Economia

Resistindo na boca da noite um gosto de sol – Coluna ABEQ

Quimica e Derivados
30 de maio de 2020
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    Química e Derivados - Resistindo na boca da noite um gosto de sol - Coluna ABEQ ©QD Foto: iStockPhoto

    Química e Derivados -

    Olá, leitora e leitor. O que vivemos até o momento neste 2020 nos garante que no futuro “nada será como antes”. Se a modernidade líquida nos roubou qualquer perenidade ou certeza de nosso cotidiano, esta pandemia da Covid-19 precipitou equilíbrios precários – metaestáveis – mudando a sociedade de direção. O objetivo desta coluna é tentar entender o que devem esperar profissionais da indústria química no Brasil. Algumas tendências ou percepções em nosso horizonte são listadas a seguir.

    #somostodosfrágeis

    Nassim Nicholas Taleb, o pensador contemporâneo que cunhou o termo ‘cisne negro’ para eventos raros, catastróficos e imprevisíveis e, mais recentemente, popularizou o termo ‘antifrágil’ explicou que a pandemia da Covid-19 não foi um cisne negro, pois uma pandemia de proporções mundiais ocorre com certa regularidade ao longo da história e, nos últimos anos, pessoas como Bill Gates e outros alertaram para esse risco. Nassim Taleb explicou que a crescente conectividade, proliferação de redes mundiais físicas e virtuais, torna o mundo cada vez mais frágil, sujeito a sofrer consequências globais diante de eventos regionais. A utopia de Taleb é um mundo dividido não por países, mas por cultura. Muitos países são amontoados de diferentes nações. Separações geográficas baseadas em cultura levariam no limite a cidades-estados. Estas se isolariam mais facilmente quando necessário. Mas isso é utopia, e a realidade é que somos todos frágeis. E perceberemos isso com cada vez mais frequência.

    Fim da era petróleo?

    Recentemente, a notícia de preços negativos para o petróleo WTI (West Texas Intermediate) surpreendeu o mundo. A causa foi uma ‘tempestade perfeita’, pois ao mesmo tempo em que a demanda caiu drasticamente por conta da quarentena mundial imposta pela Covid-19, Arábia Saudita e Rússia aumentaram muito suas produções, alegadamente por falta de um acordo na OPEP, ou talvez por um acordo para inviabilizar a indústria do xisto (shale) norte-americana. O resultado foi o enchimento completo da capacidade de estoque do mercado norte-americano (WTI) que, sem ter onde pôr o petróleo, parou de comprar, negativando contratos futuros. Sempre que um evento drástico ocorre na indústria do petróleo ressurge a ideia de ‘fim da era do petróleo’. No entanto, se consultarmos a última edição disponível do BP Statistical Review of World Energy publicado de 2019 pela British Petroleum (BP), com dados de 2018, o consumo de energia e de petróleo tem aumentado consistentemente no mundo. O consumo de energia aumentou 2,9% em 2018 (média de 1,5% por ano desde 2010) e o consumo de petróleo aumentou 1,5%.

    O relatório da BP traz uma figura interessante que talvez seja um vislumbre do futuro – o preço histórico do barril de petróleo de 1861 a 2018 em dólares de 2018 (Figura 1). O preço do barril de petróleo de 1880 até 1970 oscilou entre 20 e 30 dólares por barril. Ou seja, desde que John Davison Rockefeller estabeleceu as bases da indústria do petróleo com a sua Standard Oil até a primeira crise do petróleo imposta pela Opep, o preço do petróleo se manteve constante e em valores muito menores do que os da última década. Portanto, é razoável imaginar que em um mundo com relativo excesso de petróleo o preço fique entre 20 e 30 dólares o barril, como era antes da ascensão da Opep.

    Para a indústria química, é a perspectiva de matéria-prima mais barata. No entanto, para que essa perspectiva seja factível no Brasil, o refino do petróleo não deveria estar sujeito às idiossincrasias de um único produtor. O custo médio de produção do barril de petróleo no Brasil era, em 2016, de 35 dólares. Sabe-se que esse custo caiu significativamente para a Petrobrás, mas idealmente, as refinarias deveriam poder ter acesso à matéria-prima mais barata. O processo de venda das refinarias da Petrobrás, anunciado inicialmente em abril do ano passado, foi suspenso em 20 de março último, alegadamente por conta da pandemia de Covid-19.

    Outra ação esperada, e emperrada, do governo federal é o Novo Mercado de Gás Natural. Desde a boa iniciativa da assinatura do Termo de Compromisso de Cessação (TCC) entre a Petrobrás e o Cade, muito pouco foi feito além da venda de alguns ativos pela Petrobrás. O aperfeiçoamento da legislação para que ocorram o aumento sustentável da rede de distribuição e a existência de um preço competitivo aguarda a boa vontade de Brasília. No momento em que escrevo, o preço do gás natural industrial no Brasil é quase R$ 58 por milhão de BTU (ou pouco mais de US$ 10) enquanto que nos EUA (Henry Hub) é US$ 1,78 por milhão de BTU.

    A China

    A dimensão da crise tornou evidente que o mundo não pode depender tanto das fábricas chinesas. Pequenos produtores europeus reorganizaram sua produção para abdicarem dos fornecedores chineses. O governo do Japão disponibilizou dois bilhões de dólares no orçamento deste ano para empresas nacionalizarem parte da produção industrial hoje recebida da China. O presidente da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, coloca a nacionalização de componentes como questão estratégica no ‘day after’ da Covid-19. O diretor do conselho econômico da Casa Branca, Larry Kudlow, defende abertamente que os EUA arquem com os custos para que as empresas americanas saiam da China.

    O movimento de empresas norte-americanas para fora da China já é uma realidade. Começou por conta da guerra comercial entre os dois países e ganhou força em busca de uma alegada resiliência em um ambiente pós Covid-19. Os beneficiados devem ser inicialmente os países do sudeste asiático, principalmente o Vietnã, e o México em menor grau. Se o México seria o destino natural para investimentos norte-americanos, a grande dependência de sua economia com o petróleo, seu problema com cartéis de drogas e instabilidade política (soa familiar?) podem fazer as empresas norte-americanas pensar duas vezes.

    Há, contudo, também a teia de dependência financeira construída pela China há muitos anos. A face mais visível é o Belt and Road Initiative (BRI), já tratado neste espaço, que entrega infraestrutura construída com dinheiro chinês e dívida que impõe aos países ‘beneficiados’ alinhamento aos interesses chineses. O governo chinês não assistirá passivamente à fuga de fábricas.



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