionadas a saneamento. Entre elas, a tecnologia de membranas, a reciclagem de resíduos das estações, eficiência energética e monitoramento da qualidade da água.

Digitalização – A automação e a digitalização também têm lugar garantido no atual processo de evolução da tecnologia empregada nas operações de água e saneamento. Elas se materializam em itens como os hidrômetros digitais, que além de mais precisos dispensam a necessidade de leituristas (as informações são enviadas via telemetria a uma central de operações). “Em Barcelona, 40% dos hidrômetros já são digitais”, conta Giuliano.

No Brasil, hidrômetros digitais já foram colocados em cidades como Palmas, no estado do Tocantins, em uma modalidade comercial hoje comum no mercado de celulares, porém polêmica no caso de um insumo essencial à vida: os serviços pré-pagos.

É crescente também a automação das estações de tratamento: já há alguns anos, a Sabesp disponibiliza um produto especificamente desenvolvido para essa tarefa – denominado Aqualog –, atualmente utilizado também por concessionárias de outros estados. Via monitoramento e correção automáticos das características tanto da água bruta quanto daquela já submetida a tratamento – em itens como pH e turbidez –, essa tecnologia também dispensa operadores.

E a Sabesp começa a se colocar mais incisivamente em outros segmentos de mercado. No fornecimento de energia elétrica, por exemplo, já licitou duas PCHs (pequenas centrais hidrelétricas, com capacidade total de geração de 7 megawatts), que aproveitarão desníveis existentes em suas reservas de água localizadas no chamado sistema Cantareira. A empresa vencedora da licitação para a construção dessas centrais também comercializará a energia ali gerada, e remunerará a promotora da licitação por meio de royalties.

Além disso, a Sabesp já prepara o edital de uma PCT (pequena central térmica), com potência instalada de 18 megawatts de energia, provenientes da queima do lodo e do biogás gerado pela biodigestão do lodo da ETE Barueri. Passando por uma ampliação, em 2016 sua capacidade de tratamento aumentará de 9 para 14 metros cúbicos por segundo (esta já é a maior ETE da América do Sul).

A mesma empresa começa a atuar também no mercado de manejo de resíduos sólidos urbanos: construirá um aterro na cidade de São João da Boa Vista e, de acordo com Marcelo Morgado, já mantém contatos com outros municípios paulistas, como Itapecerica da Serra e Itanhaém.

Leia mais: Concessões privadas ganham força com marco regulatório e PPPs

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.