Resistindo na boca da noite um gosto de sol

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Química e Derivados -

Olá, leitora e leitor. O que vivemos até o momento neste 2020 nos garante que no futuro “nada será como antes”. Se a modernidade líquida nos roubou qualquer perenidade ou certeza de nosso cotidiano, esta pandemia da Covid-19 precipitou equilíbrios precários – metaestáveis – mudando a sociedade de direção. O objetivo desta coluna é tentar entender o que devem esperar profissionais da indústria química no Brasil. Algumas tendências ou percepções em nosso horizonte são listadas a seguir.

#somostodosfrágeis

Nassim Nicholas Taleb, o pensador contemporâneo que cunhou o termo ‘cisne negro’ para eventos raros, catastróficos e imprevisíveis e, mais recentemente, popularizou o termo ‘antifrágil’ explicou que a pandemia da Covid-19 não foi um cisne negro, pois uma pandemia de proporções mundiais ocorre com certa regularidade ao longo da história e, nos últimos anos, pessoas como Bill Gates e outros alertaram para esse risco. Nassim Taleb explicou que a crescente conectividade, proliferação de redes mundiais físicas e virtuais, torna o mundo cada vez mais frágil, sujeito a sofrer consequências globais diante de eventos regionais. A utopia de Taleb é um mundo dividido não por países, mas por cultura. Muitos países são amontoados de diferentes nações. Separações geográficas baseadas em cultura levariam no limite a cidades-estados. Estas se isolariam mais facilmente quando necessário. Mas isso é utopia, e a realidade é que somos todos frágeis. E perceberemos isso com cada vez mais frequência.

Fim da era petróleo?

Recentemente, a notícia de preços negativos para o petróleo WTI (West Texas Intermediate) surpreendeu o mundo. A causa foi uma ‘tempestade perfeita’, pois ao mesmo tempo em que a demanda caiu drasticamente por conta da quarentena mundial imposta pela Covid-19, Arábia Saudita e Rússia aumentaram muito suas produções, alegadamente por falta de um acordo na OPEP, ou talvez por um acordo para inviabilizar a indústria do xisto (shale) norte-americana. O resultado foi o enchimento completo da capacidade de estoque do mercado norte-americano (WTI) que, sem ter onde pôr o petróleo, parou de comprar, negativando contratos futuros. Sempre que um evento drástico ocorre na indústria do petróleo ressurge a ideia de ‘fim da era do petróleo’. No entanto, se consultarmos a última edição disponível do BP Statistical Review of World Energy publicado de 2019 pela British Petroleum (BP), com dados de 2018, o consumo de energia e de petróleo tem aumentado consistentemente no mundo. O consumo de energia aumentou 2,9% em 2018 (média de 1,5% por ano desde 2010) e o consumo de petróleo aumentou 1,5%.

O relatório da BP traz uma figura interessante que talvez seja um vislumbre do futuro – o preço histórico do barril de petróleo de 1861 a 2018 em dólares de 2018 (Figura 1). O preço do barril de petróleo de 1880 até 1970 oscilou entre 20 e 30 dólares por barril. Ou seja, desde que John Davison Rockefeller estabeleceu as bases da indústria do petróleo com a sua Standard Oil até a primeira crise do petróleo imposta pela Opep, o preço do petróleo se manteve constante e em valores muito menores do que os da última década. Portanto, é razoável imaginar que em um mundo com relativo excesso de petróleo o preço fique entre 20 e 30 dólares o barril, como era antes da ascensão da Opep.

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Para a indústria química, é a perspectiva de matéria-prima mais barata. No entanto, para que essa perspectiva seja factível no Brasil, o refino do petróleo não deveria estar sujeito às idiossincrasias de um único produtor. O custo médio de produção do barril de petróleo no Brasil era, em 2016, de 35 dólares. Sabe-se que esse custo caiu significativamente para a Petrobrás, mas idealmente, as refinarias deveriam poder ter acesso à matéria-prima mais barata. O processo de venda das refinarias da Petrobrás, anunciado inicialmente em abril do ano passado, foi suspenso em 20 de março último, alegadamente por conta da pandemia de Covid-19.

Outra ação esperada, e emperrada, do governo federal é o Novo Mercado de Gás Natural. Desde a boa iniciativa da assinatura do Termo de Compromisso de Cessação (TCC) entre a Petrobrás e o Cade, muito pouco foi feito além da venda de alguns ativos pela Petrobrás. O aperfeiçoamento da legislação para que ocorram o aumento sustentável da rede de distribuição e a existência de um preço competitivo aguarda a boa vontade de Brasília. No momento em que escrevo, o preço do gás natural industrial no Brasil é quase R$ 58 por milhão de BTU (ou pouco mais de US$ 10) enquanto que nos EUA (Henry Hub) é US$ 1,78 por milhão de BTU.

A China

A dimensão da crise tornou evidente que o mundo não pode depender tanto das fábricas chinesas. Pequenos produtores europeus reorganizaram sua produção para abdicarem dos fornecedores chineses. O governo do Japão disponibilizou dois bilhões de dólares no orçamento deste ano para empresas nacionalizarem parte da produção industrial hoje recebida da China. O presidente da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, coloca a nacionalização de componentes como questão estratégica no ‘day after’ da Covid-19. O diretor do conselho econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, defende abertamente que os EUA arquem com os custos para que as empresas americanas saiam da China.

O movimento de empresas norte-americanas para fora da China já é uma realidade. Começou por conta da guerra comercial entre os dois países e ganhou força em busca de uma alegada resiliência em um ambiente pós Covid-19. Os beneficiados devem ser inicialmente os países do sudeste asiático, principalmente o Vietnã, e o México em menor grau. Se o México seria o destino natural para investimentos norte-americanos, a grande dependência de sua economia com o petróleo, seu problema com cartéis de drogas e instabilidade política (soa familiar?) podem fazer as empresas norte-americanas pensar duas vezes.

Há, contudo, também a teia de dependência financeira construída pela China há muitos anos. A face mais visível é o Belt and Road Initiative (BRI), já tratado neste espaço, que entrega infraestrutura construída com dinheiro chinês e dívida que impõe aos países ‘beneficiados’ alinhamento aos interesses chineses. O governo chinês não assistirá passivamente à fuga de fábricas.

A economia circular e a sustentabilidade da indústria química

O conceito de economia circular é bastante complexo e merece um texto exclusivo sobre o assunto. O volume 35 da Revista Brasileira de Engenharia Química, da ABEQ, tem um ótimo texto introdutório assinado pelas pesquisadoras Profa. Suzana Borschiver e Aline Tavares, da UFRJ. No artigo, as autoras definem economia circular como “um modelo econômico regenerativo e restaurativo por princípio, que tem por objetivo manter produtos, componentes e materiais em seu mais alto nível de utilidade e valor o tempo todo, distinguindo-se entre ciclos técnicos e biológicos”.

Aqui interessa dizer que a economia circular é um objetivo da indústria química em todo mundo. E a sua implantação impõe “estimular o agrupamento espacial de indústrias que são (cada vez mais) dependentes uma da outra: o agrupamento espacial é importante para criar ecologia industrial local, apoiada pela ligação de infraestruturas (por exemplo, para transporte local de resíduos reutilizáveis, água ou calor) e serviço compartilhado (por exemplo, tratamento compartilhado de resíduos, controle de qualidade e segurança, produção local compartilhada de energia renovável – eólica, solar ou biogás – e distribuição, institutos compartilhados de pesquisa e treinamento)” (Van Buren et al., 2016).

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Considerando a ecologia industrial, um dos aspectos da economia Ccrcular, “a interdependência entre as atividades visa redirecionar os produtos ou subprodutos de uma atividade no processo produtivo de outra. No caso de cadeias de suprimentos curtas, produtores e consumidores formam novos relacionamentos. A ecologia industrial e as cadeias de suprimentos de proximidade também se baseiam em uma visão sistêmica e integrada do desenvolvimento regional, na qual o território, em vez de aparecer como um espaço geográfico ou jurídico, é considerado um sistema econômico, caracterizado por relações estreitas (organizacional, cognitiva e de proximidade espacial) construídas pela estratégia dos atores locais e com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e humano, respeitando o meio ambiente e um desenvolvimento voltado para o desenvolvimento sustentável” (Gallaud e Laperche, 2016)

Ou seja, a sustentabilidade da indústria química é tanto maior se fornecedores e consumidores estão o mais próximo possível. Se a sustentabilidade da indústria química é um objetivo, e aparentemente é, a concentração de toda a produção em um único país ou região do globo é indesejada.

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Considerações finais

O fato de a indústria brasileira pedir proteção contra invasão externa, mesmo com o dólar valendo quase seis reais e a taxa de juros de referência sendo 3% ao ano, mostra que nossa indústria está muito (muito) frágil. Esta é a nossa tendência de curto e longo prazo – o encolhimento e a desimportância. Mas as coisas podem mudar, para melhor, se o Brasil melhorar um pouco o seu ambiente para negócios.

Kairós, o deus grego da oportunidade, era rápido, andava nu e só tinha um cacho de cabelos na testa. Os antigos gregos queriam dizer que a oportunidade só pode ser agarrada de frente quando chega; depois que passa é impossível. Alguém vá lá acordar o Macunaíma na rede, porque talvez Kairós esteja a caminho.


Referências

British Petroleum (2019). BP Statistical Review of World Energy 2019, 68th edition, https://www.bp.com/content/dam/bp/business-sites/en/global/corporate/pdfs/energy-economics/statistical-review/bp-stats-review-2019-full-report.pdf

D Gallaud, B Laperche. Circular Economy, Industrial Ecology and Short Supply Chain. John Wiley & Sons, 2016.

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,volkswagen-quer-parceria-com-fornecedores-para-nacionalizar-componentes,70003272710

É esta pandemia que vai mudar a História? Ou é o braço de ferro da China com o resto do Mundo?

https://www.forbes.com/sites/kenrapoza/2020/04/07/new-data-shows-us-companies-are-definitely-leaving-china/#2d7e653a40fe

https://www.forbes.com/sites/kenrapoza/2020/04/10/kudlow-pay-the-moving-costs-of-american-companies-leaving-china/amp/

https://www.newyorker.com/news/daily-comment/the-pandemic-isnt-a-black-swan-but-a-portent-of-a-more-fragile-global-system

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/industria-brasileira-pede-protecao-contra-invasao-externa.shtml

N Van Buren, M Demmers, R Van der Heijden, F Witlox. Towards a Circular Economy: The Role of Dutch Logistics Industries and Governments. Sustainability 2016, 8(7), 647.

S Boschiver, A Tavares. Conhecendo a economia circular. Rebeq, vol 35, nº 1. Disponível em: https://www.abeq.org.br/rebeq/rebeq-35/


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André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP

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Texto: André Bernardo

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do Departamento de Engenharia Química da UFSCar. E-mail de contato: [email protected]

Química e Derivados - Resistindo na boca da noite um gosto de sol - Coluna ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto

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A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.
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