Reúso de Água – Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato

Desperdício abandonado – Apesar de já ter ultrapassado os trinta anos, o polo baiano só ter pensado agora em utilizar água de maneira racional revela a relação ilusória que a indústria brasileira tem com os recursos hídricos aparentemente inesgotáveis. Em países desenvolvidos existem sistemas institucionalizados que cobram pelo uso de rios e poços há mais de quarenta anos (caso da França). No Brasil, apenas poucas regiões como o Vale do Paraíba e Campinas em São Paulo começaram a aplicar o plano de cobrança da ANA. Mesmo assim, é bom saber que várias localidades, como a própria Camaçari, já contam também com comitês de bacias hidrográficas e, nos próximos dois ou três anos, devem começar a fazer o mesmo: cobrar pela captação de água.

Primeira fase do reúso na Braskem em Camaçari

Química e Derivados, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
* Em dias de estiagem
Química e Derivados, Waldemilson Muniz, Gerente de utilidades da unidade multipropósito, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Waldemilson: Basf instalou 22 torres de resfriamento para recircular água em Guaratinguetá

No Vale do Paraíba em São Paulo, onde há a cobrança pioneira pelo uso da água da bacia do Rio Paraíba do Sul, a simples existência da taxa, mesmo que não seja exorbitante, provoca um lampejo um pouco maior de conscientização nas indústrias locais. Se não chega a ser o único e grande motivo para incentivar projetos de reúso, pelo menos colabora para acelerar nas tomadas de decisão.

Em Guaratinguetá, em São Paulo, por exemplo, no grande complexo industrial da Basf, dá para perceber uma mudança de mentalidade que coincidiu com a época inicial da cobrança pela captação no Rio Paraíba do Sul no final de 2003. Foi por esse período que a multinacional alemã também começou a deixar de usar um sistema aberto de resfriamento, com muito desperdício de água, pelo qual a empresa captava, usava e descartava um volume de 600 m3/h de água do rio, logicamente adequando-a para o uso e para a emissão dos efluentes.

A solução foi instalar um conjunto de 22 torres de resfriamento pela fábrica, em cada unidade produtiva em que houvesse a necessidade de resfriar reatores. “Deixamos de lado o sistema one-pass-through, o que significava passar a água pelos equipamentos e em seguida jogá-la fora, para recirculá-la o máximo possível”, afirmou o gerente de utilidades da unidade multipropósito, Waldemilson Muniz. Essa iniciativa, na opinião do gerente, foi o primeiro salto quantitativo, que reduziu drasticamente não só o consumo de água, mas de produtos químicos para tratamento de efluentes. Para se ter uma ideia, a captação do rio caiu dos 600 m3 para uma média de 250 a 350 m3/h, apesar de nesse período a capacidade produtiva da fábrica ter mais que dobrado.

Química e Derivados, Mariana Sigrist, Engenheira do meio ambiente, Reúso de Água - Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato
Mariana: reúso dos efluentes ainda é inviável para a Basf

A medida simples de economia foi seguida por outras para aperfeiçoar o tratamento das torres, que passaram a ser o coração do sistema de recirculação de água e troca térmica da planta. Um sistema de automação passou a controlar a purga das torres, reduzindo substancialmente o uso de água de reposição (make-up). Em 2006, 18 torres demandaram 622 mil m3 de água de reposição e, em 2009, 21 torres consumiram 416 mil m3.

Desembolsando cerca de R$ 100 mil por ano na taxa de cobrança de água que segue para a Agência Nacional de Águas redistribuir os recursos para os comitês de bacias, de acordo com Muniz, a busca por novas medidas para economia passou a ser difundida entre os colaboradores da empresa e deve gerar outros projetos no futuro. Embora não façam tratamento terciário dos efluentes, o que ainda se mostrou inviável economicamente, segundo explicou a engenheira de meio ambiente Mariana Sigrist, a Basf estuda tecnologias para isso e já conseguiu melhorias pontuais, como o uso do efluente tratado para diluir o hidróxido de cálcio empregado no tratamento. Além disso, em um novo depósito em construção na fábrica está sendo contemplado o aproveitamento de água de chuva.

Outra empresa que felizmente deixou de ser adepta do perdulário sistema de one-pass-through foi a Lanxess, em sua fábrica de Porto Feliz-SP. Desde 2004, a empresa de origem alemã, produtora de pigmentos inorgânicos à base de óxido de ferro, adotou o princípio da retrolavagem de seus equipamentos com a implementação de um sistema simples de bombas, filtração e de armazenagem em quatro tanques de 300 mil litros cada. “Passamos a reusar a água na lavagem dos reatores e conseguimos condicioná-la até mesmo no processo”, afirmou o coordenador de processos, Levi Calixto.

Bem próxima do ponto de captação no Rio Tietê, com a medida simples (e até mesmo óbvia, sugerida pelos colaboradores) a Lanxess reduziu pela metade a retirada de água do manancial, economizando a partir de 2005 cerca de 210 milhões de litros de água por ano, o equivalente ao consumo de 12 mil residências. “É como se Porto Feliz deixasse de captar água por um mês”, completou Calixto. Hoje o consumo total da unidade é de 770 milhões de litros/ano. Se não houvesse a retrolavagem seria de 980 milhões de t.

Com a recirculação da água, houve também economia no fim do tubo, com a redução de uso de produtos químicos para tratar os efluentes que eram descartados frequentemente no rio. No volume total, a redução de

efluentes na ETE foi até 40%. Para Calixto, ter feito primeiro o básico, na gestão da água da unidade, não significa que as medidas se encerrem por aí. “O sonho é ter uma planta seca, com reúso total no futuro, sem efluentes”, disse.

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