Reúso de Água – Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato

Química e Derivados, Levi Calixto, Coordenador de processos, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Calixto: retrolavagem extinguiu sistema aberto

Sonho realizado – Para a francesa Rhodia, em sua unidade de poliamida em Santo André-SP, o sonho do reúso total, apontado pela Lanxess, já foi realizado há cerca de cinco anos, em um projeto amplo que durou uma década de esforços de engenharia e que culminou com a marca de descarte zero de efluentes em 2005. Segundo o diretor de infraestrutura industrial, Luiz Roberto Marques de Jesus, a partir daí a unidade pode se orgulhar de só ter perdas por evaporação nos processos e nas torres de resfriamento, um volume calculado em 30 m3/h, ou 20% de toda a água circulada na fábrica.

Química e Derivados, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Tanques passaram a armazenar água para lavagem de reatores na Lanxess

Recordando o histórico do projeto, Marques ressalta que a decisão de abandonar o sistema aberto de resfriamento foi estratégica, feita para contornar ainda um grave problema de todas as fábricas da região do Rio Tamanduateí, no ABC paulista: a água da região é uma das mais caras e escassas do país (tanto é assim que o polo petroquímico de Mauá, mais adiante na Avenida do Estado, precisará de água de reúso da Sabesp). Hoje a autarquia municipal de Santo André repassa água da Sabesp por R$ 7 o m3 e, contando o recebimento do esgoto (que apenas agora começa a ser interligado para tratamento), a tarifa dobra. “Esse cenário e a política global de meio ambiente da Rhodia foram o gatilho para o projeto”, disse.

Química e Derivados, Luiz Roberto Marques de Jesus, Diretor de infraestrutura industrial, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Marques: Rhodia só tem perdas por evaporação e ainda quer melhorar desempenho da ETE

A primeira etapa, no início da década de 90, foi deixar de captar água do Rio Tamanduateí, transformando a estação de tratamento de água em uma de efluentes com objetivo de preparo para reúso. Para isso, foram incluídos dois geradores de ozônio para desinfecção dos efluentes: um logo após a aeração do tanque biológico e antes de seguir para a coagulação e outro no final do tratamento, para polimento. O primeiro conseguiu, além de oxidar os contaminantes, reduzir o consumo de hipoclorito e de coagulantes, o que facilitou o processo. Essa fase foi completada em 1995, quando a Rhodia deixou de captar totalmente água do rio, utilizando o efluente interno como make-up das torres de resfriamento. A etapa ainda viria a ser aperfeiçoada com a construção de nova lagoa de aeração em 1997.

Depois, o objetivo dos técnicos da Rhodia foi diminuir a compra de água da Semasa, a companhia municipal de saneamento, contrapondo o abastecimento com o aumento de uso de água de poços da unidade, para empregá-la principalmente na alimentação de caldeiras. Isso fez também com que a fábrica trocasse as colunas de resinas de troca iônica por uma unidade de desmineralização por osmose reversa de 60 m3/h, que passou a ser alimentada com água de poços de 200 metros de profundidade, o que garante alta qualidade. Com a nova desmi, que conta atualmente também com desinfecção por ultravioleta, foi possível também diminuir o consumo de água, pois a troca iônica com suas regenerações ácidas e alcalinas gerava muito efluente.

O maior uso de água de poços e o aproveitamento dos efluentes – que gerou também a segregação de correntes de água de reúso em duas redes (potável e industrial) – deram resultados imediatos. O volume de efluentes, que em 1989 era de 118 m3/h, foi caindo ano após ano, até chegar no zero de 2005, com a finalização do reaproveitamento do gerado nos refeitórios. A água da Semasa, consumida em torno de 120 m3/h naquele mesmo ano, passou a ser de 1 m3/h a partir de 2005. “E só compramos esse volume porque há uma rede interligada e vizinha com a Semasa com o restaurante”, afirmou o coordenador de utilidades, Ezio Musetti Neto.

Em consumo de água fresca, a Rhodia Poliamida passou de 320 m3/h de 1989 para 82 m3/h previstos em 2010, uma queda de 74% que equivale a ganhos anuais da ordem de US$ 4,4 milhões. “Resolvemos o problema, mas nunca deixamos de pensar em melhorias, para enobrecer ainda mais o tratamento”, disse o diretor Marques. Uma etapa a mais foi instalar uma unidade de ultrafiltração em 2006, com vazão de 40 m3/h, para polir os efluentes tratados e gerar uma água sem necessidade de dosagens extremas de biocidas e dispersantes no condicionamento para as torres de resfriamento.

Química e Derivados, Ezio Musetti Neto, Coordenador de utilidades, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Musetti: melhorias contínuas, como a ultrafiltração, aperfeiçoam o reúso em Santo André

Outra mudança recente ocorreu no final de 2009, quando foi mudado o tratamento físico-químico da estação. O coagulante cloreto férrico até então empregado foi substituído pelo policloreto de alumínio (PAC) modificado, que melhorou muito o condicionamento de água para as torres, eliminando o alto teor de cloretos e ferro do tratamento anterior. “Os grandes vilões das torres, em circuitos fechados como o nosso, descobrimos com o tempo que eram esses elementos gerados pelo cloreto férrico”, afirmou Musetti. Segundo ele, esse novo tratamento, feito pela GE Water Technologies, reduziu também a concentração de lodo, deixando-o mais compacto e de fácil manipulação. Outra medida para melhorar o sistema foi o uso de dióxido de cloro antes do filtro de areia, o que reduz o ferro para a forma solúvel para facilitar sua filtragem.

Segundo o diretor de infraestrutura da Rhodia Poliamida, a preocupação com o reúso agora se tornou uma constante entre os técnicos das utilidades. Um projeto em andamento é tornar a ETE mais eficiente. Uma vertente provavelmente a ser seguida é segregar o esgoto sanitário da unidade com estações compactas, para desafogar a estação. “Nossa ideia é procurar tornar a água de reúso um insumo cada vez mais nobre”, disse Marques. Infelizmente boa parte da indústria química e petroquímica brasileira ainda está distante de metas desse tipo. Mas se logo começarem a ver a água com um pouco mais de respeito, evitando desperdícios, pelo menos o primeiro passo terá sido dado.

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